ARGEL, CIDADE BRANCA 1959 -1960

A BICICLETA AZUL 8

Rgine Deforges

La, intrpida herona de Bicicleta Azul, est de volta  Frana: ter de reunir seus esforos novamente, para mais uma aventura! A guerra de independncia da Arglia, que desponta na capital, Argel, trar vrios conflitos internos ao pas. La e Franois, seu eterno companheiro, sero desafiados novamente pelos infortnios da guerra e projetado no corao de acontecimentos dramticos que, mais uma vez, iro test-los duramente, colocando  prova tanto suas convices quanto seu amor.

Mais uma aventura do casal Lea e Franois
Tavernier os leva a enfrentar as adversidades do ps-guerra: o processo de independncia da Arglia divide opinies e agita os lderes franceses. Franois vai para a Arglia a pedido do General de Gaulle para sondar a populao inquieta e o exrcito tentado pelo golpe. Enquanto isso La fica na Frana e comea a ajudar algumas pessoas que lutam pela separao dos dois pases.
A populao argeliana sofre, os muulmanos e seus simpatizantes so perseguidos e torturados por legionrios, alguns deles expertencentes da Elite Uniformizada do Partido
Nazista (SS), escalo de proteo pessoal do ditador AdolfHitler. Quando a situao piora, tanto em Argel quanto em Paris, La vai ao encontro de Franois, na Arglia, e comea a participar ativamente dos acontecimentos, at que um antigo inimigo volta a persegui-la e
Franois corre contra o tempo para ajud-la.
O que acontecer a La? Como acabar o conflito na Arglia? Este  mais um desafio que nossa herona de Bicicleta Azul ter de solucionar.

Autora de mais de quarenta livros de gneros diversos - romances, novelas, ensaios, entrevistas, crnicas, histrias infantis e at alguns roteiros, canes e desenhos, Rgine
Deforges consagrou-se com seu ciclo romanesco iniciado com a obra A Bicicleta Azul (Prmio Maisons de la Presse. De cujos personagens principais. La e Franois.
protagonizam as aventuras de outros seis volumes: Vontade de Viver, O Sorriso do Diabo, Tango Negro, Rua da Seda, A ltima Colina e Cuba Libre. todos j publicados no Brasil. Deforges  francesa, me de trs filhos e casada com o famoso cartunista e prncipe francs, Pierre Viazemski. H dois anos  cronista do jornal francs Umaniit. no qual trata de assuntos da atualidade - poltica.
economia e literatura com crticas humoradas e stiras construtivas.

A Clment e Bernardette Deforges, meus queridos pais.

Captulo 1

La estava estirada na espreguiadeira,  sombra da tlia do ptio. A fumaa do cigarro, que ela segurava com a ponta dos dedos, subia lentamente em direo ao cu. Do terrao inclinado de vinhas chegavam os risos e gritos das crianas. Ela suspirou de bem-estar e pensou: "Estou em casa".
Sempre que voltava a Montillac, experimentava a sensao muito forte de pertencer quela terra que a tinha visto nascer. O charme desse cantinho da regio de Bordeaux aquietava suas angstias. Ela revia os momento felizes de sua infncia: a poca da vindima, as perseguie no meio das vinhas, as brincadeiras de esconde-esconde com Mathias, o cmplice, o confidente dos primeiros anos... Mathias que a tinha amado e que, por despeito, se engaj ara na Waffen SS'.
Durante todos esses anos, ela o tinha banido da memria. Hoje, pela primeira vez, conseguia pensar nele sem irritao e sem dio; seus sofrimentos faziam com que compreendesse o que ele havia suportado. Afugentou essas lembranas tristes e tentou recuperar o bem-estar daquela tarde. Ela estava aqui, viva, em casa, cercada pelas pessoas que amava. Ficar lembrando o passado no  bom, s serve para reviver o sofrimento. Ela tinha desejado uma vida cheia de aventuras; agora estava cansada. Sentia a necessidade de se aquietar num lugar; de fazer as coisas banais de todos os dias, como sua me havia feito, como fazia sua irm Franoise que, de manh  noite, se dedicava sem descanso  casa e s pessoas que moravam nela.
Uma inquietao tomou conta dela: por que se enganar? Esta vida calma no era para ela. Muito rpido, depois de poucos dias naquele lugar - to amado -, uma sensao de tdio foi aos poucos tomando conta dela e deixando-a desamparada; ela no fazia mais parte desta natureza, deste lugar, sentia-se rejeitada, do outro lado do espelho. Um frio enorme a invadiu ento e lanou-a, como quando ela era adolescente, nas vinhas e nos bosques que cercam Montillac, ao p da cruz de Verdelais, ao longo das estradas e caminhos percorridos outrora na sua bicicleta azul, presente do dcimo aniversrio,  procura de algo que no sabia o que era...
J fazia seis meses que voltara para a Frana e reencontrara o marido e os filhos. Nos primeiros tempos, com a alegria do reencontro, ela pouco pensou em Cuba e na SierraMaestra. Mas, com o passar dos dias, a lembrana de Camilo lhe apertava o corao. Mal humorada, ela se irritava com Franois por no poder falar de seu amante na frente dele. A felicidade de rev-lo foi obscurecida pelo sofrimento de deixar o comandante sedutor. Estaria Franois a par dessa paixo? No teria Ramn Valds contado alguma coisa para ele?  claro que ela podia ter conversado com Charles sobre os momentos intensos ou dolorosos passados junto aos guerrilheiros, mas o medo de faz-lo reviver a dor causada pela morte de Carmen, a garota que ele amava, morta durante a batalha de Santa Clara, fizera com que as palavras ficassem presas nos lbios dela. Nunca mais ele havia pronunciado o nome dela. Entretanto, La sabia que ele guardava na carteira trs fotos manchadas de lgrimas, tiradas por Ernesto Guevara.
- Mame! Mame! Por que no ficamos aqui para sempre?
Camilie, ofegante, seguida de Claire e da prima Isabelle, jogou-se no colo da me. La deu um beijo no rosto vermelho da filha.
- Porque ns moramos em Paris.
- Eu gosto mais de Montillac.  mais divertido e no tenho que ir para a escola...
Ah! Ento  por isso, sua danadinha preguiosa!
- Ela no  m, a Camille. - Declarou uma garota linda de olhos puxados.
La olhou-a com ternura. Essa menina, que poderia ter criado um constrangimento entre ela e Franois, na verdade reforara o amor deles. Em momento algum ele recriminou-a pelo nascimento dela, nem falava de sua ligao com Kien, o pai da menina. Muitas vezes, ela tinha a impresso de que ele gostava mais de Clarinette, como ele a chamava, do que de Adrien e Camille.
Ele desculpava tudo que ela fazia, cedia a todos os caprichos dela sob o olhar aprovador de Philomne, a assain que cuidava dela desde Hani. Camille se ressentia s vezes dessa preferncia declarada, mas, como todos os membros da famlia, era envolvida pelo charme da caula. A prpria Franoise, que havia repreendido La duramente quando ela voltou da Indochina com esse beb to diferente dos irmos, no resistia mais a um sorriso ou a um beijo da "chinesinha", como diziam as pessoas da regio.
- Crianas! hora do lanche!
- J vamos, mame!
- J vamos, tia Franoise!
As trs meninas correram para a cozinha, aos gritos.
Na cozinha, sentadas diante da mesa comprida, coberta com uma toalha xadrez branca e vermelha, as primas davam grandes dentadas em fatias de po com manteiga, sobre as quais Franoise havia espalhado raspas de chocolate.
- Eu quero mais. - Disse Claire, com a boca cheia.
- Acabe primeiro essa a. - Ordenou Isabelie, com a autoridade dos seus doze anos.
- Tome, minha princesa. - Disse Philomne em vietnamita, dando outra fatia de po  criana.
Claire pegou-a com um ar de triunfo.
- Voc faz tudo que ela quer. - Gritou Camille, irritada. - Voc sabe muito bem que ela no vai comer.  s para nos provocar.
- No, no  assim, ela est com fome.
- Eu tambm estou com fome! Estou com tanta fome que sou capaz de devorar todas as pessoas metidas que se empanturram de po com manteiga! Nham... Nham... Eu vou morder voc!
Claire foi levantada da cadeira por um garoto de uns quinze anos, to loiro quanto ela era morena.
- Pare, Pierre! Pare! - Gritava a pequena, que se debatia rindo.
- Sr. Pierre! Largue-a, ela vai se engasgar. - Guinchava Philomne, tentando arrancar a menina dos braos do primo.
Isabelie e Camilie comearam a rir da baguna, e a confuso foi tamanha que Alain Lebrun, que trabalhava nas caves ali ao lado, veio ver o que estava acontecendo.
- O que  isso? Por que tanto barulho? D para ouvir vocs l em Verdelais!
- E por que no em Saint-Macaire ou Langon, desde que se esteja l?
- Insinuou Franoise, sem perder a calma.
- Meninas, vocs viram meu Pilote? - Perguntou um garoto que acabava de entrar.
- Ns no gostamos do Pilote, preferimos Fillette.
- Desculpe, Adrien, fui eu que peguei.
- Tio Alain! Voc l Pilote?!
- No s o Pilote, mas tambm Mickei, Spirou e Tintim... - Revelou Franoise, com um sorriso provocador.
Essa importante revelao imps o silncio. Incrdulos, Adrien e Camille olhavam para o tio com curiosidade, enquanto Isabelle e Pierre estouravam de rir diante do ar desconcertado do pai. - Voc esconde bem o jgo, papai. E eu que achava que voc s lia livros sobre as vinhas, a criao de cavalos, de galinhas, a administrao agrcola ou, em ltimo caso, Le chnsseurfranais... Mas, no!
Voc lia escondido nossas histrias em quadrinhos que voc s critica... Muito interessante! E a mame, que sabia de tudo! A gente pensa que tem pais srios e descobre que so uns garotos. Agora entendo por que as revistinhas desapareciam misteriosamente... E a gente acusando as meninas!
- Revoltou-se Pierre, com um tom falsamente severo.
- Mas, papai, por que voc no nos contou que gostava das historinhas? Ns teramos entendido...  bobagem ler escondido. - Acrescentou Isabelle.
- E voc nunca leu nada escondido? - Cochichou La, que acabava de entrar, no ouvido da sobrinha.
O vermelho que tomou conta do rosto da menina lhe respondeu.
Como todos falavam e riam ao mesmo tempo, Franoise, com as mos tapando as orelhas, no conseguia se fazer ouvir. O toque do telefone fez algumas vozes se calarem. Alain foi atender e voltou em seguida.
-  para voc. - Disse ele a La.
- Quem ?
- No entendi o nome, tem um chiado na ligao.
La saiu e foi pegar o aparelho na mesinha, perto da porta da sala de jantar.
- Al,  La Tavernier. Quem fala?
- O general Salan... Eu queria falar com seu marido.
- Franois no est aqui, est em Paris.
- Eu liguei para a casa de vocs, mas ningum atende.
- Tente no Hotel Lutcia... Quando no estamos juntos, ele se hospeda l.
- Est bem, obrigado... E a senhora, como vai? J se acostumou  vida nova?
- Bem, general, a nossa vida na Frana  na verdade muito mais calma...
- Quando a senhora voltar a Paris, minha esposa e eu gostaramos muito de rev-la... At logo.
- At logo, general.
Pensativa, La pousou o fone. No estava gostando nem um pouco desse telefonema do general Salan.
No via com bons olhos qualquer ligao de Franois com o antigo comandante em chefe da Arglia, nomeado governador militar de Paris, pelo general de Gaulie, no comeo do ano. Conhecia suas posies a favor da Arglia francesa, e nem ela nem Franois concordavam com elas. Desde que voltara, Lea recusara-se a se interessar pelo que acontecia na Arglia.
At que, num certo dia do ms de junho...
Era um lindo dia, e os calades do Flore e do Deux Magots fervilhavam de pessoas que queriam aproveitar o sol. Ela entrou na Divan, a livraria da Praa Saint-Germain-des-Prs onde ela dava uma passadinha toda semana.
- Bm dia, senhora Tavernier. - Disse o vendedor que sempre a atendia. - A senhora j leu o Nabokov e o
Mauriac?
- Sim, e gostei muito de Lolifa.
- E do Bloc-notes?
- Tambm, mas por razes diferentes... S conhecia os romance de Mauriac, que, alis, adoro. Eu costumava ler principalmente, porque ele tambm  da regio de Bordeaux. Mas, aprendi muitas coisas lendo o Bloc-notes. O que mais me emociona  a ligao dele com sua terra, Malagar:
sem dvida porque sinto o mesmo pela minha, Montillac. Ele usa as palavras que eu usaria se tivesse o talento dele... Veja s, leia...
Ela tirou o livro da bolsa, abriu-o rapidamente numa pgina cuja pontinha ela tinha dobrado, para marcar, e mostrou ao rapaz a passagem sublinhada que ela havia decorado:
Amar fisicamente sua terra , na verdade, ninar nela a uma gein do homem que, ao longo dos sculos, lhe impuseram aqueles que torturaram e massacraram, mas que tambm penaram na obscuridade, deram testemunho de verdade, doando suas vidas - de modo que, acreditando nisso ninar seno teria certa luz sobre as colinas e os cuines,umn certo aroma de folhas molhadas e de bruma, os telhados antigos que se tornaram violeta com a chuva , afinal, o homem da minha terra que eu amo. Sinto, sempre o mesmo, porque a besta que tortura  de todas as pocas. Em compensao, os melhores entre aqueles que tis precederam n. eram mais santos que os de agora, e eu sei o nome de alguns...
Ela no percebeu o olhar atento e escrutinador do livreiro enquanto ela guardava o livro.
- Com licena. - Ele disse simplesmente.
Em seguida, foi para o fundo da loja, de onde voltou com um livro cuidadosamente embrulhado. Deu-o a ela, cochichando:
- Tome, leia este aqui... Depois me diga o que achou.
Achando graa, ela respondeu em voz baixa:
-  como a Histria de O?
- Leia...
- Est bem... Quanto lhe devo?
- Nada,  um presente...
La olhou para ele surpresa. Depois, bruscamente, reviu-se em outra livraria, no comeo da guerra, encontrando Raphael Malh pela prineira vez, Raphal que lhe recomendou aquele livro horrvel, A escola de caddveres. Outras lembranas rapidamente se juntaram a essa, todas elas horrorosas. Ela estremeceu imperceptivelmente.
- A senhora no est se sentindo bem? - Preocupou-se o vendedor.
- No  nada... o calor, sem dvida... At logo e... obrigada!
- Vou ficar esperando que a senhora me diga o que achou do livro.
La concordou com a cabea. L fora, o calor era tremendo. Nem um s lugar nos calades dos cafs; ela foi para dentro do Flore, cujo salo estava quase vazio e onde a penumbra dava uma impresso de frescor.
Instalou-se numa cadeira vermelha, pediu um ch gelado e acendeu uma cigarrilha. Por uns instantes, fechou os olhos, as costas apoiadas no encosto. Com o barulho do copo pousando na mesa, abriu-os de novo, ligeiramente sem graa. Foi ento que seu olhar se cruzou com o de um homem em quem ela no havia reparado na entrada. O desconhecido, com um perfil de ave de rapina, sorriu para ela, o que imediatamente a incomodou; ela no estava com humor para agentar a menor nanifestao de interesse. Com um certo nervoso, rasgou o papel que embrulhava o presente do livreiro: era um livro muito fino, chamado A gangrena, publicado pela Minuit. "Um ttulo nada atraente", pensou.
Mais tarde, quando o fechou,  beira da nusea, uma lgrima pingou na mesa. Ela levou as mos ao rosto para disfarar a perturbao e enxugar os olhos.
- Traga um conhaque para a senhora! - Ordenou, junto dela, uma voz que a assustou.
Ela afastou os dedos e reconheceu o homem que sorria para ela h pouco, depois se endireitou num reflexo de irritao, quando ele se sentou ao lado dela.
- No diga nada... Eu a observei enquanto lia e vi a que ponto voc se emocionou.
E o que voc tem a ver com isso?
- Eu compartilho dos mesmos sentimentos.
Ela considerou-o com um pouco menos de irritao e, sem uma palavra, pegou o copo que o garom acabava de colocar na mesa e engoliu de uma s vez.
- Voc tem fogo?
Por uns instantes, ela inalou profundamente a fumaa. O lcool e o tabaco pouco a pouco acalmaram sua angstia e sua clera.
- Voc acha que tudo isso  verdade? - Perguntou ela, com a voz fraca.
O homem sorriu de novo, acendendo um cigarro.
- Infelizmente, sim... e voc sabe que . Voc apenas gostaria de que a persuadissem do contrrio!  preciso se acostumar com isso, tortura-se alegremente tanto na Frana como na Arglia, com as bnos do governo!
- Eu no imaginava que fosse assim... Esses jovens argelianos, torturados pela polcia... Esses de que se fala no livro, o que fi feito deles? No existem franceses que tentem ajud-los?
- Existem.
- Gostaria de conhec-los.
- Esquea. Uma mulher bonita como voc deve ter outras formas de se divertir do que brincar de guerra...
O rosto de La ficou subitamente vermelho.
- Mas que medocre! Voc tem idias prontas sobre as mulheres. Para voc, s somos boas para fazer amor e filhos?! Me deixe em paz!
- No se aborrea... No queria perturb-la, apenas preveni-la. Guarde esse livro, ele acaba de ser apreendido pela polcia. Exibi-lo em pblico pode ser tornado, na melhor das hipteses, como provocao e, na pior, como propaganda em favor dos militantes argelianos.
- E da? Pode ser uma forma de ajud-los.
- Nesse caso, h meios mais eficazes...
- Quais, por exemplo?
- Venha amanh ao bar do Pont-Royal, s dez horas e eu explicarei. Meu nome  Roger Vailland.
- O escritor?
- O prprio, para servi-la... E no diga que j leu algum dos meus livros.
- Eu no li La loi, mas j li Berni tuas que e Drle de jeil; gostei muito...
- Nunca pensei que fosse conhecer uma de minhas leitoras... Se, amanh, a poltica aborrec-la, poderemos falar de literatura. Voc leu as Memrias do cardeal de Bernis?
- No, quem ?
- Um amigo de Madame de Pompadour e de Voltaire. Aceito na Academia Francesa com vinte e nove anos, ministro, embaixador, ordenou- se padre para receber o ttulo de cardeal ... Voc tambm, quando sorri, tem essas covinhas que lhe conquistaram a amizade da amante de Lus XV. Oua. - Acrescentou Vailland, aproximando-se:
Assim conto Hebe, a joneni Pomnpadour
Tem ditas covinhas no rosto;
Ditas covinhas charmosas onde o prazer brinca,
Que foram feitas pela mo do Autor...
Esqueci a seqncia... ah, no: "Conto ela  bela!... Ele quer morrer sobre sua boca charmosa: Feliz ainda de morrer conto semi conquistado r..."
Acabando essas palavras, ele depositou um beijo em sua nuca.
- Calma, senhor libertino, a poesia no d todos os direitos e, alm disso, esta aqui nem  to impressionante...
- No, mesmo! No, mesmo!  muito aucarada, reconheo; alm disso, Frederico II falava de sua "estril abundncia". Muitos ornamentos, tiores. Voltaire o chamava de "Babet, a florista"... Mas, suas memrias so una obra-prima.
- Voc parece conhec-lo bem.
- Muito bem... Escrevi um Elogio ao card cal de Bermzis; vou lhe oferecer um exemplar.
La levantou-se.
- J vai? Voc vir amanh?
Sem responder, ela lhe estendeu uma mo que ele beijou.
 noite, em casa, ela perguntou a Franois se ele havia lido as memrias do cardeal de Bernis.
- Sim, meu pai tinha uma bela edio; no sei o que foi feito dela... Por qu? Voc agora est interessada na literatura do sculo XVIII?
- No, mas conheci Roger Vailland que me falou delas.
- Muito bem! Madame se lana  conquista do meio literrio parisiense! Depois dos Barbudos, voc vai conhecer os revolucionrios de salo... Cuidado, eles so mais ferozes que seus amigos guerrilheiros...
Mas, tenho certeza de que eles vo ter trabalho com voc. -Acrescentou, abraando-a.
- Me deixe...
Ela se soltou com tal brutalidade que ambos se surpreenderam.
- Desculpe-me. - Ela balbuciou.
Franois olhou-a com uma espcie de ternura inquieta; ele tinha medo desses pensamentos negros em que, de repente, ela se afundava e que a levavam de volta aos acontecimentos cruis que ela vivera na guerra, e depois na Argentina e na Indochina. Ele sentia-se responsvel por alguns deles. Certamente, no conseguiu mant-la longe da violncia, do dio e da morte, e ela sofreu as conseqncias dos engajamentos polticos dele, envolvendo-se, muitas vezes, involuntariamente. Menos em Cuba. Dessa vez, ele no teve nada a ver com as aventuras revolucionrias dela. Pensando nisso, sentia-se mal; se no tivesse se apressado a atender ao chamado do general de Gaulie, pedindo que ele fosse para a Arglia, teria podido ajud-la a encontrar Charles e evitado que ela se enfiasse na Sierra, em companhia de homens cobertos de sujeira; o que no a impediu de ach-los charmosos. Assim como ele, ela tinha o dom de estar  frente de situaes inverossmeis, das quais ela se saa relativamente bem, graas a uma energia e uma coragem que, desde o comeo, fizeram-no admir-la mais. Cada vez que voltavam  vida "normal", ela se esforava, no entanto, para pr de lado os episdios dolorosos que tinham vivido, assumindo a aparncia de uma mulher que cuidava dos filhos, do marido, da casa, interessada na moda, louca por cinema e teatro, gostando de danar... Ela acrescentava a isso, s vezes, uma pontinha de futilidade, o que o irritava um pouco, mas que ele desculpava. Quando ela voltou, eles se encontraram com o mesmo frenesi de antes.
Seus corpos se tomaram com a mesma volpia, maravilhados um com o outro. O tempo, que normalmente mata o desejo dos amantes, parecia t-los poupado disso. La no se questionava nada, achava tudo normal, segura de sua beleza e do amor deles. Franois, por sua vez, espantava-se de ainda sentir tanta felicidade e tanto prazer em possu-la, depois de tanto tempo. Alguns dias depois, no entanto, comeou a perceber nela um nervosismo crescente, uma curiosidade nova a respeito dos acontecimentos na Arglia.
Fazia perguntas sobre a poltica do general de Gaulle, sobre seu envolvimento com ele; suas respostas, ele percebia, no a convenciam.
- Voc leu este livro? - Perguntou-lhe ela, mostrando seu exemplar de A gangrena.
- Sim... Foi seu amigo Roger Vailland que a aconselhou a ler?
- No, mas isso no tem importncia. O que voc achou dele?
- O mesmo que voc.
Ela levantou os ombros.
- E de Gaulle, o que ele acha?
- No sei... Mas posso perguntar na prxima vez que o encontrar.
- Pare de brincar, por favor!  srio, o que est neste livro... Escute um pouco,  histria de refrescar a memria...
Aonde ela queria chegar? Seu brusco interesse pelas torturas da polcia o inquietava. Febril, ela folheava o livro. Ela se ps a ler, com um brilho desafiador no olhar:
O careca me fixou com 1um olhar de dio e me disse:
- Agora, tire a sunga.
- No.
Ele me bateu com toda a fora durante quase dez minutos. Eu ca, desmaiado. Quando voltei a mim, estava nu emplo, estendido no cho. Dez pares de olhos estavam voltados para mim. Deviam ser trs ou quatro da manh. Eles amarraram minhas mos aos ps com trapos e introduziram uma barra de mais ou menos dois metros entre as articulaes dos braos e os joelhos, colocaram uma a barra sobre dois pedaos de madeira colocados na ponta de duas mesas. Eu estava "no espeto", cabea tombada e pernas no ar. Eu tinha ficado com o careca e um ajudante. O careca trouxe, da sala vizinha, um dnamo, que colocou em cima de uma das mesas.
O ajudante comeou a girar a manivela e o careca aplicou os eletrodos no mmeu sexo.
Desmaiei em poucos minutos...
- Pare! - Gritou Franois, com a voz dura e tensa que ele tem nos momentos difceis, enquanto tentava tirar o livro dela.
La se esquivou e continuou a ler:
Um inspetor urinou no tacho. Colocaram os eletrodos nas minhas gengivas. Pensei que a minha cabea fosse explodir. Na sesso seguinte do tacho, eu quis me afogar, mas tudo que consegui foi beber daquela coiza repugnante...
Desta vez, Franois, muito plido, arrancou-lhe o livro das mos.
- Voc fica chocado, no , que seus companheiros da DST se dediquem a prticas dignas da Gestapo e dos porcos que torturaram Sarah?
- Cale-se!
- Por que eu me calaria? Odeio a tortura mais que tudo no mundo. Eu vi o que fizeram a Camille, no forte de
Ha e no consigo esquecer que foram os horrores que Sarah suportou que fizeram com que ficasse parecida com seus algozes.  por isso que ela se matou: para no ficar como eles! Este que est contando a histria se chama Benaissa Souami e  estudante. No foram os nazistas que o torturaram, a ele e a seus amigos, mas os policiais franceses, aqui na Frana, em Paris, na Rua Saussaies!
Ela parou, plida, subitamente envelhecida. Franois avanou para tom-la nos braos; ela recuou.
- Isso lhe parece normal, que os inspetores da DST torturem pessoas em plena Paris? No dizendo nada, voc se torna cmplice desses atos. Voc sabe!
"L vamos ns de novo", pensou ele. Era preciso desvi-la do projeto que ele sentia se formar na cabea dela.
- Voc tem razo, muitos esto denunciando, a comear por Mauriac...
- Isso no basta.  preciso ajudar esses pobres coitados!
Para no responder, ele acendeu um cigarro.
- Voc no acha?
A campainha do telefone adiou a resposta: era Adrien, perguntando quando os pais iriam se juntar a eles em Montillac.
- Na semana que vem. - Garantiu o pai.
Eles jantaram com uns amigos na Closerie des luas e terminaram a noite indo danar na Discotliqiie, na Rua Saint-Benoft. Maravilhosa no seu casaco de peles negro, La ria  toa e parecia ter esquecido a discusso da tarde. A noitada se prolongou. Eles beberam muito. Fizeram amor com raiva, sem uma palavra, procurando marcar o corpo um do outro.
No dia seguinte, La foi ao bar do Pont-Royal. Sentado a uma mesa perto da escada, Roger Vailland, que conversava animadamente com dois homens e uma mulher morena com os cabelos cuidadosamente puxados e presos num coque, no tomou logo conhecimento dela. Ela se sentou no bar e pediu um gim tnica. Era a primeira vez que vinha a esse lugar, freqentado por editores e escritores, atores e jornalistas.
Todas as mesas estavam ocupadas. Numa delas, reconhecu Franoise Sagan conversando com Juliette
Grco.
- Desculpe-me... Faz muito tempo que voc chegou? - Perguntou, preocupado, Roger Vailland.
- No, acabo de chegar... Voc estava numa conversa to animada que no quis incomodar.
- Pois devia! Venha, vou lhe apresentar meus amigos. A propsito, qual  o seu nome?
- La Tavernier.
- Casada?
- Sim.
- La, permita-me apresentar minha mulher, Elisabeth, e meus amigos Vincent e Guillaume.
Os dois homens levantaram-se e cumprimentaram-na. Elisabeth Vailland estendeu uma mo mole, examinando-a dos ps  cabea.
- Encantadora... - Murmurou entre dentes.
La sentou-se, enquanto o barman trazia o pedido. Roger Vailland ofereceu-lhe um cigarro.
- Obrigada, prefiro o meu. - Disse ela, acendendo uma cigarrilha.
Durante alguns instantes, eles ficaram olhando-a fumar, em silncio.
- Contei a meus amigos nossa conversa de ontem. Antes de continuar, gostariam de saber um pouco mais sobre voc. - Disse o escritor.
- Compreendo... O que querem saber? Minhas opinies polticas, minha atitude durante a guerra, minhas atividades depois, minha vida privada?
- Seria bom. - Disse secamente Elisabeth.
La olhou-a friamente, soltando a fumaa na sua direo.
- Durante a guerra, participei das aes da Resistncia na regio de Bordeaux e, depois, tive que sair de l para no ser presa... Alisteime como motorista da Cruz Vermelha e fui parar em Berlim, pouco antes da chegada das tropas soviticas. Na Alemanha, assisti  abertura do campo de Bergen-Belsen, onde encontrei uma amiga judia, deportada, que consegui mandar para Londres...
- O que aconteceu com ela? - Perguntou Guillaume.
- Depois do julgamento de Nuremberg, partiu para a Argentina, a procura de criminosos de guerra.
- E voc?
- Fui com ela.
- Voc est plida, querida. - Preocupou-se Elisabeth Vailland. - Beba qualquer coisa...
La esvaziou seu copo e pousou-o desajeitadamente, derrubando um pouco de lquido. Por que estava ela falando de Sarah a esses desconhecidos? Por que, depois de tantos anos, esse sofrimento  lembrana da amiga? Ela fez meno de levantar.
A mo longa e fina de Guillaume pousou sobre a sua.
- Continue. - Pediu docemente.
La abaixou a cabea e disse com a voz estrangulada:
- Sim, ela morreu l, depois de encontrar um de seus torturadores.
- Ela fazia parte de uma rede de Vingadores?
- Sim.
- Voc se lembra dos nomes?
- Samuel e Daniel Zederman, Amos Dayan Uri ben Zohar.
- Eu conheci Uri ben Zohar. - Disse Guillaume, como se falasse consigo mesmo. - Ele me contou as circunstncias da morte de seu amigo Amos Dayan. Sua amiga se chamava Sarah Mulstein, no ? E ela era filha do famoso maestro Israel Lazare?
- Isso mesmo. - Murmurou La, com o corao disparado.
Nos olhares fixos nela, La podia ler uma incredulidade espantosa:
de repente, eles no a viam mais como uma mulher bonita, elegante e desocupada, procurando talvez no engajamento um derivativo para o tdio mundano, mas como uma combatente, que j tinha passado por algumas provas.
- O que voc fez depois? - Perguntou Vincent, que at ento no tinha aberto a boca.
Ele tinha uma voz bonita. La encarou-o: no propriamente bonito, mas charmoso, o olhar vivo e inteligente, como de um lagarto gentil. Essa imagem a fez sorrir...
- Eu me casei e me juntei a meu marido na Indochina. - Respondeu ela.
- Ele estava no exrcito?
- No, ele estava encarregado de entrar em contato com Ho Chi Mi.
- Oficialmente?
-  lgico que no!
- Voc se lembra, Hen... hum... Guillaurne, que voc me fez ler os poemas de Ho Chi Mi e de uma quantidade de outros revolucionrios, quando fomos visitar voc em Roma? - Perguntou Elisabeth, virando- se em direo quele a quem ela quase chamou por outro nome.
Com os olhos semicerrados, ela murmurou:
Passei por muitos montes, ultrapassei muitos cumes;
Os caminhos planos, no entanto, mais difceis de percorrer!
Encontrei tigres que no me fizeram mal;
Encontro um homem e eis que ele me prende...
- Eu tenho boa memria, no ?
Guillaurne sorriu, ajustando os culos de madreprola.
Sou um homem honesto e minha alma  tranqila:
Acusam-me de ser um chins tenebroso!
O caminho da vida  sempre perigoso,
Mas, viver sua vida  muito dificil.
Continuou La, que estourou de rir, vendo as caras espantadas deles.
Comunicativo, esse riso alegre contagiou todos, a tal ponto que todas as conversas se interromperam e todos os olhares se voltaram para eles. O primeiro a recuperar o flego, com os olhos ainda cheios de lgrimas, foi Roger Vailland:
- Voc  impressionante! Voc passa do choro  alegria, da Argentina  Indochina com uma facilidade incrvel... No ficaria nada surpreso se voc dissesse que foi o prprio Ho Chi Mi que lhe deu os poemas para ler!
- O que  a pura verdade.
- Agora voc est exagerando! - Disse Vaillarid em meio a outro acesso de riso.
Logo, o riso descontrolado tomou conta de todos no local. Nunca se soube, na histria do Pont-Royal, de loucura igual, atingindo tanto a clientela como os garons. A hilaridade atingiu o auge, quando surgiu no alto da escada a pequena silhueta de Jean-Paul Sartre, cujos olhos, por trs das grossas lentes dos culos, exprimiam um enorme espanto.
- Eu vou fazer xixi nas calas! - Exclamou Elisabeth, levantando-se precipitadamente.
Vincent levantou-se tambm e foi na direo de Sartre, sacudindo-se de espasmos.
- O que  to engraado? Vocs so loucos de se exporem aqui! Parece que querem ser presos...
Incapaz de responder, Vincent o fez voltar atrs. Pouco a poco, a calma se restabeleceu no bar. Todos enxugavam os olhos, retomavam o flego, pediam mais uma bebida... Ainda se ouviam, aqui e ali, alguns soluos, alguns suspiros. Elisabeth voltou, com o rosto mido.
- Que calor! - Exclamou ela, deixando-se cair numa poltrona. - Rogei; estou morrendo de sede, pea alguma coisa.
La quis outro gim tnica, enquanto os outros repetiram o usque.
- Seu amigo foi embora? - Perguntou La.
- Eu vou ver onde ele est. - Respondeu Guillaurne, levantando- se. - Gostei muito de conhecer voc.
Espero ter o prazer de rev-la.
Guillaume disse alguma coisa no ouvido de Vailland e dirigiu-se para o fundo do estabelecimento.
-  uma sada cmoda para os casais ilegtimos... e para escapar aos curiosos. - Confiou-lhe o escritor em voz baixa.
- E vai dar aonde?
- No hotel ao lado...
- De fato, muito prtico... Tambm preciso ir embora. Mas no conversamos sobre o motivo de eu estar aqui.
- E o que voc pensa!
- Voc... voc quer dizer que Vincent e Guillaume, como vocs os chamam, esto interessados no que conversamos hoje?
Sim... Mas falemos de outra coisa, falemos de amor: "Em matria de amor, o francs  um jogador, um amador com tudo que isso comporta de cincia, de diletantismo e de desapego. O francs  galante, quer dizer que ao contrrio dos outros amantes, ele no  aborrecido..."
- Voc acha? - Interrompeu La. - Eu acho que ele  muito falador, tentando sempre justificar seu desejo pelas grandes frases, pelas grandes teorias sobre o amor, a libertinagem...
- E, puni! - Lanou Elisabeth, com uma risadinha.
- ...ao passo que seria muito mais simples dizer a uma mulher que ele a deseja!
- Uma vez que, se dizemos a uma mulher, sem mais nem menos:
"Cara senhora, gostaria de fazer amor com a senhora", ela responderia imediatamente: "Pois, no, senhor.
Quando o senhor deseja?"
Essa brincadeira irritou La, que sempre vivera longe dos sales parisienses e do discurso dos intelectuais. Espontnea, ela dizia de boa vontade o que pensava, pouco se preocupando com a interpretao que dariam, arriscando-se a passar na melhor das hipteses, por uma desmiolada e, na pior, por uma mulher provocante. A atitude de Roger Vailland perturbou-a, entretanto. Ele tinha um jeito de olh-la que despertava nela o desejo de provoc-lo, O que ela fez:
- Tudo depende do homem e das circunstncias...
- Eis a um motivo bem banal. - Zombou Elisabeth.
- Concordo. - Replicou La. - Mas essa banalidade se verifica a cada vez que um homem e uma mulher esto em presena um do outro e que um dos dois sente desejo pelo outro.
O escritor inclinou-se para ela e cochichou:
- As circunstncias atuais lhe parecem propcias?
- No. - Respondeu La mais bruscamente do que gostaria. - Desculpem, preciso ir embora. - Acrescentou, levantando-se.
Roger Vailland ps-se instantaneamente de p.
- Onde posso encontr-la?
- Babilnia 20.38.

Captulo II

Sentado na calada de um caf, na esquina da Rua Soufflot com o Bulevar Saint-Michel, um homem jovem e barbudo lia o jornal Le Monde, indiferente aos trs estudantes que tentavam, em vo, chamar sua ateno. Um garom, com um longo avental branco amarrado na cintura, colocou uma xcara de caf diante dele. O rapaz levantou a cabea e agradeceu com um sorriso. No cruzamento Rostand, um raio de sol fez nascer um arco-ris nos jatos de gua da fonte e revelou o tom vermelho das rvores do Luxemburgo. A primeira vista, a multido que se apressava pela avenida parecia mais jovem, mais alegre. Feliz, ele bebia seu caf em pequenos goles. Apoiou a xcara e esticou suas longas pernas. Era a primeira vez, desde seu retorno 
Frana, que experimentava alguma coisa parecida com o sentimento de felicidade, a sensao tangvel de estar vivo. Ele teve a impresso de ouvir a risada de Camilo Cienfuegos, ajudando-o a se levantar quando se feriu levemente em Santa Clara...
- Vipes, es el mas importante.
Lembrando-se do guerrilheiro cubano, ele passou a mo na barba:
ainda no tivera a coragem de tir-la...
O rapaz pagou a conta, pegou seus livros e seu jornal e dirigiu-se para a Sorbonne.
Charles d'Argilat tinha um encontro com um de seus colegas da Faculdade de Direito. Eles tinham trocado algumas impresses a respeito dos acontecimentos na Arglia. Os dois estavam de acordo com uma reao a muitos aspectos e tinham at entrado numa briga com os partidrios da Arglia francesa. Os golpes dados e recebidos em defesa da Arglia argeliana. haviam aproximado os dois. Patrick Bernard, dois anos mais velho que ele, devia em breve partir para lutar na Arglia.
De p nos degraus da capela da Sorbonne, um homem de cabelos brancos, vestido com um elegante sobretudo de l bege, aberto no peito todo ornado de medalhas, discutia com os estudantes que conversavam em pequenos grupos, diante do estabelecimento. Fragmentos de frases chegavam a Charles que, automaticamente, diminuiu o passo: "... a vocao civilizadora da Frana... salvemos essa terra francesa... a honra do exrcito... a grandeza de nossa misso... as dbeis tentativas rabes..."
- No suje as orelhas ouvindo essa porcaria, Charles!
- Ol, Patrick... No concordo:  preciso conhecer as intenes dos adversrios para melhor combat-los.
- Pode ser, mas essas a, ns j conhecemos; meu av materno tem os mesmos propsitos que o sujeito das medalhas. Quando vamos almoar na casa dele, aos domingos, para agradar  minha me, nem lhe conto como ele e meu pai discutem! Uma vez, quase se pegaram aOS socos, por causa do livro de Alleg.
Meu av disse que no passava de um monte de mentiras propagadas pelos comunistas para sujar a Frana.
Meu pai retrucou que teve que cuidar dos homens que haviam sido "interrogados" pela polcia; estavam num estado que fizeram-no lembrar- se dos mtodos utilizados pela Gestapo.  meno da Gestapo, meu av pulou sobre meu pai. Mame, minha av, minha irm e eu tivemos um trabalho para separ-los! E na sua casa, como ?
- Meus pais estiveram na Indochina, onde denunciaram muitas vezes a atitude da Frana com relao aos vietnamitas. Meu padrasto estava em Dien Bien Phu no momento de sua queda. Foi aprisionado nos campos vietnamitas e viu morrer muitos companheiros. Aps sua libertao, defendeu a causa de Ho Chi
Mi. Quanto  Arglia, ele acredita que sua independncia  inevitvel.
- Mas voc no me disse que o general de Gaulle mandou-o  Arglia para checar as possibilidades de sua volta ao poder?
- Sim, mas ele foi reticente quanto aos mtodos empregados. E, apesar de sua admirao pelo general, no admitiu que fomentasse ou deixasse fomentar um golpe de estado para voltar ao poder.
- E agora?
- No sei... Acredito que deseja participar das negociaes de paz que acontecero entre os dois pases.
- E sua me?
Charles teve um gesto de irritao que no escapou a seu colega.
- Prefiro que a deixemos fora de tudo isso... Voc fez contato com o representante da FLN? - Sim, est feito. Alis, temos um encontro num caf rabe da Rua Xavier-Privat, na rua Saint-Sverin.
Sempre conversando, os dois jovens atravessaram o Bulevar SaintGermain. Na entrada da rua da Harpe, estavam trs militares segurando metralhadoras na altura do peito. Na Rua Saint-Sverin, um outro grupo de soldados percorria as caladas em grandes passadas. Vistos de fora, os cafs e restaurantes rabes da
Rua Xavier-Privat pareciam desertos. De vez em quando, uma silhueta coberta por um mant de l branca, como ainda usavam os velhos argelianos, saa de um porto para entrar num bar. Um cheiro de lingia misturado com o de carneiro assado escapava das espeluncas nas quais, por trs dos vidros sujos, se adivinhavam vrios fregueses.
-  aqui. - Indicou Patrick, empurrando a porta pintada de azul de um botequim.
Assim que entraram, o barulho da conversa parou. Dezenas de olhos negros os encararam. No fundo do estabelecimento, houve at uma agitao de raiva. Imediatamente, Charles ficou em guarda pronto para responder ao primeiro gesto de hostilidade, quando um homem de uns trinta anos levantou-se e veio em direo a eles com os braos abertos. Os olhares se desviaram em seguida e as conversas recomearam.
- Venham, vocs esto sendo esperados l em cima.
Eles subiram uma escada estreita em caracol, com degraus escorregadios e um corrimo negro de gordura.
Foi preciso abaixar a cabea para entrar numa sala enfumaada onde estavam um francs e um argeliano. O argeliano, com um belo rosto de intelectual, fez sinal para sentarem. Charles e Patrick sentaram-se num sof coberto de mantas coloridas. O que os havia levado at ali saiu, depois de ter pronunciado algumas palavras em rabe. O argeliano tirou os culos e limpou-os cuidadosamente com um leno quadriculado.
Um longo silncio se instalou, interrompido somente pelo retorno daquele que os havia recebido e que trazia, numa bandeja de cobre, uma chaleira e uns copos. O perfume picante de menta encheu a sala quando o ch fervendo foi servido nos pequenos recipientes. A atmosfera se descontraiu.
- Sheik Hassan, eis meus amigos Patrick, Bernard e Charles d'Argilat, que desejam se juntar a nossa luta.
- Voc explicou que riscos correro, se forem presos?
- Sim, Leclaire foi muito claro a respeito disso...
- Por que vocs querem nos ajudar?
A resposta de Patrick explodiu, seca e rpida:
- Por uma questo de justia!
O sheik abaixou a cabea para dissimular um sorriso, O movimento no escapou a Charles. Ele bebeu um gole do ch fervendo a fim de esconder, por sua vez, a expresso de gozao que, involuntariamente, fez tremer seus lbios.
- E voc, meu jovem, por que razo est aqui?
Havia severidade no tom do argeliano. Charles sentiu que da resposta dependeria sua aceitao entre aqueles que defendiam a causa da independncia da Arglia.
- Porque acho justa a guerra do povo argeliano e no quero me tornar cmplice, pelo meu silncio, dos crimes que os franceses cometem
- Mas voc  muito jovem.
- O que ele no diz  que combateu na guerrilha, em Cuba, ao lado de Fidel Castro! - Exclamou Patrick.
- Cale-se! - Disse Charles.
- Mas, por que esconder que voc tem experincia com armas, que lutou corajosamente, que foi ferido e que recebeu cumprimentos de Castro e do Che?
Diante do ar de dvida que seu interlocutor exibia, Patrick acrescentou:
- No foi dele que ouvi tudo isso, mas de sua me e de seu irmo.
Um silncio tenso caiu sobre o pequeno grupo.
-  verdade o que seu amigo est contando? - Perguntou o argeliano.
- Sin .
Sob o olhar do sheik Hassan, Charles se sentiu avaliado como jamais fora por aqueles que se tornaram seus companheiros na Sierra Maestra. Calmamente, ele esperava o resultado desse exame.
- Como voc se juntou a Fidel Castro?
- Eu estudava Direito na Universidade de Havana. Devido s manifestaes de estudantes que aconteciam todos os dias, o governo fechou-a.
Como eu era estrangeiro, era mais fcil me deslocar sem chamar a ateno da polcia. Depois de algumas aes dirigidas contra o governo de Batista, fiquei visado. Minha famlia conseguiu me fazer partir para
Miami, de onde voltei clandestinamente para me juntar a Fidel Castro.
O argeliano balanou a cabea, favoravelmente impressionado pela sobriedade da resposta do jovem francs.
- Jacques Leclaire ser sua ligao com a organizao.  ele que lhes transmitir as senhas e lhes dar as misses a executar. De incio, vocs sero encarregados de se infiltrar na Faculdade de Direito e nos relatar o estado de esprito de seus colegas. Em seguida, tero que fazer deslocamentos, pela Frana e para o estrangeiro, a fim de recolher os fundos reunidos para ajudar a FLN. No venham mais aqui, o lugar est vigiado. Se eu tiver necessidade de ver um de vocs, Leclaire indicar um local de encontro. Alguma pergunta?
- Logo, vou receber ordens de partir para a Arglia. Em hiptese alguma vou pegar em armas contra nossos irmos argelianos Assim, como fazer? - Inquietou-se Patrick.
- Um padre chamado Martin vai procur-lo. Ele por voc em contato com rapazes que esto na mesma situao e que se encontram na Sua e na Alemanha. At l, no faa nada que possa chamar a ateno das autoridades.
Quando eles desceram e atravessaram a sala, alguns dos clientes sorriram para eles. Um velho com um turbante e uma tnica branca levantou-se e, pegando cada um pelos ombros, apertou-os contra o peito, murmurando:
- Obrigado.
Emocionados, sem uma palavra, os dois jovens saram para a rua deserta. Depois de alguns instantes, sempre em silncio, eles se acharam no Bulevar Saint-Germain, onde se despediram, marcando encontro para o dia seguinte.
Na Rua de l'Universit, Claire se jogou nos braos de Charles, dando gritos de alegria que fizeram a assain vir correndo, aflita.
- Saia daqui! - Gritou para ela a criana, enquanto se abraava s pernas do rapaz.
Charles pegou-a, levantando-a acima de sua cabea, para o grande prazer da menina que gritava como louca.
- Senhor Charles! Largue-a, voc vai deix-la cair! - Suplicava a vietnamita.
- Mesa! Crianas, vo lavar as mos. - Anunciou La.
Franois, que saa de seu escritrio, agarrou-a pela cintura e puxou-a.
- Que cheirosa! O que voc fez hoje?
- No  da sua conta. - Provocou ela. - Por acaso perguntei com quem voc esteve na noite passada?
- Voc sabe muito bem: eu estava com o general Salan.
- A noite toda?
Enquanto falavam, dirigiam-se para a sala de jantar onde Charles e as crianas j estavam instalados.
- Sim, senhora. Ele insistiu que ns descssemos ao gabinete do marechal Juin, bem embaixo do que ele ocupa nos Invalides. Ficammos quase duas horas falando sobre a situao da Arglia. O marechal, que nasceu em Bne, falou sem esperana sobre o futuro desse pas. Para ele, o inimigo est instalado na
Frana,  espreita...
- Pare, voc vai me fazer chorar com pena desses pobres militares!
- No caoe. H neles uma profunda amargura e uma grande tristeza. Juin parecia falar consigo mesmo quando disse, sei at de cor: "Eu, um veterano do exrcito da frica, que cresci no seio dele com muito orgulho, um velho soldado, a quarta gerao de franceses a servi-lo, militares que se acreditavam at aqui indefectivelmente presos  Arglia, sua verdadeira ptria. Seria horrvel ver um dia a Frana reduzida s suas fronteiras de 1815,  queda de Napoleo, com todas as conseqncias infelizmente previsveis de tal abandono!"
- Tenha d, parece que voc concorda com ele...
- Concordar, no, mas eu o compreendo.
- Eu os compreendi! - Exclamou Adrien, imitando a voz do general de Gaulle, de p, com os braos erguidos.
- Os franceses da Arglia, a maioria - continuou Franois, ignorando seu filho, apesar do riso geral -, nunca colocou os ps na Frana, muitos nem tm famlia na metrpole. Para eles, o fim da Arglia francesa  um mundo inteiro, seu mundo, que desaparece.
- Mame, estamos com fome! - Queixou-se Camille.
- Desculpem, queridos... Philomne, sirva as crianas, por favor.
- Eu no quero sopa. - Reclamou Claire. - Eu quero macarro.
- Tome primeiro a sopa. Depois, tem macarro gratinado. - Cochichou a bab.
- Que chique! - Concluiu a menina, mergulhando a colher na sopa.
Durante um breve instante, a mesa ficou silenciosa.
- Sua matrcula na faculdade j est feita? - Perguntou Franois a Charles.
- Sim, tudo em ordem... Parece muito diferente de Havana! Um ambiente srio...
- Vai ser diferente mesmo - Brincou La. - Voc vai finalmente estudar de verdade... Adrien, pare de chatear sua irm!
- Mas, mame, foi Camille que comeou...
- No  verdade!  sempre ele que me enche.
- Basta! Terminem de jantar e cama!
- Ah, no, mame! Eu queria escutar o general de Gaulle na televiso.
- Ah, meu Deus, eu esqueci completamente! - Exclamou Franois, levantando-se precipitadamente.
Ele entrou na sala onde reinava o aparelho novo que ele ligou. La, Charles e as crianas vieram atrs. De repente, o general apareceu na tela da RTF; vestido com um terno sbrio, ele estava sentado em seu gabinete, sob o revestimento dourado do Palcio lyse: "... Porque resolver a questo argeliana, no  apenas restabelecer a ordem ou dar s pessoas o direito de dispor delas mesmas. Tambm , sobretudo, tratar de um problema humano. L, vegetam populaes, dobrando a cada trinta e cinco anos, numa terra em grande parte no cultivada e desprovida de minas, usinas, fontes de energia, trs quartos dos quais esto mergulhados numa misria que  como sua prpria natureza..."
- E o petrleo de Hassi-Messaoud?! - Indignou-se Charles.
- Faz muito tempo que ele est falando? - Interessou-se Camille. Ele ia comear s oito horas; como so oito e quinze, faz quinze minutos. - Falou Adrien, instalando-se no sof ao lado da irm, que gritou:
- Chegue para l! Voc ocupa o sof inteiro...
- Fiquem quietos! - Gritou o pai.
"... O petrleo de Hassi-Messaoud chegar na costa, em Bougie. Em um ano, o de Edjel atingir o golfo de
Gabs. Em 1960, o gs de HassiR'Mel comear a ser distribudo em Argel e Oran, e pouco depois em
Bon..."
- Olhe a a sua resposta! - Replicou Franois em direo a Charles, sem deixar de olhar a televiso.
- E voc acha que ele vai deixar o petrleo para os argelianos?
- Fique quieto! Me deixe escutar...
"... Agora j se pode divisar o dia em que os homens e as mulheres que vivem na Arglia estaro em condies de decidir seus destinos, de uma vez por todas, livremente, com conhecimento de causa. Em vista de todos os dados, argelianos, nacionais e internacionais, considero necessrio que esse recurso  autodeterminao seja, a partir de hoje, proclamado. Em nome da Frana e da Repblica, pelo poder que a
Constituio me atribui de consultar os cidados, desde que Deus me d vida e o povo me escute, estou disposto a perguntar aos argelianos, em seus doze departamentos, o que querem definitivamente ser e a pedir a todos os franceses que aprovem essa escolha. Naturalmente, a pergunta ser feita aos argelianos individualmente. Porque, desde que o mundo  mundo, nunca houve unidade nem, menos ainda, soberania argeliana. Cartagineses, romanos, vndalos, bizantinos, rabes da Sria, rabes de Crdoba, turcos, franceses invadiram sucessivamente o Pas, sem que tenha havido, em momento algum, sob forma alguma, um Estado argeliano. Quanto  data da votao, ela ser marcada no momento apropriado, o mais tardar quatro anos depois do retorno efetivo da paz..."
- Quatro anos! - Gritou Charles. - Ele acha que ainda vo esperar quatro anos!
- Enfim! - Suspirou Franois. - Uma autntica poltica do general de Gaulle!
- Voc acha que os argelianos vo ter enfim sua independncia? - Perguntou La.
- Em todo o caso, a autodeterminao abre o caminho: cabe aos argelianos escolherem.. Mas tenho medo da reao dos ps-pretos, dos radicais e do exrcito...
- Na maioria, o exrcito  a favor da Arglia francesa, assim como os europeus de l, enquanto a FLN reclama a independncia...
- Como reclamavam os vietnamitas... Ser preciso um novo Dien Bien Phu para que o governo francs compreenda que a Frana no tem nada que fazer na Arglia? - Revoltou-se La, cortando o que Charles dizia.
- Minha querida. - Replicou Franois. - A situao militar no  a mesma que no Vietn. Na Arglia, o exrcito domina o terreno. Os homens do General Challe obtiveram muitas vitrias...
- ... e continuam a pr fogo nas vilas, a atirar em tudo que se mexe e a torturar os prisioneiros! - Empolgou-se
La.
- "No quero mais essas histrias de tortura", disse de Gaulle ao delegado geral, numa de suas visitas  Arglia. Foi o prprio Paul
Delouvier que me contou isso, depois de um encontro com Georges
Pompidou. O substituto de Salan considerou sempre impossvel que de
Gaulle fizesse uma poltica em favor da Arglia francesa. Ele chegou a declarar ao general que a Arglia seria independente. "Em vinte e cinco anos, Delouvrier, em vinte e cinco anos", ele teria respondido.
- O povo argeliano no vai esperar vinte e cinco anos. - Resmungou Charles.
- Tambm acho. - Acrescentou Franois. - Mas, fique quieto, no se ouve nada...
"Trs solues convenientes sero o objeto da consulta. Ou: a secesso, na qual alguns acreditam encontrar a independncia. A Frana deixaria, ento, os argelianos que exprimissem o desejo de se separar dela..."
- Mas  exatamente isso que eles pedem! - Exclamou Charles.
"... Sendo a Arglia atualmente o que , e o mundo, o que ns sabemos, a secesso acarretaria uma misria espantosa, um terrvel caos poltico, o assassinato generalizado e, logo depois, a ditadura belicosa dos comunistas..."
- E, d-lhe nos comunistas! - Ironizou Charles.
"...Mas,  preciso que esse demnio seja exorcizado, e que seja pelos argelianos. Porque, se por infelicidade tal fosse mesmo a vontade deles, a Frana deixaria imediatamente de consagrar milhares de homens valorosos a servir uma causa sem esperana. Naturalmente, aqueles argelianos, de qualquer origem, que quisessem permanecer franceses, permaneceriam de qualquer modo e a Frana providenciaria, se necessrio, o agrupamento e o estabelecimento deles. Por outro lado, todas as disposies seriam tomadas para que a explorao, o transporte e o embarque do petrleo do Saara, que so obras da Frana e interesse do Ocidente, sejam assegurados, no importa o que acontea... Ou: o afrancesamento completo..."
- Voc v que ele s se interessa pelo petrleo! Autodeterminao,. tudo bem, mas cuidado! Se vocs escolherem a secesso, como ele diz, deixaremos vocs se degolarem uns aos outros e, nquanto isso, embarcamos o seu petrleo...
- Charles, voc raciocina muito mal... de Gaulle  o Chefe de Estado; qualquer coisa que proponha dificilmente ser aceita tanto na Arglia como na metrpole. Ele no pode dizer: "Tomem a sua indepenencia e fiquem com tudo que ns investimos na Arglia!" Os franceses e a opinio internacional no compreenderiam. - Explicou Franois.
"...tornando-se parte integrante do povo francs que se estenderia, a partir de ento, de Dunquerque a
Tamanrasset. Ou: o governo dos argelianos pelos argelianos, apoiado pela Frana e em estreita unio com ela na economia, na educao, na defesa, nas relaes exteriores..."
- La, no tem nada para beber? - Perguntou Franois.
- Eu tambm tenho sede. - Sussurrou Camille, encolhendo-se de encontro ao pai.
- Ento, venha me ajudar. - Disse La  filha, que a seguiu a contragosto.
Elas voltaram pouco depois, trazendo copos e garrafas.
- Coca para as crianas, usque para os grandes! - Anunciou Camille; passando os copos que tilintavam com as pedras de gelo.
- Obrigado, meu amorzinho.
- O que mais disse o grande homem? - Quis saber La, deixando- se cair no sof, ao lado de Franois.
- Oua! - Intimou ele.
"... O destino dos argelianos pertence aos argelianos, no mais imposto pela espada e pela metralhadora, mas conforme a vontade que expressaro pelo sufrgio universal. Com eles e por eles, a Frana garantir a liberdade de sua escolha..."
- Teus companheiros dos Invalides devem estar verdes diante da TV. - Debochou La.
Franois, com a expresso preocupada, no respondeu.
- Voc acha que isso vai dar certo? - Perguntou Charles.
- Se todos tiverem boa vontade,  possvel... - Comentou ele, com os olhos presos na tela.
"... a rota est traada. A deciso, tomada. A jogada  digna da Frana. Durante o Hino Nacional, cada um ficou perdido em seus pensamentos. Adrien foi o primeiro a se levantar e se aproximou do pai.
- Papai, voc vai voltar para a Arglia?
- No sei... Se me mandarem, eu vou.
Ele fingiu ignorar o olhar sombrio que La lanou-lhe.

Captulo III

l! IViadaine Tavernier?
- - Sim, bom dia.
- No sei se voc se lembra de mim, sou Viu cent, ns nos conhecemos h trs meses, no Pont-Royal...
- Sim, eu me lembro.
- Podemos nos encontrar rapidamente?
- Mas...
- No posso dizer nada pelo telefone. Venha em uma hora ao bar da Rua Seine, no  longe da sua casa. Eu a espero l. At j.
Inquieta, La desligou: o que queria dela o gentil lagarto?
Ela havia encontrado novamente Roger Vailland no Drugstore da Charnps-lyses, poucos dias depois daquele primeiro encontro no bar do Pont-Royal. Ele lhe ofereceu o Elogio ao cardeal de Beca is e ela riu de. sua pose de libertino a qualquer propsito que tanto seu olhar brilhante quanto suas mos desmentiam... Infelizmente, o escritor disse algumas frases desiludidas sobre a Arglia que a decepcionaram. Eles se despediram friamente. Como ela passou o vero em Montillac, no teve mais notcias dele. No dia seguinte ao discurso do general de Gaulle, ele veio novamente  tona, atravs de
Vincent. Se a autodeterminao, que ouvio dizer de Franoise abria a porta para a independncia da Arglia desse certo, ela no tinha mais nenhuma razo para querer ajudar os argelianos. No entanto, ela no escutou a voz que lhe dizia para ficar fora disso tudo, que ela sabia melhor do que ningum aonde isso podia levar, que ela devia isso a seus filhos muitas vezes negligenciados, a Franois que a amava, que ela tinha certamente adquirido o direito de viver em paz, que ajudar os argelianos em guerra contra a Frana era talvez uma espcie de traio...
Ela foi levada pela curiosidade.
A chuva da noite tinha lavado o cu e as ruas de Paris. Era uma daquelas manhs de outono em que a luz gruda marcas de alegria nas fachadas, em que o ar traz o cheiro de cogumelos. Tudo parecia leve, fcil, amvel. Uma vontade de correr tomou conta de La. Na esquina da Rua Saints-Pres, ela parou, ofegante. "No tenho mais idade para isso!", pensou ela. Os olhares cmplices e eloqentes de trs operrios, encostados no balco de um bar, fizeram com que ela esquecesse o tempo que passa...
Na Rua Jacob, diminuiu o passo para contemplar as vitrinas dos antiqurios e das galerias de quadros em cujos vidros se refletia sua fina silhueta. Ela teve um sobressalto;
por um instante, um vulto surgiu ao lado do seu. Ela se voltou: ningum. Passou a mo na testa, repentinamente assustada, e apoiou-se na fachada de uma loja. Onde foram parar a bela luz, a alegria do dia, o aroma de bosque? Um fantasma afastou-os...
- Laure... - Murmurou ela.
La estremeceu com a lembrana de sua irm assassinada nesse bairro que, no entanto, ela ainda amava. "A erva tornou-se negra". - Pensou ela. Um soluo lhe subiu  garganta. Ela se ps a caminho, apressando o passo.
Vincent esperava na sala dos fundos do estreito bar, diante de uma xcara vazia.
- Obrigado por ter vindo. Quer um caf? La aceitou.
- George, dois expressos! Mas... voc chorou? - Preocupou-se ele de repente, seguindo com o dedo a marca da lgrima. Ela recuou e passou a mo no rosto com um gesto brusco.
- O que voc tem de to urgente para me dizer?
- Voc ainda est com a mesma disposio que no nosso primeiro encontro?
- O discurso do general de Gaulle no mudou tudo?
-  muito cedo para dizer... Enquanto isso, preciso da sua ajuda.
- De que se trata?
- Posso estar me arriscando em lhe contar isso. Mas, hoje, no tenho escolha. Um de nossos carregadores de malas foi preso antes de poder pegar o pacote que era sua incumbncia. Se a polcia interrog-lo com os seus mtodos habituais, ele dar o endereo... No posso ir l pessoalmente porque sou conhecido tanto pela zeladora como pelos policiais que vigiam o prdio. Para voc, ao contrrio, ser fcil.
- Onde est esse pacote?
- No consultrio do dr. Colin, na Avenida da Repblica, n-13.  um clnico geral que atende muita gente; voc passar despercebida.
- Quando devo ir l?
- Agora... Pegue esta bolsa; ponha o dinheiro dentro.
- O dinheiro?
- O que  coletado para a FLN.
- Mas o que devo fazer com ele?
- Lev-lo  Sua.
-  Sua?!
- Sim,  isso; um correspondente alemo vai encontr-la na Estao de Lausanne.
- Mas... no posso partir assim! Como vou explicar essa viagem?
- Aqui esto os cafs! - Anunciou o dono do bar. - Um croissnnt para a senhora?
- No, no, obrigada.
La quebrou um pedacinho de acar com os dentes. Havia uma espcie de ternura no olhar que Vincent pousava nela.
- H um trem s treze horas, partindo da Estao de Lyon; aqui est sua passagem. No se esquea do passaporte. Voc tem tempo de passar em casa para peg-lo, com mais algumas coisas.
- Voc parece muito seguro de que vou aceitar...
- No, mas espero ardentemente que o faa. Eu j disse: no tenho outra escolha. Se no recuperarmos esse dinheiro, so muitos milhes que cairo nas mos da polcia...
- Mas, e a alfndega?
- O fiscal desse trem  dos nossos. Ele vai cuidar da bagagem durante a viagem e entregar a voc na chegada. Nosso correspondente local vai estar perto do quiosque de jornais e estar lendo Francc Soir. Voc vai se aproximar e dizer a ele: "Eu venho da parte de Vincent." Ele responder: "Da Rua das Accias?" Ento, voc lhe dar a bolsa.
- E se ele no estiver l?
- Voc vai para o Hotel Metrpole e pergunta, na recepo, pelo sr. Jean;  o contador do hotel. Ele lhe dar um quarto e dir o que fazer em seguida. Mas isso no ser necessrio...
- Que organizao! - Ironizou ela.
- Sim e no. No passamos de amadores da ao clandestina... Mas ns nos divertimos bastante...
- Vocs... vocs se "divertem"!
-  menos montono que trabalho de escritrio... No, estou brincando. Meus camaradas me criticam bastante por isso.
- No fundo, por que voc faz tudo isso?
- Porque isso me d prazer!
La caiu na risada antes de concluir:
- Gosto da sua resposta... Voc no procurou embrulhar sua mercadoria com o papel gasto da ideologia. Voc age assim porque isso o "diverte", como voc diz, e porque isso lhe parece justo. E pronto.
- O riso lhe cai bem.
- No mude de assunto... Estou enganada?
- No, est perto da realidade... Ento voc aceita?
- Sim.
Pouco antes das treze horas, La subiu no trem com destino a Lausanne. Rapidamente, passou a bolsa e seu contedo ao fiscal que marchava na frente do comboio. Em seguida foi para o vago restaurante onde se acomodou e comeu com muito apetite.
No mesmo dia Charles tinha recebido de Leclaire a ordem de ir a Lyon para buscar o jornal clandestino de Francis Jeanson, Vrit pour. Chegando ao destino, ele subia ainda para a plataforma, quando o comboio comeou a andar. Teve um sobressalto: por um instante, pensou reconhecer La por trs da janela de um vago de primeira classe. Mas no, a essa hora, ela estaria em casa, na Rua de Le Universit; alm disso, nesta manh mesmo, tinham tomado caf da manh juntos. Logo, ele se persuadiu de que tinha sonhado, ou que era algum muito parecido com ela.
No bairro Saint-Jean, ele encontrou logo o endereo que lhe tinham dado e onde lhe entregaram os jornais. Andou um pouco  toa pelas ruas antigas, depois tomou tranqilamente o caminho da estao para pegar o expresso das dezessete e trinta.
Quanto  La,  meia-noite ela estava de volta em casa. Na entrada encontrou um recado que Franois tinha deixado, recomendando que no o esperasse para jantar;
ele voltaria tarde. As crianas estavam dormindo. Sob a porta do quarto de Charles via-se um raio de luz; ela bateu, depois girou a maaneta. O rapaz, esticado na cama, estava to absorto na leitura que nem se mexeu.
- Isso parece muito interessante... Ele pulou, juntou as folhas.
- Eu no ouvi voc... Eu e as crianas nos perguntvamos onde voc . teria ido. Claire no queria se deitar sem lhe dar um beijo.
Ele se levantou, aproximou-se e deu-lhe um beijo no rosto.
- Eu fui ao cinema...
- Ver o qu?
- Les liaisons dangereuses.
- O filme de Vadim?... E  bom?
- ...
- Mas?
- No tem nada a ver com o livro.
- Como sempre... Seria melhor se voc tivesse ido ver o filme Billy. Wilder, Quanto mais quente melhor; Marilyn Monroe est espetacular!... Voc jantou?
- No, mas no tenho fome...  bom isso que voc est lendo?
- Nada apaixonante:  o programa da faculdade.
- Ah... Boa noite, meu querido. Vou beijar as crianas antes de me deitar... At amanh, durma bem.
- Voc, tambm, durma bem.
Depois que a porta fechou, ele permaneceu de p um instante, pensativo. A viso da estao em Lyon voltou-lhe  memria...
Quando Franois voltou, perto de uma hora da manh, La fingiu que dormia.
No dia seguinte, ela ligou para Vincent para dizer que tudo tinha corrido bem.
- Eu sei, mas no ligue mais para esse nmero... Estou de mudana. Ele desligou. Algumas horas mais tarde, ele ligou:
- Venha amanh  loja de carvo da Rua Mouffetard;  uma loja no comeo da rua, no h como se enganar.
Antes que ela tivesse tempo para dizer uma palavra, ele desligou de novo.
Depois do almoo, Charles levou os exemplares de Vrit pour a Leclaire, num bar da Champs-lyses freqentado pela juventude dourada dos bairros ricos, o Pam-Pam.
As moas, quase todas maravilhosas, fumavam rindo muito alto, enquanto os rapazes comparavam seus sapatos novos, organizavam o prximo jogo ou discutiam sobre o ltimo Chabrol, Les Cousins, que recebeu o prmio de melhor filme no ltimo festival de Berlim. Essa exposio de futilidade divertia Charles e irritava Jacques.
Ele resmungava contra esses filhinhos de papai, esses garotos ricos. Ostensivamente, abriu o Humanit, que depois de ter criticado duramente a autodeterminao proposta por de Gaulle, agora voltava atrs.
- No compreendo a atitude dos comunistas, e voc? - Perguntou Charles.
- Eu tambm no. - Replicou Jacques Leclaire. - Mas Thorez e o Partido devem saber o que fazem... Correu tudo bem em Lyon?
- Tudo.
- Voc podia hospedar um amigo argeliano durante alguns dias?
- No sei: eu moro com meus pais... H um quarto de empregada desocupado, ele serve de depsito...
-  exatamente o que precisamos: numa rua bem burguesa, no iro procurar nosso amigo! Os esconderijos de Saint-Denis foram tomados pela DST. Todo o quarteiro rabe, perto da baslica, est agora vigiado pelo exrcito.  preciso desconfiar da empregada...
-  uma boa mulher.
- No duvido, mas as empregadas so as primeiras a serem interrogadas pela polcia...Voc precisa de uma mozinha para tornar o quarto habitvel?
- No... Mas  garantido que o seu amigo s vai ficar por pouco tempo? No quero que minha famlia tenha problemas por causa disso.
- "Isso", como voc diz,  um membro da FLN que arrisca a sua pele na Frana.
- Ah! Agora estou mais tranqilo! - Ironizou Charles.
- Voc vai ser avisado do dia e da hora da chegada dele; ser no correr da semana... Bom, vou embora, tenho um outro encontro.
- Deixe. - Disse Charles, empurrando a mo de Leclaire que j segurava uma nota. -  por minha conta.
- Ento, obrigado... At logo.
Na mesa vizinha, uma garota mastigava o seu canudinho, com o olhar vago, girando automaticamente o copo vazio entre os dedos. Os cabelos escuros, longos e volumosos, escondiam parte de seu rosto. Perto dela, o ltimo romance de Raymond Queneau de que todo mundo falava, Zazie dans le metro. Ela virou a cabea e plantou seus olhos nos dele. Com o choque desse olhar azul, Charles sentiu-se corar por baixo da barba. Desde que voltou de Cuba, ele no tinha praticamente dirigido a palavra a nenhuma garota da sua idade. Levou alguns segundos para perceber que ela falava com ele.
- Voc vem sempre aqui? Eu nunca o vi...
-  a primeira vez. - Balbuciou ele.
- Eu venho aqui todos os dias na mesma hora...  um tdio!
- Ento, por que voc vem?
- No sei... O que voc faz?
- Sou estudante...
- Deixe-me adivinhar... Letras?... Matemtica?... Medicina?... No? Voc tem cara de mdico, no entanto... Ah, j sei: Filosofia!
- No, Direito.
- Para ser advogado como meu pai?  sinistro... A empolgao dela o fez sorrir.
- No ria, eu sei do que estou falando!
- No duvido... Voc quer beber alguma coisa?
- Por que no... Um gim-fizz, ento... Como  o seu nome? O meu  Marie-France.
- Charles d'Argilat... Garom! Por favor, dois gim-fizz.
O bar estava lotado, as luzes da cidade tinham se acendido sem que os dois jovens percebessem.
- Marie-France, voc viu a hora? Vo nos matar!
Ela fez uma careta para o rapaz bonito e elegante, de vinte e poucos anos, que acabava de falar com ela.
- Pare de bancar a educada. - Ordenou ele num tom gentil. - Prometemos  mame chegar na hora do jantar. Do jeito que est o trnsito, s chegaremos para a sobremesa!...
Mas, voc no me apresenta?
- Charles d'Argilat, futuro advogado... Meu irmo, Jean-Marie Duhaml.
Os dois rapazes trocaram um enrgico aperto de mo.
- Sinto muito, mas teremos que nos conhecer melhor numa outra ocasio. Marie-France, vamos, estacionei em lugar proibido...
- J vou. Adeus... At logo!
Charles olhou-a partir com um aperto no corao. Ele resistiu ao desejo de correr atrs dela para pedir seu endereo.
- Volte amanh, ela vem todos os dias. - Sugeriu o garom, um homem de cabelos grisalhos que limpava a mesa.
Charles sorriu: amanh, iria rev-la amanh...
- Eu me pergunto o que uma garota to delicada pode encontrar num lugar como este. - Acrescentou o garom a meia-voz, como se falasse consigo mesmo.
As luzes da Champs-lyses nunca brilharam tanto. Nas caladas, os pedestres felizes da vida, exibiam grandes sorrisos. Os veculos, imobilizados por um congestionamento, tocavam com suas buzinas uma msica alegre. Na rotatria, os canteiros exalavam perfume. As castanheiras dos jardins ao longo da "mais bela avenida do mundo" deixavam generosamente cair seus frutos. Charles pegou uma castanha. Ao contato com sua casca lisa, ele se reviu, menino, oferecendo-a sua me. Na Place de Ia Concorde, o cu invadia todo o espao. No Sena, os batem ixmouches levavam turistas maravilhados. Paris, nesta noite, tinha vaidades de uma jovem mulher, vida por agradar.
De um barco vinha o som de um acordeo. Charles se inclinou no parapeito da ponte; era um rapaz que tocava um refro. Diante da Assemblia Nacional, carros da CRS estacionavam e soldados, armas a postos, vigiavam as redondezas. De repente, toda a doura sumiu. Um carro que passava soletrou com a buzina "Ar-g-lia fran-ce-sa", "Ar-g-lia fran-ce-sa"; logo, outros se juntaram a ele sob os olhos vigilantes dos militares e dos policiais. No Bulevar Saint-Germain, uma patrulha parou-o e pediu seus documentos.
- V para casa. - Aconselhou o oficial. - O clima no est bom, neste momento, em Paris.
Quando ele chegou em casa, La e as crianas tinham acabado de jantar.
- Por que voc no telefonou para me dizer que chegaria tarde? - La o repreendeu. - Eu estava preocupada...
- Desculpe, no vi o tempo passar. Vim a p desde a Champs-lyses; o cu estava magnfico!
La observou-o atentamente; um brilho completamente novo parecia flutuar no olhar dele. Ela ficou feliz e, com um tom mais brincalho, perguntou se ele tinha jantado.
- No, mas no estou com fome... Onde est Franois?
- O general de Gaulle mandou cham-lo h mais ou menos meia hora.
O diretor do gabinete do Presidente da Repblica, Ren Brouillet, introduziu Franois Tavernier no Salo Dourado, gabinete do general de Gaulle no primeiro andar do Palcio Elyse.
- Boa noite, Tavernier. Estou feliz em v-lo... Mas, sente-se, s vou demorar um instante...
Como em todas as vezes que se encontrou na presena do homem da Frana livre, Franois ficou emocionado. E, nesta noite, assim como em

1943 em Londres, como em 1944 na Rua Saint-Dominique, como em 1958 na Rua de Solferino, ou em Colombey-les-Deux-glises, ele se perguntava com uma ponta de angstia e um orgulho que o incomodava: "O que ele espera de mim?" O Chefe de Estado terminou de assinar, levantou os olhos, ajustou os culos e considerou seu interlocutor em silncio, com as mos finas repousando abertas diante dele.
- Tavernier, apelo novamente a voc. Voc vai voltar  Arglia. Preciso saber o que se trama l. A minha volta, s se fala de compls, criticam minha poltica sem refletir sobre as conseqncias que sua rejeio pode trazer  Frana e  sua posio no mundo. Na Arglia, excitando e explorando a emoo daqueles de origem francesa, os ativistas j falam em se insurgir. Um "front nacional francs" organiza-se l na clandestinidade, sob a direo de Ortiz. Gritam: "Precisamos de uma Charlotte
Corday!" O grande jornal dos ps-pretos, Uclio d'Alger, que at agora mostrava disposies moderadas com relao a mim, adota agora um tom mais hostil. No meio de cultura argelino, os funcionrios e oficiais, mantm contatos aborrecidos pelo excesso de lealdade s instituies. "Podamos encontrar", cochicham eles em seus gabinetes e refeitrios, "um meio de obrigar o general a se arrepender". Na prpria Frana, Georges Bidault, com alguns parlamentares, funda a "Unio pela Arglia francesa", onde se concentram os agitadores habituais dos grupos ditos de "extrema direita". De qualquer modo, a Arglia francesa  uma gozao, e aqueles que preconizam a integrao so uns imprestveis! E me criticam por ter lanado, h um ano, o plano de Constantine!...
Esgotado e cheio de dvidas, de Gaulle levantou os braos.
- Isso deu a impresso de que o senhor ia fazer a Arglia francesa. - Insinuou Franois.
O general lanou-lhe vim olhar sem o menor sinal de afabilidade.
- Fiz isso porque s se pode sair dessa caixa de escorpies fazendo a Arglia evoluir completamente. A Arglia de antigamente morreu e quem no compreende isso morre com ela.  preciso tentar lutar contra o processo de reduo da Arglia a uma situao de misria.  claro que a pacificao tambm precisa fazer progressos na regio. Mas ela no ser jamais definitiva se a Arglia no se transformar. Tento transform-la. A unidade, a igualdade de direitos, as eleies que do aos muulmanos o direito de votar para designar seus representantes, a abertura das funes pblicas aos muulmanos, o respeito de cada comunidade, o que so, seno a integrao, mas uma integrao realista? Mas no se deve ficar s nas palavras.  possvel integrar os indivduos; mesmo assim, apenas numa certa medida. No se integram os povos, com seus passados, suas tradies, suas lembranas comuns de batalhas ganhas ou perdidas, seus heris. Voc acredita que seja possvel entre os ps-pretos e os rabes? Voc acha que eles tm o sentimento de uma ptria comum, capaz de superar todas as divises de raas, de classes, de religies? Voc acha que eles tm realmente a vontade de viver juntos?
- A integrao  uma brincadeira de mau gosto por permitir que os muulmanos, que so maioria na Arglia, na proporo de dez para um, tornem-se minoria na Repblica francesa, de um para cinco.  um passe de mgica infantil! As pessoas imaginam que podem pegar os argelianos com esse truque? Voc j pensou que os rabes se multiplicaro por cinco e, depois, por dez, enquanto a populao francesa permanece praticamente estvel? Haver duzentos, depois quatrocentos deputados rabes em Paris? Voc pode imaginar um presidente rabe no Elyse?
O general de Gaulle levantou-se, deu alguns passos, depois parou diante de uma tapearia de Gobelins representando dom Quixote.
- Minha cidade no se chamar mais Colombey-les-Deux-glises, mas Colombey-les-Deux-Mosques! - Resmungou ele.
Franois, imitando-o, tinha se levantado; o General fez sinal para que ele se sentasse e tomou assento numa poltrona perto dele.
-  melhor para a Frana uma Arglia argeliana no seio da comunidade do que uma Arglia francesa no seio da Frana, que nos derrubaria para sempre. Se a Arglia permanecesse francesa, teramos que assegurar aos argelianos o mesmo padro de vida dos franceses, o que est fora de alcance. Se eles se separam da Frana, tero que se contentar com um nvel de vida muito inferior...
- Como tem sido desde a conquista... O general ignorou a interrupo.
- ...Pelo menos, no podero se queixar da Frana e tero uma satisfao de dignidade, a de receber o direito de governarem a si mesmos. A colonizao acarretou sempre um desgaste de soberania. Mas, hoje em dia, alm disso, ela acarreta despesas gigantescas de nvel econmico e social. A colnia tornou-se para a metrpole no mais uma fonte de riqueza, mas uma causa de empobrecimento e de atraso. As exigncias dos nativos para seu progresso social aumentaram, o que  perfeitamente natural. O lucro deixou de compensar os custos. Mas, se ela custa to caro, por que mant-la, se a maioria da populao no quer mais isso?
- Na sua opinio, o petrleo no conta mais?
- No se iluda. O petrleo e o gs no sero suficientes para pagar o esforo que a Arglia exige de ns.
Ele levantou-se, afastou-se alguns passos e veio sentar-se novamente.
- O drama argeliano no se limita  prpria Arglia ou s relaes da Arglia com a Frana. Ele afeta os prprios franceses. Contamina toda a Frana. Mina a situao da Frana no mundo.  como uma cruz.  preciso livrar-se dela. Essa  minha misso. E no  nada divertida. Ponha-se no meu lugar! No fao isso com alegria! Voc vai para Argel. Delouvrier e Challe esto preocupados, sua presena vai tranqiliz-los...
- General, o senhor superestima minha importncia...
O Presidente da Repblica lanou-lhe um olhar sombrio e replicou secamente:
- No  de voc que se trata, mas de de Gaulle. Quero saber at que ponto o exrcito se comprometeu com os radicais. Sei que posso contar com Challe e Massu; so soldados disciplinados. Mas, h os coronis... No acredito numa rebelio dos oficiais... J avisei a Delouvrier da chegada de um observador. O delegado geral facilitar sua misso de modo discreto. Oficialmente, voc est a servio do governo, para inspecionar o gasoduto de Bougie e visitar os poos de petrleo de Edjel e de Hassi-Messaoud...
- Mas, general, o senhor esteve l em dezembro passado!
- E da? Os trabalhos devem ter avanado, desde ento! Franois no pde deixar de rir com essa observao.
- Vejo, pela sua expresso, que isso tudo no o desagrada.
- General, posso fazer uma pergunta?
- Faa.
- Por que o senhor me escolheu de novo? No h, ao seu redor, homens devotados, prontos a fazer qualquer coisa pelo senhor e mais competentes em poltica?
De Gaulle levantou-se, apoiando os dois punhos na mesa de trabalho. Aproximou-se de Franois que, por sua vez, tambm se levantou.
- Exatamente. - Confiou ele, segurando-lhe o brao. - Eles so muito prximos, muito preocupados em me agradar. So polticos. Voc, no. Voc jamais militou por mim, mas respondeu "presente" quando apelei a voc. Alguns militantes do RPFiS acreditam que tm direitos sobre mim, ao passo que me devem tudo. No passado, suas observaes me foram preciosas.
Diante da porta, o general estendeu-lhe a mo, uma mo quase mole, com uma leve presso, que sempre surpreendia.
- Tavernier, como na caa, no vou lhe desejar boa sorte. Franois encontrou-se no salo dos ajudantes de campo, onde Brouillet o aguardava.
- Aqui esto suas passagens de avio; voc parte depois de amanh, s dezessete e trinta. Uma verba para as despesas ser remetida para o diretor dos gabinetes civil e militar, Michel-Jean Maffart, em Argel.  claro que a maior discreo...
- No  preciso dizer. - Concordou Franois, ironicamente.
Saindo da Avenida Marigny, Franois dirigiu-se, com o passo enrgico, para a Champs-lyses. Na altura do teatro, parou, depois caiu na gargalhada: "A velha raposa me pegou de novo!"

Captulo IV

Os dias lindos se sucediam. Este vero de 1959 estava excepcional. Os jornais comentavam sobre o recorde de novecentas horas de sol em Paris, no ms de junho, julho e agosto, e do resultado sem precedentes das colheitas de trigo e de batatas. As mulheres usavam vestidos leves, as caladas dos cafs no esvaziavam nunca e os vendedores de sorvetes ganhavam uma fortuna. As pessoas se acotovelavam na piscina Deligny, onde os corpos ganhavam um bronzeado digno da Cote d'Azur. O nvel do
Sena estava baixo e, de suas guas negras, agitadas pela passagem dos barcos e dos bateaux-moiiches, subia o mau cheiro de lodo, de peixe morto e de combustvel dos barcos. Apenas as rvores tinham uma aparncia triste. As folhas, prematuramente amareladas, caam tecendo, ao longo das alamedas do Luxembourg, um tapete farfalhante que as crianas dispersavam, numa nuvem de poeira, pisando com fora. Atravessando o jardim, La teve vontade de fazer o mesmo. No alto da Rua Soufflot, o Panthon se destacava, sombrio, contra o cu de um azul insolente. Na Praa da Contrescarpe, uma cantora de rua massacrava uma cano de Edith Piaf, enquanto uma velha jogava migalhas para os pombos que se juntavam em volta dela. Na parte baixa da Rua Mouffetard, La comprou um cesto de uma cigana que tinha se instalado perto do jardinzinho da Igreja Saint-Mdard. Enquanto procurava uma moeda para pagar, a mulher agarrou-lhe a mo esquerda e segurou-a firmemente. La tentou se soltar, mas no conseguiu.
- No  de mim que voc deve ter medo, minha bela. - Disse a cigana, abrindo-lhe os dedos. - Mas de voc... Seu marido e voc estaro, os dois, s voltas com foras malignas... Voc corre o risco, sim, corre o risco de perd-lo... e voc vai se envolver em acontecimentos cuja importncia no compreende... Algum prximo a voc, um jovem, corre grande perigo... Seus filhos tambm... e, sua mo est tremendo...
Existem lembranas terrveis dentro de voc?... Mortes, sim, muitas mortes... amor, muito amor tambm... O amor que pode ser mais forte que a morte, voc sabe...
Voc tem, dentro de si, uma grande fora... Mas, apesar desse amor, voc tambm sente uma enorme solido... Vejo um homem muito alto, muito s... Dele dependem muitas coisas boas e ms... H muito dio em volta dele, muito... traies tambm... A fora que voc possui, conserve-a,  seu trunfo mais poderoso... Voc vai receber uma notcia muito triste... Longe, um avio... sim, um avio que cai!... No, ele aterrissa, um belo homem desce... sorri... tiros!... Oh!...
A mulher, alta e forte, vestida com uma saia florida de cores vivas, largou bruscamente a mo de La. Com a ponta do leno que lhe cobria os cabelos, enxugou o rosto, onde o suor brotava. Seu olhar fixo parecia perdido numa viso da qual no conseguia se livrar. Aps um momento, balanou a cabea e encarou La que, perturbada, desviou os olhos. Por fim, a cigana deu um sorriso sem alegria.
- Esquea o que eu disse, no sei o que me aconteceu... Deve ser essa droga de igreja que me faz ter vises!  um endereo maldito, eu sei. Mas,  mais forte que eu, eu sempre volto... E nem  um bom ponto para vender... No entanto, no deixo de fazer uma prece na capela da Virgem e de lhe oferecer uma vela... e tambm 
Terezinha do Menino Jesus.
Sempre falando, ela recolhia suas coisas. La no se mexia. A mulher pegou-lhe o brao.
- V embora... Voc tem mais o que fazer do que ficar escutando uma velha louca!
- O que voc quis dizer quando falou dos meus filhos?
- Ah, nada... Foi s para deixar voc curiosa e lhe arrancar uns trocados.
La fuou na bolsa e tirou algumas notas.
- Tome... Conte tudo.
A cigana empurrou o dinheiro.
- No quero!
- Pegue... Voc fez seu trabalho sujo de feiticeira... Agora, pegue!
- O que est acontecendo aqui? A adivinha est importunando a senhora? - Perguntou um policial gordo, seguido de outro mais magrinho.
- No. Ela recusa que eu a pague...
- A senhora tem sorte! Essa gente... so todos ladres! Guarde seu dinheiro. De qualquer jeito ela est errada: no  permitido se instalar na frente da igreja...
Vamos, andando, d o fora!
Resmungando, a mulher recolheu seus cestos e, depois, com um ltimo olhar, jogou um para La:
- Este aqui  seu; voc pagou por ele... Quanto ao resto, esquea, voc no me deve nada.
Um enorme cansao invadiu La. Automaticamente, ela se dirigiu para o prtico da Igreja Saint-Mdard. Assim que o atravessou, um frio mido a invadiu. Desde o comeo da nave, pairava no ar um cheiro de poeira misturado com incenso. Diante de um confessionrio de madeira escura, havia um pequeno grupo de mulheres ajoelhadas. A cena lhe lembrava a Igreja de Verdelais onde, em criana, ela ia fazer companhia  Santa Exuprance, aquela pequena mrtir que devia se aborrecer, esticada sozinha na sua caixa dourada, to comovente no seu vestido de cetim branco; mais tarde, era ainda a Exuprance que ela vinha confiar seus sofrimentos... Ao p do altar sobre o qual brilhava a luz vermelha, smbolo da presena divina, La elevou os olhos. Sentou-se, procurando as palavras de uma prece, sentindo um enorme vazio.
Quando saiu para a alegre luminosidade desse final de manh de outono, as flores expostas por uma vendedora trouxeram um sopro tardio de primavera. Os gritos dos comerciantes que vendiam suas mercadorias, o cheiro dos frangos assando, o de po quente, o forte mau cheiro que cercava a peixaria, o aroma do caf fresco torrado, o riso das donas de casa por causa das brincadeiras dos camelos, toda essa agitao ruidosa, perfumada e colorida serenou La. Essa abundncia de vveres tinha qualquer coisa de obscena, mas sua trivialidade lhe dizia que continuava a pertencer ao mundo dos vivos, e isso a tranqilizava um pouco.
No balco da loja de carvo, aougueiros com os aventais sujos de sangue se acotovelavam com operrios em uniformes de trabalho; era a hora do aperitivo. Sentadas nas duas mesas do estabelecimento, jovens vendedoras bebiam caf, cochichando confidncias que as faziam estourar de rir. La deslizou entre os fregueses e chegou ao fundo do botequim,  procura de Vincent.
- At que enfim!... Eu j ia embora.
A voz que se dirigia a ela vinha de um cubculo mal iluminado, que no havia percebido antes porque estava disfarado por uma pequena escada em caracol. Ela se sentou numa banqueta, encostada numa cortina pesada, do mesmo tom vermelho que o assento e olhou ao redor com uma curiosidade no disfarada. Depois do exame, perguntou:
- Voc vem sempre aqui?
- Isso no  importante.
- Voc est aborrecido?
- O problema tambm no  esse: voc deve compreender que a falta de pontualidade pode ter graves conseqncias.  imprudente ficar muito tempo num lugar de encontro.
- Desculpe... Encontrei uma cigana que me fez previses horrveis... Vincent encarou-a com um olhar incrdulo. Ela continuou:
- Eh... eu sei muito bem que so bobagens, mas o que ela disse, tive a impresso de que ela via realmente... Ah! No me olhe com esse ar de pena! Ela me disse que meus filhos corriam perigo... Eu sempre tive medo por eles, voc sabe...
A lgrima que rolou pela face dela acalmou a irritao que Vincent sentia crescer nele. Ele abraou-a carinhosamente.
- Voc se comporta como uma garotinha sentimental! Eu pensando que voc fosse a mulher forte de que falam as Escrituras, e voc acredita nas bobagens da primeira pitonisa que aparece e que s quer o seu dinheiro!
- Ela no quis...
- E, como num romance de quinta categoria, voc concluiu que o que ela dizia era verdade!
- Voc tem razo... Deve ser por causa do clima que reina em Paris, nossos encontros secretos, minhas mentiras, essa guerra que no termina nunca... Apesar do meu atraso, posso beber alguma coisa?
- Eu recomendo o Chablis do proprietrio.
- Que venha o Chablis.
Vincent fez sinal ao bigodudo cinqento, de boina na cabea, que servia no balco, em mangas de camisa. Pouco depois, ele trazia trs copos e uma garrafa.
-  por minha conta! - Declarou ele, sentando-se em frente a eles. Vocs me contam as novidades... Armande! Traga a lingia, por favor.
Uma mulher alta e magra, toda vestida de preto, cabelos grisalhos puxados num coque severo, veio colocar na mesa uma vasilha com pats, queijinhos muito secos, grandes fatias de po com manteiga e lingia seca.
- Estou com um pouco de fome, vocs no? - Perguntou, tirando do bolso um canivete que ele abriu batendo no joelho.
- Eu estou! - Exclamou La.
- Muito bem! Gosto das mulheres que sabem se portar  mesa... Experimente este pat de lebre, foi a patroa mesma que fez.
- Voc acha que isso vai bem com o Chablis?.- Perguntou La, segurando a vasilha.
- Mas ela entende do assunto, a sua amiga! Termine o seu copo... Armande! Traga o saca-rolha e uma garrafa do vinho da famlia.  meu irmo que faz e, cada vez que eu o bebo, me vejo, pequenininho, tomando conta das ovelhas de minha av com o velho Mareei... Na mochila, o velho Mareei tinha sempre uma garrafa de vinho, do vinho de meu av. Foi com ele que tomei meu primeiro porre... eu devia ter seis ou sete anos! Ah! Esse vinho... ele tem o cheiro da terra e do suor daqueles que cuidam dela!
Ele abriu a garrafa sem rtulo que a mulher havia trazido, cheirou a rolha, derramou um pouco no fundo do copo, levou-o s narinas, girouo contra a luz. Por fim, bebeu. Armande, Vincent e La permaneceram em suspenso, esperando o veredicto.
- Deus  grande!
Todos deixaram escapar um suspiro de alvio.
- Armande, pegue um copo, vamos brindar  memria de meu av!
- Ah, Hilaire, no sei se devo... bem, s um dedinho. - Concedeu a mulher.
Ela fez uma careta que a deixou vinte anos mais nova.
- Tem mais fregueses chegando. - Acrescentou ela rapidamente. Todos levantaram os copos em memria do av.
- Hum... ele me lembra o vinho de Montillac - Apreciou La. - Parece de Bordeaux.
- Com os pedregulhos a mais! Ele vem da costa de Duras... Voc conhece?
Se ela conhecia? As caminhadas... os saltos de pra-quedas... os maquis... as corridas pelos campos de tabaco e de vinhas... Duras, La Role, Saint-Macaire, Verdelais...
Toda a sua juventude!
Durante um momento eles saborearam em silncio o vinho do irmo e a vasilha de Armande.
- Tiveram notcias de seu filho? - Perguntou Vincent.
Hilaire fechou o canivete depois de limp-lo cuidadosamente no avental azul.
- Armande, mostre a carta do menino.
Hesitando, a mulher tirou do bolso de sua blusa preta duas pginas dobradas em quatro; como se fosse a contragosto, estendeu-as ao marido. Seu olhar contrito cruzou com o de La que, embaraada, desviou o seu; havia naqueles olhos todo o medo e o desespero de uma me. Hilaire colocou os culos, desdobrou cuidadosamente as folhas quadriculadas, cobertas por vima letra grande e feia.
Queridos pais,
Estou escrevendo a luz de minha lanterna, enquanto espero meu turno de guarda. A noite est fria e magnfica. O cu est cheio de estrelas cadentes: parecem fogos de artifcio. Bom, estou exagerando um pouco, mas  bonito assim mesmo. Em noites como esta, a guerra parece absurda. Me lembro do vov que gostava tanto de se deitar ao ar livre, nas noites de vero, enrolado na sua pele de cabra e fumando seu cachimbo. Ele teria gostado desta aqui.
Obrigado pelo pacote; no tanto pelo contedo, mas pelo carinho que vocs tiveram em faz-lo, que me d vontade de chorar. Penso em vocs todos os dias e amo vocs cada vez mais. Esta guerra, a distncia me mostraram que pais maravilhosos vocs so. Mame, a tristeza da sua ltima carta me fez sofrer. Tudo est calmo no setor e o moral est alto. Ento, eu lhe peo, no se preocupe tanto. Dividi as coisas com meus companheiros, mas foi o seu pat que fez mais sucesso; o prprio chefe disse que nunca tinha comido nada parecido. Muito bem, mezinha, voc no perdeu o jeito! Obrigado, papai, pelos recortes de artigos do Monde e do Humanit que voc mandou. Genial a sua idia de colocar dentro da Sciences et Vie/ Tive uma sensao estranha quando li; parecia que eles falavam de uma outra guerra. Fiquei com um gosto ruim na boca. E verdade que os jornalistas escrevem tranquilamente instalados atrs de suas mesas e descrevem uma guerra - uma "operao de manuteno da ordem", como eles dizem-da qual no conhecem nada. Deviam vir ver um pouco como ! Em vinte meses, no vimos ningum. Mas, eles no so bobos para vir nos atacar porque estamos num lugar alto, e eles ficariam muito expostos. Passamos os dias esperando. Esperando o qu? Que acontea enfim alguma coisa que acabe com esse tdio. Para mat-lo, o tdio, temos a cerveja. Bebem-se muitos litros. Falta pouco para que partir numa operao seja quase como partir numa excurso, pelo tanto que estamos de saco cheio! Quando samos de nosso buraco, parecemos animais, prontos a atirar em tudo que se move, tamanho nosso medo. Apesar de tudo preferimos isso a esse tdio viscoso que nos deteriora o esprito, a esse medo de um ataque dos fells que nos faz cagar nas calas.
Mas, por que estou falando disso, nesta noite to bonita e to gostosa ? Desculpem, eu adoro vocs, mas  minha vez de fazer a guarda. Um beijo carinhoso.
Seu filho que pensa todos os dias em vocs, Raymond.
Com os mesmos gestos cuidadosos, o pai dobrou a carta do filho, dobrou as hastes dos culos e enxugou o bigode com as costas da mo. Levantou-se pesadamente dando de ombros e foi para trs do balco, onde devolveu a carta  me.
- Eles s tm esse filho; o mais velho foi fuzilado pelos alemes e o segundo morreu em um campo de concentrao. - Comentou secamente Vincent.
Os dois ficaram em silncio, perdidos em seus pensamentos, depois:
- Preciso que voc v a Lille buscar o dinheiro recolhido. De carro,  coisa de um dia.
- Como voc sabe que eu tenho um carro? Ele ignorou a pergunta.
- Alm disso, voc pode hospedar um amigo argeliano? Voc deve ter um ou dois quartos de empregada numa casa como a sua... o que voc acha?
- Estou pensando... no  muito fcil o que voc est me pedindo, desde a guerra, no fao outra coisa seno me meter nas situaes mais inverossmeis. Parece que atraio os problemas! Detesto confuso, no entanto, aonde quer que eu v sou constantemente envolvida...
- Os homens no so impotentes a no ser que admitam que o so...
- Por que voc diz isso?
- No sou eu,  Jean-Paul Sartre.
- O que Sartre tem a ver com isso?
- Mais do que voc pensa.
- Ele tambm disse: "O destino que carrego  muito pesado para minha juventude, ele a quebrou."
Vincent olhou-a com o ar to surpreso que ela riu.
- Gostaria tanto de escapar a esse destino e conhecer enfim a alegria de viver! Mas como viver feliz quando em seu prprio pas, acontecem coisas que voc no pode aceitar? Seu amigo ficar muito tempo em minha casa?
- Se o esconderijo for seguro, uns dez dias no mximo.
- Quando voc precisa do quarto?
- Em quarenta e oito horas.
- Bom, ele estar pronto.
- Voc  maravilhosa! Lcida e corajosa...
- Inconsciente, diria meu marido...
- A propsito o que ele pensa da poltica do general de Gaulle?
- Evitamos falar nisso. Apesar da minha admirao pelo homem do

18 de junho, no consigo evitar um certo desagrado com o de Gaulle presidente da Repblica; o que entristece Franois. No que ele seja um partidrio incondicional de de Gaulle, mas ele lhe  reconhecido por ter rejeitado a derrota. Sem ele, Franois gosta de lembrar, ns teramos sido tratados como vencidos em 1945 e ocupados pelos americanos... Enfim, para responder  sua pergunta, ele  evidentemente favorvel  independncia da Arglia, como era  da Indochina. Mas, da a abrigar na casa dele militantes argelianos...
- Compreendo... Bom, assim que o quarto estiver pronto, ligue para Catherine neste nmero, dizendo que o vestido est pronto.
- S isso?
- Ela vai dizer o que voc deve fazer. Se tiver qualquer coisa urgente para me dizer deixe um recado aqui... Bom, agora v. Ei, no esquea seu cesto...
Saindo, La acenou amigavelmente para Armande e Hilaire.
A multido de donas de casa tinha desaparecido e s algumas retardatrias apressavam agora o passo. Os comerciantes cobriam suas bancas com lonas de cores desbotadas e abaixavam as grades das lojas; para eles tambm era hora de ir almoar.
Chegando em casa, La encontrou no console do vestbulo, um bilhete de Franois; ele pedia que ela se arrumasse porque, esta noite, iriam jantar romanticamente no
Maxim's. Feliz, ela foi para o quarto. "O que fao com o meu cabelo?", pensou ela, puxando-o para cima diante do espelho. Mentalmente, passou em revista seus vestidos preferidos: "Qual deles?"... De repente, sua alegria sumiu: "O que ele quer me contar?" Atirou-se na cama, subitamente desanimada. Por alguns minutos, pensamentos sombrios a invadiram.
- Que merda! - Gritou ela levantando-se bruscamente.
Tirou o vestido e atirou os sapatos de salto alto, colocou jeans, sandlias, escolheu uma camisa que amarrou na cintura. No quartinho de despejo, pegou vassoura e panos, depois abriu uma gaveta na cozinha,  procura das chaves dos quartos de empregada. Onde diabos ela as teria colocado?... Irritada, fuou em todas as gavetas sem sucesso. Talvez Philomne tenha precisado delas... Pegou a escada de servio e subiu os andares. As lajotas quebradas do sexto andar no tinham sido trocadas e as paredes do corredor pediam uma boa pintura. Um barulho de mvel arrastado veio do cmodo que servia de depsito;
mais uma das manias de Philomne: arrastar! Ela ouviu vozes; Philomne deve ter pedido ajuda  zeladora... La girou a maaneta.
Por um breve instante, os trs ficaram se olhando, fixos no mesmo espanto. Calmamente, La fechou a porta.
- Eu... eu vou explicar - Gaguejou Charles.
- No precisa, acho que j compreendi.
Sob seus olhares espantados, ela caiu na gargalhada.
- O que h de to engraado? - Perguntou Charles, desconcertado.
- No faa essa cara, ou no vou conseguir parar de rir! -Disse La no meio da risada. Eu tambm vou explicar... Mas, primeiro, apresente-me seu amigo... desculpe, senhor, mas creio que estamos numa situao bastante ridcula...
- Ridcula? - Repetiu um rapaz moreno com um belo rosto fino.
- Sim, e voc vai ver por qu..'. Bem, vamos sentar... vamos, no fiquem plantados assim... vocs preferem ficar de p? Como queiram... Imagine, Charles, que eu vinha arrumar este quarto porque queria acolher um amigo... mais precisamente, um compatriota do senhor... vamos, recupere-se, querido!
- O qu?... mas, ento... era voc que estava no trem em Lyon, no outro dia?
- Hein? Voc tambm estava l?... Eu preferia que voc no se metesse nisso.
- E eu, tambm!... Enfim, apresento Ali, que vai passar alguns dias...
- Ali, como  original... Bem, sr. Ali, estou no momento numa situao embaraosa: prometi hospedar algum, e voc est aqui. Como fazer?
- La, por favor, pare de falar assim. Voc pode ver muito bem que embarcamos na mesma aventura...
- Por que voc no me disse nada?
- Porque voc teria tentado me dissuadir.
-  lgico!... Eu no fui tir-lo de Sierra Maestra para voc se complicar em Paris hoje em dia. Voc sabe,  muito grave o que estamos fazendo. E nem tenho certeza de que estamos certos de ficar do lado dos que nos combatem.
- Madame, no  o povo francs que combatemos, mas um sistema perverso, estabelecido pela colonizao, que explora sem escrpulos um outro povo e o mantm na ignorncia e na misria. A guerra da Arglia no  a guerra dos rabes contra os europeus, nem dos muulmanos contra os cristos. Tambm no  a guerra do povo argeliano contra o povo francs.  a guerra de uma nao que luta por sua independncia, para viver livremente na terra de seus ancestrais, como seres humanos e no como escravos.
Vocs, franceses, passaram por isso no faz muito tempo... Uma grande parte da humanidade tremeu recentemente por causa da onda do nazismo. Os pases mais visados por essa manifestao uniram-se e engajaram-se no apenas para libertar seus territrios ocupados, mas para ferir literalmente o nazismo, liquidar os regimes que deram origem a ele. Bem, os povos africanos devem tambm se lembrar que foram confrontados por uma forma de nazismo, uma forma de explorao do homem, de liquidao fsica e espiritual, lucidamente conduzida. Homens argelianos e mulheres argelianas tombam todos os dias, ceifados pelo furor homicida de uma soldadesca descontrolada.
A guerra no  condenvel porque o exrcito francs se desonra com ela e os convocados aprendem a ser fascistas. A guerra da Arglia no  a vergonha da Frana.
A guerra da Arglia  primeiramente a infelicidade do povo argeliano!
Plido, com os olhos queimando de paixo, o jovem argeliano calou-se, sem flego. La e Charles no ousavam olhar para ele. Argumentos parecidos La j tinha ouvido da boca de vietnamitas e ela s podia estar de acordo com eles; apesar da amargura que sentia vendo a Frana ser comparada  Alemanha nazista. No encontrava palavras para justificar seu prprio pas, que chamava de "pacificao" ou de "manuteno da ordem" uma guerra sem piedade, contra um povo cujo nico erro era no querer depender de ningum. Ali recolheu uma bolsa e uma maleta velhas.
- Vou embora.
- Fique! - Exclamou La.
Indeciso, a mo na maaneta da porta, o rapaz interrogava Charles com o olhar, o qual, por sua vez, examinava La.
- Obrigado. - Murmurou ele enfim, abraando-a.
- Em vez de nos emocionarmos, que tal ver o que podemos fazer no outro quarto?
A luz rosada deixava todas as mulheres bonitas. La, em particular, estava maravilhosa no seu longo tubinho preto, que revelava toda a elegncia de sua silhueta.
Ela havia prendido os cabelos para cima. Contra seu pescoo fino balanavam longos brincos de brilhantes. O jantar estava extraordinrio e o Chteu-Lafite 1947, uma maravilha.
- Adoro estar aqui com voc. Me faz lembrar de muitas coisas... Voc se lembra?
Franois pegou a mo dessa mulher to linda, to comovente, pela qual ele morreria. Ele no se cansava de v-la viver, sempre com um medo, dentro dele, de perd-la ou de que ela se apaixonasse por outro. Ele ficara sabendo da ligao dela com Camilo Cienfuegos, mas ele mesmo no tinha sido sempre fiel. Porm, quando ela voltou, ele compreendeu que ela tinha amado, talvez ainda amasse, o sedutor comandante. Ele no tentou saber mais. Por medo? Amor prprio? O fato  que, desde que percebeu que ela parecia se afastar dele quando ele falava da guerrilha, no fez mais perguntas.
- Vamos danar - Convidou ela com um sorriso maravilhoso. Eles se levantaram e dirigiram-se para a pista. Os homens seguiam
La com os olhos, enquanto suas acompanhantes demoravam os olhos nos ombros largos de Franois.
Bem apertados um contra o outro, eles danaram uma msica lenta. Depois, o ritmo se tornou mais lascivo, a cadncia se acelerou. Os quadris de La ondulavam.
Ela no pde ignorar o efeito que produziu no seu cavalheiro. Com um riso gutural, ela acentuou o rebolado.
- Pare. - Cochichou ele, beijando-a no pescoo. - Voc vai me fazer gozar!
Ela jogou a cabea para trs, os olhos semicerrados.
- Como voc  bonita!
A msica parou pouco depois. Eles voltaram para a mesa. Por um momento ainda, permaneceram em silncio, encarando-se, como se quisessem guardar para sempre a imagem um do outro. O clief dos vinhos aproximou-se, trazendo uma garrafa de champanhe.
- Aqui est o Dom-Prignon que o senhor pediu, sr. Tavernier. Quando a rolha saltou e as taas se encheram, eles as levantaram.
Durante toda a operao, no tiraram os olhos um do outro. O que leram nesse olhar encheu-os de uma felicidade to intensa que extraram dela um sentimento de fora.
Os aplausos,  entrada de uma famosa dupla de comediantes, foraram-nos a voltar  realidade.
- O que voc tem para me dizer? - Pronunciou La ternamente.
- Voc adivinhou?
- Sim. Eu o conheo bem, voc sabe... Quando voc parte?
Apesar da aparente segurana, sua voz tremeu ligeiramente nas ltimas palavras. Novamente, Franois odiou-se, chamou-se de imbecil, de canalha, quando se ouviu responder:
- Amanh.
Ela apoiou os dois punhos, um de cada lado do corpo, no veludo do assento, subitamente invadida por uma angstia, sentindo a prpria pulsao nas tmporas. Ficou assim por um momento interminvel, imvel, o corpo tenso, os olhos brilhantes. A fim de disfarar a emoo que causava o sofrimento contido de sua mulher, Franois acendeu um charuto. Automaticamente, a mo direita de La pousou no lado da fronte, e seus dedos comearam a bater num ritmo todo prprio.
Os dois sabiam que no havia nada a acrescentar e que nada de bom poderia vir de uma nova separao. Era mais forte que eles, acima mesmo do amor. Ambos eram levados a fazer escolhas que sabiam serem perigosas. Mas precisavam do perigo como outros precisam de paz e segurana.
Nessa noite, o prazer teve gosto de lgrimas.

Captulo V

J era noite quando o Caravelle, vindo de Paris, pousou no aeroporto de Maison-Blanche, em Argel. Franois tomou um txi e rumou para o Hotel Saint-George. Na cidade, as rajadas de um vento vindo do deserto agitavam as palmeiras e levantavam a poeira das ruas. Os pedestres avanavam curvados, rente aos muros. No hall do hotel reinava uma afabilidade efervescente; todo mundo parecia se conhecer e se cumprimentar alegremente. O argeliano que carregava a bagagem parou diante do porteiro;
o homem contemplava com um olhar complacente a multido de europeus endomingados que se agitavam no seu estabelecimento.
- Ah, sr. Tavernier, ns o aguardvamos. Seja bem-vindo... Ahmed, leve a mala do senhor ao quarto 113... Bem, o senhor no  supersticioso, no ?
Franois no respondeu. No salo vizinho, uma orquestra tocava. Apesar dos ventiladores, fazia muito calor, e muitos homens vestidos de branco enxugavam o rosto ou a nuca. Uma mulher com um decote profundo, cercada por uma nuvem de perfume forte e adocicado, empurrou Franois; ela ria das brincadeiras de um homem gordo, com roupas vistosas, o perfil gordo de imperador romano misturado com espanhol. Seus olhos eram sombreados por olheiras escuras, cujo efeito devia ser irresistvel sobre certas mulheres...
Franois reconhecera Joseph Ortiz, dono do caf Frum, com quem cruzara, no ano anterior, nos corredores do Governo Geral, em companhia de Pierre Lagaillarde e do general Massu. Ortiz tambm o viu; largou o brao de sua companheira e dirigiu-se a ele, com os braos abertos.
- Tavernier!...  uma surpresa v-lo aqui! Voc veio tomar a temperatura de Argel para fazer um relatrio ao General? Bem, eu o autorizo a lhe dizer, da parte dos partidrios da Frente Nacional Francesa, que ns somos contra a autodeterminao, mas a favor da unio dos componentes das populaes da Arglia e do Saara, pela integrao territorial definitiva dos departamentos argelianos e do Saara, pela reforma das instituies e manuteno dos ideais de 13 de maio...
- Por favor, Ortiz, guarde sua propaganda, no estou interessado!
- V brincando, Tavernier. - Reprovou o dono do caf. - Se voc ficar em Argel, voc ir de espanto em espanto. E o General, tambm! A simples palavra "autodeterminao"
me faz pular; e, acredite, muitos esto assim, tanto civis quanto militares. Chegamos ao famoso direito dos povos de dispor deles mesmos. Mas, em funo de que critrio?
As minorias, tendo tornado os territrios salubres, tendo fundado ao preo de sangue e de lgrimas um pas rico e prspero, fatores que permitiram aos nativos crescerem e multiplicarem-se (voc sabia que a populao muulmana quintuplicou-se desde 1830?), vo ver sua nacionalidade de franceses depender do resultado do voto!  inaceitvel!
-  o que se chama democracia...
- Dane-se a democracia! Voc acha que a chegada do seu de Gaulle ao poder foi democrtica?
- As formalidades foram respeitadas...
- Bobagem! De Gaulle beijou a Frana, mas no vai beijar a Arglia francesa!
- No entanto,  graas  Arglia que ele  hoje Presidente da Repblica.
Ortiz deu um profundo suspiro.
- Como se eu no soubesse. -Disse ele, enxugando o rosto molhado de suor com um leno de seda branca.
Diante da expresso despeitada do Presidente da Frente Nacional Francesa, Franois teve muita dificuldade em se manter srio. No entanto, no era o momento de dar as costas a esse personagem que tinha acesso a todos os ambientes argelianos e cuja lbia fazia maravilhas junto aos ativistas de todo o tipo e que gozava de proteo tanto da polcia como de informantes na Casbah.
- Vamos, no se preocupe tanto... Vamos ao bar, eu lhe ofereo um drinque.
- Por que no bebemos  Arglia francesa?
- Se voc insiste! - Replicou Franois, desviando-se da mulher excessivamente perfumada.
O bar estava lotado com a fina flor da sociedade argeliana. Alguns oficiais conversavam animadamente com o deputado Pierre Lagaillarde e o tenente Bernard Many, duas figuras importantes do 13 de maio. Foi Jean Pouget que apresentou Many a Franois; o comandante fizera-lhe uma exposio sobre esse suboficial que ele apreciava, apesar de suas simpatias pelos deputados Le Pen e Demarquei, e das relaes que ele mantinha com os antigos combatentes da LVF e da diviso Charlemagne. Many jamais se recuperara da morte de seu pai, conhecido pelo nome de Paul Riche, que foi, entre 1941 e 1944, redator chefe do Pilori, depois, diretor do Appel, publicaes nas quais denunciara aqueles que considerava responsveis pela guerra: os judeus e os franco-maons. Na Liberao, Paul Riche entregou-se e ficou preso durante cinco anos em Fresnes, sendo depois fuzilado em 1949. Louco de dio, no desejando seno vingana, seu filho comeou ento a freqentar os ambientes de extrema direita, chegando mesmo a vender nas ruas de Paris um dos jornais desses grupos, Parole frminise. Denunciado, por sua vez, nas colunas do Humanit, "o filho do assassino"
rapidamente conquistou uma mistura de inimigos entre os comunistas, os judeus, os franco-maons e os gaullistas. Apesar disso, o jovem Many havia observado bem as ordens de Pouget, no dia 13 de maio, e se encontrava, camuflado, em companhia de Lucien Neuwirth e de Franois Tavernier quando eles tomaram as instalaes da Rdio
Argel. O que ele no faria em nome da Arglia francesa? Aceitar at o retorno ao poder daquele que, segundo ele, mandara fuzilar seu pai! Quando algum argumentava que de Gaulle no estava mais  frente do governo naquele momento, ele dava as costas, com ar de quem sabe muito bem.
Havia poucas mulheres no bar do Saint-George. Franois instalou-se numa banqueta em frente ao balco de mogno.
- O que voc vai beber? - Perguntou a Ortiz.
- Um conhaque... sem gelo.
- E a senhora?
- O mesmo. - Disse, de maneira afetada, a mulher. - Jo, voc no me apresentou o senhor...
- Desculpe-me... Sr. Tavernier, Madame Jeanne Prez.
Franois inclinou-se, antes de se dirigir ao barman.
- Trs conhaques sem gelo, por favor... Voc  parente do doutor Jean-Claude Prez?
- No, mas conheo bem Jean-Claude; ele  uma das figuras populares da nossa comunidade. Todo mundo gosta dele,  um filho de Bab el-Oued...
Enquanto esperavam as bebidas, Franois observava em volta. Alm de Pierre Lagaillarde e Bernard Many, reconheceu o coronel Gardes, que conhecera no gabinete de imprensa do general de Lattre, na Indochina. Depois da partida de de Lattre, ele o encontrou em companhia do general Saiam. O coronel estava em Hani no momento da libertao do campo nmero 1. Eles trocaram algumas palavras sobre as condies de deteno nos campos vietnamitas. Gardes mostrou-se muito interessado nos mtodos que os comissrios polticos vietnamitas empregavam para quebrar o moral dos prisioneiros e lev-los a admitir que no passavam de "porcos a servio do imperialismo".
Franois lembrava-se de ter lhe contado o suplcio ao qual tinha sido submetido depois de uma tentativa de fuga: cotovelos e punhos amarrados nas costas com uma corda que passava pelo pescoo e cujo n se apertava a cada movimento dos braos; atacado  noite por nuvens de mosquitos, ele no podia se defender sem se enforcar.
Essa tortura durou oito dias. Depois, foram as formigas, depois o cercado de porcos, a noite, meio selvagens, que s aguardavam um momento de fraqueza do prisioneiro para se jogarem sobre ele e devor-lo. Ele devia sua sobrevivncia a um velho que, todas as noites, lhe trazia, s escondidas, um bolo de arroz e ficava l por um tempo, mantendo os porcos  distncia, para que ele pudesse dormir uma hora ou duas. Um dia, no entanto, tiraram-no da pocilga. Apesar de procurar pelos campos, jamais reencontrou esse bom homem.
- Os conhaques, senhor. - Disse o barman, apoiando os copos no balco.
- Tim-tim! - Exclamou Ortiz.
Franois se contentou com um "obrigado" e bebeu de um gole s.
- Eis o que eu chamo de beber. Admirou-se o dono do Forniu, engolindo o seu. - Barman, por favor, outra rodada... Coronel, o senhor toma um drinque conosco?
Gardes parou diante deles, cumprimentou Jeanne Prez e estendeu a mo a Joseph Ortiz.
- No h como recusar. Mas... Tavernier!... Que surpresa!... Quando voc chegou?
- H uma meia hora... Prazer em rev-lo, coronel.
- Seria indiscreto perguntar o que voc veio fazer em Argel?
- No, venho ver Delouvrier.
Gardes e Ortiz trocaram um olhar que no escapou a Franois.
- Certamente,  o General que o envia - Resmungou Ortiz.
-  verdade? - Inquietou-se Gardes, com um tom de voz em que se sentia a desconfiana.
- Vocs sabem muito bem que no fao poltica.
- Isso no  uma resposta!
- Desculpe, caro amigo, mas no posso lhe dar outra... Como esto os negcios? - Perguntou, virando-se para Ortiz.
- Como voc quer que estejam, com a FLN jogando bombas por todo o lado e com o toque de recolher?
- No para todos, pelo que vejo...
- V debochando... Noites como esta so raras hoje em dia. Mas, isso vai mudar, dou-lhe minha palavra!
- Como?
-  Voc ver... Mas, preciso ir; tenho uma reunio.
- To tarde?
- No existe hora para os bravos... Boa noite, Tavernier. E, obrigado pelo drinque!
Seguido de Jeanne Prez, ele sumiu rapidamente.
- Ele no mudou, sempre garganteiro. - Observou Franois, virando-se para Jean Gardes. O senhor parece preocupado, ou estou enganado?
- No  para menos! Com sua poltica, o general de Gaulle nos conduz  catstrofe.
Seus olhos brilharam como os de um homem devorado pela febre; suas faces encovadas comeavam a se cobrir com uma barba cerrada. Ele parecia nervoso, ainda que controlado.
- Os muulmanos no so capazes de decidir por si mesmos; a autodeterminao seria um erro. Como de Gaulle declarou que havia trs solues: a secesso, o afrancesamento completo ou o governo dos argelianos pelos argelianos; ns escolhemos o afrancesamento. O exrcito tambm.  preciso obrigar os franceses da Arglia a aceitar a integrao completa.  preciso que mudem a forma de pensar, os muulmanos devem se tornar iguais a eles. Alis, essa tambm  a opinio do general Challe...
Enquanto escutava, Franois raciocinava rapidamente. Gardes acabava de lhe passar uma informao importante: Challe, o comandante em chefe do exrcito na Arglia, no obedecia completamente, segundo ele, s orientaes de Paris.
- No  verdade, Gardes! Voc sabe muito bem que pessoas como Ortiz, para falar apenas dele, no concordaro nunca que os muulmanos tenham os mesmos direitos que eles.
- O que era verdade em 58 no  mais hoje em dia. As coisas mudaram, voc vai perceber logo... Mas, o que aconteceu com Delbecque, Neuwirth e seus outros companheiros gaullistas? Ouvi dizer que esto se pegando...
-  preciso no acreditar em tudo que se ouve no Lipp ou no restaurante de sua me...
- Voc sabe to bem quanto eu, Tavernier, que diante de uma boa mesa, depois de duas ou trs taas de um bom vinho, um drinque, um charuto; as lnguas se soltam como por milagre. O restaurante da rua Bac  freqentado apenas por funcionrios, jornalistas e polticos. L, estamos entre ns...
- No duvido. Alm de ter uma excelente cozinha, o Ministres tornou-se, concordo, uma fantstica fonte de informaes e o endereo ideal para lanar falsos boatos...
O coronel Gardes acusou o golpe. Chefe do quinto gabinete, responsvel pela ao psicolgica em Argel, ele sabia muito bem disso tudo.
- Se tiver tempo venha me visitar. - Interrompeu ele, estendendo a mo a Franois. - Voc ver como trabalhamos. No momento, desculpe, o trabalho me espera.
Os dois homens apertaram as mos, e Gardes deixou o Saint-George junto com Bernard Mamy. Chegando ao quarto, Franois perguntou-se se eles iriam encontrar-se com
Ortiz...
Na manh seguinte, a campainha do telefone despertou Franois; era La.
- Bom dia, querida... Sabia que voc  o galo mais bonito que eu conheo? -Disse alegremente, bocejando.
- Ah, desculpe! Pensei que voc j tivesse acordado faz tempo...
- Pr que? Que horas so?
- Quase nove horas.
- Pelo amor de Deus! Tenho entrevista marcada com Delouvrier s dez. Desculpe, mas preciso desligar... Est tudo bem? As crianas?... Eu ligo esta noite, tudo bem?
Um beijo... Te amo!
Ele desligou o telefone e correu para o banheiro. Meia hora depois, pegava um txi.
- Para a sede do Governo Geral, e rpido!
No primeiro andar do GG, um oficial o esperava. O homem bateu  porta, entrou na frente dele e anunciou-o. Franois entrou, por sua vez, no gabinete vermelho de
Salan e de Soustelle.
O velho e brilhante diretor geral de impostos que ele conhecera no gabinete de Georges Pompidou, quando este ltimo dirigia o gabinete do general Charles de Gaulle, havia perdido sua soberba. Fazia apenas um ano que Paul Delouvrier fora nomeado delegado geral na Arglia, substituindo o general Salan. Parecia ter diminudo de altura e seu terno, muito bem cortado, estava largo para ele. Seu rosto, normalmente franco e aberto, enfeitado por um fino bigode, a larga testa desguarnecida, estava agora plido e tenso. Levantou-se  entrada de Franois e veio em direo a ele, apoiando-se numa bengala.
- Bom dia, Tavernier. Prazer em v-lo... Est estranhando minha bengala? Herana de uma fratura de fmur, que me faz sofrer bastante; devia voltar a Paris para operar.
Mas, agora no  o momento, acredite... Bom, sente-se e vamos direto ao assunto. O general de Gaulle encarregou-o de uma misso; sem dvida da mesma natureza daquela de que me encarregou quando era presidente do conselho: observar tudo na Arglia e fazer-lhe um relatrio pessoal.
-  mais ou menos isso. - Respondeu ele, entregando a ordem de misso assinada pela mo do Chefe de Estado.
Paul Delouvrier leu rapidamente.
- Bem, desejo-lhe boa sorte! -Disse ele, devolvendo o documento. - Foi em seguida a essa primeira misso que fui nomeado... Portanto, pode ser que esteja na frente de meu sucessor! Se for assim, ficarei contente...
- Eu, no... De qualquer modo, no h nenhuma possibilidade: no tenho nem competncia nem gosto pelas funes de delegado geral.
- Eu tambm no tinha! Entretanto, voc est aqui... J em 57, 58, voc veio para a Arglia a pedido do General, no foi? E, acredito que voc teve alguma coisa a ver com o retorno dele  chefia do Estado...
-  um velho hbito meu: no consigo resistir a ele... Delouvrier riu, nervoso.
- Voc ainda tem senso de humor, Tavernier. Com um ano de Arglia, perdi o meu. Se voc estivesse no meu lugar, acho que tambm perderia... Tavernier, estou preocupado, muito preocupado. E j falei sobre isso com o Presidente da Repblica, principalmente no que se refere ao exrcito, mas por pouco ele no riu na minha cara: "Mas,
Delouvrier,  lgico que os oficiais obedecero. Quando um militar se mete a fazer poltica, s faz bobagem. Veja o Dreyfus! O negcio deles  luta local." De todos os lados, entretanto, me chegam informaes alarmantes. Alguma coisa est acontecendo em Argel mesmo. O anncio do projeto de autodeterminao mergulhou a populao europia da cidade no abatimento, depois na irritao, e por todos os lados os ativistas se agitam. Os oficiais, sob o pretexto de buscar informaes, comprometem-se com eles, quando no levam, eles prprios, informaes... Os do 5- gabinete so abertamente hostis  poltica do General, e temo a atitude deles. Pedi a transferncia de alguns deles e, no entanto, ainda estou aguardando. Os ativistas tambm se armam, e Massu, o bravo Massu, est comprometido com eles, mesmo que no se d conta disso... Quando recomendo-lhe que seja prudente, ele me responde: "em caso de confuso, eles me informaro". O imbecil! Os coronis divertem-se a custa dele! Ortiz, o dono do Frum, o manipula e se vangloria de "um pacto feito com Massu". O homem da batalha de Argel acredita sinceramente que sua popularidade ser suficiente para manter a ordem e que Ortiz e os seus so "pessoas valentes, profundamente patriotas". Como faz-lo compreender que est num jogo perigoso com pessoas mais espertas que ele?
O delegado geral calou-se e considerou longamente seu interlocutor como se esperasse uma resposta; ela no veio. Ele levantou-se e aproximou-se da janela, mancando;
dali, via-se a cidade branca. Franois juntou-se a ele. Do mar, cor de chumbo sob o cu cinzento, parecia subir uma ameaa. As palmeiras dobravam-se sempre com as rajadas de vento. Com os olhos fixos, Delouvrier disse, como se falasse sozinho:
- "Ns devemos tirar a Arglia da misria", disse-me o General, "para lhe dar a possibilidade de escolher". Escolher o qu? E como? Entre os rabes e os ps-pretos da Arglia francesa... Qual Arglia ele quer?... E o Saara, o gs do Saara?... "Vocs so a Frana na Arglia..." Esta situao  lamentvel!
O delegado geral devia estar exausto para se mostrar assim to derrotista. Esse homem inteligente, habitualmente to seguro de si, de raciocnio rpido e que tinha aceitado esse posto com completo conhecimento de causa, mostrava-se, sem dvida pela primeira vez na vida, desamparado. Fazendo um esforo sobre si mesmo, endireitou-se, voltou-se para o visitante, forando-se mesmo a sorrir.
- Desculpe-me, no costumo me deixar levar... Devo estar cansado para fazer isso! Esquea o que eu disse, est bem? Voc receber toda a ajuda para cumprir a misso que o General lhe confiou, e meu diretor de gabinete, Michel-Jean Maffart, facilitar sua tarefa em tudo que for possvel; ele  de minha inteira confiana... Quando voc vai ver o general Challe?
- Nesta tarde mesmo.
- Bem...  um antigo membro da Resistncia, como ns. Tem feito um bom trabalho desde que est aqui, e nossa colaborao  estreita. "Jamais haver algo entre mim e Challe..." Alguma pergunta?
- Sim... O que o senhor pensa realmente da situao? Quero sua opinio pessoal e no aquela que sua funo dita. Dou-lhe minha palavra de honra de que nada do que o senhor disser sair desta sala.
Com os olhos brilhantes, Delouvrier sustentou o olhar, tentando ler nele a verdadeira natureza do que enfrentava. Seu exame deve ter parecido satisfatrio; deu um sorriso amigvel, o primeiro desde o comeo da entrevista.
- Tenho muita estima por voc, Tavernier, mas o que dizer que voc ainda no saiba?... A Arglia est perdida para a Frana... Ningum aqui quer admitir isso...
Estou sozinho... e... no confio mais em ningum... Entretanto, pode garantir ao General; cumprirei o meu dever.
Franois no duvidava disso e lamentou no poder dar a ele algum conforto.
- Quando poderei ver Maffart?
- Ele est em seu gabinete, aguardando voc... Esta noite, minha mulher e eu receberemos alguns amigos no palcio de Vero; gostaria de ir?
- Com prazer... Como vai a sra. Delouvrier?
- Muito bem, apesar da gravidez avanada...
- Eu no sabia... Parabns!
- At a noite, ento; no  preciso traje especial,  um jantar ntimo... Oito e meia, est bem?
- Perfeitamente. Obrigado... At a noite, senhor delegado.
- Minha secretria vai acompanh-lo.
Saindo da entrevista com Maffart, Franois ficou pensativo. O diretor dos gabinetes civil e militar mostrou-se, no entanto, calmo e corts. Com ar de sono, por trs de seus culos de armao fina, ele respondeu calmamente s perguntas do enviado do general de Gaulle, no se permitindo seno uma ou duas observaes pessoais perspicazes.
Franois sentiu que, sob sua aparente indolncia, os cabelos de um loiro plido, a expresso de papel mach, escondia-se um trabalhador infatigvel, de inteligncia aguda. Maffart s aceitara deixar a Corte de contas e o Conselho de Estado por amizade a Delouvrier, mas com a condio de "poder partir a qualquer momento se no estivesse mais de acordo e tambm com a condio de no ter de fazer o contrrio do que voc disse". Quando saiu de l, Franois sentiu que ia se entender com esse homem gorducho.
Tavernier atravessou a Praa Clemenceau, chamada de Frum pelos argelinos. Era a hora do anisete e havia muita gente no Bulevar Marechal-Foch. Quando passava em frente a Frum, algum o chamou l de dentro. Franois parou e viu Ortiz, vestido com um terno escuro, que vinha em direo a ele.
- Bom dia, Tavernier. Seu encontro com o delegado geral correu bem? Voc no acha que ele est um pouco deprimido, o pobre homem?
Aparentemente, Joseph Ortiz estava bem informado.
- Deprimido?... No, no achei. Com um pouco de dor, talvez, por causa da perna... Mas, quanto ao resto, pareceu-me dos mais determinados...
- Ah, bom! - Disse Ortiz, mal disfarando a contrariedade. Depois recompondo-se, acrescentou:
- Se voc no tiver nenhum compromisso para o almoo, eu o convido. Ademais, voc no pode recusar: isso tambm faz parte de sua misso, no ?
Decididamente, todo mundo sabia bem qual era sua misso! Difcil manter-se incgnito em Argel...
- No, no tenho compromisso para o almoo... Aceito de bom grado.
Ortiz entrou na frente e levou-o a uma mesa de canto.
-  meu lugar habitual: daqui, vejo tudo que se passa, tanto dentro, quanto fora...
Um garom trouxe dois copos de anisete e um prato de amendoins. Uma grande animao reinava na sala; clientes entravam e saiam, cumprimentando-se ruidosamente de uma mesa para outra. Todos pareciam se conhecer e alguns deles deviam estar se perguntando quem poderia ser aquele frangaou sentado na mesa do dono. Em todo caso, para ter sido convidado, devia ser algum importante; o grande Jo no se sentava com qualquer um.
- Posso? - Perguntou um rapaz frgil, de rosto plido.
Sem esperar resposta, sentou-se ao lado de Ortiz, na frente de Franois Tavernier, a quem examinou com um ar insolente.
- Claro, filho, voc  bem-vindo... Mustapha! Um anisete para meu amigo... Tavernier, apresento-lhe meu amigo Jean-Jacques Susini, nossa cabea pensante.  estudante de medicina e fundou seu prprio movimento, o movimento nacionalista estudantil, mas no hesitou em juntar-se s fileiras da FNF, onde faz um trabalho notvel.
Olhe bem para ele, Tavernier, voc ainda vai ouvir falar dele!
- No duvido. - Respondeu Franois, com um sorriso irnico que, de outras vezes, j lhe rendera slidas inimizades.
Ele tambm examinou o estudante precocemente calvo, cujos olhos brilhantes fixavam sempre os seus.
- O que era necessrio, veja bem, Tavernier,  que o exrcito tomasse o poder para garantir nossa presena aqui, na Arglia. - Continuou Ortiz, dando uma piscada para seu jovem companheiro.
- Voc acha que o exrcito est pronto para um golpe de Estado? - Espantou-se Franois.
- O exrcito, assim como os ps-pretos, sente-se trado por de Gaulle. "Ele no combateu depois de tantos anos sobre o solo argeliano, que  terra francesa e cujo desenvolvimento ele assegurou, instruindo e cuidando de suas populaes, para abandon-lo nas mos dos comunistas ou de um punhado de terroristas que o faro voltar  ignorncia e  barbrie! Jamais aceitaremos isso!"  preciso que voc e a banda gaullista no poder estejam bem conscientes disso! - Exclamou Susini.
- Ns recusamos qualquer soluo que no leve  integrao! - Exclamou, por sua vez, Ortiz. - Qualquer outra frmula desencadearia um processo irreversvel, levando  independncia. E isso, ns no queremos.
Resistiremos com todas as foras. Esta terra  nossa, no a abandonaremos jamais! Entre a mala e o caixo, escolhemos o caixo!
- Est muito claro. - Soltou displicentemente Franois, tragando seu cigarro.
- O povo da Arglia est conosco. - Acrescentou Ortiz.
- Voc quer dizer os europeus. O que voc faz com os oito milhes de muulmanos? - Objetou Franois.
- A grande maioria dos muulmanos est conosco. Eles sabem que no ganham nada se separando da Frana. - Respondeu logo Ortiz.
- Se voc diz... - Constatou simplesmente Franois.
Um argeliano, carregando uma bandeja muito pesada, aproximou-se da mesa e colocou os pratos.
- Isso parece muito bom - Disse Tavernier, aproximando o nariz do que tinha sido posto diante dele.
-  uma especialidade da casa... Voc vai adorar! - Afirmou Ortiz, com um ar satisfeito.
Durante alguns minutos, os trs homens comeram em silncio, bebendo um vinho tinto de perfume inebriante.
- Voc pretende ficar muito tempo por aqui? - Perguntou repentinamente Susini.
- Depende...
- Voc deveria ir assistir a uma de nossas reunies. - Disse o dono do Frum. - Voc compreenderia melhor a situao.
- Na verdade, isso muito me interessa - Admitiu Franois.
- Vamos fazer em breve uma reunio no Majestic. Pedi a Massu que ponha a sala  nossa disposio. Ele concordou, com a condio de que no ataquemos o Chefe de Estado;
o que prometi a ele. "Lembrem-se, acrescentou ele, do que eu disse um dia: sei que vocs podem tomar a Arglia, mas eu a retomarei em vinte e quatro horas." Ento, respondi: "Eu sei, meu general, que se eu decidisse jogar a FNF, o senhor saberia quarenta e oito horas antes, porque seria a seu pedido ou o senhor teria sido transferido.
Foi o senhor mesmo que me disse que j tentaram destitu-lo e que, em Paris, estavam contra os mtodos que emprega para lidar com os rebeldes: o senhor incomoda o poder, porque  muito ouvido aqui, tem muito prestgio junto a todas as populaes deste pas. Temo que de Gaulle no o considere mais como 'seguro'. Mas, no dia do seu afastamento, toda a Arglia devia se levantar, porque esse ser o sinal precursor da aplicao de novas medidas favorveis aos rebeldes. - Sim, me disse ele, voc est certo."
Nos propsitos de Joseph, Franois via delinearem-se as premissas de um compl poltico contra o general de Gaulle. Ficou espantado, contudo, com a importncia que
Massu parecia atribuir ao movimento de Ortiz. Decidiu procurar o vencedor da batalha de Argel e ouvir dele, pessoalmente, o que pensava.
Depois do caf, do licor e dos charutos, Tavernier despediu-se polidamente de seu anfitrio e de Susini.

Captulo VI

Paris, 18 de outubro de 1959. Meu amor,
Parece que faz muitos meses que voc partiu, de tal forma o tempo voa. Deveria ter insistido em acompanh-lo: no conheo a Arglia, seria a oportunidade... Mas, j ouo voc reclamando: "Ah, ela sabe escolher o momento! Sempre querendo ir aonde no deve... A aventura cubana no bastou... Madame procura emoes fortes...
Ela gosta do cheiro de poeira, do suor dos combatentes... Muito bonito!"
No, no  dos combatentes que eu sinto falta, mas de voc, querido. "Ah, estou desconfiado: quando ela me chama de meu querido,  encrenca, na certa!..."
Fique tranqilo: tudo est bem, aqui. Charles retomou o curso, Adrien, Camile e Claire esto to bagunceiros como sempre, Philomne  decididamente um amor e, em
Montillac, onde as colheitas foram curtas, o vinho ser maravilhoso, mas pouco. Para escapar ao tdio, levo uma vida bem social. Teatro: assisti, no teatro Montparnasse, a uma representao de Beckett ou 1'Honneur de Dieu, de Jean Anouilh. Durante toda a pea, pensei em meu tio Adrien. Como sinto falta dele, s vezes!... Fui convidada para a premire de Ngres, de Jean Genet. Talvez voc j esteja de volta. A, iremos juntos. Cinema: assisti  Intriga Internacional, um bom Hitchcock, e o ltimo
Bergman, muito intelectual para mim. Fui ver Quanto mais quente melhor pela terceira vez: adoro esse filme! Vernissages: nada de excepcional... Grandes costureiros:
voc no vai acreditar, fiz umas loucuras! Mas para compensar um pouco essas futilidades, vou de vez em quando ao bar do Pont-Royal para conversar sobre literatura ou poltica. Fui com Charles ouvir uns cantores jovens, podia ser me deles...
Ele adora um tal de Claude Moine e seu grupo, os Five Rocks, que se apresentam no Golf-Drouot, o novo templo da juventude francesa. Entretanto, no chega aos ps do
Rei! Mas, quem poderia igualar-se a Elvis Presley?
Mudando de assunto completamente: voc est sabendo da demisso de seus "cmplices"do 13 de maio, Delbecque, Thomazo, Biaggie Cathala, da UNR? Na verdade, foram nove que se afastaram do movimento, mas esqueci o nome dos outros. Eles saram, alegando "a impossibilidade em que estavam de se pronunciar sobre o afrancesamento, nica soluo capaz, segundo eles, de manter a Arglia francesa". No compreendo: esse Lon Delbecque me parecia um homem inteligente; como pode se enganar dessa maneira? Preciso que voc me explique. Fala-se muito, tambm, no Pont-Royal, das declaraes feitas na Assemblia por um outro de seus aclitos, Licien Neuwirth, anunciando que "comandos de assassinos atravessaram a fronteira espanhola para matar personalidades suspeitas de no serem favorveis  Arglia francesa, esperando com isso impressionar suficientemente a populao, para que no intervenha". E para piorar, ele acrescenta (palavras dele): "dezoito meses depois de uma revoluo pacfica, sem uma gota de sangue, pode ser que estoure um conflito interno fratricida". O mais engraado - modo de falar! -  que os fatos acabam de lhe dar razo:
Franois Mitterrand, senador de Nivre, escapou ontem, em plena Paris, de um atentado. Perseguido por seus agressores, ele teve que abandonar o carro e refugiar-se nos jardins do Observatrio; diversas balas atingiram seu carro vazio. Haver uma relao entre o caso e as declaraes de Eucien Neuwirth?  o que todo mundo aqui, no Pont-Royal, na Flore e na cervejaria Eipp, se pergunta. Roger Vailland diz que  lorota, que se trata de uma armao. Aguardemos... Voc, que conhece bem
Franois Mitterrand, o que acha ? Ele seria capaz de maquinar uma coisa dessas?
E voc, vai ficar ainda muito tempo em Argel? As crianas sentem muito a sua falta, voc sabe. Sem falar de mim...
Aqui, o tempo continua bom, e Paris tem ares de festa.
D notcias logo, cuide-se bem e no v, como  seu costume, jogar-se na boca do lobo.
Volte logo, estou com saudades. Te amo,
La.
Ornar, o militante argeliano mandado por Vincent, tinha se instalado no quarto de empregada da Rua de Le Umversit, no dia seguinte  chegada de Ali. Devia ser pouco mais velho que Charles e se dizia estudante de Belas Artes. Dois dias depois, partiu para a Blgica, deixando-lhe alguns livros e uma tela para desenhos. La se ps a desejar que ele no voltasse.
A campainha da porta de servio assustou-a; a essa hora, quem poderia ser? Ela ouviu a voz de Philomne:
- Aguarde, vou ver se madame est.
- Quem ? - Perguntou La, entrando na cozinha.
- Um senhor que no conheo. Um rabe, parece...
A jovem mulher avanou para a porta entreaberta; Ali estava parado no vo da porta, vestido com seu terno muito apertado.
- O que voc quer?  muito imprudente vir aqui!.. Philomne, est na hora de cuidar das crianas, no ?
- Ainda  cedo, madame... .
- Faa o que estou mandando! Reclamando, a vietnamita saiu da cozinha.
- Entre logo. - Disse La. Ali entrou na cozinha.
- O que aconteceu, de que voc precisa?
- Eu tenho uns documentos para entregar a uns amigos. Mas, no conheo Paris, ento...
- Ento, o qu? Voc acha que vou entregar por voc?
- No, eu...
- Qual  o endereo de seus "amigos"?
- Bem... no sei se posso dizer...
- Perfeito! Ento no diga nada. - Respondeu La de mau humor.
- Desculpe-me... Eu sei que voc j se arriscou me abrigando aqui e lhe sou muito grato, mas vou esperar por Charles...
- Deixe Charles fora disso, por favor. Diga a mim aonde  preciso ir - Replicou ela com um tom sem apelao.
Ali examinou-a demoradamente.
- Posso fazer uma pergunta? La concordou com a cabea.
- Por que voc nos ajuda?
Ela devi um suspiro profundo e olhou o argeliano dentro dos olhos.
- Para ficar em paz comigo mesma, talvez. Minha famlia e eu sofremos muito com a ocupao alem... Sei que no se pode comparar, mas...
- Voc acha mesmo? - Perguntou ele, com uma ironia que no escapou  jovem mulher.
- No, no se pode. - Respondeu ela duramente - H mais de cem anos que os franceses se instalaram na Arglia, ajudaram-na a se desenvolver, criaram estradas, escolas, hospitais,...
- Voc repete as bobagens que aprendeu na escola. H mais de cem anos que a Frana ocupa a Arglia, que a explora. Vamos falar do desenvolvimento! Somente os europeus fazem uso dele: franceses, mas tambm judeus, malteses, italianos, corsos, espanhis! Quanto  escola, ela s nos faz sentir mais duramente a que ponto no somos importantes. S nos ensinam o suficiente para nos tornarmos bons escravos, que sabem ler e escrever, para as necessidades do mestre!
Ele se calou bruscamente, sufocando de rancor e de dio.
- No acredito! E acho muito desagradvel que voc diga que meu pas se comporta em relao a vocs como o ocupante nazista se comportou na Frana!... Os franceses no so nazistas, afinal!
-  o que voc acha! - Ele deixou escapar.
Eles se confrontaram durante alguns segundos. La virou o rosto.
- D-me o endereo.
-  Rua Goutte-d'Or, 23, um caf mouro. L voc deve perguntar por Ibrahim. Vo responder: "Qual?" Ento voc dir: "Ibrahim d'Oram, o vendedor de peixe".
- S isso?
- Vo faz-la esperar um pouco, depois uma mulher vir lhe oferecer ch de hortel; voc aceitar. Mais tarde, ela vai lev-la a outro endereo. Chegando l, encontrar um homem caolho; diga-lhe que fui eu que a mandei e entregue os papis. V de metr. Na volta, assegure-se de no estar sendo seguida; se no tiver certeza, v at o Mercado SaintPierre, entre numa loja e compre um retalho de qualquer tecido. Somente depois, pegue o metr novamente. Voc compreendeu tudo?
- No sou idiota.
O rosto severo de Ali se iluminou com um sorriso.
- Isso eu j tinha percebido.
La sacudiu os ombros e pegou o envelope pesado das mos de seu interlocutor.
- Estarei de volta s sete horas.
A Rua Goutte-d'Or era suja, entupida de camelos, de mulheres com vus seguidas por uma fileira de crianas barulhentas e chorosas, de homens desempregados e de carros amassados. Na entrada da rua, policiais seguiram com o olhar essa elegncia europia cuja presena destoava de tal bairro. La achou logo o bar. Depois de empurrar a porta, parou por um instante, incomodada pelo excesso de fumaa que havia l dentro. Dirigiu-se ao balco, seguida por dezenas de olhos negros e cobiosos, e dirigiu-se ao homem que automaticamente enxugava um copo. Nesse momento, podia-se ouvir uma mosca voar.
- Por favor, quero falar com Ibrahim.
- Qual?
- Ibrahim d'Oram... o vendedor de peixe.
O homem encarou-a, desconfiado, depois recolocou o copo sobre o zinco.
- Espere, vou ver.
Dizendo algumas palavras em rabe para os fregueses, ele saiu. As conversas recomearam. Pouco  vontade, nessa atmosfera pesada, La comeou a achar que estava demorando muito, quando percebeu uma mulher perto dela. De onde tinha sado?
- Voc quer ch de hortel? - Perguntou com uma voz doce a recm-chegada.
- Sim, com prazer.
La bebeu com cuidado alguns goles da bebida muito quente que a mulher havia servido.
- Est muito bom, obrigada.
Com essa observao, os olhos delineados de preto que a encaravam brilharam de prazer. Pouco depois, a mulher fez sinal discretamente para que La a seguisse. Saram, mas no andaram mais que vinte passos na rua.
-  aqui. - Murmurou a argeliana - No segundo andar. Esto esperando.
La hesitou ao p da escada escura que a mulher lhe tinha indicado antes de desaparecer. A entrada era mal iluminada por uma lmpada que pendia, solitria, na ponta de um fio. Criou coragem e subiu os degraus. No segundo andar, encontrou-se diante de muitas portas: qual seria a certa? Uma delas se abriu e o homem, que h pouco enxugava os copos, convidou-a a entrar. Ela se encontrou no meio de caixas, tonis, cestos de palha e utenslios de cozinha em folha-de-flandres.
- Venha - Ordenou uma voz vinda de outro cmodo.
La forou caminho entre os pacotes de mercadorias.  sua frente, um homem muito gordo estava sentado atrs de uma mesa coberta de pastas.
Ele era caolho.
- Foi Ali quem me mandou.
- Por que ele no veio pessoalmente?
- Ele no conhece Paris e ...
- Isso no  motivo! Diga-lhe que no gostei nada disso. Bem, voc tem alguma coisa para mim?
Ela tirou o envelope da bolsa e entregou-o a ele. Ele o rasgou sem uma palavra e conferiu rapidamente o contedo, pareceu satisfeito. Com a voz um pouco menos arrogante falou:
- Diga quele que o enviou que ele fez um bom trabalho. Voc pode ir. "Que cara grosseiro!" - Pensou indo embora.
- Diga-lhe que faa logo contato comigo. - Ela ouviu atrs de si - Quanto a voc, esquea que veio aqui.
- Com prazer! - Devolveu ela, saindo do primeiro cmodo.
A noite comeava a cair e os cafs tinham acendido seus letreiros, iluminando a calada e parte da rua. No se via mais nem uma mulher: somente homens, alguns andando de mos dadas. Nem um s europeu... La acelerou o passo. No Bulevar Magenta havia muita gente: operrios e empregados voltavam, apressados, do trabalho. Ela se lembrou, ento, da recomendao de Ali e olhou em volta: se algum a estivesse seguindo, como saber? Atravessou o bulevar e se dirigiu para o Mercado Saint-Pierre.
L, entrou na primeira loja, demorou um pouco diante das prateleiras, apalpou tecidos, verificou preos. Em outra, depois do que podia parecer uma profunda reflexo, comprou trs metros de cetim vermelho. Com o pacote embaixo do brao, foi enfim para a estao do metr.
Chegando na Rua de Le Universit, ela subiu, sem passar pelo apartamento, diretamente para o sexto andar, para dar conta de sua misso a Ali. Bateu  porta do quarto de empregada e entrou, interrompendo a conversa animada entre Ali e Charles.
- Finalmente, voc chegou! - Exclamou este ltimo.
- Tudo correu bem. - Anunciou ela de uma s vez, ignorando a bronca de Charles. - Mas o caolho no gostou muito de me ver no seu lugar. Ele pede que voc entre logo em contato com ele...
-  tudo?
- Ele me pareceu satisfeito com o que havia no envelope.
- S faltava no ficar! - Resmungou Charles, repentinamente fora de si.
- Ei, o que h? Parece que voc est com raiva...
- Estou mesmo! Ali traiu minha confiana!
- Mas... - Tentou o jovem argeliano.
- Ah, cale-se, por favor! Voc  um tratante!... Eu tinha avisado para no envolv-la nisso e que j era bastante grave ela hosped-lo!
- Eu no tinha escolha!
- Devia ter falado comigo! Eu teria ido, eu!
- Voc sabe muito bem que no podia: voc est visado...
- O qu? - Gritou La. Charles fulminou-o com o olhar.
- Deixe, so s bobagens.
- Talvez, mas eu no podia me arriscar a ver esses papis carem nas mos da polcia.
- Vocs querem me dizer o que est acontecendo? - Gritou La. - Por que ele disse que voc est visado?
- Mas, no, no  nada...
- Como "nada"?
- Ah, eu fui preso, outro dia, enquanto distribua folhetos de propaganda contra a tortura... Mas me soltaram depois de duas horas.
- Sim, mas agora voc est fichado. Sabem o seu endereo e a polcia pode vir dar uma batida a qualquer momento. - Objetou Ali. - Pela segurana de vocs, e tambm pela minha, preciso partir.
- Para onde? - Preocupou-se La.
- Em caso de urgncia, sei aonde ir... Devo ir embora ainda esta noite. - Disse ele com determinao. - Obrigado por tudo. Agora, se me der licena, preciso arrumar minhas coisas. Assim que possvel, darei notcias... Ah, Charles, fique, por favor: tenho ainda umas coisas para lhe dizer...
Ali corou quando La o beijou nas duas faces.
Subitamente cansada, ela desceu pesadamente as escadas que levam ao apartamento. Quando entrou, os trs filhos se precipitaram na direo dela.
- Onde voc estava, mame? Precisei da sua ajuda na redao...
- Mame, voc teve notcias do papai?
- Papai! Eu quero meu papai! - Gritou Claire, vindo se encolher contra a me.
- Vocs me sufocam, crianas! Deixem-me ao menos tirar o casaco... Com um volteio, eles o tiraram, jogaram numa cadeira da entrada e arrastaram-na para o salo.
L, ela foi obrigada a sentar-se numa poltrona.
- Voc quer beber alguma coisa, mame? - Perguntou Camille. Um porto? Um mar tini?
- Um porto, por favor.
Charles chegou. Logo, Adrien monopolizou-o. Claire subiu para os joelhos da me e enfiou o narizinho no pescoo dela.
- Voc  to cheirosa, mame.
Uma onda de emoo subiu para a garganta dela. Apertou o corpinho contra o seu. Como ela amava esta criana! Muitas vezes, quando a olhava, o rosto de Nhu-Mai, a jovem vietnamita virtuosa, ressurgia. Ela a revia, magra, no palco do teatro de Hani, tirando do violino acordes to belos e poderosos que o tempo parecia parar.
La se esforava para reter essa imagem da amiga desaparecida. Em vo. A imagem terrvel se interpunha, da violinista com as mos arrancadas, arrastando-se apoiada pelos cotovelos, suplicando aos gritos que ela ouviria para sempre: "La, estou mal... tenho medo...  horrvel... meu fuzil, pegue-o... mateme, La, no me deixe assim, mate-me... se voc gosta de mim, eu suplico, minha amiga, mate-me!" Torniquetes improvisados com fibras de plantas tranadas impediam o sangue de jorrar.
Mas, de joelhos, a jovem virtuose estendia seus membros privados das mos: "Nunca mais! Nunca mais poderei tocar... Por piedade, La... meu fuzil, pegue meu fuzil!"
Tremendo, La empurrou Claire e colocou as mos nos ouvidos, depois sobre os olhos: no ouvir mais aquele tiro!... No ver mais o sorriso, o atroz sorriso de gratido de Nhu-Mai!
- Mame... O que voc tem? Eu machuquei voc? Por que voc est chorando? - Inquietou-se a pequena Claire... - Lomne! philomne! - Chamou ela em desespero.
- Meu tesouro, o que aconteceu?... Voc caiu? - Perguntou a assam, precipitando-se em direo  criana.
- No,  mame que est mal...
A vietnamita inclinou-se sobre La. No era a primeira vez que via a patroa naquele estado. H muito tempo, compreendera que esses acessos de tristeza estavam ligados ao que ela devia ter vivido na Indochina, que a sua prpria presena ou a de Claire s vezes reavivavam.
- Venha. - Disse  menina. - Vamos preparar o jantar juntas. Mame precisa descansar.
Mais uma vez, La foi grata a Philomne por seu tato e discreo. Aproveitou essa trgua para se refrescar e ajeitar a maquiagem no quarto. Quando voltou para a sala, Camille a esperava com um copo na mo.
- Eu me perguntava por onde voc andou. Voc parece muito cansada...
- S um pouco de enxaqueca; vai passar.
- Seria melhor tomar uma aspirina, em vez do porto.
- Como voc  sensata, minha querida! Bebo  sade da mais sensata e mais maravilhosa das filhas.  Camille, que eu amo!
-  minha sade tambm, mame!  minha sade! - Gritava Claire, que havia escapado de Philomne.
- Lindinha, no se esgoele desse jeito. Lgico que eu bebo  sua sade, assim como  de Adrien, de Charles, de Philomne, de todos os que amamos...
- E tambm  de papai. - Acrescentou Claire, muito meiga.
- A papai! - Exclamou Camille.
La levantou o copo, sorrindo. Uma felicidade quente envolveu-a, examinando suas filhas, to diferentes uma da outra, e que nutriam pelo pai um amor to especial.
Charles terminou de pr em ordem seus papis, queimando na lareira da sala os que pareciam comprometedores. Esperava estar enganado, mas tinha a impresso de que vinha sendo seguido. Relatou isso a seus companheiros, que o aconselharam a se afastar do grupo por um tempo. O domiclio de alguns deles j tinha sido revirado pela polcia. Por sorte, s encontraram documentos sem importncia. Entretanto, no ltimo nmero de Vrit poui o editorial comeava com esta frase, no mnimo, desenvolta: "Parece que a polcia se interessa cada vez mais por ns...". Era verdade. Alm disso, toda a Saint-Germain-des-Prs fervilhava de informaes fantasiosas que, por no serem confirmadas, no deixavam de atiar a psicose da vigilncia policial ou da priso iminente dos que militavam contra a guerra na Arglia. Nos cafs freqentados pelos intelectuais e militantes, encontrava-se, atravs dos olhares furtivos e senhas, o ambiente de medo e suspeita que predominava durante a Ocupao.
Charles temia ver os policiais da DST aparecerem na Rua deLe Universit. Abriu-se a esse respeito com La que limitou-se a levantar os ombros:
- No h nada aqui que possa interessar  polcia...
- E se Ornar precisar voltar?
-  um estudante e seus documentos esto em ordem. Temos o direito de alugar um quarto a um estudante, no temos?
- No brinque com as palavras, por favor. Pense nas crianas e em Franois... Se ele souber que voc presta servios para os caras da FLN...
- E voc vem me dar sermo! Franois compreenderia.
- No tenho tanta certeza: mesmo que ele seja favorvel  independncia, no deixar de pensar que  uma traio transportar fundos para eles. Esse dinheiro serve para comprar armas para os que nos combatem na Arglia, sabia? Voc parece esquecer que neste momento ele est l, a pedido de de Gaulle, e que uma dessas armas pode mat-lo...
- Cale-se!
Os traos de La fixaram-se numa expresso de horror, enquanto uma grande palidez tomou conta de seu rosto. Charles se arrependeu imediatamente de suas palavras.
Desajeitadamente, tentou atenuar o efeito delas. Tomou entre as suas as mos daquela que havia substitudo sua me; estavam geladas.
- Eu queria deix-la com medo e consegui!
Ela procurou refgio nele. Ternamente, ele a tomou em seus braos.
- Por que  preciso que Franois e eu estejamos sempre em situaes impossveis? Toda a nossa vida tem sido contrariada por dilemas parecidos e, sem descanso, somos confrontados com escolhas que nos expem ao perigo... Tenho medo, Charles, se voc soubesse como tenho medo!
Ele a acalmou, dando-lhe beijinhos nos cabelos. Hoje ele se sentia responsvel por essa mulher que havia salvado sua vida muitas vezes. Por inmeras vezes, ele havia pensado no destino singular desses dois seres que tinham dedicado tantos cuidados ao menino que ficara rfo to cedo. Esse homem e essa mulher o haviam querido como se fosse um de seus prprios filhos. Em todas as pocas, a vitalidade deles, sua exigncia, seu senso de justia tinham-nos levado a tomar partido. Muitas vezes, foram arrastados para fora dos caminhos da lei, tendo como nica regra uma certa idia de honra. Honra, uma palavra que, no entanto, eles no empregavam nunca, sem dvida por recearem ou no gostarem de grandiloqncia... E ele, desde a Indochina, tremia sem cessar por eles, esforando-se para imit-los, para combater ao lado deles, mas tambm para proteg-los. Sabia agora que tinha o mesmo gosto que eles pelo risco e pela ao.
La soltou-se delicadamente.
- No se preocupe, meu grando. Estou um pouco cansada,  s.
Ele a levantou nos braos e rodou com ela pela sala. Como gostava quando ela o chamava de "meu grando"!
- Ponha-me no cho! Voc vai me deixar cair... Eu sou muito pesada!
- Voc  leve como uma pluma... O qu? Voc ri?  bom ouvir voc rindo! :
Quando ele parou de brincar, eles balanaram e se abraaram, esperando passar a vertigem. Depois, calmamente, decidiram o que fazer caso tivessem problemas.
Vicent tinha sumido do mapa. Uma jovem, enviada por ele, encontrara-se com La a fim de lhe comunicar que ela o substitua e que a encarregaria em breve de uma nova misso.
Na Cervejaria Lipp, a conversao de todos os clientes girava em torno do "discurso" de Franois Mitterrand que o Express acabava de publicar. Sob o ttulo "O que tenho a dizer", Mitterrand reagia aos ataques da imprensa a respeito do que ela chamava de "caso do Observatrio", e a sua audincia com um juiz devido a tal caso.
Nesse dia, o tom se elevava entre partidrios do antigo Ministro do Interior de Pierre Mendes France e os que apoiavam Robert Pesquet, antigo deputado, e de seu advogado, Jean-Louis Tixier-Vignancour. Para alguns, Pesquet havia atrado Mitterrand para uma armadilha, fazendo com que ele acreditasse que assassinos atentavam contra sua vida; para outros, o prprio Mitterrand havia fomentado o pseudo-atentado. Alguns acreditavam num compl tramado pelos partidrios da Arglia francesa ou pelos grupos de extrema direita. Discutia-se de uma mesa a outra, e os garons, com seus longos aventais brancos, apressavam-se no meio de uma indescritvel confuso.
Ao p da pequena escada em caracol, dois homens, ambos condecorados com a Legio de Honra, insultavam-se. Tanto de uma parte como de outra, choviam injrias, sob o olhar plcido do dono do estabelecimento. La perguntava-se se o mesmo estaria acontecendo em todos os restaurantes do bairro.
-  assim todos os dias? - Cochichou Franoise no ouvido dela.
- Felizmente, no! - Replicou La  irm, que tinha vindo a Paris para consultar um mdico. - Desculpe, eu devia ter levado voc a um lugar mais calmo... Achei que voc ia se divertir... Tem certeza de que no quer que eu v com voc ao mdico?
- No, voc  muito gentil, mas no  necessrio. Voc vai passar o Natal em Montillac?
- Ainda no sei. Depende de Franois.
- As crianas contam com a presena dos primos, voc sabe. Ficaro decepcionados de passar o Natal sem eles...
La sorriu para a irm. Como ela tinha mudado, desde o vero! No seu rosto mais magro, a tez doentia, os olhos descorados pareciam se extinguir. A cabeleira castanha se enchia agora de fios prata. Seus gestos, outrora to seguros, estavam hesitantes. O medo lhe apertava o corao. Para esconder esse brusco ataque de angstia, ela esvaziou de uma s vez seu clice de riesling.
- Voc quer sobremesa? - Perguntou automaticamente.
- No, obrigada, no tenho tempo. A consulta  s trs horas. Franoise tomou um txi diante do restaurante. "Contanto que no seja grave", pensou La enquanto olhava o carro se afastar.
Umas gotas de chuva comeavam a cair. Quando preparava-se para atravessar o Bulevar Saint-Germain, um homem agarrou-a pelo brao e puxou-a para baixo do guarda-chuva dele.
- Seria uma pena danificar um tailleur to bonito... Eu vi voc no bar do Pont-Royal em companhia de Roger Vailland.
-  possvel.
Na altura do caf Deux Magots, ela se voltou:
- Obrigada, j cheguei.
- Espere, no tenha pressa.
- Esto me esperando, desculpe.
La se enfiou no estabelecimento, desceu para o subsolo e entrou no banheiro feminino. Ofegante, olhou-se no espelho, acima da pia: quem era essa mulher de olhos assustados que a encarava? Por que tinha sentido tanto medo ao lado do desconhecido? Sua intuio lhe dizia que estava em perigo... "Eu estou louca!  por causa desse maldito clima que pesa sobre Paris". Uma campainha de telefone tocou no vestbulo. A porta se abriu um pouco.
- Senhora Tavernier, no ? - Perguntou a responsvel pelos banheiros. Algum a chama ao telefone.
La deteve-se um segundo no lavabo.
- Atenda na cabine dois.
- Al?
- La?
- Sim.
-  Vincent. Estou na cervejaria em frente. Eu vi voc com um homem: cuidado, esse tipo  provavelmente um agente da DST. Suba, pegue uma mesa e beba um caf tranqilamente; ns vigiamos o fulano. Eu ligo de novo.
Assustada, La desligou e ficou por alguns segundos apoiada na divisria.
- A senhora no est se sentindo bem? - Preocupou-se a mulher que lhe havia dado o recado.
Sem responder, La procurou na bolsa e depositou umas moedas no pires destinado a esse fim. Ela encontrou um lugar nos fundos - dali podia vigiar a entrada - e pediu o primeiro caf. J estava no segundo, quando o garom escorregou-lhe um pedao de papel na mo. Ela desdobrou e reconheceu a letra de Vincent:
Pegue o metr na Estao Mabillon, desa na Svres-Babylones, entre no Bon-March. Encontro na seo de lingerie. Escolha algumas roupas de baixo e v experiment-las no provador. No tenha pressa: algum vir procur-la.
Nervosa, ela amassou o bilhete e jogou-o dentro da bolsa, chamou o garom e pagou a conta.
L fora, o cu estava cinzento, os carros buzinavam, os pedestres se acotovelavam como sempre, e o relgio da Igreja Saint-Germain-desPrs marcava trs e meia. Ela teve a impresso de que fazia muito tempo que tinha estado com Franoise...
No havia nenhum homem na seo de langerie. Algumas senhoras de idade examinavam umas combinaes cor-de-rosa ou umas cintas cor da pele. Um pouco alm, duas freiras apalpavam o tecido de camisolas brancas muito srias sob o olhar de vendedoras que se pareciam com as clientes. La se sentiu deslocada.
- Posso ajud-la, senhora? - Perguntou uma delas, com uma expresso que tentava em vo tornar amvel.
- Sim, por favor. Queria experimentar uns sutis.
- Que modelo?
- No sei, estou em dvida... Mostre-me alguns.
- Voc no tem outro... um pouco mais decotado, talvez?
La tinha a impresso de que nunca mais ia sair daquele provador minsculo. Quantos modelos ela j tinha experimentado? Quinze? Vinte? De seu lado, a vendedora tinha cada vez mais dificuldade em conter a impacincia e afastava-se de novo, reclamando. Uma mo afastou a cortina; uma garota, de boina, com o dedo nos lbios, deslizou para dentro.
- Voc  muito sortuda! - Murmurou com uma cara de admirao. La arrumou as rendas da combinao.
- Est tudo bem: foi alarme falso. Voc pode fazer o transporte. As senhas continuam as mesmas... Depois desta misso, e por medida de segurana, no vamos cham-la por algum tempo.
Ela falava com um tom determinado, demonstrando uma autoridade que, no entanto, era desmentida pelo rostinho bonito, emoldurado por cabelos negros e cacheados. No devia ter mais de vinte anos. La sorriu-lhe gentilmente.
- Bom, vou embora; seno, chego atrasada ao ensaio... Sou atriz. Boa sorte! Cuidado.
Aliviada, La acabou de se vestir e saiu, no momento em que a vendedora voltava com outro modelo na mo.
- Ah... no, obrigada, no achei nada mesmo que me agradasse... Desculpe.
Ela sentiu que a empregada da loja se continha para no explodir. Esperta, dirigiu-lhe seu sorriso mais amvel...
Afobada, La fechou o porta-malas do carro, onde acabava de colocar dois sacos pesados cheios de dinheiro coletado para a FLN. Ningum a tinha visto deixar o apartamento e entrar na garagem do prdio onde ficava o Versailles de Franois. Um pouco antes, depois de trocar o elegante tailleur por jeans e um pulver, seus finos escarpins por um par de sapatos esporte, ela jogou na mala uns produtos de higiene e algumas mudas de roupa, pegou o passaporte, os documentos do carro e uma certa quantia de dinheiro. Deixou um bilhete na mesa da cozinha, avisando que estaria fora por alguns dias e que daria notcias logo.
O trnsito estava pesado, ao longo do trajeto. La dirigiu por um tempo  toa por Paris, a fim de disfarar, caso estivesse sendo seguida; no percebeu nada de anormal.
Somente quando viu a placa de Strasbourg  que se lembrou de que a irm estava hospedada na casa dela e que s iria embora para Montillac no dia seguinte. Imaginou a decepo da irm, talvez at a raiva ou a mgoa, quando no a encontrasse de manh. "Eu nunca estou onde deveria estar. Tenho certeza de que ela precisa de mim, neste momento!", atormentou-se ela, acelerando.
J era noite quando entrou em Strabourg. Sem muita dificuldade, encontrou o Hotel Chapeau Rouge, em frente  garagem onde devia deixar o carro. Um quarto no nome de sra. Robert tinha sido reservado por uma noite. Um rapaz se encarregou dos dois sacos e da bagagem.
- A senhora carrega chumbo aqui! - Suspirou ele, colocando os volumes no porta-bagagem do quarto.
Uma boa gorjeta compensou-o pelo esforo. Depois de hesitar um pouco, La desistiu de ligar para Franoise para explicar sua ausncia, com medo de que a linha estivesse sob escuta. Comeu uma refeio leve e deitou-se. Quando o telefone tocou, teve a impresso de que acabara de se deitar.
- Bom dia, senhora, so sete horas. Deseja tomar o caf da manh no quarto? - Anunciou uma voz com sotaque alsaciano.
Pouco depois, La passava sem problemas pela alfndega francesa e, depois, pela alem. O dinheiro devia ser levado a Frankfurt, no restaurante da estao.
Era a primeira vez que voltava  Alemanha depois do processo de Nuremberg.  medida que avanava nesse pas que mostrava ainda, em alguns lugares, as marcas da guerra, um tremendo mal-estar a invadira. Involuntariamente, sua boca encheu-se de saliva, um suor frio porejava entre seus seios. Depois, foi como se uma mo lhe apertasse a nuca, e dedos se crisparam no volante, as juntas embranquecidas. Cada nome de cidade ou cidadezinha escrito em letras gticas caa nela como um golpe.
"O que est acontecendo comigo?", alarmou-se. Seguiu um pouco ainda, antes de parar o carro no acostamento, tomada pela nusea. Encostada na porta do Versailles, limpou- os lbios, olhando ao redor, indiferente  chuva que caa. Os caminhes, com os faris acesos, passavam  toda velocidade, espirrando jatos de gua.
-  porque estou na Alemanha. - Articulou, enfim,  meia-voz... Esgotada, entrou de novo no carro, incapaz de se livrar das imagens que agora brotavam de sua memria: o campo de Bergen-Belsen, um universo inusitado, povoado de seres esquelticos que se moviam com um barulho to uniforme que parecia o rudo de milhares de insetos... Ela penetrou nesse lugar, tropeando nos cadveres em poses obscenas... Depois, aquela voz imperceptvel que subia daquele amontoado imundo: "La... La..."
- No! - Gritou ela, caindo em lgrimas sobre o volante.
Quando voltou a erguer a cabea, a garganta e os olhos ardiam e ela teve a sensao de ter-se perdido num denso nevoeiro, de tanto que os vidros embaados a isolavam do mundo.
O contato aguardado no restaurante da estao estava l. La entregou-lhe os sacos, mas recusou-se a passar a noite na cidade, conforme previsto. Nada pde faz-la mudar de idia. Era quase meia-noite quando passou a fronteira de volta. Na sada de Strasbourg, encheu o tanque e pegou a estrada para Paris.
Maldita chuva! No se enxergava nada a vinte metros de distncia, os faris dos carros que vinham em sentido contrrio a cegavam. Tinha a impresso de que no avanava e que estava dirigindo h horas. Estava muito quente dentro do carro, muito abafado; o torpor a invadiu pouco a pouco. Reduziu a velocidade para acender um cigarro, mas apagou logo em seguida, enjoada. Foi s o tempo de dar um olhada para o cinzeiro e, no ltimo segundo, percebeu um caminho parado no acostamento. Ela desviou por pouco. Assustada com a guinada, freou; tarde demais. Na entrada da curva logo a seguir, sua lateral direita bateu num marco que mal saa do mato. Com o choque, o carro atravessou a pista, bateu numa rvore, deu um cavalo-de-pau e veio parar sua corrida louca sob o pra-choque do peso-pesado estacionado.

Captulo VII

A comunicao se estabeleceu entre Franois Tavernier e o general Challe, comandante em chefe do exrcito da Arglia. O aperto de mo entre eles foi franco e cordial.
Nomeado para este posto por de Gaulle, esse general da aeronutica tivera problemas no incio para se impor aos oficiais do exrcito, que viam com maus olhos a chegada ao comando de um militar de outra arma; ao fim de alguns meses, entretanto, perceberam que tinham se enganado. Esse homem, com ombros de lutador, calmo e tenaz, que fora chefe de uma rede da Resistncia na regio de Avignon, condecorado com a Distinguished Service Order por ter transmitido a Londres a ordem de Batalha da
Lxiftiuaffe no momento do desembarque, obtivera na luta contra a FLN um sucesso que lhe valera os cumprimentos do Presidente da Repblica. A autodeterminao anunciada pelo Chefe de Estado com suas trs opes, deixava-o perplexo. Que queria exatamente de Gaulle? Quando esteve em Paris pela ltima vez, em 19 de setembro, ele tentava dizer ao General a soluo para a qual ele se inclinava. O Chefe de Estado permaneceu impassvel.
Sentado em seu gabinete do Governo Geral, em frente ao de Paul Delouvrier, Maurice Challe, fumando um cachimbo de haste curva, considerava seu interlocutor com simpatia.
- Os muulmanos precisam de ns para sua segurana e sua promoo. Os europeus vem em ns apenas a garantia de sua segurana. Obtivemos grandes resultados, o General sabe. Graas a meus harkis fizemos um bom trabalho, controlamos e protegemos algumas cidades.
Desde que assumi, dobrei os efetivos, no se faz bem a guerra se no for com os autctones. Dar trs fuzis aos camponeses e ir embora  dar trs fuzis  FLN. Dar trinta e cuidar do vilarejo, dar-lhe um apoio real e atento,  criar uma autodefesa que expulsar os rebeldes.  ganhar para a nossa causa uma vila com a qual poderemos contar. Desde minha chegada, organizei "comandos de caa", composto de convocados e harkis solidamente enquadrados, que perseguem as unidades de rebeldes; so verdadeiros caadores, rpidos e eficazes. As tropas muulmanas se instalaram com suas famlias nos lugares de onde podem vigiar a regio em volta e de onde partem  caa dos fells. Voc est pensativo, Tavernier?
- No creio que seja uma boa soluo, meu general.
- O qu?! - Exclamou Challe, bufando. - Voc est duvidando dos resultados obtidos?
- No, mas da necessidade deles.
Um silncio pesado caiu entre os dois homens. Challe inclinou-se para pegar o cachimbo.
-  o que pensa de Gaulle? - Soltou ele, de repente.
Franois Tavernier acendeu lentamente o cigarro, antes de responder.
- E eu sei? Ele no  homem de revelar seu pensamento a qualquer um que...
- Voc no  qualquer um!
- Voc tambm no. E, no entanto, no sabemos nem um nem outro o que pensa realmente o Presidente da Repblica no que se refere ao futuro da Arglia. O que digo representa apenas minha opinio, e no compromete seno a mim.
- Mas ele no o encarregou de uma misso?
- Sim... E da?
O general Challe encarou-o espantado de incio, depois caiu na risada.
- E da?... Voc tem muito peito!  a opinio dele que me importa, no a sua.
- Pergunte a ele.
- Prefiro no... Ainda posso ouvi-lo dizer, quando assumi minhas funes: "Challe, no se impem condies a de Gaulle!"
O comandante em chefe levantou-se, caminhou um pouco pelo escritrio, fumando sempre seu cachimbo apagado, depois parou bruscamente diante de Franois:
- Voc me diria francamente o que pensa no fundo?
- Se voc me perguntasse...
- Estou perguntando.
- Parece que nem o governo nem o exrcito aprenderam nada com a guerra da Indochina...
- No  a mesma coisa! Franois ignorou a interrupo.
- ... tanto num caso como no outro, uma nao colonizada luta por sua independncia. O povo vietnamita j ganhou a sua. Agora  a vez dos argelianos, alguns dos quais combateram na Indochina, do lado do exrcito francs e acham-se agora do lado da ALN. A vitria dos vietnamitas encheu-os de idias... Um bom nmero de nossos dirigentes recusa-se a enxergar a realidade: a Arglia ser independente. Ainda posso ouvir a voz de Mitterrand - quando era Ministro do Interior declarando pelo rdio em 1954: "A Arglia  a Frana, e a Frana no reconhece para si uma autoridade diferente dela." Tambm a de Mendes, o honesto Mendes France, afirmando alguns dias mais tarde na assemblia nacional: "Os departamentos da Arglia fazem parte da Repblica. So franceses h muito tempo; sua populao, que desfruta da cidadania francesa e  representada no Parlamento, tem dado provas suficientes de sua ligao com a Frana para que a Frana no permita que se discuta sua unidade. Entre ela e a metrpole, no se admite secesso. Isso deve ficar claro para sempre e para todos na Arglia, na metrpole e tambm no estrangeiro..."
- Muito bem! Que memria!... Mas no sabia que voc era comunista.  verdade que o general de Gaulle foi o primeiro a cham-los ao poder.
- Eles no estavam do nosso lado na Resistncia?
- Do nosso lado?  fcil dizer! Mas voltando  sua misso: voc pretende falar de independncia com seus interlocutores?
- No. Apenas falei o que penso no fundo, como voc me pediu. Vejo que voc no gostou... Esquea, portanto, o que eu disse. Menos, talvez, com relao aos harkis:
no convoque mais esses pobres diabos,  a prpria alma que eles vendem... Bem, desculpe-me, deixe pra l. Nem voc nem eu mudaremos o rumo das coisas...
Eles se despediram, apertando-se as mos, descontentes um com o outro.
Voltando ao Saint-George, Franois no conseguia comunicar-se com
Paris.
- Acontece. - Comentou placidamente a telefonista - Tente mais tarde...
Da janela de seu quarto dominava-se Argel, obscurecida pela garoa, cujas luzes comeavam a se acender. "Sinistro", pensou. Tomou um banho e desceu para o bar, querendo tomar um drinque, na esperana de mudar seus pensamentos. Algumas mulheres que acabavam de tomar ch lanaram-lhe olhares gulosos que fizeram com que ele se sentisse pior. Grosseiramente, virou-lhes as costas, acomodou-se no bar e pediu um usque. O que teria dado nele para se revelar daquele jeito? O general Challe tinha a tarefa de pacificar a Arglia, no de lev-la  independncia. Divulgando sua opinio sobre o assunto, rompera o lao de simpatia que se havia estabelecido no incio da conversa. Que imbecil! Quando aprenderia a fechar a boca?! Lembrava-se agora do tom de ligeiro desprezo que assumira o general de Lattre ao comentar a sua atitude a respeito do futuro da Indochina: "Voc tem o comportamento de um subtenente!" Na poca, isso o irritara, mas, pensando agora, compreendia o que de Lattre quis dizer: para um homem de sua experincia, ele havia conservado uma forma muito juvenil e idealista de ver as coisas... O mau humor foi o nico motivo real para Franois chegar atrasado na casa do delegado geral.
- No o espervamos mais. - Acolheu-o amavelmente Paul Delouvrier. - Nenhum contratempo, espero.
- No... Apenas no consegui falar com minha mulher. Desculpem, por favor.
- Voc est completamente desculpado. - Disse a sra. Delouvrier, vindo ao encontro dele. - Seja bem-vindo, sr. Tavernier... Creio que j conhece Michel-Jean Maffart?
Apresento-lhe Jean Poincar, diretor de assuntos polticos... Agora, senhores, se quiserem, podemos ir para a mesa. O general Challe se juntar a ns para a sobremesa.
Irritado com a idia de reencontrar Challe, Franois teve um pouco de dificuldade para acompanhar a conversa. Apesar da presena da sra. Delouvrier, cuja gravidez adiantada no podia ser ignorada, s se falou de atentados, compls e represlias. O mnimo que se podia dizer  que o otimismo no reinava naquela mesa!
- Entre as trs opes propostas por de Gaulle quanto  autodeterminao, qual ele prefere na sua opinio, Tavernier? - Lanou Poincar,  queima-roupa.
Franois no se apressou a responder.
- Nosso anfitrio, que conversa regularmente com o Presidente da Repblica, saber melhor do que eu responder a essa pergunta...
- Mas, como enviado do General, voc deve ter alguma idia.
- Uma idia, talvez, mas no a certeza. Prefiro, se vocs no se importam, no responder. Considerem que minha misso probe...
Um silencio incmodo instalou-se entre os convidados. Por sorte, um empregado desviou a ateno vindo anunciar ao delegado que o chamavam ao telefone. Ele voltou, um pouco depois, contrariado.
- O general Challe ficou preso no bairro Rignot. Ele pede, querida, que no o leve a mal.
- Pobre Maurice, ele quase no se distrai... Senhores,  minha vez de pedir que me desculpem, mas preciso ir descansar. J pedi que sirvam caf e licores na biblioteca...
Sr. Tavernier, gostei muito de rev-lo e espero encontr-lo de novo em breve.
Depois da partida da dona da casa, Delouvrier ofereceu charutos aos convidados; Maffart preferiu seu cachimbo. Durante alguns instantes, os quatro homens fumaram em silncio.
- Gostaria de mudar de hotel. - Declarou repentinamente Franois. -  muito longe do centro de Argel. Alguma sugesto?
No sabendo a quem se dirigia a pergunta, Delouvrier, Maffart e Poincar se interrogaram com o olhar; Maffart se decidiu primeiro:
- O Saint-George  um hotel agradvel, muito calmo e ...
- Exatamente,  muito chato.
- Ento, meu caro - Sugeriu o delegado geral. -  para o Aletti que voc deve ir. Voc entra e sai  vontade, jornalistas do mundo inteiro se hospedam regularmente nele, l se encontram as mulheres mais bonitas de Argel e, se voc gosta de jogar, existe um cassino. Quanto ao show do cabar, dizem que  excelente.
- No vou ter muito tempo para aproveitar tudo isso, mas o endereo est mais de acordo com meu gosto. Hospedei-me l em 58. E, depois, estarei mais perto do GG.
- Como quiser. Vou pedir  minha secretria para cuidar disso.
- Agradeo... No momento, permitam-me que me retire.
- Meu motorista vai lev-lo.
- No  preciso...
-  muito difcil encontrar um txi  noite. Vou mandar chamar meu motorista.
Depois de se despedir de Maffart e Poincar, Franois encontrou Delouvrier no hall do Palcio de Vero.
O que voc fez a Challe? - Perguntou o delegado, segurando-o pelo brao. - Ele parecia furioso com voc.
- No sei... Ah, talvez os harkis...
- Como assim?
- Eu dei a entender que  arriscado continuar a recrutar esses infelizes.
Paul Delouvrier olhou-o fixamente.
- No admira que esteja furioso. Voc tocou num dos orgulhos dele: o grande nmero de harkis engajados no exrcito desde a chegada dele. Ele acha...
- ... que s se faz bem a guerra com os autctones. Foi o que me disse, na verdade.
- E voc no concorda com ele?
- No, senhor delegado. No gosto muito que se forcem os homens a combater seus prprios compatriotas. O senhor sabe, como eu, que continuar a recrut-los , no final, conden-los  morte.
Os olhares dos dois interlocutores se encontraram; eles se entenderam.
Quando Tavernier foi embora, Delouvrier permaneceu por uns instantes na escadaria externa, pensativo. Mas, quando virou-se para voltar  sala, a dor na perna ficou mais forte. Apoiou-se completamente na bengala para dar os poucos passos que o separavam da sala.
J fazia trs dias que Franois no tinha notcias de La; quando conseguia fazer a ligao, ningum atendia ou ento havia tanto chiado que ele nem conseguia reconhecer a voz de quem atendia.
Sua mudana para o Aletti foi tranqila. Como esperava, o ambiente era bem menos afetado que no Saint-George; Delouvrier tinha razo de achar que ele se sentiria mais  vontade ali. O servio era rpido, o pessoal, amvel e a cozinha, aceitvel.
Seu quarto - na verdade, uma sute - dava para o Bulevar Carnot, em frente  estao martima. No dia da mudana, ele notou logo num canto do hall, um garoto de olhos vivos encarregado de engraxar os sapatos dos clientes. Ele se sentara numa das poltronas altas, estofadas de couro vermelho, esperando que o jovem engraxate terminasse de atender um homem gordo com brilhantina nos cabelos, usando um fino bigode preto. Com os sapatos brilhando, o indivduo jogou uma nota amassada na direo do jovem empregado e foi embora sem uma palavra. Franois surpreendeu a expresso de dio do garoto. Com o insulto do gesto, o menino apertou, como se quisesse quebr-la, sua escova de lustrar. Quando, afinal, abaixou-se para recolher o dinheiro que cara no cho, Franois viu que uma lgrima corria no rosto dele. Tossiu, ento, para chamar a ateno do menino, que levantou a cabea com um sorriso de encomenda, embora o rancor brilhasse ainda nos olhos midos.
- Bom dia, senhar, quer engraxar sapato? - Perguntou ele, parodiando exageradamente a maneira de falar dos muulmanos de Argel.
- Pois no.
O engraxate deu um sorriso sem alegria e sentou-se no banquinho, dobrou a perna das calas de seu novo cliente e comeou a limpar a lama dos saltos dos sapatos.
"Que idade ter ele? A mesma de Adrien?", pensou Franois. Ele tinha um rosto bonito, emoldurado pelo cabelo castanho. As mos, geis e finas, se ocupavam com gestos precisos.
- Bem, eles estavam mesmo precisando de um pouco de graxa! So sapatos muito bonitos,  preciso cuidar bem, o senhor sabe...
- U, perdeu o sotaque?
Um rubor brusco invadiu suas faces morenas.
- Senhar, estar contente? Querer outra coisa? Franois inclinou-se para ele.
- Por que voc fala desse jeito ridculo?
-  assim que eles gostam que se fale...
- Quem?
- As pessoas daqui.
- Eu no sou daqui.
- Isso eu j tinha percebido... e no apenas por causa dos sapatos. - Lanou ele, dessa vez com uma risada mais alegre.
- Como voc se chama?
- Mohamed... quer dizer,  como me chamam aqui.
- Por que "aqui"? No  seu nome verdadeiro?
- Meu nome verdadeiro?... Eles esto pouco se lixando! Para eles, somos todos Mohamed.
- No para mim. Ento, diga, qual  seu nome?
O menino examinou-o demoradamente com o olhar, antes de responder:
- Bchir... Bchir Souami - Cochichou afinal, olhando em volta.
- Obrigado pela confiana. Eu sou Franois Tavernier. - Vou ficar aqui por alguns dias.
Incrdulo, Bchir olhava para a mo estendida para ele. Depois de um tempo, limpou a mo desajeitadamente nas calas antes de estendla tambm.
- Voc veio da Frana? De Paris? - Falou para disfarar seu embarao.
- Sim.
- Meu pai conheceu a Frana, ele diz que  um pas to bonito quanto a Arglia... Ele esteve na guerra, sabe? Ele foi at ferido na Itlia: uma mina arrancou-lhe a perna. Ganhou uma medalha por isso... Como diz minha irm, no adianta nada!... Voc esteve na guerra?
Franois balanou a cabea.
- E agora?
- Agora?
- Aqui, voc veio para a guerra?
Tavernier compreendeu que sua resposta seria fundamental para seu interlocutor.
- No, queria que houvesse paz entre nossos dois pases.
Seu novo companheiro endireitou-se, com o olhar mais penetrante.
- Nossos dois pases?... Voc quer dizer que, para voc, a Arglia no ... a Frana?
Podia-se perceber quase uma splica na voz do jovem argeliano.
- Sim. - Ele se ouviu responder.
"Decididamente, de Lattre tinha razo!", pensou Franois ao mesmo tempo em que falava.
O rosto srio e tenso que o encarava pareceu se iluminar de dentro para fora. O olhar orgulhoso, os ombros estreitos do garoto se endireitaram.
- Que idade voc tem? - Perguntou Tavernier, quase com carinho.
- Quinze anos.
- Tenho um filho um pouco mais novo que voc, sabe? Faz muito tempo que voc trabalha aqui?
- Dois meses, apenas. Antes, o meu primo  que era o engraxate do hotel. Eu vinha ajud-lo de vez em quando para ganhar uma graninha; ele me ensinou o trabalho.
Ento, quando ele morreu, o gerente props que eu o substitusse. Eu no queria, queria continuar estudando, mas meu pai insistiu. Eu no podia recusar: ns somos pobres, e tive que deixar a escola. Os colegas me passam as lies, mas no  a mesma coisa, s estudo quando tenho tempo...
- Mohamed! Voc no percebe que est aborrecendo este senhor com sua conversa?... Desculpe, senhor.
O porteiro estalou os dedos, enquanto o garoto ficou duro no lugar. Tavernier saiu tranqilamente da poltrona, procurou no bolso e tirou uma nota, que entregou a
Bchir.
- Muito bem, garoto, e obrigado. Voc  um engraxate de primeira! Voc deve ter orgulho dele. - Concluiu Franois, dirigindo-se intencionalmente ao porteiro.
O homem ficou todo orgulhoso.
- Obrigado, senhor. Nosso gerente  muito exigente com os funcionrios.
- J tinha percebido; meus cumprimentos. At logo... Mohamed. Com um sorriso conivente, Bchir deu uma piscadela para ele.
No dia seguinte, por indicao do porteiro, nervoso por no conseguir os jornais que procurava, Franois foi  Rua Charras, onde algumas livrarias tambm vendiam jornais. Mas, l, como em toda parte, a censura dominava. Impossvel encontrar UHwnanit, UExpress ou Le Monde. Ele se conformou com Le Figaro e Pnris-Match, depois dirigiu-se ao caixa. Diante dele, um rapaz esperava para pagar o livro que tinha na mo.
- Saia! Deixe passar o senhor. - Rosnou a mulher do caixa, apontando com a mo o cliente europeu.
- Acho que  a vez dele. Eu espero.
O adolescente virou-se e Franois reconheceu o engraxate do Aletti; estendeu-lhe a mo.
- Era o que faltava!... Mas, ele est com o senhor?
- Sim... Vejo que voc encontrou o livro que queria. Com os jornais, senhora, quanto devo?
A mulher colocou o livro numa sacola de papel e cobrou, sem uma palavra gentil. Saindo, Franois aproximou-se do ouvido de Bchir:
- Eles so todos assim?
- Mais ou menos... - Respondeu o adolescente, rindo. - Eu vou pagar o livro.
- Deixe-me oferec-lo,  um prazer para mim.
- De jeito nenhum!
- Vamos, no seja bobo...Voc mora por aqui?
- No, na Rua Chameau, na Casbah.
Um jipe parou perto deles, com um guincho dos freios. Quatro soldados saltaram dele, empunhando suas armas.
- No vamos ficar aqui! - Soltou Bchir, pegando a Rua CharlesPguy.
Franois imitou-o. Caminhes do exrcito fechavam agora a Rua Charles-Pguy. Eles passaram por uma multido de soldados, mulheres com vus, garotos espertos, operrios de uniforme, estudantes bagunceiros... Na Rua Isly, ainda havia muita gente. O tempo estava fresco, apesar do sol que brilhava no cu de um azul insolente. Eles andaram por um tempo em silncio.
- Eu... posso lhe oferecer um ch de hortel? - Perguntou Bchir timidamente.
- Boa idia.
Eles passaram por uns prdios protegidos por cercas de arame farpado. Pra-quedistas montavam guarda. Um deles detinha uma pedestre toda envolvida em tecidos brancos, enquanto outro fuava na sacola de palha dela. Indiferentes, os pedestres se apressavam em direo a seus destinos. A campainha do bonde obrigou-os a dar passagem.
Mais alm, diante das lojas da moda, mulheres europias comentavam os modelos expostos.
- Oh!  a ltima moda!
- Dizem que Brigitte Bardot usa o mesmo...
- As mulheres... todas iguais! - Considerou Bchir com um tom de superioridade masculina.
Franois se divertiu com a observao.
- Diga-me, o que voc sabe sobre as mulheres? O adolescente lanou-lhe um olhar indignado.
- Bem, eu tenho uma irm, e ela s se guia pelas revistas da moda. Ela e minha me tentam copiar os vestidos que elas vem na Elle... Olhe! Estou dizendo! L est ela, com as amigas, falando sobre moda...
Em frente  vitrina de uma loja elegante que exibia vestidos de noite, trs mocinhas morenas, com vestidos claros e casacos curtos de l, conversavam animadamente.
Bchir aproximou-se discretamente do grupo.
- Eu o vi pelo vidro! - Exclamou uma delas, virando-se.
- O que voc est fazendo aqui? Devia estar no hospital...
- Temos uma hora de intervalo... E voc, no devia estar no trabalho, em vez de passear pelas ruas?
Franois aproximou-se tambm.
- Ei, parem de brigar! - Cortou uma das duas outras garotas. - Voc no percebeu que ele no est sozinho? - Acrescentou ela em rabe.
A que brigava com Bchir observava-o, agora, desconfiada. Ela era linda, com olhos muito claros, protegidos por longos clios, um nariz charmoso e uma boca com lbios grossos. Seus cachos negros, presos por uma fivela no alto da cabea, enfeitavam um rosto de traos infantis que lembravam o do garoto.
- Quem ? - Cochichou ela.
-  o francs que conheci ontem no Aletti...
Um sorriso luminoso embelezou-a ainda mais. Ela estendeu a mo com um gesto completamente espontneo.
- Bom dia, muito prazer em conhec-lo... Meu irmo me falou de voc, ontem  noite. Eu me chamo Malika e estas so minhas amigas Aicha e Ftima. Ns trs somos alunas no hospital Maillot.
- Bom dia, senhoritas.
- Bom dia - Responderam em coro as duas amigas.
- Vamos beber um ch de hortel, vocs querem vir conosco?
- No, obrigada. - Recusou educadamente Malika. - Ns no temos tempo, j devamos ter voltado ao hospital... Vamos, meninas, depressa! Olhem o bonde...
Elas correram ao mesmo tempo, fazendo sinal com a mo. Depois de v-las pegar o bonde, Franois e Bchir puseram-se a caminho. Se eles pudessem se ver nesse momento, talvez percebessem o sorriso vaidoso que se espalhou em seus lbios, aquele tipo de sorriso que os homens s vezes exibem, quando pensam ou falam de mulheres.
- Ainda falta muito para o ch de hortel?
- No,  na Rua Bne, em frente ao mercado da Lyre... Conforme se aproximavam, a multido composta principalmente por muulmanos ficava mais compacta. As mulheres, algumas com vus, levavam sobre a cabea pesados cestos. Outras seguravam pela mo crianas que s queriam escapar.
Velhas senhoras europias, quase todas vestidas de preto, deslizavam entre os grupos: algumas delas eram seguidas por um rapaz carregado de compras. Ali, tambm, soldados ajudados por homens de uniforme controlavam os pedestres: parecia que uma bomba estava escondida no se sabia onde... Do lado de fora do mercado, vendedoras de laranjas, de limes, de tmaras, de folhas de hortel ou de flores vendiam suas mercadorias aos gritos. O cho coberto de detritos era escorregadio. Da sua gaiola de vime, um galo espetacular lanou um cocoric que, por um segundo, dominou o tumulto. Um pouco alm, outro lhe fez eco. Carroas, puxadas por mulas magras, abriam caminho com dificuldade por entre a multido. Homens montados em seus asnos, em cujos flancos balanavam pesados fardos, tentavam tambm avanar. O cheiro de carneiro assado impregnava o ar, dominando todos os outros. Eles viraram enfim para uma rua, lotada de gente tambm, onde os cafs mouros encostavam-se uns nos outros. Bchir afastou a cortina de contas pendurada na porta de um deles. Todas as mesas estavam ocupadas por homens, na maior parte idosos; quase todos estavam de turbante. Conforme entraram, as conversas se interromperam. Um velho, com uma longa tnica cinza, levantou-se e veio na direo deles.
- No se preocupe, meu tio,  um amigo. - Tranqilizou-o o adolescente.
Sem um sorriso, o velho olhou com desprezo para Franois, depois se voltou para Bchir, olhando-o com ternura.
- Se voc diz, meu filho... Espero que no esteja enganado.
Ele no acrescentou nada, dirigiu-se para a porta e saiu. Os trs velhos, que pouco antes conversavam com ele, levantaram-se por sua vez e liberaram uma mesa onde os copos de ch que eles no tinham terminado ainda soltavam fumaa; o proprietrio veio tir-los. Os recm-chegados sentaram-se e ficaram em silncio at que ele voltasse; ele trouxe uma chaleira imponente de metal e dois copos limpos. O calor do lquido mbar proporcionou-lhes uma sensao de bem-estar. Sorriram um para o outro com o olhar. Pouco a pouco, os olhares se desviaram e as conversas recomearam.
- Por que voc me trouxe aqui, Bchir? No tenho a impresso de ser bem-vindo...
- Mas  para que o reconheam! Franois ficou perplexo.
- Logo, por toda a Casbah, sabero que voc veio aqui comigo. - Explicou Bchir. - Se voc  amigo, ser protegido em caso de necessidade. Se no...
Ele passou firmemente uma mo pelo pescoo. O gesto era explcito. O riso de Franois surpreendeu os fregueses.
- Estou prevenido,  muito gentil da sua parte!
- No  para rir. - Chocou-se Bchir, vermelho.
- Tem razo... Bebamos este ch antes que ele esfrie... Hum! Est excelente!
A expresso enfezada com a qual Bchir bebia agora o rejuvenescia; ele parecia agora o que era: um garoto que queria brincar com os adultos.
- Posso ver o livro que compramos? Bchir passou-lhe a sacola.
- Voc l Camus?... Voc gosta? .
- Voc parece espantado... Pensa certamente como eles, que algum como eu no  capaz de gostar da sua amada literatura?... Bem, eu li tudo de Camus! Eu o admiro, mas tambm o odeio. Acho que compreendo o que ele quer dizer, e o que ele diz faz com que eu me sinta prximo dele. Mesmo sabendo que  daqueles que vivem na nossa terra considerando que esto na deles...
- Esses a ajudaram a desenvolver o seu pas, voc sabe...
- Sim, alguns... Para outros, foi apenas um meio de sujeitar as populaes frgeis porque eram incultas. E, depois, roubaram-lhes as terras, mantiveram-nos ignorantes!
Ah, sei o que voc vai dizer: que  graas  escola francesa que hoje posso ler Camus e manter esta conversa.  verdade, e minha irm e eu somos gratos por isso.
Sim, a escola nos abriu a mente, ensinou-nos as leis da Repblica, a Declarao dos Direitos do Homem... e que nossos ancestrais eram os gauleses! Mas o que eu no compreendo  porque ns, os muulmanos, no temos as mesmas oportunidades, quando terminamos o colegial, que os jovens europeus. Por qu? Ser que no somos mais iguais, ser que somos menos franceses do que nos disseram?
Franois virou o rosto. O que este garoto dizia hoje era o mesmo que denunciavam outrora seus amigos vietnamitas, Lien, Bernard ou Kien. De todos os pases colonizados pela Frana vinham as mesmas queixas. Surgia a mesma amargura, o mesmo dio. Com seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, os herdeiros da Revoluo Francesa introduziram primeiro o fermento da contestao e, depois, o da rebelio entre as naes conquistadas. Hoje, no havia mais o que fazer. O exemplo vietnamita estava presente no esprito de todos os combatentes argelianos: eles tambm se batiam por sua independncia. Mas aqui, nesta Arglia sob domnio francs h mais de cem anos, os laos foram tecidos com colonos vindos da Europa: franceses, certamente, mas tambm espanhis, turcos, portugueses, italianos, gregos... sem falar da comunidade judaica, instalada no pas desde antes da conquista. No  possvel compartilhar o mesmo sol, as mesmas paisagens, o mesmo trabalho, os mesmo jogos, os mesmos temores e, para alguns, os mesmos bancos de escola sem, com o tempo, se conhecer, se estimar ou se odiar como em nenhum outro lugar do mundo. Muitas geraes conviveram aqui, tanto bem como mal. Os filhos dos europeus cresceram felizes neste pas magnfico, sem querer ver que os filhos de seus vizinhos rabes andavam muitas vezes descalos, vestidos com trapos. Enquanto crianas, brincavam e aprendiam a ler juntos. Adolescentes, sem que nada fosse dito, seus caminhos se separavam e cada um seguia por seu lado. Isso parecia natural aos ps-pretos; no para jovens muulmanos que se sentiam rejeitados por uma vida que lhes parecia mais fcil do que a de seus pais. No blecpo os meninos europeus invejavam s vezes os filhos dos trabalhadores rurais que no iam  escola. Sonhavam em, como aqueles, sair pelo deserto ou pela montanha, perseguindo animais lendrios, agarrados  crina de montarias loucas. Todos tinham em comum a paixo por este pas, o mais lindo do mundo aos olhos deles. O que no estava longe da verdade...
- Voc no diz nada... est aborrecido?
- No, pensava neste pas que Camus e voc amam tanto.
- Eu sei que ele o ama. Em janeiro de 1956, eu estava com minha irm no Crculo do Progresso, na praa do Governo, na sala de onde ele lanou seu "Apelo  trgua civil", apesar das tentativas das autoridades para impedi-lo. Corriam boatos de que iam prender Camus. Para uns, seria a FLN; para outros, os radicais. Um grupo, composto principalmente por jovens rabes, verificava os convites e as identidades. Havia umas mil pessoas, entre europeus - principalmente mulheres - e muulmanos
- entre eles, nenhuma mulher, a no ser minha irm, que tinha conseguido os convites com o mdico com quem trabalhava. Do lado de fora, sob as janelas, em frente a um cordo de CRS, a multido europia gritava: "Camus, traidor! Camus, rua! Mentes, morte!" e cantavam a Marselhesa. Um pouco afastados, alguns brandiam cruzes celtas. Mais alm, a massa imvel e negra dos rabes s era percebida sob as manchas luminosas dos postes. Quando escureceu, perto das cinco horas, Camus subiu no estrado sob aplausos. Atrs de uma mesa comprida, estavam o doutor Khaldi, o pastor Capieu e um padre branco cujo nome esqueci. Emmanuel Robles, que presidia a reunio, recebeu-o. O sheik Tayeb el-Okbi chegou numa maca. Camus abaixou-se para abralo. Uma cadeira ainda estava vazia: era para Ferhat Abbas, que no tinha chegado.
Depois de algumas palavras de Robles, Camus comeou a falar. Estava muito plido. Eu s tinha doze anos, e minha irm quinze, mas no esquecemos nada daquela noite.
No comeo, parecia que ele procurava as palavras, ouvia-se mal. Pouco a pouco, sua voz firmou-se: "Eu no sou um poltico, minhas posies e meus gestos esto longe das tribunas pblicas." Ele disse que sentia a infelicidade argeliana como uma tragdia pessoal, que uma coisa pelo menos nos reunia, o amor por nossa terra comum...
que esta guerra era uma guerra fratricida... que se cada um, rabe e francs, fizesse o esforo de refletir sobre os motivos do adversrio, uma discusso poderia se estabelecer... que a solidariedade entre franceses e rabes era inevitvel tanto na morte como na vida, na destruio como na esperana... que nossas diferenas deveriam nos ajudar em vez de nos opor... Depois, Ferhat Abbas chegou, abraou Camus e sentou-se ao lado dele. Camus continuou, disse que a reivindicao de dignidade dos rabes era justificada... que os franceses da Arglia tambm tinham direito  segurana e  dignidade em nossa terra comum... Eu ouvia tudo isso, mas me dizia:
"Ele nos fala de seu pas, mas esse pas  meu! Ns no somos irmos, nossa pele  diferente, nossos cabelos tambm, ns no rezamos ao mesmo Deus, nossas mes usam vus, as deles no, ns no vamos s mesmas praias e ns somos empregados deles..." No ouvi mais. Olhava pela janela. Estava muito quente; Camus enxugava o rosto.
Malika ouvia atentamente, de boca aberta. Isso me incomodava, depois pensei que ela era mais velha, que sem dvida compreendia coisas que eu no entendia, ela me explicaria tudo que isso significava. Creio que dormi um pouco... Dei um pulo quando minha irm me apertou o brao. Olhei para ela e vi que ela chorava. Camus falava alto: "... Para merecer um dia viver como homens livres, quer dizer, como homens que se recusam tanto a praticar como a sofrer o terror." A assistncia levantou-se e aplaudiu. Eu tambm. Malika, no.
- Por que no?
Antes de responder, Bchir examinou atentamente o rosto de seu novo amigo como se procurasse ler nele.
- Malika deveria ser homem, voc sabe. Para uma mulher, ela sabe refletir.
- Eu pensava que ela s se interessasse por moda... Foi o que voc me disse h pouco.
- Sim, sim, eu sei...  isso que  difcil de entender: de um lado, ela sonha com lindos vestidos; de outro, est pronta a morrer pela Arglia.
Perplexo, balanou a cabea, pensando no insondvel mistrio feminino.
- Creio que as mulheres no param de surpreender voc, Bchir. - Interrompeu Franois, fingindo falar srio. - De fato, voc sabe por que Malika chorou durante o discurso de Camus?
- Na hora, devo confessar que no entendi. Emmanuel Robles deu a palavra a outras pessoas, todas disseram alguma coisa, menos Ferhat
Abbas, o que espantou todo mundo. Quando terminou, samos sem problemas. Na rua, havia ainda alguns entusiasmados lanando ofensas a Camus. Em grupos, os rabes voltaram  Casbah. Malika me levava pela mo, resmungando: "Ele no confia em ns... no acredita que ns podemos viver sem eles... no fundo, ele nos despreza...".
Andvamos to depressa que senti uma pontada do lado, pedi a ela que fosse mais devagar. Ento, ela parou, colocou as mos nos meus ombros e, me sacudindo, falou:
"Ele disse que se nossos dois povos se separarem, a Arglia se tornar um campo em runas por um longo tempo... Eu o detesto... Ele fala de "vtimas inocentes"...
mas somos ns as vtimas inocentes! Por que no poderamos viver e prosperar sem eles? Diga, por qu?" No fim, ela gritava. Supliquei a ela que se calasse, mostrando que uma patrulha poderia nos ouvir e nos levar presos... Isso a trouxe de volta  razo. Voltamos para casa sem falar. Estava to cansado por todos os acontecimentos que dormi sem tirar a roupa. No dia seguinte, ela se recusou a responder s minhas perguntas. No falamos mais sobre isso at o comeo deste ano, trs anos depois que tudo aconteceu.
- O que aconteceu para que vocs voltassem a falar sobre o assunto?
- Um colega da escola me emprestou, s escondidas, As Crnicas Argelianas, esse livro est mais ou menos proibido aqui. Li numa noite e passei para minha irm. Depois, copiamos diversas passagens antes de devolver o livro.
Franois no conseguia esconder seu espanto: esse livro, de que se falou tanto na poca de sua apario, em 1958, ele no tinha lido. Ouvindo o seu jovem companheiro, percebeu que no saberia nada de algumas realidades argelianas se no o lesse.
- O que Malika achou dele? - Perguntou, curioso.
- Como eu, ficou muito perturbada com a leitura. Mas no ousamos, eu acho, confessar um ao outro tudo que achamos. No entanto, ela reconheceu que Albert Camus no devia desprezar os rabes e que, naquela ocasio, ela se enganara.
- Foi legal da parte dela reconhecer isso... E voc, o que achou? Dessa vez, Bchir ficou um tempo em silncio. Tavernier o observava, cada vez mais surpreso com sua inteligncia e sua maturidade.
- Acho que, se estivesse no lugar dele, pensaria como ele. - Respondeu, com esforo.
Essa honestidade tocou Franois profundamente. Uma sbita deflagrao abalou as paredes do caf. De uma vez, os fregueses se levantaram, lanaram olhares para todos os lados, depois se precipitaram para fora, derrubando as mesas. O proprietrio os seguiu.
-  ali!  ali! - Gritou Bchir, apontando com o indicador.
L fora, as pessoas corriam em todas as direes e algumas bancas de legumes e frutas, derrubadas pelos que corriam, rolaram pelo cho. Perto dali, uma senhora se enroscou nos vus e caiu, enquanto um beb seminu, de p no meio do tumulto, chorava abandonado. As aves que tinham escapado das gaiolas piavam, enquanto se dispersavam, e um velho mendigo cego girava em todos os sentidos, atropelado pelas pessoas. Um cachorro se ps a uivar, os homens fechavam os punhos. Aproximadamente uma dzia de pessoas ensangentadas caa por terra. Outras, abestalhadas, contemplavam-nas sem fazer nada. Franois abaixou-se perto de uma jovem cujo vestido florido estava empapado de sangue. Seus olhos arregalados fixavam a massa informe em que se tinham tornado suas pernas. Perto dela, uma mulher gorda estendia diante de si os cotos dos braos de onde o sangue jorrava. Um homem, ferido na cabea, olhava para ela sem acreditar no que via. Logo, as sirenes dos carros de polcia atravessaram a gritaria. Bchir puxou firmemente seu amigo francs pela manga:
- Rpido! Vamos embora, o bairro vai ser cercado!
Eles deixaram o lugar do atentado alguns segundos antes da chegada em massa dos policiais e militares.

Captulo VIII

Parece que ela est voltando a si... - Olhe, ela est mexendo os dedos... Ah! Ela abriu os olhos... La, voc me ouve?
A jovem mulher, estendida no leito de hospital, teve a impresso de voltar de muito longe. Durante a longa viagem que acabara de fazer, tinha tido a impresso de que uma voz querida a chamava... Lentamente, virou a cabea, dois vultos se inclinavam sobre ela. Um sorriso vago acabou se desenhando nos seus lbios.
- Acho que ela quer dizer alguma coisa...
- Voc acha que ela est nos reconhecendo?
A porta do quarto abriu-se e um homem vestido de branco entrou, seguido por uma enfermeira. Depois de um rpido cumprimento, aproximou-se do leito, examinou a ferida.
- Agora, acho que se pode dizer que ela est fora de perigo. - Afirmou, endireitando-se.
- Ah! Obrigada, doutor. - Murmurou Franoise, contendo as lgrimas.
- Quando ela poder sair? - Perguntou Charles.
- Calma, rapaz! A senhora Tavernier precisa agora de muito repouso. Ela falou alguma coisa?
- Ainda no.
- Bem, vocs podiam sair por um momento? Vamos trocar os curativos.
- Franois...
- Doutor! Doutor, ela falou!
- Franois... - Repetiu La, num murmrio. Charles segurou-lhe a mo.
- La, sou eu... voc me reconhece?
- No insista, por favor, voc vai cans-la... Volte amanh, ela estar bem melhor. Ela escapou por um triz, no sei como no morreu!
Franoise e Charles deixaram o quarto a contragosto. No corredor, o rapaz enlaou afetuosamente a irm de La.
- Que medo eu tive! - Murmurou ele, como se falasse consigo mesmo.
Franoise suspirou. De repente, uma dor brutal assaltou-a. Ela estremeceu.
- O que h com voc? Voc est muito plida... J passou, voc ouviu o mdico: La est salva...
- Sim. - Ela deixou escapar, antes de desmaiar.
Assim que voltou de seu curto desmaio, Franoise exigiu que Charles no falasse mais sobre isso, argumentando que se tratava de um incidente sem gravidade, sem dvida devido  emoo e ao cansao. Voltando  Rua de Le Universit, ela foi logo para o quarto, deixando a Charles a tarefa de anunciar s crianas o restabelecimento de La.
Uma vez sozinha no quarto, Franoise esticou-se na cama, fechou os olhos e respirou profundamente, na esperana de aliviar o mal que a corroa por dentro. De suas plpebras, escaparam lgrimas que corriam pelo rosto.
- Meu Deus, me ajude! - Suplicou  meia-voz.
Depois de uns instantes, levantou-se curvada pelo sofrimento, chegou ao banheiro. No espelho, seu reflexo a assustou. Levou as mos ao rosto e explodiu em soluos.
Os gritos de alegria das crianas chegaram at ela. Endireitou-se e enfrentou sua imagem... Por quanto tempo ficou assim a se encarar? Abriu a torneira de gua fria.
Ao contato com a gua, seus traos se distenderam. Abriu o chuveiro e se despiu. Uns vinte minutos depois, vestida com um roupo, instalou-se na escrivaninha que pertencera outrora  me e ps-se a escrever:
Querido Alain,
Enfim, uma boa notcia: La est fora de perigo e, segundo o mdico, agora  s uma questo de dias. Desde o acidente, no conseguimos falar com Franois, no sei a quem me dirigir para saber onde ele se encontra. Mas, no final, talvez seja melhor assim; se tivssemos falado com ele ontem, ns o teramos apavorado  toa. Nesses dias difceis, Charles deu um apoio incrvel.  impressionante como esse garoto  maduro.
Espero estar logo de volta: tenho muitas saudades de voc e das crianas. E sinto muito pelo excesso de trabalho que minha ausncia causa a todos.
Quanto ao resto, ainda no tive a oportunidade de lhe contar as concluses do especialista que vim consultar; no vou poder esconder por muito tempo, elas no so boas. No queria alarmar voc to cedo, mas ser preciso tomar decises com relao a Montillac. Desculpe, meu querido marido, por lhe causar essa nova dor, a voc que tem sido to bom para mim. Voc casou comigo, aceitando uma criana que no era sua e a quem voc dedicou uma ternura igual  que dedica aos nossos. Por ns, voc enfrentou as insinuaes mais baixas. Nunca serei grata o bastante por tanta bondade e tanto amor. Graas a voc, fui feliz como nunca pensei que seria. Agradeo-lhe mil vezes.
Sei que nem sempre foi fcil viver comigo, to mandona, e qualquer outro teria brigado comigo muitas vezes. Voc tem sido sempre cheio de indulgncia e ternura.
Hoje, faa-me o favor de aceitar estas palavras, que vo faz-lo sofrer, porque no tive a coragem de contar de viva voz. Temo que, pessoalmente, seu sofrimento me prive de toda a coragem. O medo de perder La me fez esquecer por um tempo minha doena e as preocupaes que ela acarreta. Agora, que ela est fora de perigo, isso volta com toda a fora. Alis, devo voltar ao mdico amanh; ele vai dizer se  possvel operar. Na verdade, ele no me deu muitas esperanas quanto a uma possvel interveno, muitos rgos j estariam atingidos.
Fiquei to feliz de ouvir ontem a voz das crianas. O que vai ser delas? No se aborrea comigo por escrever isso, sei que voc cuidar bem delas, mas  to duro saber que no as verei crescer... Bom, agora estou sendo egosta. Desculpe, querido.
A jornada no hospital foi longa e estou muito cansada. Vou acabar, portanto, esta carta triste. Por favor, no me ligue quando receb-la; o som da sua voz me tiraria o pouco de valentia que me resta.  lgico que contarei a voc o resultado da consulta de amanh.
Beije as crianas com muito carinho por mim, diga-lhes que est tudo bem e que eu voltarei logo. Sua mulher que o ama, Franoise.
P.S.: Tome cuidado para que as crianas no leiam esta carta. Obrigada.
Esgotada pelo esforo, Franoise largou a caneta. Assustou-se com umas batidinhas na porta.
- Tia Franoise, abra! - Gritou Claire.
- Entre, querida, est aberta.
A menina entrou precipitadamente no quarto, plantou-se diante da tia e cruzou os braos na altura do peito.
- Por que voc no me disse logo que mame estava melhor?
- Que diferena faria se eu dissesse ou Charles...
- Porque voc  grande.
- Vamos, deixe de ser teimosa e venha me dar um beijo.
A menina se jogou nos braos que se abriam para ela. Franoise apertou o corpinho que tremia.
- No chore mais, acabou, sua mame vai voltar logo...
- E meu papai?
- Seu papai tambm, claro.
- Ah, bom! - Tranqilizou-se Claire, fungando. - Vou contar para a Lomne.
Ela saiu correndo, atropelando de passagem Adrien e Camille que esperavam na entrada do quarto.
- Podemos entrar, tia Franoise?
- S um pouquinho, crianas, preciso descansar.
- Quando poderemos ir ver mame? - Impacientou-se Adrien.
- Daqui a dois ou trs dias, acho... Depende do mdico.
- Diga, ela falou com voc?
"No", respondeu com a cabea, cerrando os dentes para no soltar o grito de dor que lhe subia  garganta. Com a mo, Franoise fez sinal para que sassem. Decepcionados, deixaram o quarto e fecharam a porta atrs de si.
Dois dias mais tarde, Adrien e Camille foram autorizados a ir ver a me. La recebeu-os sentada na cama, amparada por travesseiros. Por um momento, eles permaneceram na porta, intimidados pela extraordinria palidez da paciente e pelo volumoso curativo que lhe rodeava a cabea.
- Entrem, meus amores... Parece que esto com medo de mim! - Ela os encorajou, com uma voz ainda fraca.
Eles se precipitaram juntos.
- Cuidado, com calma. - Refreou Franoise que os acompanhava. Eles se aproximaram cuidadosamente do leito.
- Venham me dar um beijo...
Ela os apertou contra si mesma, fechando os olhos para saborear melhor a felicidade.
- Voc volta logo para casa?
- Est doendo?
- Quando voc volta?
- Claire no est nada contente, ela quer saber por que no pode vir.
- Olhe, mame, eu trouxe flores...
- E eu, tangerinas!
- Obrigada, queridos.
- Bom, crianas, agora chega, vocs vo cansar sua me... - Cortou delicadamente a tia.
- Deixe, Franoise,  to bom v-los... Obrigada por cuidar deles, voc est tendo tanto trabalho... A propsito, como est tudo em Montillac? Alain e as crianas no esto achando ruim a sua ausncia prolongada?... E voc, e os exames? Voc parece esgotada...
- Est tudo bem... Alain deseja que voc se recupere logo... Vamos, no se preocupe com nada, pense apenas em ficar boa logo.
- Voc conseguiu falar com Franois?
- No, impossvel encontr-lo. Ontem, afinal, mandei um despacho para o endereo do Governo Geral, em Argel, para contar do acidente; acrescentei logo que voc est fora de perigo.
- Estou louca para v-lo... Adrien, me diga, como vai a escola?
- Bem, mame. S tenho problemas com o professor de matemtica, ele no me suporta.
- No ser porque voc no estuda o suficiente?
-  lgico que  isso. - Interveio Camille. - Ele no pra de dizer que a matemtica no serve para nada.
- Cale-se! - Falou ele entre os dentes. - A senhorita faz fofoca porque tira dez em tudo...
La fechou os olhos, a cabea girando um pouco.
- Camille, Adrien, vo brigar no corredor. - Cortou Franoise. Beijem sua me e saiam, eu j vou tambm.
- Ah, no! Acabamos de chegar...
- Vamos, andem, obedeam  sua tia! -Apoiou delicadamente La. - Vocs voltam amanh.
Eles a beijaram e depois saram contrariados. Franoise puxou uma cadeira e sentou-se na cabeceira da irm.
- La, preciso voltar para Montillac...
- Ah, por favor, fique mais um pouco... Preciso de voc aqui.
- L, tambm, eles precisam de mim.
-  verdade, desculpe, s penso em mim...
- Sim,  verdade... - Provocou-a Franoise, rindo. La pegou a mo da irm e levou-a aos lbios.
- Como voc se parece com mame, quando sorri!
Elas ficaram um tempo sem se falar, olhando-se com ternura.
- Afinal, La, voc vai me contar o que estava fazendo naquela estrada, no meio da noite?
A acidentada fechou os olhos e no respondeu.
- A polcia veio nos perguntar se ns no sabamos da sua viagem... Logicamente, no pudemos responder. Voc vai receber logo a visita deles, com certeza.
- Quando voc pensa em partir? - Esquivou-se La.
- No fim de semana... Quando voc sair, por que no vem para Montillac, para acabar de se recuperar?
- Obrigada, vou falar com Franois... De qualquer jeito, iremos no Natal.
- Natal? Falta muito para o Natal...
- Por que voc diz isso? So s dois meses.
-  muito, dois meses!
La observou a irm, com espanto. Por que essa expresso triste e indiferente ao mesmo tempo? Um medo estranho tomou conta dela. O que poderia preocup-la agora que ela, La, estava fora de perigo? La percebeu ento a expresso cansada, a cor acinzentada, os olheiras profundas que lhe tomavam todo o rosto. De repente, lembrou-se de que j tinha reparado que ela no estava bem, quando almoaram no Lipp. Com um sobressalto, La endireitou-se bruscamente, mas caiu de novo sobre os travesseiros, tomada pelas vertigens.
- La! - Gritou Franoise, inclinando-se para ela. - Desculpe, querida, estou cansando voc... Eu vou embora, no fale mais... Chega por hoje... Descanse, eu volto amanh.
Depositou um beijo na testa mida e deixou o quarto o mais discretamente possvel.
Quando a porta fechou, La permaneceu por um bom tempo imvel, tentando controlar a ansiedade que crescia nela. Logo se ps a chorar.
- Oh, sra. Tavernier, o que se passa? Por que est chorando? Est com dor? - Preocupou-se a enfermeira, que La no ouvira entrar. - No  preciso ficar assim, o doutor no vai gostar... Se a senhora no se comportar, ele vai proibir as visitas... Vamos, agora se acalme... Eu vou lhe dar um sedativo.
No dia seguinte, foi Charles que trouxe as crianas. Desta vez, s permitiram que eles ficassem alguns minutos.
- Por que Franoise no veio? - Inquietou-se logo La.
- Ela passou mal, ontem  noite, quando voltou para casa. O mdico veio, no quis nos dizer nada. Em compensao, pediu o nmero de telefone do tio Alain. - Explicou
Charles.
- Meu Deus!
- No se preocupe, vamos, ela j estava muito melhor hoje de manh. Um bom dia de repouso e ela estar nova!
A enfermeira entrou para indicar que a visita acabara. La os viu partir com um certo alvio.
Na semana seguinte, uma ambulncia levou Franoise de volta para Montillac. Franois, que tinha afinal chegado  metrpole, veio buscar La no hospital.
- Nunca mais me deixe sozinha... - Murmurou ela, encolhendo-se entre os braos dele.
Um ms depois, toda a famlia Tavernier acompanhava, em Verdelais, o enterro de Franoise. Diante da sepultura aberta, onde j repousavam seu pai, sua me e sua irm Laure, La teve a impresso de que esses seres amados a chamavam. Tomada por um medo irracional, ela se enganchou, febril, no brao de Franois. Um dia, prximo talvez, seria a sua vez. Uma vontade de fugir tomou conta dela. Seus terrores infantis voltaram, pavores que s seu pai teria o poder de acalmar. Ela largou o brao do marido e afastou-se. Tropeou no piso inclinado do cemitrio e dirigiu-se para o caminho cheio de pedras que levava ao calvrio. Ao longo do caminho, o ar tinha cheiro de musgo e de cogumelos, as rvores tinham perdido as folhas e, em alguns lugares, a pedra de que eram feitas as capelas da via sacra se desmanchavam. Reinava nesse lugar uma desolao que lembrava a ela os piores momentos da guerra. Tiros, ao longe, sobressaltaram-na. Ela apressou o passo, parando por uns momentos para recuperar o flego. Como quando era adolescente, sentou-se nos degraus ao p da cruz, de frente para essa paisagem amada. Uma silhueta clara vinha subindo na direo dela, carregando um cesto pesado: era Franoise trazendo o piquenique... La se endireitou: no, hoje, s havia os corvos voando por cima das vinhas desnudas e, ao longe, uma fumaa...
Na volta do enterro, a famlia, os vizinhos e os conhecidos reuniram-se em Montillac, onde, segundo a tradio, serviu-se um lanche. Alain ia de um para o outro, qual uma alma penada. Impressionadas, as crianas de Franoise e de La estavam quietas, num canto da sala. La subiu para se deitar no antigo quarto.
Foi sem a menor alegria que comearam a se preparar para o Natal. Sentada perto da lareira da sala, onde queimava um fogo de galhos de videira, La folheava, com o ar ausente, antigos exemplares de Le Monde. De repente, deu um grito. Franois e Charles que, sem entusiasmo, jogavam uma partida de damas, levantaram a cabea.
- O que foi, minha querida? Est se sentindo mal?
Plida, com lgrimas nos olhos, La estendeu-lhes o jornal  guisa de resposta. Franois percorreu as duas pginas abertas sem perceber nada.
- Eu no vejo...
La arrancou o jornal da mo dele para mostrar a pequena nota que ele no tinha visto. Dessa vez, Franois leu em voz alta: "As buscas para encontrar o comandante
Camilo Cienfuegos foram abandonadas. Conduzidas pessoalmente por Fidel Castro e pelo comandante Ernesto Che Guevara, por terra e por mar, elas no chegaram a encontrar os restos do avio no qual o heri da Revoluo embarcou, vindo de Camagey."
- Foi mais ou menos na poca do seu acidente. - disse Charles. Voc estava no hospital e eu no quis contar naquele momento: voc no teria agentado... Por falar nisso, voc recebeu uma carta de Cuba, acho que  do Che...
La precipitou-se para o monte de envelopes que tinha ficado na beira da lareira. Entre as cartas de psames que ningum tinha ainda tido a coragem de abrir, encontrou a de Che e rasgou nervosamente o envelope.
Querida La,
No h mais nenhuma esperana de encontrar vivo nosso companheiro, meu amigo e meu irmo. Camilo desapareceu no cu de Cuba, no o veremos mais. Quem o matou? Ou melhor, poderamos nos perguntar quem eliminou seu ser fsico? Porque a vida de homens como ele tem seu prolongamento no povo; ela s acaba quando o povo assim decide.
Foi o inimigo que o matou, porque desejava sua morte; porque no existem avies seguros, porque os pilotos no podem adquirir toda a experincia necessria; porque, sobrecarregado de trabalho, ele desejava chegar o mais rpido possvel em Havana... e o que o matou, foi tambm o carter dele.
Camilo no media o perigo, ele o utilizava como uma diverso, ele jogava com ele, ele o toureava, atraa e manobrava; na sua mentalidade de guerrilheiro, nenhum obstculo podia interromper nem alterar a linha que ele se tinha traado. Partiu no momento em que todo o povo o conhecia, admirava e amava.
Dois dias antes de sua morte, triste pela traio de Huber Matos, que ele prprio quis prender, ele me falou de voc. Um dia, talvez, terei a oportunidade de lhe contar quais foram as palavras dele. Saiba apenas que ele a amava e desejava a sua felicidade. Todos, aqui, sofrem com a ausncia dele e nada mais ser como antes para nenhum de ns. Multides de pessoas foram para a beira do mar para jogar flores em memria dele. Todos tinham lgrimas nos olhos. "Foi o melhor que morreu", diziam algumas senhoras, mandando beijos para o cu. Elas tm razo: Camilo era o mais puro de ns, o mais generoso, o mais corajoso. No havia clculos polticos nele, apenas o desejo profundo de tornar feliz e livre o povo cubano. Deu sua vida por isso. A nossa vai seguir sem ele, a servio da Revoluo. Espero que a sua encontre um sentido, nessa Frana envolvida muma guerra fratricida. Um novo ano vai comear sem ele, e me parece desde j difcil.
Acredite em minha amizade fiel, Seu amigo, Ernesto.
A carta escorregou da mo de La; Franois recolheu-a sem uma palavra, dobrou-a e recolocou-a no envelope. Que palavras de consolo poderia dizer a esta mulher que era sua esposa e que chorava pelo amante? O cime mordia-lhe o corao. Tambm no fez nenhum gesto quando La se levantou e se dirigiu a passos lentos para a porta que dava para o jardim. L fora, o ar fresco de dezembro atingiu-a; ela tremeu, apertou o xale em volta dos ombros e desceu a passos lentos para o terrao. Um triste sol de inverno acabava de se apagar, enquanto a neblina flutuava sobre o Garonne. Ao longe, um cachorro latia. Ela apoiou as mos na pedra fria da balaustrada; o contato spero acalmou-a. No seu esprito atormentado, o rosto de Franoise e o de Camilo se superpunham. Sua irm e seu amigo cubano se encontrariam em algum lugar?
Algum se aproximou. Por que no a deixavam tranqila?
- Venha,  preciso entrar agora - Sugeriu docemente Charles.
La virou-se e ficou de frente para esse homem que ela tinha visto nascer. Ele parecia muito grande, nesse crepsculo! Ela reviu o pai dele, de p no mesmo lugar.
Jogou-se contra ele.
Ficaram assim abraados durante muito tempo, unidos na mesma dor. Afinal, ele afastou-a com delicadeza.
- Agora, venha... As crianas esto aflitas.
La deixou-se levar e subiu de volta para a casa que brilhava na noite negra.
O retorno para Paris, no carro novo de Franois, deu-se numa atmosfera melanclica; os trs viajantes trocaram poucas palavras. Charles avisou que partiria no mesmo dia para encontrar seus amigos que praticavam esportes de inverno e quis saber onde eles passariam o 31 de dezembro. Adrien, Camille e Claire estavam em Montillac, a pedido de Alain, para fazer companhia aos primos. Inconscientemente, La estava aliviada de se separar deles por algum tempo; ela ainda se sentia fragilizada pelo acidente. Sentia a necessidade de ficar s com Franois. Pressentia que acabava de entrar numa fase decisiva de sua vida. Somente ele podia ajud-la a ver claro.
Ela ainda no tinha acabado de desfazer as malas quando alguns policiais civis se apresentaram  Rua de Le Universit; eles pediram para falar com a sra. Tavernier.
La recebeu-os acompanhada pelo marido. Educadamente, os polcias fizeram perguntas sobre as circunstncias nas quais o acidente aconteceu, e sobre as razes que motivaram a viagem. Ela respondeu que a vontade de ver uma exposio em Strasbourg era o nico motivo. Quanto ao acidente propriamente dito, ela no se lembrava de nada: a sonolncia, sem dvida... Os inquiridores fingiram que acreditaram e se retiraram sem insistir.
Assim que a porta se fechou atrs deles, Franois, que no havia dito nada at ento, exigiu dela a verdade. Quando ela terminou de falar, ele ficou em silncio por muito tempo, uma ruga de preocupao marcava-lhe a testa. Depois, de repente, ele explodiu:
- Voc  completamente maluca! Voc me coloca numa situao insustentvel frente ao general de Gaulle! Pense um pouco, a mulher de seu enviado especial na Arglia serve  FLNL. Voc j pensou nas conseqncias de um ato to insensato? A Frana est em guerra, e voc no encontra nada melhor para fazer do que ajudar aqueles que a combatem!... Voc compreende que, com o dinheiro que voc transportou, eles compraram armas que matam os jovens franceses?  como se voc armasse o brao que vai matar Charles!
"Charles!"..., La pensou ficar louca. Com palavras parecidas, o jovem no tinha lhe dito mais ou menos a mesma coisa?
- Voc no tem o direito de me dizer isso!
- No tenho o direito?!... Voc o salvou das mos dos homens de Batista, mas estar l para salv-lo das balas da FLN quando ele for mandado para a Arglia?
- Ele no ir para a Arglia!
- E como ele vai fazer para no ir?
- Ele desertar. Franois olhou-a desolado,
-  tudo em que voc consegue pensar?
- Dezenas de jovens convocados fazem isso. Logo, sero milhares...
- Talvez, mas, no estado atual das coisas, ele pode ser mais til na Arglia do que desertando.
- Como assim?
- Ele pode levar seus companheiros a refletir sobre a inutilidade dessa guerra e dos meios para execut-la.
- Mas, que jogo voc faz?
- Eu no jogo! Eu tento compreender e contribuir para uma soluo justa e clara, tanto para os franceses da Arglia como para os muulmanos.
- Mas voc sabe muito bem que a totalidade do governo, comeando pelo Primeiro-Ministro,  favorvel  Arglia francesa!
- E da? No quer dizer que ser para sempre. Lembre-se do discurso do General a respeito da autodeterminao. Uma votao vai decidir o destino da Arglia.
- E ser como na Indochina... Voc acredita nisso, nas eleies?
- Sim. E se no o fizesse, no acreditaria que a Frana  um pas democrtico...
- Sempre as palavras!
- No, a realidade... De qualquer modo, peo que voc rompa relaes com esses que a envolveram nessa aventura. Voc agora est fichada na DST, seus menores gestos vo ser vigiados, seus menores movimentos sero controlados. Os policiais no acreditaram numa nica palavra do que voc disse sobre a viagem a Strasbourg. Se voc no pensa em mim e nas conseqncias que tudo isso pode ter no meu futuro, pense pelo menos nas crianas, que vo ter dificuldades para entender por que sua me est na priso! Porque, caso voc no saiba, eles tambm prendem os que transportam as malas... La passou a mo pela testa.
- No faa essa cara... Eu sei bem que voc  levada por um sentimento de justia. Mas no acho que voc escolheu o melhor jeito de manifestar sua solidariedade com o povo argeliano.
- O que poderia fazer, ento? - Perguntou ela desamparada.
No meio de sua tristeza, La no percebeu a ternura que se divisava no rosto do marido. Se ela tivesse visto, nesse momento, teria se jogado em seus braos para procurar refgio.
"Como proteg-la de si mesma?" - Perguntava-se Franois, olhando para ela, ao mesmo tempo to forte e to frgil. A maternidade no tinha lhe trazido nenhuma serenidade.
Persistia sempre, nela, essa dificuldade de se acomodar numa felicidade simples. Ele se culpava por no ter sabido dar-lhe um sentimento de segurana. Envolveu-a, sem querer, em suas aventuras que a tinham impedido de se tornar adulta. Essas atividades loucas fizeram com que ela pensasse que podia mudar o rumo das coisas.
Sua generosidade a lanava  frente de perigos que ela s superava graas a uma furiosa vontade de viver e a uma coragem absurda. "Diabo de mulher". Ele conteve o desejo de pux-la para si; devia mostrar-se firme se queria que ela renunciasse a se envolver mais no problema argeliano.
- Esta noite, h um jantar no palcio lyse, para o qual fomos convidados.  preciso causar boa impresso. Conto com voc para ser das mais elegantes... Amais bela.
- Acrescentou ele ternamente.
-  mesmo indispensvel?... Podamos nos desculpar com o luto, as conseqncias de meu acidente...
- No. Voc precisa enfrentar. No  o momento de desistir. Sua ausncia nesse jantar seria interpretada como uma confisso. Mas, se voc for, podero pensar que voc no tem nada a temer. E, depois, o fato de ser recebida na Presidncia da Repblica talvez a proteja um pouco.
- Voc acha? - Murmurou ela.
- Sim - Respondeu ele simplesmente, puxando-a para si. - No tenha medo, eu estou aqui... Estarei sempre aqui. - Cochichou ele, nos cabelos dela.
Desde sua entrada nos sales do Elyse, La, o corpo modelado por um longo de veludo rubi, atraiu todos os olhares. Seus cabelos presos para cima destacavam seu pescoo e disfaravam as cicatrizes, seqelas do acidente. Seus brincos compridos de brilhante, que balanavam com o movimento dela, enfeitavam com um ornamento suplementar cada um de seus gestos. O general e a sra. de Gaulle reservaram-lhe uma acolhida amvel e perguntaram por sua sade. Para o jantar, o protocolo a tinha colocado na mesa de Andr Malraux, ao lado de Jean Sainteny que lhe deu notcias de seu amigo Ho Chi Minh; segundo ele, o presidente vietnamita preocupou-se mesmo com ela...  sua esquerda, jantava o ministro de assuntos Estrangeiros, Maurice Couve de Murville; ele tambm se mostrou dedicado.
- Teve notcias de Cuba? - Perguntou ela.
- O que quer dizer?
- Encontraram o avio do Comandante Cienfuegos?
- No, que eu saiba... Mas, por que essa pergunta? Ah, tinha me esquecido!... Desculpe-me... Voc estava na Sierra Maestra, no ? Deve ter sido uma experincia incrvel. Voc acha que Castro vai ficar no poder?
- Espero que sim, pelos cubanos.
-  um poder frgil... No acho que os Estados Unidos vo aceitar por muito tempo, na sua porta, um Estado comunista. - Interveio Andr Malraux.
- Fidel Castro no  comunista! - Protestou La.
- Ser. - Afirmou o autor de A Condio Humana.
- Senhor Ministro, eu no tenho a sua experincia, mas posso lhe garantir que os comunistas so minoria em Cuba.
- Por enquanto, madame, por enquanto...
- Posso fazer-lhe uma pergunta, senhor ministro?
- Por favor.
- O que o senhor pensa da tortura?
Um silncio incmodo caiu. Cotovelos apoiados na mesa, o queixo repousando nas mos cruzadas, o rosto agitado por tiques, o Ministro de Estado encarregado dos Assuntos
Culturais examinava essa mulher que acabava de lhe fazer, aqui neste local, uma pergunta to insolente.
Jean Sainteny tentou distrair a ateno:
- Senhor ministro, permita-me... La cortou-lhe a palavra:
- O senhor no deveria denunciar prticas, como fez na guerra da Espanha? Calando-se, o senhor trai sua obra...
- La!...
-  na Frana que se tortura, no na China, na Espanha ou na Alemanha, mas a dois passos daqui!
Ofegante, ela se calou. Todos os convidados a contemplavam com espanto. A reprovao estava em todos os olhares. Todos espiavam a reao de Andr Malraux; ela no veio.
- Minha obra... - Disse ele somente, antes de voltar a comer.
La interrogou com o olhar cada um dos outros convidados, esperando que um deles retomasse esse assunto inquietante. As conversas particulares recomearam pouco a pouco.
- Com licena.
Ela se levantou. Sainteny e Couve de Murville acompanharam o gesto.
- No se incomodem... Preciso tomar ar...
No hall, ela pediu seu casaco. Franois, que a tinha visto sair da mesa, veio juntar-se a ela.
- O que se passa?
- Nada... Desculpe, no me sinto bem... Estou sufocando!
O porteiro abriu-lhe a porta. Ela desceu os degraus quase correndo. Franois alcanou-a e segurou seu brao com fora.
- Volte!
- No, est acima das minhas foras.
Eles deram ainda alguns passos no ptio, sob o olhar curioso das sentinelas.
- Faa um esforo... Eu peo encarecidamente.
- Me d as chaves do carro.
Ele as estendeu para ela, olhando-a fixamente, depois virou-se, sem uma palavra, e voltou para o palcio iluminado.
Por muito tempo ela rodou sem destino pelas ruas de Paris, vazias por causa do frio. Teve vontade de beber um drinque forte, se possvel num lugar quente, cheio de desconhecidos. A Praa de Letoile estava deserta. Na Champs-lyses, os veculos eram raros. Parou diante da Drugstore. O calor reconfortou-a. Comprou uns jornais, folheou uns livros na livraria sem que a vendedora, mergulhada na leitura de um livro, levantasse os olhos. No bar, pediu um caf e um conhaque. Alguns homens desacompanhados tentaram em vo atrair a ateno dela. Ela virava negligentemente as pginas de uma revista, quando a vendedora da livraria veio se sentar perto dela; pouco depois, o garom pousou diante da vendedora um hambrguer acompanhado de um copo de Coca-Cola. Ela agradeceu com um sorriso, engoliu algumas bocadas, depois abriu o livro de novo.
- Vai esfriar. - Disse gentilmente o rapaz.
Sem interromper a leitura, a moa fez sinal de que no tinha importncia. Sem querer, La, que tinha assistido  cena, ouviu-se perguntar:
- O que voc est lendo?
A moa levantou os olhos embaados.
- Le dernier des justes, de Andr Schwarz-Bart... - Ele recebeu o Goncort.
Ela bebeu um gole de Coca e voltou ao livro.
Uma loira, nem jovem nem velha, muito maquiada, veio lhe dirigir uma palavra. Confusa, a moa levantou-se e saiu rapidamente, depois de fazer um sinal com a cabea para La.
Um grupo de jovens entrou, comentando ruidosamente o ltimo filme de King Vidor, Salomo e a rainha de Sab. Eles se acomodaram, como freqentadores habituais, chamaram o garom pelo nome. Por um instante, La invejou a juventude deles, a insolncia... Um deles olhou-a com uma insistncia que, em outras circunstncias, teria achado divertida. Isso, porm, no passou despercebido a uma das acompanhantes do rapaz. Ela lanou um olhar assassino a La que, imediatamente, sentiu-se velha. O casaco de peles que a envolvia escorregou. O rapaz se precipitou, recolheu prestativamente o casaco e recolocou-o nos ombros de La.
- Voc  muito bonita. - Murmurou ele.
La sorriu, tocada apesar de tudo pelo cumprimento e afastou-se.
Pensativa, subiu os degraus que levavam  livraria. Desta vez, encontrou a vendedora encarapitada numa escada. Ela procurava um livro para um cliente que, sem pudor, se deleitava com a viso das coxas que a saia levantada descobria. Ela desceu com as mos vazias.
- No, no tenho mais... Quer que encomende?
- No, no vale a pena... Eu volto outro dia.
A jovem levantou os ombros e virou-se para La que tinha perguntado:
- Voc tem aquele livro que estava lendo h pouco?
- Le dernier des justes? ... Sim, claro.
Ela pegou-o numa pilha, enquanto La passava em revista as novidades.
- Vou levar este aqui, tambm. - Disse ela, dando-lhe Le diner en ville, de Claude Mauriac. Voc j leu?
- Ainda no... Parece que no  mau; ganhou o prmio Mdicis.
- Ah, eu no sabia... Quanto devo?
Quando saiu da Drugstore, um vento glacial apressou-a para o carro. Saindo, teve a impresso de reconhecer seu admirador perto dali. Os sinais abriram um atrs do outro; em pouco tempo ela estava na Rua de Le Universit. O apartamento pareceu sinistro e frio. Ela jogou o casaco numa poltrona e foi para o quarto.
Franois ainda no tinha voltado.

Captulo IX

La'
Quando voc receber esta carta, estarei a caminho da Arglia. Pensava aproveitar a ausncia das crianas para passar alguns dias namorando voc. Sua atitude incompreensvel me tirou toda a vontade. Sei que passou por momentos difceis, mas isso no  razo para se comportar como voc fez. Sua falta de conscincia ultrapassa os limites do admissvel. O General limitou-se a lamentar seu ''mal-estar", perto de mim. Em compensao, o Ministro do Interior me falou das preocupaes do pessoal dele com relao s suas ms companhias e os interesses que voc possa ter. Garanti a ele que no havia necessidade de se preocupar, e que voc tinha, no mximo se mostrado imprudente. Quanto s suas tomadas de posio, disse-lhe que elas simplesmente expressavam em voz alta as perguntas que todos os franceses se faziam ao ler os jornais.
Assim como os policiais que foram em casa, ele fingiu acreditar. Entretanto, e como j avisei, eles agora tm voc na mira. Somente as relaes que eu mantenho em lyse impediram-nos de interrog-la mais.
Se voc quiser, e para afastar qualquer nova tentao, pode juntar-se a mim na Arglia. No que eu deseje isso de verdade, mas, ao menos, poderei tomar conta de voc. Se voc se decidir vir, avise-me no hotel Aletti, e tomarei as providncias necessrias. Caso contrrio, cuide bem das crianas ou arrume um amante para passar o tempo...
Se surgir a oportunidade, pense tambm no nosso futuro... se  que voc acha que temos um.
Franois
Foi a primeira notcia dele que La recebeu, depois daquela lamentvel noite no Palcio de L'lyse. Ele no apareceu mais em casa. Durante esses dois dias de silncio absoluto, La se enclausurou em casa, comendo massas e algumas conservas abertas ao acaso. A leitura dessa nota deixou-a assombrada. Franois nunca dirigira a ela palavras to duras. "Ele no me ama mais", pensou ela, "no conto mais com ele. Mas, tambm,  culpa dele, ele nunca est aqui". Depois do assombro, veio a raiva:
"Ele merecia que eu desembarcasse em Argel... No! Ele ficaria contente. Eu devia seguir seu conselho e arrumar um amante!" Num outro momento, afinal, ela calculou a enorme confuso que havia causado... Jogou-se na cama e derramou-se em lgrimas.
Naquela quarta-feira, 31 de dezembro, uma multido febril se acotovelava no Bulevar Haussmann, entre o Printemps e a Galeria Lafayette. Mulheres carregadas de pacotes amontoavam-se nos pontos de nibus e de txis. Outras, tensas, subiam e desciam as escadas do metr, cuidando e repreendendo as crianas que as acompanhavam. La, que tinha vindo comprar meias, desistiu. Abandonando a esperana de tomar um txi, voltou para a pera. Diante do Palcio Garnier, os pedestres congelados atravessavam a praa, curvados contra o vento. E... nada de txi  vista. Para escapar do frio, La entrou no caf de Ia Paix. Muitos haviam tido a mesma idia que ela, e o lugar estava lotado. Por sorte, uma mesa se esvaziou diante dela. Ela se sentou ao mesmo tempo que um homem que devia estar esperando pela mesma oportunidade; ele se levantou imediatamente, pedindo desculpas. Depois de uma longa espera, ela pediu um chocolate quente. A enxaqueca a impedia de pensar. Com os cotovelos na mesa, segurou a cabea entre as mos. A seus ps, percebeu ento um livro. Pegou-o e olhou ao redor,  procura do dono. Tratava-se do Almanaque Hachette para o ano de 1960. Folheou-o automaticamente, lembrando-se dos de sua infncia. Na pgina do "Ano Poltico Francs", algum havia escrito atravessado:
Preciso v-la. Esteja em casa a partir das dezoito horas.
Ela teve imediatamente a impresso de que essa mensagem lhe era destinada. De novo, olhou ao redor; nenhum rosto, nenhuma silhueta conhecida. Depois de beber seu chocolate, ela saiu, deixando o livro na mesa. Atravessava a porta do caf quando um garom chamou-a.
- Senhora! Esqueceu seu livro.
- No  meu. Achei-o no cho...
Ela pegou um txi que acabava de deixar uns passageiros.
-  melhor estar em casa, no  minha senhora? - Recebeu-a o motorista, esfregando as mos. - Para onde devo lev-la?
s dezoito e trinta, o telefone tocou.
- La?
- Sim.
- Voc est sozinha?
- Quem ?
- Voc ainda tem o cesto que comprou na Rua Moufettard?
- Voc!...
- No diga meu nome. Um amigo a espera no bar do Pont-Royal.
- Mas...
J tinham desligado. "No vou", decretou ela.
Uma hora mais tarde, ela descia os degraus do estabelecimento.
Nessa cidade em festa, somente duas mesas estavam ocupadas. Numa delas, Roger Vailland lia Le Monde. Ela sentou-se na frente dele. Ele levantou a cabea e sorriu.
- Que prazer rev-la, minha cara. Voc sumiu... Soube que voc foi vtima de um acidente. Felizmente, como constato, no foi nada grave, voc continua sedutora.
-  com voc o meu encontro?
- Talvez, no sei... Voc v algum mais?
- Pare, voc no  engraado.
- Voc j me disse isso... Vou acabar ficando sem graa.
- S por isso?
-  verdade... O que voc vai fazer no rveillon?
Uma vaga tristeza tomou conta dela. Ela confessou com uma voz cansada:
- No sei...
Os olhos do escritor brilhavam. Decididamente, esta mulher lhe agradava muito. Ela no tentou, como muitas outras teriam feito, inventar desculpas; confessou simplesmente:
"No sei".
- Ento voc vai comigo  casa de uns amigos... Eles gostaro muito de receb-la.
- Se voc quer... Mas, no momento, eu beberia alguma coisa.
- Ah, desculpe... Francis! Traga uma taa de champanhe para a senhora, por favor... Alis, champanhe est bom para voc?
La aprovou com a cabea. Depois de beber um gole, ela perguntou:
- Por que voc me fez vir aqui?
- No fui eu.
- Quem, ento?
- Voc saber hoje  noite...
- No quero fazer mais nada para seus amigos.
- De que amigos voc est falando? E voc? Voc tem amigos? Com um erguer dos ombros, ela ignorou a pergunta.
- Voc tem fogo?
Francis aproximou-se para lhes propor uma outra dose. Oferta da casa, por ocasio da Saint-Sylvestre. Eles aceitaram e brindaram  sade do bannan, que aproveitou para anunciar:
- Hoje, fechamos mais cedo...
- O qu? Voc est nos mandando embora!
- Sr. Vailland, o senhor sabe que no  isso, mas, meu rveillon  no subrbio...
- Tudo bem, Francis, ns j vamos... Divirta-se e at o ano que vem!
- At l, sr. Vailland, at l, senhora. E feliz ano novo! Apressado, ele os acompanhou at a porta.
- Eu passo para apanh-la s dez horas. - Disse Roger Vailland,  guisa de despedida.
Quando ela ps a chave na fechadura, o telefone comeou a tocar.
- Al?
Do outro lado da linha, Adrien, Camille e Claire brigavam para falar com a me.
Depois que desligou, a vida lhe parecia a mais doce. Ela se despiu, tomou um banho demorado e fez-se a pergunta angustiante: "O que vou vestir?"
O grupo de convidados era elegante, mas descontrado. Algumas mulheres bonitas, um casal de homossexuais clebres, dois ou trs escritores, alguns homens muito seguros de si e um jovem tmido se espremiam no grande apartamento de uma condessa cujo sotaque cantante revelava sua origem italiana. Vestida com um extravagante vestido de renda preto e dourado, uma longa piteira entre os dedos, ela recebeu calorosamente La, e at beijou-a.
- Voc  a pessoa de quem Roger me falou tanto, no ? Mas ele ficou abaixo da realidade: voc  ainda muito mais bonita do que o retrato que ele descreveu! Alm do mais, voc  perturbadora... Fico muito feliz de conhec-la. Esteja em casa.  tudo sem cerimnia, como vocs dizem: cada um se serve... Roger, v buscar alguma coisa de beber para nossa amiga.
A condessa afastou-se para receber novos convidados. La olhou em volta, procurando um rosto conhecido. Elisabeth Vailland conversava com o jornalista Lucien Bodard, com quem ela cruzara muitas vezes na Indochina. Ambos cumprimentaram-na com um movimento de cabea e La sorriu para eles.
- Pronto. - Sussurrou Roger Vailland, entregando-lhe o copo. - Que este ano veja a concretizao dos meus desejos!
La levantou o copo sem perguntar quais poderiam ser os desejos dele, depois se sentou afastada, numa sala pequena que dava para o terrao; o cmodo era iluminado apenas por um conjunto de velas colocado sobre a mesa.
Com quem estaria Franois, nesta noite? Com o que se ocupava, em vez de estar aqui, ao lado dela?... Passou uma mo cansada pelo rosto e suspirou.
- Minha av dizia: "Corao que suspira no tem aquilo a que aspira!"  o seu caso, linda senhora? - Perguntou uma voz de homem, vinda do terrao.
Pela porta-balco aberta, uma corrente de ar inclinava a chama das velas que tremeu um pouco, ainda, depois que a porta foi fechada. La recolheu os ps para perto dela e se encolheu contra as almofadas do sof. O homem da frase original veio sentar-se perto dela.
- Vejo que voc recebeu meu recado...
- Qu? Era voc, h pouco?... No o reconheci.
- Isso prova, pelo menos, que meu disfarce  bom... Tive muito medo por causa do seu acidente, sabe? Enfim, vejo que no , para voc, mais do que uma pssima lembrana;
fico feliz por isso... A polcia no lhe causou problemas, eu espero. Muitos camaradas foram presos...
La virou-se para ele.
- Mas voc no foi preso.
- De que maneira voc diz isso! Parece at que voc lamenta... Uma pequena risada sem alegria lhe respondeu. La esvaziava o copo, quando Vailland entrou, com um prato na mo; estendeu para ela.
- Estes canaps de salmo esto deliciosos, eu recomendo... Ah, voc j est a, eu no tinha notado... Viu como consegui traz-la? Faa bom uso dela, mas no a monopolize demais... Bom, deixo vocs sozinhos.
- Por que voc queria me ver? - Voltou ela ao assunto.
Vincent hesitou antes de responder, olhou ao redor, depois se aproximou dela.
- Eu tenho agora uma misso muito importante para lhe confiar...
- Nem pensar! Prometi a meu marido manter-me longe de tudo isso. Alm do mais, a polcia est me vigiando...
- Eu sei... Mas, acredite, no tenho escolha.
- Sinto muito, ache outra pessoa. - Cortou La, levantando-se. Ele a segurou pelo brao e forou-a a olhar para ele.
- Trata-se da vida de um homem! Com raiva, La soltou-se.
- E na minha vida, voc pensa?
Duramente, eles se enfrentaram com o olhar. Vincent foi o primeiro a desviar o seu. Seus traos tensos, as olheiras profundas revelaram muito cansao. Fazia meses que ele mudava de esconderijo sem parar, para escapar da polcia, ficando na Sua a maior parte do tempo. La sabia que ele era sincero na sua luta. Mas, para ela, no momento, devia haver outra forma de mostrar sua solidariedade com o povo argeliano; as palavras de Franois a respeito de Charles voltavam-lhe  memria. Por que, desta vez tambm, ele no est do seu lado, para ajud-la a raciocinar?
- De que se trata? - Ela se ouviu perguntar, no entanto, como se estivesse num sonho.
O telefone tocou arrancando-a de um sono agitado. Com um sobressalto, jogou-se para fora das cobertas e procurou o interruptor s apalpadelas. Uma nova enxaqueca lhe perfurava a cabea. "Com certeza, bebi demais", pensou, enquanto atendia ao telefone, afinal. Um chiado insuportvel prejudicava a ligao.
- Al? La?... Al?...
- Franois?!
- Feliz Ano Novo, querida!
- Ah, obrigada, obrigada! Para voc tambm, bom ano, meu amor! Estou to feliz de ouvir voc!
- Liguei muitas vezes... Voc no estava...
- No agentei ficar sozinha, ontem  noite. Fui para a casa de uns amigos... E voc? Al? Al?... Voc est ouvindo?
- Muito mal... Eu ligo de novo mais tarde... Um beijo, volte a dormir, meu amor.
Depois de novos rudos, a comunicao cortou-se. La voltou a dormir em seguida, desta vez, serena.
Quando acordou de verdade, eram duas da tarde. A dor de cabea tinha desaparecido. Ela se levantou, cheia de um bem-estar que no sentia h muito tempo. Cantando, foi para o banheiro, engoliu um copo enorme de gua fresca, escovou os dentes e, depois, os cabelos.
- Ai! - Fez ela.
Ela tinha esquecido os ferimentos recentes.
Encheu a banheira, jogou sais perfumados e voltou ao quarto, de onde ligou para Argel. Impossvel conseguir linha. Aps vrias tentativas, desistiu.
Durante esse tempo, no banheiro, a gua comeara a transbordar. Ela enxugou, esvaziou um pouco a banheira e mergulhou, sentindo o perfume de rosas que tinha invadido a atmosfera. Pousou a nuca na beirada de loua com um gemido de prazer. Seu corpo parecia flutuar num leito de ptalas. Com todas as foras, desejou que este ano fosse a imagem daquele momento.
A campainha da porta interrompeu seu devaneio. No primeiro de janeiro, quem poderia ser? Ela saiu da gua contrariada, envolveu-se num roupo atoalhado e, descala, foi abrir. Um homem de mais ou menos quarenta anos, de cabelos crespos levemente grisalhos, vestido com um sobretudo cinza e um terno riscado, um cachecol no pescoo, estava parado da soleira da porta, com um ramo de violetas na mo.
- Eu venho da parte de Vincent. - Disse ele, sem ousar olhar para ela. Todo o sentimento de euforia abandonou-a.
- Eu no o esperava to cedo.
Afastou-se para deix-lo passar. Ele deu uns passos no vestbulo, examinando o ambiente.
- Voc est sozinha? - Informou-se, segurando o buqu.
- Voc sabe que sim.
- s vezes, acontecem mudanas.
- Obrigada, em todo o caso, elas so perfumadas. Voc no foi seguido, pelo menos?
- Acho que no, a rua estava deserta.
- Se voc me d licena, vou me vestir... Enquanto isso, sente-se na sala.   esquerda.
Alguns minutos depois, ela voltou. O vestido de l crua que ela vestira rapidamente, com um cinto de couro, acentuava o seu corpo magro. Por cima, ela colocou um manto de twee, enfeitado com uma gola de raposa avermelhada. Na cabea, colocou uma touca da mesma pele.
Uma vez na rua, ela pegou-o pelo brao.
- Vamos passear como velhos amigos, no ?
- Sim,  assim mesmo...
Sem pressa, eles se dirigiram para o Sena. Ao longo do cais, pouqussimas pessoas passeavam sob o sol de inverno. A cidade inteira parecia em repouso. Eles pararam para ver passar um bteau-mouche que subia o rio. O homem aproveitou para dar uma olhada atrs deles; no viu nada suspeito. Voltaram a andar e chegaram, assim, at a Bcherie; encontraram um lugar perto da lareira, onde ardia um bom fogo. Pediram chocolate e doces. Depois do frio, o calor do lugar deixou-os, pouco a pouco, entorpecidos. Para combater um pouco a sonolncia, falavam de vez em quando sobre algum assunto inofensivo. Passou-se uma hora. Quando decidiram sair, j era quase noite e o frio tinha piorado. No Bulevar SaintMichel, entraram num cinema onde passava La vadie et le prisonnier, um filme com Fernandel. Tinha acabado de comear, mas havia pouca gente no cinema. Pouco depois, algum se sentou atrs deles. La sentiu seu companheiro ficar tenso. Poucos minutos depois, ele cochichou:
- Podemos ir.
- Eu gostaria de ver o fim do filme!
- No temos tempo... Venha.
L fora, uma mulher com um leno na cabea veio ao encontro deles.
- Como estou contente em v-los! - Exclamou ela, tomando La e o homem pelo brao.
La reconheceu a condessa italiana. O trio atravessou o bulevar.
- Meu carro est estacionado na Rua Saint-Andr-des-Arts... Ah! Paris no  mais o que era! Os parisienses se comportam como marmotas, no inverno, ficam fechados em casa, no calor... Rpido, o tanque est cheio. Vocs vo a Valenciennes, passam para a Blgica, a fronteira l  menos vigiada. Em Charleroi, vocs vo ao caf
Progrs, da mulher de um exlutador de boxe, Chrif Attal. Um companheiro vai cuidar de vocs. Ele vai lhes emprestar um carro com placa da Alemanha e vocs iro para Colnia. L, ficaro no hotel que ele vai indicar; os quartos estaro reservados. No dia seguinte, viro buscar Akim, e voc, La, pegar o avio de volta a
Paris. Alguma pergunta?... Bom aqui est o carro, os documentos esto dentro, no quebra-sol... Vo, boa viagem, rpido!
La quase no dirigira depois do acidente. Durante algum tempo, dirigiu lentamente, cheia de apreenso. Aos poucos, a confiana voltou. O trnsito estava livre, o carro, bom de dirigir. Ligou o rdio; Akim cochilava. A passagem pela fronteira deu-se sem incidentes. No Progrs, uma mulher loira atendeu-os por trs do balco, acolheu-os sorrindo e props que comessem alguma coisa. Por cima do bar, entre duas bandejas de cobre entalhado, havia a foto de um rapazote disfarado de Gilles de Binche. Um colosso de cabelos bem curtos, pele morena, entrou no caf.
- Voc  Chrif Attal? - Perguntou Akim.
- Sou eu, meu irmo - Respondeu sorrindo o antigo boxeador. s trs horas da madrugada, eles deixaram Charleroi em companhia daquele que devia conduzi-los. L pelas seis horas, chegaram nos arredores de Colnia. No meio da manh e sem voltar a ver Akim, La deixou o hotel e tomou o avio do meio-dia.
No final do dia, ela abria a porta de casa, quando ouviu o trompete de Louis Armstrong vibrando no apartamento. Na sala, Charles e uma garota morena separaram-se bruscamente quando ela apareceu.
- Ah... desculpem! Eu no sabia que voc j tinha chegado... Pode abaixar um pouco o som, por favor?
Charles virou o boto da vitrola, ajudou La a tirar o manto e beijoua, enfim, desejando-lhe feliz ano novo.
A jovem os observava e seus grandes olhos azuis iam de um ao outro. Charles, segurando La pela cintura, aproximou-se dela.
-  dela que lhe falei, minha me adotiva... La, apresento-lhe MarieFrance Duhamel, uma amiga.
- Uma amiga?... Seja bem-vinda, senhorita.
- Bom dia... A senhora  mesmo muito bonita.
- Ah, obrigada... Charles, voc voltou antes do previsto?
- Sim, estava cheio dos esportes de inverno... E voc, o que aconteceu? Liguei ontem para avis-la... Quer ch? Est pronto...
- Com prazer.
O rapaz foi  cozinha para pegar uma xcara. As duas mulheres se avaliaram em silncio. "Muito mida essa menina", considerou La. "No gosto dela", concluiu Marie-France, por sua vez.
Charles voltou com a xcara e serviu o ch.
- Est um pouco forte para voc, no ?... Quer que eu ponha um pouco de gua quente?
- No, est bom assim... Vocs se conhecem h muito tempo?
- Dois meses, mais ou menos... Marie-France mora em Neuilly, est na faculdade de Letras... Que tal jantarmos juntos, os trs?
- Boa idia! Sou eu que convido... Vamos comer no restaurante chins da Rua Cujas? Vocs concordam?...  s o tempo de eu me trocar...
Depois do jantar, que, no final, se revelou alegre e animado, eles foram ouvir jazz perto da Igreja Saint-Julien-le-Pauvre. Quando saram da cave, o bairro estava cercado pela polcia que verificava a identidade dos pedestres; na Rua Saint-Jaques, prendiam sem rodeios, qualquer pessoa que se parecesse um pouco com os da frica do Norte.
- Mas,  injusto! - indignou-se Marie-France.
- Senhorita, houve um acerto de contas entre rabes. Da prxima vez, so pessoas como voc que eles mataro! Vamos, andando. - Ordenou o policial, devolvendo-lhes os documentos.
- Vou levar Marie-France em casa. Tomamos um txi e eu deixo voc no caminho.
Chegando em casa, La tentou ligar para Argel. A essa hora, Franois devia estar no hotel.
- O sr. Tavernier est fora por uns dias. Quer deixar recado?
- No vale a pena...
Ela desligou, desamparada.
As crianas voltaram de Montillac no dia 3 de janeiro e se prepararam, sem entusiasmo, para voltar s aulas. Claire, normalmente barulhenta, permanecia pensativa.
Na sala, ela havia colocado a boneca numa caixa de sapatos e, fazendo de conta que ela estava morta, dizia que ia enterr-la.
- Em Montillac, ela no parava de enterrar flores, pedaos de madeira e at um camundongo que ela encontrou preso na ratoeira. Cansamos de dizer a ela que com isso fazia os primos sofrerem, ela no ligava e continuava. - Contou Camille.
La olhava, perplexa, essa menininha de cabeleira negra que, agachada, fingia recitar preces acompanhadas de muitos sinais da cruz.
- Ela no pode compreender... - Murmurou La.
- Mame, quando voc morrer, vo coloc-la numa caixa de madeira como tia Franoise? - Perguntou a pequena.
O que responder? Camille veio em seu socorro com uma franqueza desarmante.
- J dissemos que sim! E, alm disso, no  numa caixa de madeira que se colocam os mortos, mas num caixo... No aborrea a mame, voc j torrou a nossa pacincia com isso!
- Mas eu no quero que a mame fique num caixo com terra por cima! - Gritou Claire, explodindo em soluos.
A me pegou-a no colo e tentou consol-la. Apesar de seus esforos, o choro da criana aumentava.
- Eu no quero! Eu no quero! - Soluava ela.
Philomne apareceu na sala, alarmada pelos gemidos da criana.
- Minha princesa, o que aconteceu?... Voc se machucou?
- No,  a mame.
- O que tem a mame?
- Eu no quero que ela morra, com a terra por cima. - Gemeu ela mais alto.
A vietnamita ajoelhou-se diante da pequena mestia.
- Meu tesouro, eu estou aqui e vou impedir a morte de levar sua mame.
- Voc... voc pode fazer isso? - Tentou se assegurar, levantando a cabea.
- Meu bem, voc sabe que a Philomne faria qualquer coisa para que voc no sofra.
Mais tarde, La se lembraria das palavras da bab. A criana jogou-se no colo de Philomne.
- Voc promete?
- Sim, meu amor.
- Obrigada, Lomne. Se voc no deixar, ela no vir pegar minha mame.
Comovidas, as duas mulheres se olharam com carinho. La ficava comovida com o amor que a vietnamita dedicava  pequena. Em troca, esta lhe era reconhecida por permitir amar a criana como se fosse sua. Fortalecida pela promessa, Claire seguiu sua assam sem reclamar mais. Camille saiu com ela.
Ficando sozinha, La teve a impresso de que a morte a rodeava. Pensou de novo em Franoise, criticando-se novamente por no ter prestado ateno na doena dela, de no a ter acompanhado at o fim. Imagens de sua infncia feliz amontoavam-se em sua cabea, antes de serem suplantadas pelas da guerra e depois pelo tormento humilhante infligido a Franoise. Ela ainda chorava devido a essas tristes lembranas, quando o telefone tocou. Enxugando as lgrimas, atendeu.
- La?...
- Franois!... Oh, eu queria tanto que voc estivesse aqui... Sinto tanto a sua falta... se voc soubesse...
- O que aconteceu? Voc est chorando?
- No... quer dizer...  Claire...
- O qu? Aconteceu alguma coisa?
- No, mas ela no pra de falar em morte.
- Mas  normal. Ela est na idade em que se comea a fazer esse tipo de perguntas.
- Mas ela  to pequena...
O riso de Franois, na outra ponta da linha, tranqilizou-a um pouco.
- O que voc quer? Hoje em dia as crianas crescem rpido! No precisa se preocupar... Fale de voc, agora. Como est? A cabea ainda di?
- No, acabou, est tudo bem agora... E voc? Eu liguei para o hotel, disseram que voc tinha ido viajar...
-  isso mesmo, estou em Oran agora.
- Quando voc volta?
- Estarei em Argel dentro de dez dias.
- E em Paris?
- No sei... A situao est muito tensa, espero que antes do fim do ms.
- Falta muito,  muito tempo sem voc!
- Eu tambm acho, mas... Bom, preciso desligar, tenho muito que fazer. D um beijo nas crianas e no nosso Charles. Cuide-se bem e, principalmente, tenha juzo.
La desligou sorrindo.
No bar do Pont-Royal, s se falava do acidente de carro que acabava de custar a vida de Albert Camus e de Michel Gallimard, que estava dirigindo. Francis, o bannan, no parava de repetir, com os olhos vermelhos:
- Ele veio aqui h quinze dias... Que tragdia, mas que tragdia! Tanto os que o amavam, como os que no amavam manifestavam uma tristeza sincera. O prprio Roger Vailland, que outrora qualificara Camus expressamente de "chato, completamente desprovido de humor", ficou prostrado. Rugas profundas no seu rosto acusavam seus sentimentos. Roger Vadim, sentado na mesma mesa, falava pelos dois; era visvel que Vailland no o escutava. A chegada de La no arrancou dele nem um sorriso. Ele bebeu de uma vez sua dose de usque e fez sinal a Francis para servir outra.
- Deixe-nos sozinhos, por favor. - Disse ele a seu companheiro de mesa.
Um pouco surpreso, Vadim afastou-se depois de cumprimentar La e acomodou-se no bar.
- Parto amanh para Meillonnas; vou terminar meu romance. Em Paris, me distraio muito... Quando eu tiver terminado, voc poderia ir me ver; Elizabeth ficaria muito contente...
-  mesmo?... No acredito!
- Voc est enganada; Elizabeth e eu partilhamos tudo. Ela adora me ver fazer amor com outra mulher e participa espontaneamente das minhas brincadeiras... Voc j acariciou outra mulher?
La sentiu que ficava vermelha e chamou-se de idiota.
- Voc corou?... Que charme! - Exclamou Vailland.
- Esses jogos amorosos podem diverti-lo, mas eles fazem voc se sentir feliz ou infeliz?
- Eu nunca consigo ser completamente infeliz, porque assim que me acontece algo desagradvel, penso imediatamente que isso me dar matria-prima para algum romance.
- Que cnico!
- Voc est enganada de novo: no sou cnico, sou libertino...
- ... de olhar frio, eu sei.
- Voc no sabe nada, voc no passa de uma burguesinha. Tenho todos os motivos para no ser infeliz. No tenho preocupaes com dinheiro; a falta de dinheiro  a causa mais comum de infelicidade. Tenho uma mulher que me respeita, no me atormenta quando eu desejo outras mulheres; a tirania das mulheres , depois da falta de dinheiro, a causa mais habitual de infelicidade. Eu escrevo.  minha vocao e mesmo que no precisasse ganhar a vida, escreveria os mesmos livros: a falta de vocao ou a obrigao de se consagrar a um trabalho que no corresponda  sua vocao  a terceira causa da infelicidade dos homens.
- E isso vale para as mulheres, na sua opinio?
- Elas so feitas para a felicidade dos homens, que condicionam a sua...
- Bela profisso de f! Permita-me discordar de voc... Voc se diz libertino, tudo bem, mas nada impede que uma mulher seja libertina e trate os homens como vocs tratam as mulheres. Voc se esquece de Madame de Mertetuil, a herona de Ligaes Perigosas...
- Madame de Merteuil no  um exemplo a ser seguido. Alm disso, ela paga caro por sua conduta!
- Sem dvida, mas o romance, assim como a adaptao que voc acaba de fazer com Vadim, continuam sendo obras de homens satisfeitos consigo mesmos...
- Voc acha?
O riso de La explodiu, claro e feliz. Clientes do bar se viravam com um ar de reprovao.
- Tenho certeza. Mas que importncia tem isso?... No final vocs fazem o que querem.
- Certamente, eu fao o que quero. Tudo que quero. - Respondeu ele, suspirando. - Eu me prendo ao conforto... eu queria lutar. Mas no sei mais contra quem lutar...
No se pode fazer a guerra pelo nico prazer de encontrar a fraternidade do combate.
Repentinamente abatido, chamou o barman e pediu outro usque.
-  o sucesso que torna voc melanclico?... Nesses tempos que correm, o que no falta so combates...
- Eu sa do partido comunista e no se pode dizer que sinta falta dele... E, no entanto!... Tenho necessidade daquela fraternidade...
Levantando os olhos para um homem alto, elegantemente vestido, ele exclamou:
- Ah! Voc chegou!... Boa noite, Jean-Claude, sente-se. Voc conhece a sra. Tavernier?
- No tenho esse prazer.
- La, apresento-lhe Jean-Claude Fasquelle, um de meus editores e, no entanto, meu amigo.
- Boa noite, senhora. Entendo que Roger tenha querido guard-la somente para ele. - Disse o recm-chegado.
Ele beijou a mo que La estendeu e sentou-se sem parar de olh-la.
- Eu a empresto, se voc quiser. - Props Vailland.
La fulminou-o com o olhar, enquanto o editor assumia uma expresso indignada, desmentida por seus olhos brilhantes.
- No antes que ns tenhamos brincado com ela. - Sussurrou Elizabeth que acabava de se juntar a eles.
Por um instante, La admirou a facilidade com que eles falavam de sexo e lamentou no ter essa desenvoltura. A atitude deles a perturbava, mas por nada no mundo queria que eles percebessem.
Levantou-se:
- Desculpe-me, brincaremos em outra ocasio.

Captulo X

Naquele final de manh de 12 de janeiro de 1960, o general Massu, comandante do exrcito e subprefeito de Argel, marchava de um lado para outro no seu gabinete, no Quartel Plissier, prximo da Casbah. Com o rosto vermelho e olhos arregalados, ele revelava a seu interlocutor sua decepo e sua raiva.
- O exrcito tem a fora... Ele no a mostrou at agora porque a ocasio no se apresentou, mas intervir se a situao exigir e restabelecer o poder... No compreendemos mais a poltica do Velho... O exrcito no podia esperar tal atitude da parte dele. Isso no vale apenas para a poltica argeliana. O Plano de Constantine parece agora sem sentido, uma vez que est claro que os povos africanos s o utilizam para abandonar cedo ou tarde a Comunidade... Nossa maior decepo  que de Gaulle tornou-se um homem de esquerda...
- No  a impresso que eu tenho. - Disse Franois Tavernier.
- Sua impresso... Estou pouco ligando para ela, estou falando da realidade... Ele era o nico  nossa disposio. O exrcito fez uma besteira!
- Voc quer dizer que o exrcito no obedeceria s ordens do Chefe de Estado em caso de rebelio dos radicais?
- No me faa dizer o que eu no disse, Tavernier, no sou fascista, e isso o Velho sabe. Gostaria que o governo nos ajudasse a ver claramente o futuro, para que consegussemos manter a Arglia francesa. O Velho no compreende os muulmanos. Nos pases islmicos no h livre arbtrio individual. Os muulmanos se determinam coletivamente a favor de posies determinadas por minorias, porque elas so abenoadas por Al. A autodeterminao foi traduzida pela FLN como sendo uma promessa de independncia. Isso lanou as massas muulmanas na indeterminao. Se continuarmos no caminho em que estamos, isso ser visto como fraqueza.  convincente que o exrcito francs faa os colonos se constiturem em organizaes paramilitares, e que fornea armas a esses grupos...
- Mas isso  uma loucura! Ortiz e suas milcias j esto armados at os dentes! Voc vai deflagrar a guerra civil!
- Eu no, Tavernier, eu no. Mas, no esquea que ns - o exrcito estamos na Arglia e que no a abandonaremos jamais!
Massu deu um soco na mesa, contornou-a, puxou com raiva uma cadeira sobre a qual se deixou cair.
- Eu sou a tampa da panela que contm a fervura argeliana. - Suspirou, esfregando seu grande nariz.
Tavernier no simpatizava com esse que o Canard enchain chamava de "duque de Argel" e que o Express tratara de torturador na poca da batalha de Argel. Entretanto, quase teve pena da sua confisso em face da complexidade da poltica do homem ao qual ele devotava uma admirao e uma fidelidade at ento sem limites. Percebia-se que estava abalado, invadido pela dvida: "O exrcito talvez tenha cometido um erro." Essa idia era insuportvel ao companheiro da Libertao, ligado desde 1940

 Frana livre e que tinha entrado em Paris, em agosto de

1944, ao lado do general Leclerc.
O general Massu levantou-se com um salto.
- E como se eu j no tivesse chateaes que cheguem, um de meus homens foi intimado a testemunhar, em Rennes, nessa droga de caso Audin! O pequeno Charbonnier est no hospital, ferido a servio da Frana. Mas, em Paris, eles esto pouco se lixando! Na ocasio, eles bem que gostaram que algum se encarregasse do servio sujo.
E, agora, meus oficiais so convocados diante de um juiz de instruo.  o cmulo!
Algum bateu  porta.
- Entre! - Gritou Massu. Um capito entrou.
- O que h? - Grunhiu o general - Fale, em nome de Deus! -  um jornalista alemo que insiste...
- Ele que v se foder! Eu j disse que no. No vou mudar de idia por um alemo.
- Desculpe, meu general, mas o general Lancrenon acaba de me ligar: o Quai d'Orsay insiste para que o senhor o receba. De seu lado, o general Challe...
- O qu? O general Challe?
- Ele recebeu o jornalista, meu general, ele tambm insiste.
- Bem, se todos insistem, vou receb-lo, mas... no mais que cinco minutos... Como se chama ele?
- Kempski, meu general.  um ex-pra-quedista.
- Que venha o seu "pra-jornalista alemo". Esta noite, vou a Tizi Ouzou, amanh a Orlansville. Diga-lhe para vir depois de amanh, s onze horas.
- Est bem, meu general. Bateram novamente.
- V abrir - Ordenou Massu ao capito.
Um oficial de baixa estatura, de rosto enrgico, entrou.
- Argoud, eis o enviado do general de Gaulle, Franois Tavernier. Trate-o como convm, mostre-lhe tudo que ele quiser ver... e mais um pouco! Tavernier, o coronel
Argoud  meu Chefe de Estado-Maior, ele tem minha completa confiana. Obrigado pela visita.
Franois saiu, seguido pelo coronel Argoud. O coronel Broizat, em cujo gabinete eles se encontravam, levantou-se para saud-lo.
- Ento, sempre na luta, Tavernier?
- E voc, sempre anticomunista, Broizat? O coronel devi um pequeno sorriso.
- Voc no mudou nada, desde 58.
- Voc tambm no, Broizat, voc tambm no. At logo, eu espero! Tavernier e Argoud deixaram o gabinete.
- Ele est bem cercado, o seu chefe. No se pode v-lo sem passar pelo gabinete de um e outro.
-  melhor assim. O que voc quer ver? - Perguntou ele abruptamente.
- Gostaria de acompanh-lo nas visitas, digamos no prximo domingo.
O coronel olhou-o fixamente.
- No  aos domingos - continuou Tavernier - que voc visita os setores?
- Quem lhe disse isso?
- Tudo se sabe em Argel, voc sabe disso. Quero descobrir pessoalmente o estado de esprito dos soldados e o das populaes nativas.
- Voc no ficar decepcionado... O moral das tropas est muito baixo, a disciplina est relaxando, os atentados e assassinatos de colonos se multiplicam.
- Mas... e o Plano Challe?
- Esse plano procede de uma anlise incorreta do problema. Ele se traduz por um desperdcio de meios e de tempo. Mas, seria injusto negar-lhe os resultados. Os rebeldes sofreram perdas srias, mas eles rapidamente adaptam sua organizao. Se o general Challe aplicasse os mesmos meios, com a mesma determinao,  conquista da populao, ganharia a partida mais cedo. Lanada sobre um objetivo secundrio, sua manobra s pode dar resultados parciais. O general Challe aborda o problema com uma ptica de aviador. Ele no tem, da guerra revolucionria, seno uma idia livresca. Para ele, a guerra da Arglia compete apenas  tcnica militar, enquanto, para mim, ela  um problema humano. Se ele continuar nesse rumo, certamente perder a guerra.
Com a cabea levantada para seu interlocutor, Argoud olhava direto nos olhos dele. Tavernier no podia deixar de sentir uma certa admirao por esse homem que falava to francamente, qualidade rara num militar conversando com um civil. "Massu tem influncia sobre ele", pensou antes de dizer:
- Meu coronel, agradeo pela sua franqueza. Para domingo que vem, est bem?
- O capito Ettori passar para peg-lo s cinco horas, domingo de manh, em seu hotel. Voltaremos s de noite. Ponha uma roupa confortvel.
Deixando o quartel Plissier, Franois atravessou a Praa Jean-Mermoz, caminhou ao longo do muro do Liceu Bugeaud e dirigiu-se para o jardim Marengo, cujas altas palmeiras balanavam-se suavemente. Com os livros embaixo do brao, alguns alunos passeavam pelas alamedas bem cuidadas. Os jardineiros trabalhavam aqui e ali. Havia no ar aquela doura que anuncia a primavera. Franois sentou-se e acendeu um cigarro. A entrevista com o general Massu deixara nele uma impresso desagradvel. Para que o fiel soldado tivesse tais idias, era preciso que seu moral estivesse muito baixo. Como estaria o dos coronis, tenentes, da prpria tropa? Quando esteve em
Paris, fizera a de Gaulle um relatrio desanimador sobre o estado de esprito dos militares e dos civis; hoje, esse relatrio parecia aqum da realidade. O General, depois de escutar, lhe dissera:
- Voc est exagerando. Eu no o mandei ir l para que, na volta, voc viesse chorar no meu ombro, como Challe e Delouvrier.
Franois pulara da cadeira.
- Meu General, no venho chorar no seu ombro, mas dar-lhe conta de uma situao explosiva. Os oficiais...
- Os militares no tm "desconfimetro". Volte  Arglia e informe-se.
-  perda de tempo, meu general, uma vez que o senhor no leva em conta as minhas informaes.
- No discuta, fao delas o uso que me convm. At logo, Tavernier, gostei muito de rev-lo.
A lembrana dessa entrevista fez com que ficasse mais preocupado ainda: "Ele est pouco se lixando para ns", pensou, jogando fora o cigarro. Um garoto que passava recolheu-o.
- Senhor, no jogar a bituca no jardim. - Repreendeu-o Bchir, sentando-se perto dele.
- Ah,  voc? Voc me seguiu?
- No, foi por acaso. Vim ver um colega, o que me passa as lies. Tambm encontrei meu professor; ele me disse que  uma pena que eu no venha mais  escola, mas que posso vir pedir explicaes sempre que precisar. V-se que ele no  daqui...
- De onde ele ?
- De Bordeaux, eu acho... Por que voc est rindo?
- Voc fala como se Bordeaux ficasse no fim do mundo.
- Eu quis dizer que ele no se parece com os ps-pretos.
- Eu tinha entendido. Voc no trabalha mais no hotel?... Tenho a impresso de que j faz um tempo que no o vejo.
- Precisei ficar em casa. Volto ao trabalho amanh.
- Estou com fome. Vamos almoar? Indicaram-me um restaurante de frutos do mar, perto da praia Nelson.
- Todos eles vendem peixe, na praia Nelson-Declarou Bchir rindo.
- Melhor, podemos escolher.
O restaurante talvez no fosse aquele recomendado pelo porteiro do hotel, mas era excelente. Franois e Bchir traaram um magnfico prato de frutos do mar e atacaram o peixe grelhado.
- Hum, muito bom. - Grunhiu Bchir, com a boca cheia.
- Bem melhor que em Paris. - Constatou Franois.
O proprietrio, com o largo ventre acinturado por um avental que j fora branco, aproximou-se com um sorriso radiante, esfregando as mos.
-  um prazer ver um metropolitano comer com bom apetite. E o vinho? Gostou?... Ele lembra o vinho de Cassis, no acha? - Perguntou com forte sotaque marselhs.
- Excelente! Voc  de l?
- Sim e no. Nasci aqui, mas meu pai  de Cassis. Um de meus primos ficou com as vinhas. Compro quase todo o vinho dele. Saboroso, perfumado, desce redondo, um odor de charneca,  a Provence. O vinho daqui  bom, mas... como dizer? Falta alguma coisa: a fineza... no, a sutileza.
Franois gostou de conversar com aquele bom homem que se afastou, pouco depois, para receber novos clientes.
- So mdicos. - Cochichou Bchir, inclinando-se por cima da mesa. O mais alto, l atrs,  o doutor Duforget, o chefe da minha irm.
- Voc o conhece?
- Um pouco, encontrei-o no hospital, num dia em que fui procurar Malika. Ele fez elogios a ela, Malika ficou toda vermelha.
- Ele parece ser um bom sujeito. - Constatou Franois. - Voc quer sobremesa?
- Posso? - Perguntou ele, com uma expresso gulosa.
Ele devorou sua musse de chocolate com um prazer evidente.
Franois pediu caf e acendeu um charuto. Desde que voltara  Arglia, s tinha visto o jovem engraxate de passagem. No dia seguinte  morte de Albert Camus, o garoto confessara seu sofrimento e sua perturbao, dizendo:
- Foi melhor para ele, talvez... e para ns. Ele havia preferido a me  justia. Ns, aqui, sabemos o que isso significa, uma me, e teramos provavelmente feito a mesma coisa. S Malika no concorda: " de justia que precisamos, no de nossas mes", no cansa ela de repetir.
Pensativo Franois olhou para ele antes de perguntar:
- Como est o clima na Casbah?
Bchir refletiu um pouco antes de responder:
- As pessoas esto com medo. No fim do dia, antes mesmo do toque de recolher, no h mais ningum nas ruas. Mas,  noite, as pessoas pulam de um terrao para outro, ouvem-se cochichos. Tudo volta a ficar silencioso ouvindo a patrulha passa, at os cachorros se calam. s vezes, os soldados arrombam uma porta e revistam uma casa, ouvem-se os gritos das mulheres. Quase sempre levam os homens para interrog-los. Alguns voltam, outros no. A maior parte dos que voltam contam que foram torturados e os que no contam carregam sinas de ter sido. Outro dia, um amigo do meu pai, cujo filho juntou-se  FLN, chorava contando o que sofreu: " uma vergonha", disse ele, "mas se eu soubesse onde meu filho estava, teria contado para que eles parassem. E eu ainda tenho sorte, no tenho filhas. Um velhote que estava preso comigo, cujo rosto era um sofrimento s, me contou que eles tiraram a roupa da filha diante dele para faz-lo falar e ela gritava que ele no contasse nada.
Depois, como ele se manteve calado, eles a violaram com uma garrafa. Voc compreende que homens faam coisas assim? - Mergulhado no desgosto e na clera, Franois tinha cerrado os punhos enquanto ouvia o relato do menino. Ele sabia que era tudo verdade.
- Voltando  sua pergunta... - Continuou Bchir. - Os argelianos acham que os europeus esto armando alguma coisa. Muitas armas circulam neste momento entre eles.
Eles tm o apoio do exrcito. H cada vez mais oficiais entre os radicais.
- Como voc sabe?
- Tenho olhos e ouvidos, sem contar que eles no escondem nada.
- Com licena...
Aquele que Bchir tinha apontado como chefe de sua irm estava em p diante deles. Era um homem to alto que se curvava um pouco. Cabelos grisalhos e culos de miopia tornavam seu olhar triste. Ele falava com uma voz suave.
- Com licena. - Repetiu. - O senhor permite? Voc no  o irmo de Malika?
- Sim.
- Estou preocupado com sua irm, h algum tempo ela falta bastante. H algum problema em casa?
Franois sentiu que Bchir ficou tenso.
- No, est tudo bem!
- Ah! Bem, ela deve vir falar comigo se houver algum problema. Desculpe, senhor, no me apresentei: sou o dr. Duforget.
- Muito prazer... Franois Tavernier. - Disse esticando a mo. - O senhor disse que a irm de Bchir falta muito?
- Sim... E eu no entendo:  uma garota responsvel e gosta muito do trabalho. No deve ser nada grave, provavelmente um namorico. At logo, senhor, at logo, rapaz.
Quando o dr. Duforget voltou para sua mesa, Bchir olhou para Franois com raiva.
- O que minha irm faz no  da sua conta! No quero que voc se meta na nossa vida.
- No quis ser indiscreto. Mas, voc no se preocupa com essas faltas?
- Preciso ir trabalhar. - Replicou ele, levantando-se.
- Espere! A conta, por favor...
Assim que pagou, Franois juntou-se a ele na avenida. Tomaram um nibus que os deixou na frente do Hotel Aletti, sem que Bchir abrisse a boca. Sem se despedir, o garoto entrou precipitadamente no hall. Franois entrou logo depois. Dando-lhe a chave, o porteiro disse:
- Tenho dois recados para o senhor.
Um era de La, o outro, do coronel Gardes. Tanto um como o outro pediam que ele ligasse.
Ningum atendeu ao telefone na rua de l'Universit. No 5a Gabinete, onde Gardes era o chefe, responderam que o coronel no estava, mas que tomariam nota do recado.
Franois esticou-se na cama. O que ser que Gardes queria? Ele sabia da importncia poltica do 5a Gabinete; era o servio encarregado de cuidar e de controlar o moral do exrcito e da populao. Desde o 13 de maio, sua ao era guiada por uma nica palavra de ordem: "A Arglia  a Frana." O 5U Gabinete expunha as vantagens dessa postura por meio de slogans pintados; podia-se ler nos muros: "AFrana representa trabalho, po, paz, felicidade", "A FLN representa fome e morte", ou ainda, "Todos os franceses so iguais". Cartazes de propaganda e programas de rdio completavam o sistema. Assim, Gardes, forado a admitir a autodeterminao, no apresentava seno uma das trs opes oferecidas. Suas prprias funes justificavam seus contatos com os movimentos civis patriticos. Challe, o comandante em chefe, no o tinha encarregado de criar uma Federao das unidades territoriais e de autodefesa? "Eles brincam com fogo", pensou Franois, antes de cochilar.
 noite, no bar do hotel onde algumas moas muito maquiadas esperavam, fazendo poses provocantes, que um cliente as convidasse para tomar um drinque. Franois, que j estava no terceiro usque, observava a atitude delas com um ar ausente. Uma delas aproximou-se e perguntou:
- Voc me oferece alguma coisa?
- Se voc quiser. - Respondeu ele com um tom indiferente.
- Champanhe, por favor. - Pediu ela ao barman. Franois fumava sem olhar para a moa.
- Tim-tim. - Ela fez, levantando a taa que o garom acabava de encher.
Franois levantou a dele sem nem mesmo responder nem dar uma olhada.
- Voc  sempre assim, to calado?
- Depende. -Disse ele, levantando os olhos.
Ela seria mais bonita sem essa maquiagem e esses cabelos descoloridos que contrastavam com o negro dos seus olhos. Quase magra, no devia agradar aos homens daqui, mas era mais elegante que suas companheiras. Uma blusa amarela de mangas curtas e bufantes e uma saia xadrez amarela e branca lhe davam um ar juvenil. Seu rosto exprimia tdio e cansao. Ela no devia ter muito mais que vinte anos.
- Por que voc me examina desse jeito? Algo errado?... Ah! Enfim um sorriso!... Voc fica mais bonito quando sorri. Eu me chamo Gilda... Por que voc est rindo?
- Aposto que esse no  o seu nome.
Ela hesitou entre o riso e a raiva; o riso ganhou.
- O que voc aposta?
- Um jantar.
- Se eu perder, no tenho condies de lhe pagar um. O barman inclinou-se para Franois.
- Senhor, algum o chama na recepo.
- Est bem. Ponha isso na minha conta. Desculpe-me, senhorita.
- E o nosso jantar?
- Eu perdi?
- Sim, eu me chamo mesmo Gilda.
- Ento, Gilda, fica para outra vez.
No hall, um CRS entregou-lhe um bilhete:
- Da parte do coronel Gardes. Franois leu:
Espero voc no quartel Rignot, meu estafeta vai lev-lo.
Gardes
O Estado-Maior de Argel encontrava-se ao lado do Hotel Saint-George, bem perto do Palcio de Vero, e ocupava uma bela vila mourisca. O CRS que acompanhava Franois fez sinal para seu colega encarregado de controlar os visitantes de que tudo estava certo. Franois espantou-se que os militares fossem protegidos pelos CRS. Eles atravessaram um ptio plantado de palmeiras e penetraram na vila.
- Entre, Tavernier. Obrigado por vir to rpido.
Gardes tirou o cachimbo da boca, passou a mo pelos cabelos estilo escovinha e pousou no seu interlocutor seus olhos castanhos que mostravam inteligncia.
- Eu tenho por voc, Tavernier, uma grande estima. Conheo sua atuao na Resistncia e, depois, na Indochina. Sei menos da sua atuao de agora, mas, julgando pelo que sei, voc  ouvido pelo general de Gaulle, que o aprecia e no hesita em lhe confiar misses delicadas. Voc podia informar-lhe que estamos sentados num barril de plvora e que cabe somente a ele impedir a exploso? Com sua tripla escolha, o chefe de governo questiona o esprito do 13 de maio que proclamava a integrao numa Arglia francesa. Muitos, aqui, vem nisso uma traio. Somente o afrancesamento pode permitir a igualdade de todos e o exrcito se acredita capaz de convencer os ps-pretos a renunciar a alguns de seus privilgios. Como diz o general Challe, " preciso obrigar os franceses da Arglia a aceitar a integrao real.  preciso mudar a mentalidade deles. Os muulmanos devem ser iguais a eles.
- Voc sabe muito bem que so apenas palavras: nenhum p-preto admite ser igual a um muulmano. H muitos anos eles vivem uns ao lado dos outros, nunca juntos.
- Isso era verdade at h algum tempo. Pouco a pouco, as coisas esto mudando. Em cada bairro, cada vilarejo, organizamos reunies entre europeus e muulmanos; a cada vez, todos saem com um conhecimento melhor do outro, um desejo de se unirem pelo bem de todos.
Franois escutava-o fascinado. Ele tinha diante de si um homem sincero, animado por aquilo que acreditava ser sua misso: conservar a Arglia para a Frana, certo de respeitar, assim, o compromisso assumido com as populaes argelianas - todas as populaes argelianas, sem distino. No estado atual das coisas, ele temia um derramamento de sangue e  por isso que tentava fazer com que Franois desse conta dessa situao ao presidente da Repblica. Uma situao cuja gravidade, segundo o coronel, o presidente se recusava a ver.
- Meu coronel, agradeo a confiana. Mas, como muita gente aqui, voc exagera a importncia do meu papel junto ao general de Gaulle. Ele no me ouve mais do que ouve Delouvrier ou o general Challe. No sei nada das suas intenes verdadeiras, a no ser que ele quer a autodeterminao e que nada nem ningum, na minha opinio, o far mudar de idia.
Aps um longo silncio, Gardes se levantou, com o rosto tenso e estendeu a mo para Franois Tavernier.
- Agradeo. - Disse ele com a voz crispada.
No ptio, lmpadas fracas iluminavam o caminho. No posto de guarda, Franois encontrou o CRS que o esperava perto de um veculo militar. Sem uma palavra, sentou-se ao lado dele.
Chegando ao hotel, encontrou novo recado de La, anunciando que viria na semana seguinte. Ele ligou, para faz-la mudar de idia. Ela tinha ido ao cinema, disseram as crianas que, apesar da hora, quiseram todas falar com ele, uma de cada vez.
Ele pediu um sanduche e vinho no quarto e deitou-se pensando em La.

Captulo XI

Franois Tavernier no tinha visto Paul Delouvrier nem o general Challe desde seu retorno a Argel. No dia seguinte a seu encontro com Massu e Gardes, telefonou para o Governo Geral a fim de marcar uma entrevista com o ministro. Disseram-lhe que ele seria informado da sua petio. A mesma resposta da parte do alto comando: as visitas do enviado do general de Gaulle pareciam no ser desejadas!
Decidiu ir aos arredores de Argel. Atravessando o hall, procurou com o olhar o jovem engraxate; no devia ter chegado ainda. L fora, o tempo estava fresco, mas ensolarado. Dirigiu-se ao Bulevar Carnot, onde sabia que havia um ponto de txi. Lembrava-se de ter tomado, uma vez, o txi de um motorista conversador e simptico que lhe afirmara conhecer Argel e seus arredores como a palma da mo.
- Pergunte por Joseph Benguigui. - Dissera ele. - Todo mundo aqui me conhece.
Franois aproximou-se do primeiro carro e reconheceu justamente esse motorista.
- Bom dia, Benguigui, voc est com o dia livre?
- Bem que eu achei que conhecia o senhor de algum lugar! Pelo dia, fao um preo fechado. Suba... Prefere sentar na frente? Como quiser. Aonde vamos?
- Queria fazer um tur por Bouzarah, El-Biar, Saint-Eugne, Birmandreis...
- Isso  uma boa rodada. Por onde quer comear?
- Tanto faz.
- Vamos passar em frente ao mar e subir at a Baslica de NotreDame-d'Afrique. De l se v o vale de Consuls, Saint-Eugne e o mar. O senhor vai ver,  magnfico.
Eles rodaram ao longo da Corniche at a ponta Pescade, chegaram a Bouzarah e  alta Corniche, descobrindo ravinas e colinas. Em baixo, os pastores guardavam seus rebanhos de carneiros, tocando flauta. A medida que subiam, o perfume dos pinheiros e dos ciprestes ficava mais forte. Vilas se aninhavam por entre a vegetao.
Nos terraos dos bairros rabes, mulheres estendiam a roupa. Garotos brincavam na poeira e acenavam para o carro. O motorista respondia os cumprimentos. Do belvedere de Notre-Dame-d'Afrique, s se via o mar, imenso, no qual os navios de linha, os militares, os veleiros pareciam brinquedos. Tudo parecia to calmo!
- Quando se v tanta beleza criada por Deus, fica difcil compreender por que os homens se matam em vez de agradecer ao senhor por terlhes dado este mundo maravilhoso.
- Murmurou Benguigui, como se falasse consigo mesmo.
Aps um momento de silncio, perguntou a Franois.
- O senhor no acha?
Franois olhou para o homenzinho parrudo de rosto limpo, ar esperto e esperando uma resposta que aparentemente ele considerava importante.
- Voc tem razo... Mas alguns querem essa beleza s para si. O motorista lanou-lhe um olhar triste.
- O senhor acha que no compartilhamos o suficiente com os muulmanos?
- Em vista do que est acontecendo, isso me parece evidente. A voc, no?
O homem apoiou-se no parapeito e deixou os olhos percorrerem a imensido marinha antes de responder:
- No somos muitos na comunidade judaica a pensar assim. Quanto aos catlicos e outros, eles so menos numerosos ainda a querer a integrao real dos rabes. No entanto, era preciso fazer isso para que pudssemos continuar a viver neste pas. Veja o senhor: meus ancestrais j estavam aqui bem antes da conquista. Judeus, ns nos tornamos franceses em 1870, graas ao decreto Crmieux. Os muulmanos no, esses s so franceses quando se trata de morrer pela Frana. E isso, veja bem o senhor, no  justo! O senhor j os viu, os velhos combatentes, no monumento aos mortos, com todas as condecoraes? Eles so lembrados no 11 de novembro e no

14 de julho, e  como se isso bastasse em termos de gratido. Ficam contentes que a Frana reconhea seus mritos, alm do que, todas essas condecoraes enfeitam a paisagem. O senhor sabe, so milhares que no voltaram dos combates na Itlia, na Alscia e em outros lugares. Outros lutaram na Indochina, e os que voltaram no esqueceram o que viram l, na terra dos vietnamitas. Isso lhes deu idias de independncia e mostrou-lhes que um povo determinado, que luta por sua liberdade, pode vencer um exrcito poderoso.
- Eu estive na Indochina e compreendo o que voc quer dizer. Voc tem razo, alguns de ns alertaram o Governo naquela poca. Infelizmente, no fomos ouvidos.
- Fala-se na cidade que foi o general de Gaulle que o mandou aqui. Se for verdade, conte-lhe o que se passa aqui. Mas... por que o senhor ri?... Eu disse alguma coisa engraada?
- No ligue...  que todo mundo me diz isso.
- Ento?
- Ento?... O que voc quer que eu responda?... Voc ouviu o discurso do General no rdio? Bem, ele no muda de idia.
- No fundo, estou de acordo. Os argelianos devem poder decidir por si mesmos seu destino. Em palavras, ele tem razo,  muito bonito, mas na realidade, aqui, o senhor sabe o que acontece. A populao muulmana tem medo das represlias da FLN porque depende totalmente dela. Ela tambm tem medo do exrcito, dos ps-pretos, do desemprego, da misria. Por outro lado, os europeus tambm vivem com medo: dos atentados, e de serem expulsos de seu pas.
- Voc pensa como eles?
- Sim e no. Temo que seja tarde demais para que possamos viver juntos normalmente... Muita incompreenso, injustia, desprezo, insultos e massacres cavaram um fosso imenso. E, no entanto... Talvez seja possvel depois da independncia da Arglia.
Era a primeira vez que Franois ouvia semelhante discurso da parte de um argeliano no muulmano. Ele esperou:
- H muitos de vocs que acreditam que a independncia poderia permitir que os europeus continuassem a viver em sua terra natal?
O motorista deu um suspiro profundo.
- No muitos, senhor, no muitos... Depois, cortando a conversa, perguntou:
- Continuamos o passeio?
No carro, permaneceram em silncio. A estrada que subia para a vila de Bouzarah estava em pssimo estado, obrigando o motorista a fazer acrobacias para evitar os buracos. Franois limitou-se a se agarrar  porta do carro. Eles pararam na praa da igreja e subiram a p o caminho do
Observatrio, de onde se via toda a cidade e a regio em volta, do Cabo Matifou a Sidi-Ferruch. O sol de inverno desenhava cada contorno com uma nitidez fotogrfica.
Eles desceram para o forte de Sidi ben-Nour, por caminhos quase impraticveis.
"Eu vou acabar deixando por aqui meus amortecedores e meu cano de escapamento", pensou Joseph Benguigui, agarrando o volante.
Passaram perto do cemitrio de El-Kettar. Ali, os pobres vindos do bled amontoavam-se numa favela. Enroladas em seus haik, as mulheres iam ao cemitrio para pegar gua que o guarda cobrava delas. As crianas, mal vestidas, andavam descalas. No havia homens, a no ser velhos sentados nas pedras ou mesmo no cho, com as costas apoiadas contra as paredes de zinco expostas ao sol. Uns carros militares, saindo da caserna de Orlans, obrigaram-nos a esperar que passasse o ltimo.
Assim que a nuvem de poeira dissipou-se, eles seguiram atrs deles. Os prdios da guarda mvel estavam cercados com arame farpado. No grande Estdio Marechal Leclerc, alguns jovens jogavam futebol, enquanto outros praticavam corrida. Passaram embaixo do Koudia-esSebaoun. No cume ficava o Forte Empereur, onde o marechal de Bourmont havia recebido a capitulao do dey de Argel.
- Voc ouviu falar de Maurice Audin? - Perguntou Franois de repente.
- Aquele jovem universitrio comunista que foi preso em 57 pelos pra-quedistas do lu RCP e que foi morto ao tentar fugir?
- Como voc pode estar certo da fuga se o corpo nunca foi encontrado? Isso no lhe parece estranho?
Joseph Benguigui levantou os olhos para o cu.
- H tantas coisas estranhas que acontecem em Argel!... Veja, ns no estamos muito longe do lugar de onde ele teria fugido, no bairro de Frais-Vallon, que estava em obras naquela ocasio. Ele quase no mudou desde ento, s duas ou trs vilas a mais.
- Voc pode me mostrar o lugar?
O motorista deixou a Avenida Georges-Clemenceau, virou duas vezes  direita e parou na Rua Verdun.
- Como o senhor pode ver, a rua  em declive. Mas isso no  nada, comparado com as ruas novas que a cortam em ngulo reto. Elas prprias se acham em nveis diferentes e s se tem acesso a elas pelas escadas ou atravessando as moitas de espinhos por caminhos muito incmodos.
- Voc parece conhecer bem.
- Eu no lhe disse que conheo Argel e seus arredores como a palma da minha mo?  meu trabalho. Mas, voltando a Audin, foi na curva mais alta que ele teria saltado do jipe; levavam-no ao centro de triagem de El-Biar, na Vila Marsilia, que serve de estacionamento para o 1Q RCP, situado na Rua Faidherbe, paralela  Rua Verdun.
Percebendo a fuga do prisioneiro, o sargento teria disparado na sua direo uma rajada de metralhadora enquanto ele escalava uma paliada, atrs da qual se estende um terreno baldio muito acidentado e inclinado; depois, no o tendo atingido, se teria lanado em perseguio dele pelas ruas mal iluminadas. Porque, eu lembro ao senhor, era de noite! Segundo os militares, eles teriam perdido o rastro de Maurice Audin na ravina de FraisVallon.
- Voc no parece acreditar muito no que conta.
- A gente tem que ficar com o p atrs! O senhor acredita que um homem que foi interrogado com os mtodos usados no centro de El-Biar estaria em condies de correr rpido o suficiente para escapar de seus perseguidores num lugar to acidentado como este que o senhor v? No, de dia j seria improvvel. De noite,  impossvel.
Franois deu uns passos examinando o local. Benguigui tinha razo: mesmo para um homem em excelentes condies fsicas teria sido difcil escapar num lugar to acidentado. Tanto na Frana como em Argel, ningum acreditava na tese da fuga, defendida pelo prprio Massu.
- Uma coisa  certa: nem sua mulher nem seus filhos voltaram a vlo. - Acrescentou o motorista.
- Esse assunto parece t-lo interessado particularmente.
- Sim, no gosto que me faam de bobo.
- Como assim?
- Levo com freqncia no meu txi oficiais e suboficiais. Eles conversam sem se preocupar com o motorista: que importncia tem um chofer de txi? Um dia, levei dois de volta para El-Biar, estavam completamente bbados. Eles se gabavam de poder fazer falar no importa quem. Falavam mesmo de um de seus clientes, que se chamava
Alleg.
- Henri Alleg, o amigo de Audin?
- No sei se era o mesmo, mas era esse o nome com certeza.
- Voc comentou isso com algum?
- Toquei levemente no assunto uma ou duas vezes, disseram-me que era melhor que eu me calasse. Entendi o recado. O que o senhor quer? Entre os rabes que obedecem  FLN, o exrcito que tenta faz-los falar, os europeus que se recusam a ver a realidade que est na cara deles e continuam a se achar a nata do mundo, no h lugar para o simples bom senso... Mas, eu falo demais, afinal, eu nem o conheo...
- Eu tambm no o conheo e, no entanto, escolhi confiar em voc.
- E fez bem.
- No se pode desconfiar o tempo todo. Voc tem algum amigo entre os muulmanos?
Um vu de sofrimento encobriu os olhos de Benguigui. Depois de um curto silncio, ele respondeu com a voz alterada:
- Sim, eu tinha um amigo... Sua famlia morava perto da minha... Seu pai era aougueiro e o meu tinha uma loja de ferragens; eles no se visitavam, mas prestavam servios um ao outro. Nossas mes lavavam a roupa juntas e ns, garotos, brincvamos juntos. Com Habib - esse era o nome dele -, eu partilhava tudo. Ele largou a escola para trabalhar com o pai e, depois, houve a guerra. Voltamos a nos encontrar no exrcito de De Lattre, nas margens do Rhin, com soldados que, como ns, vinham de alm-mar. Alguns j tinham lutado na frica e na Itlia. Foi terrvel, senhor... Os companheiros tombavam como moscas. Ns fomos ambos feridos com poucos dias de diferena e nos encontramos no hospital de Strasbourg. Ao fim de um ms, mandaram-nos para Paris, depois Marselha e depois Argel. Para ns, a guerra terminara.
Casei-me com uma prima e assumi a loja de meu pai. Habib quis retomar seu trabalho de aougueiro, mas os ferimentos que sofrera nos braos e nas pernas impediam-no de carregar os pedaos pesados. Achou um emprego no porto. Foi a que comeou a mudar. Eu s o via de vez em quando; a cada vez que nos encontrvamos, ele me fazia discursos polticos. At o dia em que me disse que se juntara  FLN. Tentei dissuadilo; ele me respondeu que, no seu lugar, eu teria feito o mesmo. O que poderia lhe responder? Isso foi em 55. No voltei a v-lo por dois anos. Mais tarde, em 57, em plena batalha de Argel, numa noite, ele bateu  minha porta. Abri, ele estava ferido. Durante uma semana, minha mulher e eu cuidamos dele, escondido. Nessa poca, conversamos muito, como nos velhos tempos. Antes de partir para encontrar os rebeldes, ele teimou em ir beijar a me... Foi ento que o prenderam... Abateram-no como a um co. O pai foi preso, nunca mais o viram. Quanto  me, ficou louca.
Vou v-la de vez em quando, ela fala do filho como se ele estivesse vivo. Quando saio de l, estou completamente abalado.
Joseph Benguigui tirou do bolso um leno grande como uma toalha de mesa e assoou o nariz ruidosamente.
- Desculpe-me. - Disse, dobrando cuidadosamente o leno.
Franois deu-lhe um tapinha no ombro.
- Agradeo a sua confiana.
- Sou eu quem agradece... Faz bem falar, mesmo a um desconhecido. Veja bem, senhor, aqui, todo mundo desconfia de todo mundo. Bem, agora chega! Estou com fome. Tenho um conhecido que tem um pequeno restaurante em El-Biar; no  o Coq Hardi, mas  bom. O que acha?
- tima idia, voc  meu convidado.
- De jeito nenhum, sou eu quem paga.
- Est certo, mas da prxima vez  por minha conta.
Eles voltaram para o carro e pegaram a avenida Georges-Clemenceau.
-  ali que torturam. - Disse sobriamente Benguigui, apontando um grande prdio de concreto.
Franois olhou para a fachada feia em frente  qual os pra-quedistas montavam guarda.
Depois do anisete, serviram-lhes cordeiro assado, acompanhado de pimento e tomate, tudo regado com um tinto de Mascara. Doces empapados de mel vieram em seguida, depois caf, servido em pequenas xcaras. Satisfeitos, eles fumaram em silncio.
Eles deixaram El-Biar l pelas trs horas da tarde, pegando o bulevar Gallieni e passaram pelo bosque de Boulogne para chegar a Beimandreis. A baa de Argel aparecia e desaparecia conforme os meandros da estrada, com uma beleza surpreendente  luz que comeava a declinar. Atravessaram bairros europeus, calmos e luxuosos, subrbios humildes, os bairros pobres rabes e as favelas miserveis. Passaram ao lado da ravina da Femme-sauvage, pouco a pouco invadida pela sombra da colina.
- Desde que eu era muito pequeno, este lugar me d medo. - Confidenciou o chofer. - O senhor quer passar pelo Clos-Salembier e Belcourt e ir at o Ruisseau antes de passar pelo jardim de Essai?
- Vamos pelo porto.
- Muito bem, patro!
Abaa parecia se incendiar, a cidade branca tinha ficado rosa, depois laranja; o mar parecia a palheta de um pintor fauvista, enquanto o cu se tingia de todos os tons de violeta, do mais claro ao mais escuro. L embaixo, as luzes da cidade comeavam a acender. Joseph Benguigui dirigia lentamente, emocionado pelo esplendor com o qual no se acostumava nunca. Perto dele, Franois Tavernier imaginava La a seu lado, ela que amava tanto o pr-do-sol. Ele podia rev-la, aps a guerra, em algumas tardes de vero em Montillac, de p, o rosto voltado para o astro avermelhado, aureolada pela luz do poente, braos esticados, as palmas das mos abertas, como para atrair para si os ltimos raios e guardar o calor deles.
Nesses momentos, ela parecia que se iluminava por dentro, enquanto a penumbra invadia pouco a pouco a paisagem, deixando-a luminosa e mais forte.
Passando diante da garagem de Agha, Franois virou-se para o motorista e disse:
- Preciso de sapatos para caminhada e de roupas confortveis para ir ao bled. Conhece algum lugar onde eu possa comprar essas coisas?
- No Borelli, eles so especialistas em roupas esporte e equipamento colonial. Fica a dois passos daqui. Quer ir l?
- Vamos.
Pegaram o Bulevar Laferrire e depois a Rua Isly onde pararam ao fim de alguns metros.
- Quer que eu o acompanhe? - Perguntou Benguigui.
- Se no for incmodo. Voc pode me ajudar.
Entraram na loja. Em seguida, um vendedor veio atend-los.
- Bom dia, senhores... Ah, Josephi. Que prazer em v-lo! - Os dois homens se abraaram.
- David, meu primo. - Falou Joseph Benguigui, virando-se para Franois. - Ele vai cuidar do senhor como faria comigo. No , David?  um cliente simptico. Mostre-lhe o que voc tem de melhor.
Quando Franois saiu da loja, estava equipado dos ps  cabea, pronto para enfrentar o bled. A noite tinha cado. A multido, que h pouco era densa, tinha se dispersado.
- Logo, no haver quase ningum nas ruas. - Constatou o motorista, colocando os pacotes no porta-malas.
- Eu lhe ofereo um drinque no bar do hotel.
- : No h como recusar... Mas no se sinta obrigado! - No,  um prazer. Vamos a p.
- J o alcano. No posso deixar o txi aqui. Vou estacionar na estao. Eu levo os pacotes.
- Como quiser: espero no bar.
Assim que entrou no hotel, Bchir precipitou-se para ele, com uma escova na mo.
- Senhor, senhor... preciso falar com o senhor!
- O que aconteceu? - Perguntou Franois, sorrindo.
- Mohamed, o sr. Santoni est esperando! - Grunhiu o porteiro, avanando na direo dele.
Franois sentiu que seu jovem companheiro ia rechaar o guardio severo. Segurou-lhe o brao.
- Acabe seu trabalho. Eu venho v-lo depois. Olhe, meus sapatos precisam de um pouco de graxa. At logo!
Bchir obedeceu.
- Ah, esses jovens! - Suspirou o porteiro. -  preciso estar sempre de olho neles.
Joseph Benguigui entrou no hall, carregando os pacotes.
- Coloque-os ali, o sr. Georges mandar lev-los ao meu quarto. - Disse Franois Tavernier, dirigindo-se para o bar.
O motorista de txi seguiu-lhe os passos.
- Pois no, senhor. - Respondeu o porteiro, inclinando levemente o corpo.
Quando se instalaram no bar, Tavernier cruzou com o olhar suplicante do engraxate.
- Desculpe-me. - Disse ele ao acompanhante. - Pea um usque para mim, j volto.
Deixou-se cair na cadeira que acabava de ser desocupada pelo cliente anterior e pousou os sapatos empoeirados no apoio de ps. Automaticamente, Bchir comeou a limpar a poeira.
- Ento, o que voc precisa me dizer?
- Malika desapareceu!
- Desde quando?
- J faz quatro dias.
- Sua famlia foi  polcia? Ele fez que no com a cabea.
- Mas  a primeira coisa a fazer!
- Minha me diz que seria uma vergonha para a famlia. Franois contentou-se em levantar os ombros, quando viu uma lgrima correr pelo rosto do garoto.
- Por que voc no me contou antes?
- Eu achava que ela ia voltar. - Gaguejou ele.
- Bom... vou tentar ajud-lo... Mas voc precisa me dizer tudo o que sabe sobre sua irm, inclusive o que voc acha que no deve revelar. Quando voc acaba o trabalho?
- Em uma hora...
- Diga um lugar onde podemos nos encontrar.
- Na frente da escola da Rua Liberte.  ao lado. Voc tem um carro?
- No, mas podemos pegar um txi. Vamos, no faa essa cara, ns vamos encontrar sua irm...
Depois, examinando os sapatos:
- Muito bem! Esto impecveis. Obrigado, Mohamed. Um rpido e plido sorriso iluminou o rosto de Bchir.
Sentado no bar, Joseph Benguigui estava tendo dificuldade para se desembaraar de duas freqentadoras do local.
- Ah! Chegou!... Pensei que o senhor tinha se esquecido de mim. Essas franguinhas queriam me fazer companhia. Mas eu sou um homem casado!
- O que no o impede de conversar. - Disse uma delas.
- Deixem-nos, senhoritas, ns precisamos conversar. Joseph... voc permite que eu o chame de Joseph? Eu sou Franois.
- Tudo bem, senh... desculpe, Franois!
- Bem, posso lhe falar em confiana?... timo! Pode ser que eu precise de voc esta noite.  possvel?
- Desde que no se trate de transportar um cadver, tudo  possvel. Vou lhe dar meu telefone: 367-16. No hesite em me chamar.
- Obrigado,  sua sade! - Franois esvaziou o copo de um gole s. - A mesma coisa. - Disse ao Benguigui. Os dois homens beberam em silncio, por uns instantes.
- No  possvel! - Exclamou de repente Benguigui.
- O que foi?
- Voc v aquela mocinha, ali: ela  do meu bairro. Eu a conheo desde criana.
- Gilda?
- Voc a conhece?
- No faa essa cara... No como voc imagina! Fizemos uma aposta e eu perdi. Ela se chama mesmo Gilda?
- Sim, a me dela leu um romance cuja herona tinha esse nome. Achou que era chique. Mas, depois do filme com Rita Hayworth, no achou mais.
- Ela  judia?
- Infelizmente!  uma vergonha para a famlia e para o bairro!
- Voc no est exagerando um pouco?
- Bem que eu gostaria, porque  uma boa garota. Quando os pais e a irm morreram, num acidente de carro, ela se recusou a ir morar com uma tia. Ela se mudou. Mais tarde, um dia, eu a vi entrar aqui, tinha virado loira. Disse-me bom dia gentilmente, mas no tinha mais o mesmo olhar. Tentei conversar com ela e saber como estava, mas disse que no era da minha conta. Eu, tudo o que falava, era por amizade...
A moa veio na direo deles, vestida dessa vez com uma saia preta e uma camisa branca, com a gola levantada.
- Boa noite, senhor. Boa noite, Joseph. No sabia que vocs se conheciam.
- Boa noite, Gilda! - responderam em coro.

Captulo XII

Franois encontrou Bchir no lugar combinado. - No vamos ficar aqui. - Disse Bchir. - Vamos para o porto. Na parte de baixo da rampa Chasseloup-Laubat, embaixo de um poste com a lmpada quebrada, adivinhavam-se as siluetas de homens acocorados. Franois diminuiu o passo; o lugar era ideal para uma agresso. Ele lamentou no estar armado. Bchir sentiu sua preocupao.
- So amigos. - Afirmou ele, aproximando-se do grupo. Quatro argelianos, vestidos como europeus se levantaram.
- Aqui est o homem de que falei. - Disse em rabe.
- Um co de roumi - Disse um deles, cuspindo no cho.
- Nem todos os roiimis so cachorros. - Disse, para apaziguar, um homem que parecia mais velho que os companheiros.
- Vamos para o hangar - sugeriu um deles.
O cadeado aberto, todos se enfiaram l dentro. Um cheiro forte de peixe empesteava a atmosfera. Com a porta fechada, algum acendeu um lampio e colocou-o sobre uma caixa diante da qual puxaram um banco. Fizeram sinal para que Tavernier se sentasse. Um homem de uns trinta anos tomou a palavra:
- Sabemos que Malika foi levada, quando saa do hospital, pelos boinas-verdes da Legio.
- Como vocs podem ter certeza? - Perguntou Franois.
- Malika estava junto com a enfermeira chefe, sra. Zanetti, que mora em Bal el-Oued, e elas acabavam de atravessar o Bulevar Champagne, na altura da Rua Normandie, quando um jipe parou junto delas. Trs pra-quedistas desceram, com as armas apontadas para elas, depois um Peugeot 203 chegou com outros militares. Um oficial perguntou: "Voc  Malika Souami?" "O que vocs querem com ela? perguntou a sra. Zanetti. Nesse momento, Malika se ps a correr na direo do hospital; um dos pra-quedistas alcanou-a e deu-lhe uma bofetada.
Um outro se aproximou e eles a foraram a subir no carro que partiu em seguida. A sra. Zanetti perguntou-lhes por que estavam fazendo aquilo. "Temos ordens, ela trabalha para FLN! Volte para casa e fique de bico fechado, ou voc tambm ser presa!"respondeu o oficial. Depois, subiram no jipe e foram embora. Voltando para casa, a sra. Zanetti no disse nada; foi s depois de dois dias que ela contou ao dr. Duforget, que avisou a famlia. Graas a ele, soubemos que ela fora levada  Vila Sesini. Ele acredita que ela ainda est l.
-  preciso tir-la de l! - Suplicou Bchir.
Franois refletiu rapidamente. Ele conhecia a reputao sinistra da Vila Sesini, sobre a qual circulavam relatos assustadores. Situada entre os bairros Belcourt e Redoute, ela era ocupada pelos legionrios. Entre eles, muitos eram alemes. Alguns se diziam alsacianos, outros no escondiam que tinham pertencido  SS durante a Segunda Guerra Mundial.
O nome do coronel Gardes lhe veio  cabea: como chefe do 5- Gabinete, mesmo que no soubesse nada sobre a priso da jovem argeliana, poderia obter informaes.
- Vocs sabem por que ela foi presa? O mais velho falou:
- Ela foi denunciada, suspeitam que ela faz parte da Frente.
-  verdade?
- No podemos lhe dizer nada...
- Chega! - Inflamou-se o que tinha cuspido. - Para ele, todos os rabes so da FLN! Se o roumi  como nos descreveu nosso irmo, ele sabe!
- No sei, mas imagino... - Confirmou Franois, como se falasse sozinho. - Ela sabe de coisas que possam interessar aos seus seqestradores?
- A maior parte das pessoas que eles prendem e torturam no sabe de nada. Eles fazem isso por prazer. No caso de Malika...
- Ela participou de algum atentado?
- No, nunca! - Gritou Bchir. - Ela dizia que uma enfermeira no pode fazer isso.
- Ainda bem que no so todas como ela. - Falou com desprezo o homem da cuspida.
- O que vocs esperam de mim?
- Que voc a tire da priso. V ver o general Massu, dizem que  seu chapa.
- Para lhe dizer: "Entregue-me a moa que seus pra-quedistas levaram?" Ele vai rir na minha cara. No, tenho uma idia melhor. Bchir, venha comigo.
- Aonde vocs vo?
- No posso dizer nada por enquanto. Vocs precisam confiar em mim:  pegar ou largar.
Uma raiva tangvel subiu do pequeno grupo de argelianos.
- De acordo. - Disse o mais vingativo. - Mas se voc nos trair... O gesto de sua mo diante do pescoo no precisava de nenhuma explicao.
- Vocs sabem onde me encontrar. - Disse ele, pegando Bchir pelo ombro.
Um dos homens foi abrir e lhes fez sinal para sarem depois de verificar que o caminho estava livre.
Uma chuva fina e fria caa. A intervalos regulares, a luz do farol de Amiraut clareava o cais e os muros. Os degraus das escadas eram escorregadios, o corrimo colava nos dedos. Rajadas de vento despenteavam as palmeiras da Praa Aristide-Briand e faziam redemoinhos no cho. Alguns CRS estacionaram diante do palcio de justia.
- Voc tem como entrar no hotel sem ser visto? - Perguntou Franois.
- Sim, tenho a chave de uma porta de servio que d na rua Waisse. Em princpio, essa porta no  vigiada, est sempre fechada.  uma das sadas de emergncia.
Franois deixou-o e caminhou a passos largos para a entrada principal do hotel.
No All do Aletti, correspondentes de guerra americanos conversavam com um deputado muulmano, enquanto um reprter alemo falava com Joseph Ortiz. Do bar vinham fragmentos de conversas animadas pontuadas por exploses de risos. Franois deu uma olhada para l, ao passar. Pegou a chave e viu Gardes em companhia de Argovid num dos sales. Voltou para a recepo.
- D-me um pedao de papel, por favor.
- Pois no, senhor.
Ele rabiscou algumas palavras e estendeu o bilhete para o funcionrio.
- Pea para entregar ao coronel Gardes que se encontra no salo.
- Sim, senhor.
" um sinal de sorte que Gardes esteja aqui!", pensou ele no elevador.
No andar, um casal alegre saiu de um quarto. Passando perto dele, os jovens deram-lhe um encontro, pouco antes de entrar no elevador. Quando ia colocar a chave na fechadura, percebeu que a porta da rouparia estava entreaberta.
- Estou aqui . - Cochichou uma voz.
- Pode vir. - Respondeu Franois. - No h ningum. Bchir pulou fora e veio juntar-se a ele no quarto.
- Voc demorou. - Disse ele ofegante.
- Sente-se. A pessoa que eu queria ver est a em baixo. Ele vai me ligar...
O toque do telefone fez o argeliano pular. Franois atendeu.
- Al... Gardes?... Obrigado por ligar. Preciso v-lo imediatamente,  importante... Voc est com Argoud... sim, eu sei... D uma desculpa... Estou no meu quarto...
Voc sobe?... timo, nmero 315... Obrigado!
Ele desligou, satisfeito.
- Volte para a rouparia, ele no deve ver voc. Espere... Franois abriu a porta e puxou Bchir.
- Tem muita gente no corredor... Muito tarde, olhe o elevador! Esconda-se no banheiro.
Pouco depois, batiam  porta.
- Entre. Obrigado por ter vindo. Eu ia tomar alguma coisa, quer?
- Como quiser. Mas vamos logo ao que interessa, no quero deixar o coronel Argoud esperando muito tempo.
Franois serviu usque em dois copos. Deu um ao coronel e bebeu o seu de um gole s antes de falar.
- Preciso de sua ajuda.
O coronel olhou para ele sem dizer uma palavra e sentou-se numa poltrona.
- Uma jovem argeliana que eu conheo foi levada pelos legionrios que a conduziram  Vila Sesini. Voc sabe o que isso significa.
Gardes esvaziou seu copo, impassvel.
- Essa jovem se chama Malika Souami,  enfermeira ou aluna de enfermagem no Hospital Maillot. Uma europia estava com ela no momento da priso; ela poder confirmar os fatos... Isso lhe diz alguma coisa?
- Eu no sou informado de tudo que acontece em Argel. Com relao  priso dessa moa, no ouvi nada. Dou-lhe minha palavra.
- E eu no duvido dela. Em compensao, voc pode melhor do que ningum se informar.
O coronel Gardes levantou-se e olhou Franois no fundo dos olhos.
- Eu posso, de fato. No aprovo certos mtodos de interrogatrio e os que so empregados na Vila Sesini me repugnam particularmente. Entretanto, se levaram essa moa, devem ter suas razes. Ela pertence  FLN?
- No sei de nada, mas  disso que a acusaram, por denncia.
- Por que voc se interessa por ela?
-  uma boa moa. Seu irmo mais novo trabalha aqui;  um garoto inteligente que l Camus...
- Ah, bom... se ele l Camus!
- No brinque,  com pessoas como eles que se deve construir a Arglia de amanh, aquela com que voc sonha.
- A Arglia dos meus sonhos... ser francesa ou no ser. Voc disse que ela trabalha no Hospital Maillot?... Em que departamento?
- No do dr. Duforget.
- Duforget?
- Voc conhece?
- Somente de nome. Voc sabia que ele  a favor dos rabes? "S faltava essa!", pensou Franois, exagerando seu espanto:
- Tem certeza?
- Alguns afirmam isso, assim como dizem que ele cuida defdlaghcis no servio.
- Isso me parece impossvel.
- Voc acha? Afinal,  um mdico... Vou me informar sobre sua protegida esperando que no seja tarde demais... Eu ligo assim que souber de alguma coisa.
- Coronel, agradeo muito. Mas vou lhe garantir uma coisa: se algo acontecer a ela, eu mesmo contarei tudo aos jornalistas l embaixo.
-  uma ameaa, Tavernier?
- No contra voc, coronel. Vi sujeiras demais na Indochina e no encobrirei com meu silncio o que vier a conhecer aqui. Acredito que voc me compreende.
Os dois homens se encararam, to determinados um quanto o outro. Ao mesmo tempo, estenderam-se as mos. Franois foi abrir a porta do banheiro.
- Voc ouviu?
Sem responder, como uma criana, Bchir jogou-se nos braos de Franois que, emocionado, passou as mos nos cabelos dele.
- Calma, camarada, no vamos comemorar to cedo.
- Voc tem razo, meu irmo, mas recuperei a esperana. Por que voc disse a ele que eu leio Camus?
- No sei.,  toa!
- E o que fazemos, agora?
- Esperamos.
- Vai demorar?
- No sei. Pare de fazer perguntas. Vou tomar um banho e, depois, deitar. Voc devia fazer o mesmo.
- Posso tomar um banho no banheiro?... Em casa, voc sabe, nos lavamos numa bacia...
O toque do telefone arrancou-os brutamente do sono. No sabendo onde estava, Bchir deu um pulo do sof no qual estava cochilando. Franois acendeu a abajur perto da cama e pegou o fone.
- Al... - Disse com uma voz pastosa.
Bchir vestiu-se sem tirar os olhos do novo amigo que no dizia uma palavra. Quando, enfim, desligou com um simples obrigado, Franois ficou pensativo por um momento, passando a mo no queixo onde a barba comeava a crescer.
- Ento? - Grunhiu Bchir, impaciente.
Franois levantou-se e esticou o corpo sem se preocupar com a nudez.
- Eu estava dormindo to bem! - Disse ele coando a cabea enquanto se dirigia para o banheiro.
- Ento? - Repetiu o argeliano.
- Ela est l mesmo. O coronel foi pessoalmente  Vila Sesini. O oficial da guarda reconheceu que havia uma terrorista l com esse nome. Acrescentou que ela estava bem e que sua priso era segredo. Gardes pediu para v-la. O oficial no permitiu, dizendo que era ordem de seu superior. Combinamos de ir juntos  vila s nove horas.
- Posso ir junto?
- Claro que no! Deixe os adultos cuidarem disso e volte a dormir. Magoado, Bchir esticou-se no sof sem tirar a roupa e puxou a coberta sobre as orelhas.
Quando acordou, j era dia claro. Em cima da cama desarrumada havia um bilhete de Franois:
Acho que estarei de volta no final da manh. Cuide-se e no se deixe ver pela arrumadeira.
Bchir rasgou o bilhete e saiu do hotel sem ser notado. Dirigia-se a Casbah, quando notou que trs garotos de doze ou treze anos o seguiam enquanto chutavam uma lata de conserva. Eram muitos, agora, nas ruas de Argel, esses garotos cujos pais vindos do bled se amontoavam nas favelas. Mal vestidos, geralmente, mendigavam ou roubavam nos mercados, deslizavam pelas rvias da Casbah, escapando dos soldados, refugiando-se nos fundos das lojas ou nos terraos. As mulheres, geralmente com pena, davam de comer a eles. A FLN servia-se deles para espionar ou para ficarem  espreita quando havia reunies clandestinas. Um desses bandos tinha por chefe um Kabyle, pequeno, que no devia ter mais de treze anos. Ningum sabia de onde ele tinha vindo, ele nunca falava do passado e no respondia a nenhuma pergunta.
O que era surpreendente  que ele sabia ler. Em troca de um canto para dormir, ele lia os jornais que havia roubado para um pblico composto de seus comparsas ou de mulheres analfabetas da Casbah.  sem dvida por isso que o chamavam de Al-Alem. Todos o temiam e respeitavam desde que apunhalou o dono de um caf em
Belcourt, assassino de um velho muulmano venerado por todos. Aps uma breve investigao, a polcia arquivou o caso. No que lhes dizia respeito, a justia tinha sido feita, consideraram os muulmanos.
Bchir sentou-se num dos bancos da Praa Bresson, no sabendo bem o que deveria fazer. Ele se perguntava se Franois teria conseguido se aproximar de Malika. "Que horas ele tinha dito? Nove horas?" O relgio da Igreja Saint-Augustin bateu onze horas. Os garotos que o seguiam pararam no muito longe e jogavam um jogo de dados, trazido pelos soldados negros americanos em 1942, quando os aliados desembarcaram na frica do Norte. Com um gesto brusco, eles viraram a lata de conserva que lhes servia de copo, batendo com ela na calada na qual jogavam os dados, gritando e empurrando os passantes. Os europeus desciam da calada para evit-los.
"No faz muito tempo, eu tambm jogava a", pensou ele. Indeciso, olhou em volta, depois interpelou em rabe um dos garotos que jogava e que, depois de um momento de hesitao, veio at ele.
-  por minha causa que vocs esto a?
- Voc v mais algum por aqui? Respondeu o garoto, de mais ou menos doze anos, com uma longa cabeleira suja, puxando para cima uma cala disforme segura com um barbante.
- Quem lhes pediu para tomar conta de mim?
- No podemos contar. - Respondeu um outro garoto que Bchir ainda no tinha visto, mas em quem ele reconheceu Al-Alem.
- Estamos aqui para proteg-lo. - Continuou ele.
Bchir levantou os ombros: sabia que no arrancaria mais nada deles.
- Estou com fome. - Disse Al-Alem. - Voc no tem nada para mastigar?
Essa pergunta fez com que ele se lembrasse de que tambm no tinha comido nada desde a vspera.
- Eu tambm estou com o estmago nas costas. Que tal sardinhas assadas?
Al-Alem assobiou para os companheiros, foi at eles e cochichou qualquer coisa. Os garotos se afastaram dando pontaps na lata de conserva.
- Mandei-os embora; agora voc est sob a minha proteo. Voc fuma? - Perguntou, oferecendo um pacote de Bastos todo amarrotado.
- No, obrigado.
- Pegue um! - Ordenou ele.
Surpreso, Bchir obedeceu. Dois policiais passaram por eles.
- Voc v rebeldes em todo lado. - Disse o mais velho com um forte sotaque de Marselha. - J lhe disse: os que fumam no so. AFLN proibiu cigarro e lcool. Os que desobedecem, cortam-lhes o nariz e os lbios.
- Que animais! - Exclamou o mais jovem, que tinha sotaque parisiense.
- Voc s descobriu isso agora?  preciso desconfiar, eles no so como ns... Vamos, circulando, bando de vagabundos, aqui no  lugar para vocs.
Al-Alem levantou o brao na frente do rosto, como para se proteger.
- No t fazendo nada, patro.
- Fora daqui, j disse!
- Tudo bem, patro. J t indo, patro... Obrigado patro... Bchir puxou a manga de Al-Alem que o seguiu se contorcendo, sob o olhar satisfeito dos policiais.
- Largue. - Ordenou Al-Alem depois de alguns passos.
- No seja idiota, eles ainda nos observam.
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- Um dia, ainda apago um deles.
- Cale a boca! Voc quer ou no quer as sardinhas?
- De acordo, vamos. Voc sabe onde, pelo menos?
- No mercado de peixe, elas so mais baratas.
As ruas mostravam ainda os vestgios da chuvarada da noite. O sol, por trs das nuvens, custava para sair. Bchir tremeu. Seu companheiro no parecia sentir frio apesar da roupa leve e da camisa desabotoada.
- Quantos anos voc tem? - Perguntou Al-Alem.
- Quase dezesseis, e voc?
- Tambm. No me olhe desse jeito! E sei que sou um aborto da natureza... Mas no me queixo: d azar.  melhor voc ficar de antena ligada: voc tem a cara de que eles no gostam, a cara de quem pensa.
- E voc, por acaso no pensa?
- Penso, talvez mais que voc, mas eles no sabem disso. Seria necessrio que fossem inteligentes e que nos vissem de outra forma. Voc anda bem vestido, com a cabea levantada e  um moleque bonito: tudo ao contrrio de mim. Para eles, sou invisvel. Quando apunhalei o porco gordo de Belcourt, no fugi, passei de fininho at o terrao e fiquei olhando. Ah! Se voc os visse correndo para todos os lados, os roumisl "Saia daqui, garoto", me disse um deles; "no  um espetculo para voc".
Quando a polcia chegou, eu ainda estava l. Os guardas passaram na minha frente, ento fui embora.
- Por que voc est me contando isso?
- Para que voc saiba com quem est lidando e para mostrar que voc, tambm, no deve confiar nas aparncias.
- Vou me lembrar... Dizem que voc sabe ler:  verdade?
- A gente no  to ignorante quanto eles gostariam. Aprendi a ler para combat-los. Voc no?
- Nunca pensei nisso, para mim parecia normal ir  escola. Voc parece minha irm falando...
Bchir calou-se bruscamente, os punhos se fecharam.
- Eu sei do que voc est falando. Eu conheo sua irm; ela me empresta uns livros... Voc ficou espantado?
"No", ele fez com a cabea.
- E uma boa garota, a sua irm. Vamos tir-la de l.
- Como voc sabe?... A Vila Sesini  muito bem guardada!
- Eu sei de muitas coisas... Se seu amigo roumi falhar, talvez eu tenha um jeito. Mas, deixe para l... No vou dizer mais nada!
Bchir deixou-se cair num degrau da escada que levava ao cais do mercado de peixe e segurou a cabea com as mos.
- Pare, voc parece uma menina! - Disse Al-Alem, sentando-se perto dele.
- Dane-se. - Gemeu o outro, levantando o rosto coberto de lgrimas. Ficaram em silncio, indiferentes s pessoas que subiam e desciam a escada, empurrando-os, s vezes, com seus pacotes. Al-Alem acendeu um cigarro e passou-o ao companheiro, depois de ter dado duas tragadas. Enxugando o rosto com as mos, Bchir aceitou. Pouco a pouco, a fumaa tranqilizou-o.
- Obrigado. - Disse, levantando-se. - Vamos comer as sardinhas? Como moleques que eles ainda eram, desceram a escada aos pulos, apostando quem chegava primeiro l embaixo. Al-Alem ganhou de longe.
No cais, comerciantes, compradores, vendedores de sardinhas, muulmanos, militares e europeus formavam uma multido confusa e diversificada. O cheiro de assado dominava o dos peixes frescos que pulavam ainda nas bancas. No cho coberto de escamas, vsceras, espinhas e cabeas de peixe, as pessoas escorregavam. Sobre braseiros improvisados, velhos argelianos assavam as sardinhas, em grupos de cinco, em forma de leque. Em seguida, as vendiam embrulhadas em jornal. Alguns ofereciam tambm lula na tinta, que eles chamavam de "spias". Por alguns francos a mais, o cozinheiro escolhido por Bchir servia as sardinhas numa grande fatia de po. Esfomeados, foi por pouco que no comeram at as cabeas.
- Mais? - Perguntou Bchir.
- No d para recusar, meu irmo!
Quando saram do cais do mercado de peixe e subiram as escadas, a vida lhes parecia menos dura.
- Eu lhe ofereo um ch de hortel. - Declarou Al-Alem, fazendo pose.
Entraram num caf mouro, na parte baixa da Casbah, se instalaram num banco encostado na parede. Perto deles, alguns velhos de tnica jogavam domin. Eles fecharam os olhos bebericando o ch quente.
- Preciso voltar ao meu trabalho no hotel e ver se o francs voltou. Voc no vai mesmo me dizer por que est tomando conta de mim?
- Mais tarde, meu irmo.
- Eu ... eu queria dizer... no  fcil... mas... Agradeo a sua companhia. Al-Alem ficou rubro de surpresa ou de prazer e respondeu com um tom rude:
- No perca tempo com bobagens. - O aperto de mo que eles trocaram desmentia essas palavras.
- Volto de noite para saber das novidades. - Prometeu Al-Alem, partindo por sua vez.
O coronel Gardes e Franois Tavernier encontraram-se na hora combinada, na Vila Sesini. Essa magnfica casa mourisca, rodeada por um jardim, era, desde a batalha de Argel, ocupada pelos militares e servia de centro de interrogatrios. Sua reputao era tal que os prprios europeus abaixavam a voz quando se referiam a ela.
Um capito recebeu-os num gabinete confortvel e disse estar a par do motivo que os trazia ali. Uma cano da moda vinha da sala vizinha. Segundo ele, a garota de que se tratava tinha estado ali, mas havia sido transferida na vspera,  tarde, para El-Biar, outro centro de interrogatrios. Ele explicou ainda que o suboficial com quem o coronel Gardes conversara no tinha dado essa informao porque acabava de entrar no servio.
- Voc est zombando de mim? - Replicou friamente Gardes.
- Eu no ousaria meu coronel.
- Qual foi a razo da transferncia?
- Complementao de informao, meu coronel.
- Entendo. Qual foi o motivo da priso?
- Terrorismo, pertencer  FLN, meu coronel.
- Ela falou?
- No, meu coronel.
- Quem se encarregou do interrogatrio?
- Eu, meu coronel.
- De que modo?
- Nada de muito grave.
- Voc pode, portanto, me dar sua palavra de oficial que essa moa no sofreu maus tratos?
Antes de responder, o capito acusou uma leve hesitao.
- Evidentemente, meu coronel.
- Gostaria de visitar suas instalaes. Nova hesitao, desta vez mais acentuada.
Deixando a Vila Sesini, Gardes e Tavernier estavam plidos. Eles sabiam, no entanto, que no lhes tinham mostrado seno uma parte das salas reservadas aos interrogatrios.
O que tinham visto bastava para dar uma idia do modo como eram conduzidos. Numa das salas, flutuava no ar o mau cheiro de carne queimada, sangue e excrementos. Numa espcie de tablado imundo, estavam fixadas correias de couro. Acima, pendia um fio eltrico com um tubo isolante terminando numa placa de compensado de onde saam dois fios desemcapados.
Num canto, no cho de cimento, baldes cheios de gua suja, um funil grande, alguns trapos e uma espcie de gaiola fechada com cadeado.
- Para que  isso? - Perguntou o coronel.
- Para trancar os recalcitrantes.
No carro que os levou de volta para o Centro de Argel, os dois homens ficaram muito tempo em silncio.
- Devemos ir a El-Biar. - Disse enfim Tavernier.
- Sim. - Murmurou Gardes.
Cada um deles mergulhou novamente em suas reflexes.
- Mas, enfim... - Explodiu Franois - Voc pode me dizer a quem respondem esses sinistros oficiais? Voc no diz nada?... No  por ordem dos prprios chefes que eles torturam? Com certeza voc est a par! Assim como Challe, Massu e Delouvrier!
- No  to simples assim.
- O que voc quer dizer?
-  uma herana da batalha de Argel. Na poca, era preciso obter informaes por qualquer meio, a fim de impedir novos atentados. Lembre-se das bombas do Otomatic, da Cafeteria, do Milk-bar, do Coq Hardi, do estdio de El-Biar, do cassino da Corniche... Todos aqueles jovens estropiados, as moas com as barrigas rasgadas, as pernas arrancadas, as cabeas estouradas!...
Ofegante, com os olhos fundos, Gardes calou-se por uns instantes.
- Eu sei de tudo isso e  assustador, como foram assustadoras as expedies punitivas dos ultras no Clos-Salembier, em Belcourt, os setenta mortos no atentado da
Rua Thbes, na Casbah! Mas  preciso acabar com essa escalada, e no  aplicando os mtodos de Massu que vocs impediro novos atentados! - Exclamou Franois.
- Eu sei to bem quanto voc. J lhe disse: deploro esses mtodos, mas no  a voc que vou contar da dificuldade que  controlar as aes dos homens que viram o que a FLN fez com seus companheiros.
- Conheo esse argumento e eu mesmo j estive a dois dedos de interrogar de modo "eficaz" um porco que me caiu nas mos. O que ele tinha feito merecia mais do que a morte e, fazendo-o falar, talvez eu tivesse salvado algumas vidas. No saberei nunca. No tive coragem para isso. Mergulhei no desgosto e na raiva, mas tambm no medo de me rebaixar ao nvel daquele animal. Atirei nele... E no lamento.
- Sem dvida voc fez bem, mas nem todos tm seu sangue-frio.
- No chamaria de sangue-frio... E, depois, merda, por que estou lhe contando minha vida? Deve ser por causa do ambiente... Como voc vai proceder em El-Biar?
- Vou pedir que me entreguem a garota.
Alguns pra-quedistas montavam guarda diante do prdio de concreto, perto da praa El-Biar que dominava a baa de Argel. Diante do coronel eles se fixaram numa posio de sentido impecvel. Tavernier e Gardeni atravessaram um ptio lotado de jipes e caminhes militares. Um subtenente veio receb-los ao p da escada.
- O comandante vai receb-los.
Eles o seguiram. No primeiro andar, uma porta abriu-se bruscamente, deixando ver um jovem argeliano. Enquanto era empurrado para o corredor, eles perceberam seu rosto ensangentado e suas roupas rasgadas. Ele estremeceu e arriou aos ps de Tavernier. Um pra-quedista saiu e desferiu-lhe um pontap nas costelas.
- Levante-se miservel!
Franois ajudou-o a se levantar. O muulmano olhou assustado para aquele civil indulgente e, estendendo para eles as mos algemadas, implorou:
- Ajude-me, senhor!
O subtenente pegou-o pelo brao e puxou-o de volta para a sala, gritando:
- Cretino, eu lhe disse para ficar quieto!
O que havia chamado o rabe de miservel fechou a porta.
- Ele carregava explosivos com ele. - Disse o subtenente. No segundo andar, um tenente aguardava.
- Bom dia, meu coronel, o comandante o espera. Este homem est com o senhor?
-  evidente. - Grunhiu Gardes.
O tenente os fez entrar numa sala mobiliada com peas metlicas e cadeiras desconfortveis. Sentado atrs da mesa, o comandante os olhou entrar, depois se levantou.
Bateu os calcanhares e saudou militarmente seu superior. O coronel respondeu negligentemente  saudao e foi direto ao assunto:
- Voc sabe por que estou aqui? Devem ter-lhe avisado l da Vila Sesini.
- Sim, meu coronel.
- Muito bem. Mande buscar a garota.
- Mas, meu coronel,  que...
- Que?
- Ela est passando um pouco mal.
- Duvido. Tragam-na aqui, no partirei sem ela... Ento, o que espera para dar as ordens?... Amenos que prefira que eu fale com o general Massu ou o general Challe.
O comandante pegou o telefone.
- Ela estar aqui em alguns minutos. -Anunciou ele.
Era um homem de mais ou menos quarenta anos, meio atarracado, cabelos escovinha, traos flcidos e olhar furtivo, que tinha muitas condecoraes penduradas na farda camuflada.
O tempo que decorreu pareceu muito longo para os trs. Afinal, bateram  porta.
- Entre!
Um pra-quedista entrou na sala sustentando uma mulher que entrou curvada. Os cabelos desgrenhados cobriam seu rosto. O praquedista a fez sentar numa cadeira.
- Est bem, pode sair. - Ordenou o comandante. Franois aproximou-se dela e afastou os cabelos.
- Meu Deus. - Murmurou ele.
Quase no reconheceu, naquele rosto inchado, coberto de um suor frio, os bonitos traos da irm de Bchir. Ajoelhou-se diante dela e levantou-lhe gentilmente o queixo.
- Malika, acabou.
A garota abriu os olhos com dificuldade e olhou-o sem parecer reconhec-lo. De sua boca inchada, com os lbios cortados, saa uma espcie de gemido. Um filete de sangue correu pelo queixo.
- Que animais! - Cuspiu Franois, com um soluo na voz. Pegou um leno para enxugar o pobre rosto.
-  ela, mesmo? - Perguntou o comandante.
De um salto, Tavernier ergueu-se, agarrou o oficial pela camisa e deulhe um murro na cara.
Gardes se interps e forou-o a largar a presa.
- Calma, isso no resolve nada! Quanto a voc... -Disse, dirigindo-se ao comandante que colocava um leno no nariz. - Esquea este incidente.
- Esquecer?... Mas ele atingiu um oficial no exerccio de suas funes. Vou fazer a pele dele!
- Basta! Ou enfio no seu rabo um relatrio que o deixar encostado por muito tempo!
- Eu s obedeo ordens, coronel.
- O emprego de tortura foi proibido pelo general de Gaulle. - Declarou Franois enquanto massageava a prpria mo.
- De Gaulle  um p no saco!
- Cuidado com o que diz, comandante! Chame uma ambulncia.
- Uma ambulncia?
- Sim, e rpido!
Com o leno sempre no nariz, o comandante acabou por concordar.
- Ela chegar em dez minutos.
Um quarto de hora depois, a pedido de Tavernier, uma ambulncia transportava a jovem argeliana para o Hospital Maillot.

Captulo XIII

Sozinho, no consultrio do doutor Duforget, Franois fumava nervoso. H uma hora Malika Souami estava nas mos dos mdicos. Uma batida na porta; uma enfermeira entrou.
Era uma europia, de uns cinqenta anos, rosto simptico, com uma blusa branca que lhe apertava o opulento peito; parecia perturbada.
- Desculpe. - Disse ela com um forte sotaque de p-preto. - Foi o senhor que trouxe Malika?
- Como ela est?
Incapaz de responder, a mulher deixou-se cair numa cadeira, chorando.
- Ela...? - Perguntou Franois.
- No. - Quase gritou a enfermeira. - Ela vai sair desta!  que,  tudo minha culpa.
- Sua culpa?
- Sim... Eu estava com ela quando foi levada... Eu deveria ter avisado a famlia imediatamente, o hospital... Mas tive medo, senhor, tive medo. Se tivesse falado naquele momento, talvez tivessem podido evitar esse horror todo.
- A senhora  a sra. Zenatti?
- Sim, senhor. Malika trabalhava sob minhas ordens. Gosto muito dela; ela tem a idade da minha filha mais nova e... por minha causa...
A porta abriu-se de novo. A enfermeira levantou-se.
- No chore, sra. Zenatti, tudo vai ficar bem. Dei-lhe um calmante, ela vai dormir. Quando acordar  que vai ser difcil. - Disse o dr. Duforget.
- Eu sei, doutor. O que posso fazer?
- No muito, por enquanto.  preciso avisar a famlia.
- Eu fao isso,  o mnimo que posso fazer. Se no fosse a minha covardia...
- Vamos, no chore mais, no foi culpa sua...
- Agradeo por me dizer isso, doutor, mas minha conscincia diz o contrrio.
O mdico ps a mo no ombro dela.
- A senhora  uma boa mulher, sra. Zenatti. No se julgue muito rigidamente. Estamos todos vivendo momentos difceis e ningum sabe o que ser levado a fazer. Vejo a senhora amanh.
A enfermeira saiu. O dr. Duforget foi sentar-se atrs da mesa e segurou a cabea com as duas mos. Aps alguns instantes, levantou o rosto e olhou Franois com um ar esgotado.
- Pobre garota! - Disse ele. - Foi muita sorte voc conseguir arranc-la das mos dos carrascos... Que porcos!
- Ela est gravemente ferida?
- Tudo depende do que se entende por "gravemente"... Ela tem vrias costelas quebradas: pontaps...
Queimaduras de cigarros nos seios, na parte de dentro das coxas. O cara que fez isso deve ser um artista, queimou de forma regular e profunda para obter um resultado harmonioso... Essa menina maravilhosa! Ele deve ter se divertido em marc-la assim... Eles a violentaram um de cada vez, pela frente, por trs, e de novo. Sem a sua interveno, acabariam matando-a e jogando o cadver no mar, amarrado a um bloco de concreto.  assim que fazem quando as vtimas ficam muito arrebentadas.
- Ela falou?
- Um pouco. Est morta de vergonha. Ela era virgem. Para uma muulmana isso  uma desonra. Pediu que voc cuide do irmo dela. Ela acrescentou que, ainda que voc esteja no lado inimigo, ela confia em voc e lhe agradece.
Franois sorriu de um jeito cansado.
- Gostaria de falar com ela.
- Amanh, talvez, se ela quiser. Desculpe-me, tenho outros pacientes para atender. Se precisar de mim, aqui est meu telefone particular. Ah, uma coisa: voc me disse que foi graas  interveno do coronel Cardes que conseguiu a libertao de Malika?  surpreendente! Ele est sempre na companhia de Ortiz e de seus comparsas.
- E sua funo de comando que exige isso.
- Sem dvida, mas ele no deveria se comprometer com essas pessoas, so fascistas.
- No acredito que ele esteja do lado deles. Mas ele  totalmente favorvel  Arglia francesa e defende a integrao.
- Ele s sabe falar. Faz parte daquele grupo de homens inteligentes, incapazes de ver a realidade que est na cara deles. Mas, afinal, hoje, ele salvou a vida de uma mulher.
- Ele ficou louco quando nos trouxeram Malika. Fez o gesto de levar a mo  arma; os outros fizeram o mesmo. Por um momento, achei que iam se matar. O dio entre eles era palpvel. Quando nos despedimos, tinha envelhecido dez anos. Ele me disse: "Como poderemos nos perdoar essas coisas?"
- Talvez esse drama lhe abra os olhos... Ligue amanh para saber notcias. At logo!
- At logo, doutor.
A noite havia cado. Uma chuva tornara irreal o halo de luz das lmpadas dos postes. Indiferente aos carros que buzinavam, Franois Tavernier caminhava pela Avenida Malakoff. Na altura do Bulevar
Guillemin, um Peugeot 203 barrou-lhe a passagem. Mergulhado em seus pensamentos, no percebeu e tentou contornar o veculo, quando trs homens de cabea raspada saram do carro, pegaram-no e empurraram- no. S se deu conta da armadilha tarde demais e se amaldioou por se deixar apanhar. Um cara grande, com olhos pequenos de porco, vestindo um casaco de camura marrom, atingiu-o no estmago.
Franois teve a impresso de que o punho lhe atravessava o corpo. Um outro com um palet apertado, bateu-lhe com uma barra de ferro nas costas. Com o choque, ele caiu de joelhos. O terceiro levantou-o pelo colarinho. Tinha um olhar de assassino.
- No gostamos que se metam nos nossos assuntos. - Disse ele com um sotaque sul-americano, enquanto colocava a ponta de sua faca na garganta de Franois.
Tavernier levantou bruscamente os cotovelos para tentar se livrar. Conseguiu por um instante, mas o homem da faca retomou a vantagem, ajudado pelos companheiros. Eles bateram na vtima com toda a fora sem que nenhum motorista parasse.
- Larguem, ele j teve sua conta. - Declarou o homem do sotaque, que parecia ser o chefe. - Cuidado!
Vamos!
Um txi deu marcha  r, buzinando, O Peugeot saiu e costurou por entre os carros. O chofer do txi parou, desceu do carro e inclinou-se sobre Franois que tentava se levantar.
- O nmero... Voc anotou a placa? - Gaguejou ele, antes de desmaiar.
Quando voltou a si, reconheceu o rosto do dr. Duforget.
- Tudo bem? Eles no demoraram muito para reagir! Voc no est muito bonito, mas no tem nada quebrado... Foi s um aviso. Da prxima vez, pode ser mais srio. Quer passar a noite aqui?
- No obrigado, vou voltar para o hotel.
- Como quiser. O motorista de txi que o trouxe vai lev-lo.
Duforget ajudou-o a se levantar.
- Tem certeza de que est bem?
Apesar do rosto inchado e dos lbios machucados, Franois conseguiu sorrir. Deu alguns passos. Teve a impresso de que um carro havia passado por cima dele. Vestiu o palet, ajudado pela enfermeira.
- Obrigado, tudo bem.
O mdico abriu a porta da enfermaria.
- Ei, eles fizeram um bom trabalho! - Exclamou Joseph Benguigui.
- Bem que achei t-lo reconhecido um pouco antes de desmaiar. Obrigado pela mozinha.
- Por nada.
- Voc anotou o nmero?
- No deu tempo, mas acho que consigo reconhecer o calhambeque:
o pra-choque direito da frente estava amassado e o farol quebrado. Alm disso, tenho uma vaga idia de onde procurar... Eu o acompanho.
No Aletti, o porteiro aproximou-se de Franois.
- Meu Deus, sr. Tavernier, o que aconteceu?
- Nada de mais. Onde est o jovem engraxate?
- Ele saiu mais cedo. Nesses ltimos tempos, no est muito atento ao trabalho. Estamos pensando em mand-lo embora. Tem muitos querendo o lugar dele.
- Voc faria mal de demiti-lo. - Disse Franois contendo seu mau humor. -  um garoto inteligente, que faz seu trabalho muito bem.
- Era verdade, senhor, at pouco tempo atrs. Precisa de alguma coisa?
- Sim, mande subir uma refeio e mande algum para pegar minha roupa para lavar.
- Sim, senhor. Num minuto.
- Ainda precisa de mim? - Perguntou Benguigui.
- No, obrigado. Vou precisar muito de voc amanh de manh.
- Sem problemas. De qualquer modo vou passar para saber de voc. At l, v para a cama.
Uma vez no quarto, Franois se despiu. No espelho do banheiro, examinou os ferimentos: um olho semifechado, uma ma do rosto arrebentada, a boca parecendo uma bunda de macaco, uma mancha roxa surgindo na altura do estmago e as costas marcadas pela barra de ferro.
"Escapei por um triz", pensou enquanto abria as torneiras do chuveiro. Deixou a gua correr sobre o corpo por muito tempo, dando suspiros de prazer e de dor.
Estava acabando de se secar quando bateram  porta. Colocou um roupo e foi abrir. Era o rapaz para pegar suas roupas sujas. Assim que ele saiu, bateram de novo; um garom entrou, empurrando uma mesa servida.
- Tomei a liberdade de acrescentar uma garrafa de vinho. - Anunciou o empregado, mostrando o que trouxera.
- Fez muito bem, obrigado.
- Posso entrar?
No enquadramento da porta, via-se o coronel Gardes.
- Entre, coronel. Que bons ventos o trazem?
O garom sorriu, fechando a porta atrs de si.
Descalo, com os cabelos molhados, Franois examinou o bar. Pegando uma garrafa de usque, perguntou:
- Aceita uma dose?
- Se voc quiser... Acabei de saber que voc foi vtima de uma agresso.
- Isso o espanta?
A ttulo de resposta, Cardes levantou os ombros.
- Voc acha que foram os da Vila Sesini ou os de El-Biar que fizeram isso?
- No tenho idia.
- Um deles tinha um forte sotaque sul-americano, argentino, acho. Todos eles tinham a cabea raspada.
- Nesse caso, acho que so os da Vila Sesini, que est nas mos de alguns elementos da Legio. O que voc pretende fazer?
- Como assim?
- Vai dar queixa?
- No me faa rir, faz minha boca doer! Voc sabe muito bem que no adianta nada. E voc, no teve problemas?
- No. Dei contas de nossa aventura ao general Challe. Estava saindo de seu gabinete quando me contaram o que havia acontecido com voc. Voltei imediatamente para inform-lo. Ficou bobo.
- Ele  muito bom!
- No, no, ele foi sincero. Ele se irritou com voc por causa dos harkis, mas, quando falamos sobre isso, ele me disse: "E se Tavernier estiver certo?" Eu sei que, depois que vocs conversaram, isso no sai da cabea dele. Como est a garota?
- No muito mal, segundo o dr. Duforget. Pobre garota...
Durante um momento, os dois homens beberam em silncio. Gardes aproximou-se da porta que se abria para o porto molhado pela chuva.
- Quando voc volta para a Frana? - Perguntou, virando-se.
- Voc est querendo se livrar de mim?
- Entenda como quiser. Mas, voc no est mais seguro em Argel.
- Quem pode dizer que est seguro nesta cidade? Ningum, voc sabe. Tenho um encontro com Argoud, no domingo, ele vai me levar no seu passeio dominical.
- Estou informado.
- E, depois, no quero perder o que vai acontecer.
- O que quer dizer?
- Os boatos, meu caro, os boatos de que voc sonha com um diretrio Salan-Zeller-Jouhaud para comandar um golpe a fim de derrubar de Gaulle. Fala-se muito disso nas reunies de seus amigos da Frente Nacional
Francesa a que voc comparece s vezes. Voc no obteve do general Challe a autorizao para criar uma interfederao das unidades territoriais e de autodefesa, para as quais alugaram um local espetacular no
Bulevar Laferrire? Voc no fez ser eleito presidente dessa inter- federao, o comandante SapinLignires, cujas opinies de extrema direita so conhecidas, e para o posto de secretrio geral, um fabricante de chinelos de Bab el-Oued, chefe adjunto das UTs e comandante do exrcito clandestino da
FNF, o capito Ronda? O que significa dizer que Joseph Qrtiz  o verdadeiro chefe. Armas circulam, grupos de combate so recrutados, Argel est dividida em trs setores prontos para a insurreio, tudo isso sob os olhos do exrcito, talvez at com sua ajuda... E o coronel Godard, chefe da segurana, naturalmente informado disso tudo, deixa rolar. Assim como o general Massu, alis...
O coronel Gardes ouvia, lvido, com os maxilares cerrados.
- Isso tudo acompanhado do ranger de dentes dos outros grupinhos de direita. - Continuou Franois. Para alguns, Ortiz seria um agente pago pelo servio secreto americano, procurando principalmente desestabilizar de Gaulie. Para outros, seria um agente duplo participando de um compl governamental.
Quer mais, ainda? Fala-se muito dele! Mas tudo isso, voc sabe. Cardes, voc colocou a mo numa engrenagem e vai disparar acontecimentos que no conseguir mais controlar...
- O exrcito controla tudo. Nada se faz sem seu consentimento.
Franois olhou demoradamente seu interlocutor.
- Voc percebe o que falou? - Disse, esgotado. - Deixe-me sozinho, agora, preciso descansar... Ah, mais uma pergunta: por que voc me ajudou a salvar a garota?
- Questo de humanidade. E, depois, eu lhe disse, no gosto desses mtodos. Isso basta como explicao?
Sem responder, Franois estendeu-lhe a mo.
Depois da partida de Cardes, Tavernier serviu-se de uma dose de usque que bebeu de um trago antes de se deitar e mergulhar num sono cheio de pesadelos.
Levantou-se, na manh seguinte, em pior estado que na vspera. Arrastou-se at o banheiro e contemplou seu rosto deformado. Tomou duas aspirinas e enfiou-se no chuveiro. O corpo machucado distendeu-se pouco a pouco. Pelo telefone, pediu um bom caf.
Estava esvaziando a segunda xcara quando bateram de leve na porta. "Bchir", pensou.
Era ele mesmo e Franois o fez entrar. Qualquer sinal de infncia tinha desaparecido do seu rosto. Os belos olhos negros exibiam uma expresso dura, a boca, uma dobra amarga: ele sabia o que tinha acontecido  irm.
- Quer caf? - Ofereceu Franois.
Ele aceitou com um aceno de cabea.
Posso pegar um croissrnit?
- Sirva-se.
Alimentado, o jovem engraxate pareceu mais relaxado.
- A sra. Zenatti veio ver meus pais, ontem  noite. - Falou com um tremor na voz. - Minha me no pra de chorar... Meu pai, esse, est morto de vergonha e diz que no tem mais filha... E Malika?...
- Vamos ligar para o hospital para ter notcias.
Quando Franois desligou, parecia perplexo.
- Ento? Como ela est?
- Tem um pouco de febre e chama pela me.
- Vou busc-la.
- Vou com voc!
Bchir hesitou um instante.
- Venha, talvez voc consiga explicar a meu pai que no foi culpa dela.
Nas ruas da Casbah, as mulheres cuspiam  passagem de Franois Tavernier e os homens esboavam gestos ameaadores. Por diversas vezes, Bchir teve que falar com eles para que os deixassem prosseguir no caminho. Dos cafs mouros escapavam, a despeito da proibio da FLN, trechos de msicas rabes e as batidas secas do domin. Diante de um aougue, o sangue dos carneiros recentemente degolados formava pequenas poas ao redor das quais zumbiam as moscas. Panelas de alumnio e pratos de loua colorida pendiam do balco de uma loja de ferragens. Um alfaiate, inclinado sobre sua mquina, costurava  toda velocidade uma pea de tecido. Todo um povo vivia ali, amontoado. Nos muros, grandes nmeros pintados com piche lembravam baratas gigantes. Ao longo das fachadas leprosas, com suas cores apagadas, onde s vezes se abria uma janela, corriam valetas de gua suja. A medida que eles entravam mais na antiga vila turca, a misria se mostrava, o cheiro de mofo pegava na garganta. Velhos descarnados, sentados nos degraus das escadas, eram empurrados por garotos vestidos com trapos. Por trs dos balces estreitos com grades de madeira, adivinhavam-se as silhuetas de mulheres. Um vento leve inflava a roupa estendida nos terraos.
- A Rua Charneau ainda est longe? - Inquietou-se Franois, ofegante, coberto de suor e cheio de dores.
- No, estamos quase chegando. - Respondeu Bchir.
Alguns instantes depois, ele acrescentou:
-  aqui.
O adolescente empurrou uma porta pesada sobre a qual estava pregada uma mo de fatina de bronze opaco, subiu uns degraus, virou  direita numa passagem escura, depois, seguido por Franois, passou por uma segunda porta. Numa pea iluminada por uma janela com barras, estava uma mulher sem idade, um menino e um homem alto. Seus olhares viraram para os que chegavam, O homem mostrou seu rosto emaciado, levantou-se de uma poltrona quebrada. Franois reparou que ele tinha uma perna de pau. Veio at eles, com uma bengala na mo.
- Por que voc trouxe este roirni  minha casa? - Perguntou ele em rabe a Bchir.
- Pai, ele  o francs de que lhe falei. Foi ele quem salvou Malika.
- No pronuncie mais este nome na minha frente! No conheo nenhuma Malika. Tive uma filha, mas ela morreu.
A me deixou escapar um soluo. O pai virou-se para ela:
- Mulher, no mostre o rosto a um estrangeiro.
Com um gesto apavorado, ela puxou um pedao de tecido para a frente da boca.
- No devia ter escutado voc. Por sua causa, mulher, as crianas se afastaram de ns, estudaram na escola dos franceses, esquecendo nossos sagrados preceitos, vestindo-se como eles...
- Mas, pai... - Interrompeu Bchir. - Voc foi  guerra com eles, por eles.
- Voc v o resultado hoje! Por causa deles, sou invlido. Eu achava que depois da guerra eles nos considerariam como iguais. Olhe para ns: nunca fomos to miserveis, to pouco respeitados. A cada dia, eles se abatem mais sobre nosso povo. No bastou a eles reduzir-nos a escravos, considerar-nos como carne de canho, a que se coloca na linha de frente nas guerras sujas deles! O que querem  nos reduzir a nada... Nada conta para eles, nem a dor de uma me, nem o sofrimento de um pai, nem a desonra da famlia... Para eles, meu filho, ns no existimos como seres humanos. Nem os animais deles, eles tratam dessa maneira. Malditos sejam!... Eu sei... - Continuou ele em francs - Que o senhor foi bom para meu filho. No deveria. Isso lhe deu esperanas e amoleceu o corao dele. Sua bondade chegou tarde demais.
- Compreendo sua ira, mas seus filhos esto so e salvos. Sua filha precisa agora de todo o carinho...
- No me fale mais de filha!
- O senhor j disse. No a renegue, no acrescente isso ao sofrimento dela, ela no merece. Ela chama pela me.
- Senhor, no temos mais nada a nos dizer. Deixe-nos.
- Pai!...
- Cale-se ou eu o pego!
- Por piedade! - Gritou a me, jogando-se aos ps do marido.
Franois recuou at a porta.
Na passagem escura, uma mo agarrou seu brao.
- No tenha medo, sou amigo de Bchir.
Sem mais explicaes, ele se deixou guiar pela mo desconhecida.
Depois de descer umas escadas e de subir outras, Franois encontrou-se num terrao varrido no momento pela chuva. Numa das extremidades, havia um abrigo de tbuas, coberto por telhas onduladas de zinco.
- Venha. - Ordenou seu guia enquanto afastava uma cortina feita de sacos de juta grosseiramente costurados.
Franois inclinou-se para entrar no recinto. Seu anfitrio acendeu um lampio e virou-se para ele. Era um garoto a quem ningum daria mais do que doze anos. Nos seus olhos faiscava um brilho malicioso.
- Seja bem-vindo a meu palcio! - Declarou o adolescente apresentando-lhe o lugar com um gesto largo. - A casa  sua. Eu me chamo Al-Alem. Voc  Franois Tavernier, Bchir me falou de voc.
-  por causa de todos estes livros que o chamam de Al-Alem? - Perguntou Franois, apontando as caixas de madeira que faziam o papel de biblioteca.
- No tem importncia... Eu estava encarregado de vigi-lo, at de mat-lo, se necessrio. Os irmos no acreditam em sua... como dizer? Neutralidade. Sim,  isso: neutralidade! Eles acham que voc est de conchavo com os que nos combatem e que queria usar Bchir para saber o que se passa na Casbah. Eu tambm pensava assim. Mas, depois do que voc fez ontem, esto em dvida... Quanto aos do outro lado, no gostaram nada de voc ter tirado Malika das mos deles: no foi por acaso que o pegaram! Eles no estavam num 203 vermelho escuro, os caras que pegaram voc?
- Parece que sim. Voc sabe quem so?
- Se so quem penso, so muito perigosos. Gostam de torturar, so assassinos. Tem um grando com olhos muito pequenos, um com m aparncia e um outro que tem o jeito e a voz de cantor de tango, como os que se vem nos filmes... A no ser que, quase sempre, tem a cabea raspada a zero.
- So esses mesmos. O que mais voc sabe deles?
- O cantor de tango  espanhol ou alguma coisa assim, os outros dois so alemes. Eles pertencem 
Legio.
- Quem comanda, na Vila Sesini?
- Ningum sabe com certeza... Posso tentar descobrir, se voc quiser... Voc tem um cigarro?
Franois tirou o mao do bolso e estendeu-o a seu interlocutor.
- Americanos!  diferente do meu Bastos. - Alegrou-se o garoto, acendendo um no lampio.
- Fique com o mao. - Disse Franois, acendendo o seu tambm.
- Obrigado... Voc  corajoso, no teve medo de vir aqui. J faz muito tempo que no se v um i'oumi no pedao.
- Nem mesmo um soldado?
- Isso no conta e no se vem muitos deles... Psiu!... Ah,  Bchir.
A cortina se afastou para dar passagem ao rapaz. Pelos olhos brilhantes, via-se que tinha chorado.
Franois e Al-Alem fingiram no perceber.
- Voc demorou. - Disse Al-Alem.
- Meu pai ficou furioso, depois saiu. Precisei consolar minha me. Ela me encarregou de lhe agradecer, por
Malika.
- Quando ela vai v-la?
- Bem que ela queria, mas tem medo de meu pai. E eu, quando poderei v-la?
- Vamos perguntar ao dr. Duforget... Agora, preciso voltar, mostre-me o caminho.
- Eu os acompanho. - Declarou Al-Alem.
Rodeado pelos dois garotos, Franois desceu os degraus escorregadios da Casbah. Os olhares no eram mais hostis, no mximo curiosos. Ele compreendeu que, pela simples presena ao lado dele, os dois jovens argelianos mostravam aos compatriotas que no era um inimigo. Ele pensava na cara que fariam Challe e
Delouvrier se o vissem ali. "Mais uma vez, pareo estar fazendo jogo duplo", pensou ele, antes de perder subitamente os sentidos.
- Ele est voltando a si. - Constatou uma voz feminina.
Franois abriu os olhos. Esse simples gesto pareceu-lhe muito difcil. Parecia que tinha a fronte, a nuca e o peito apertados num torno. Esmagado de cansao, tentou levantar-se, mas caiu de novo.
- Fique calmo. - Ordenou a mesma voz. - Beba um pouco, vai lhe fazer bem.
A bebida quente que o fizeram engolir soltava um vago aroma de hortel e de cnfora. Um langor tomou conta dele, pouco a pouco; seu corpo, mais leve, o deixava. Franois olhava-o se afastar, feliz por ele...
- Ele vai dormir.
"Tenho fome", pensou Franois, acordando. Ele se sentia fresco e disposto. Seu sexo rgido o incomodava; pensou na boca de La. Essa lembrana acabou de lhe pr as idias em ordem. Olhou ao redor. Pela janela filtrava-se uma luz que deixava, apesar de tudo, o cmodo na penumbra. Do lado de fora, a voz do muezzin chamava para uma prece. Uma porta se abriu, uma mulher entrou e aproximou-se.
- Parece que voc est melhor.
No seu velho rosto tatuado que parecia uma mscara de couro, os olhos delineados em preto brilhavam com um olhar doce.
- Faz muito tempo que estou aqui? - Perguntou Franois.
- Quatro dias.
- Que dia  hoje?
- Tera-feira.
- Meu Deus!
Ele ia se levantar, quando percebeu que estava nu.
- No se agite assim, voc vai piorar. Voc no parou de delirar durante trs dias.
- D-me minhas roupas, preciso ir embora.
- Meu filho vai traz-las.
- Voc tem alguma coisa para comer?
A mulher riu e bateu palmas. Atrs dela, a porta se abriu. Franois reconheceu aquele que se fazia chamar de Al-Alem. Um grande sorriso iluminou seu rosto quando viu Franois sentado no meio das almofadas.
- Achei que voc ia dormir por cem anos! Voc parece um bandido, com esse rosto mal barbeado...
Franois passou a mo pelo rosto spero.
- No devo estar muito bonito. - Concluiu, rindo.
Bchir entrou, por sua vez, trazendo uma bandeja cheia de doces que apoiou na cama. Seus olhos exprimiam toda a alegria que sentia em ver Franois.
- Coma, foi minha me que fez esses doces para voc.
- Hum...  bom! - Deixou escapar, com a boca cheia e os lbios cheios de acar. - Agradea a ela por mim...
Como est Malika?
Uma sombra de tristeza passou pelos olhos do adolescente.
- Ela ainda est no hospital. Fui v-la com minha me, porque ela ainda est muito fraca para sair... No hotel, esto todos preocupados e se perguntam onde voc estaria, O coronel Argoud veio ontem;
comentou que voc no compareceu ao encontro combinado. O porteiro no soube o que responder e eu no disse nada.
- Fez bem... Pode me passar minhas coisas, por favor?
- Tome. - Interveio a mulher tatuada. - Eu lavei e passei suas roupas.
- Obrigado, senhora... Poderia se virar?
Ela colocou a mo na frente do rosto e saiu rindo por trs dos dedos. Ele se desembaraou, ento, das cobertas e levantou-se.
- Por que vocs esto rindo desse jeito?
Os dois garotos caram na gargalhada, apontando para ele. Franois estava tendo uma ereo.
- E isso  engraado? - Exclamou ele, enfiando as calas.
Vestido, ele mexeu nos bolsos.
-  isso que voc procura? - Provocou Bchir, dando-lhe a carteira.
- Obrigado. Queria deixar algum dinheiro para essa mulher pelo trabalho que dei...
- No faa isso. - Interrompeu-o Al-Alem. - Ela  pobre, mas  orgulhosa. A hospitalidade no se paga dessa forma.
- Voc tem razo. Voc me dir como posso pagar essa dvida.
De volta ao hotel, Franois Tavernier experimentou todas as penas do mundo para se livrar do porteiro.
- Ns achamos que a FLN o tinha apanhado. Todo mundo aqui no fala de outra coisa...
- Voc tem algum recado para mim?
- Asra. Tavernier ligou todos os dias. O general Chaile, o sr. Delouvrier e o coronel Cardes pediram que o senhor ligasse assim que voltasse.
- Obrigado. Vou subir para o quarto e no quero ser perturbado.
- Sim, senhor.
Ele acabava de sair do banho quando o telefone tocou.
- Eu tinha pedido para no ser perturbado!
- Desculpe, senhor; mas  uma ligao do Governo Geral, parece que  urgente... - Afirmou a telefonista.
- Est bem, passe a ligao... Al!
- Tavernier! At que enfim! Estou sendo bombardeado por pedidos de sua esposa e do lyse. Onde diabos voc estava? - Perguntou Paul Delouvrier.
- Estava doente...
- Sim, soube o que aconteceu. Sinto muito, mas isso no  razo para desaparecer desse jeito. Voc pode vir imediatamente ao CC?
-  to urgente assim?
- Sim.
Voltando ao banheiro, Franois examinou o rosto, que lhe pareceu mais magro;  verdade que no estava com boa aparncia, com aquela barba de muitos dias e os sinais de equimoses. Os lbios tinham desinchado, mas ainda estavam sensveis; desistiu de se barbear. Depois de pronto, comps a combinao do pequeno cofre que era disfarado por um cabide de parede, pegou sua pistola e verificou se estava carregada antes de coloc-la no cinto, nas costas. Escondida pelo palet, era preciso estar atento para perceber a presena dela.
Quando Tavernier colocava sua capa de chuva, o telefone tocou novamente. Era o coronel Cardes que lhe pedia para vir logo que possvel ao Quartel Rignot.
Ele fechava novamente a porta do quarto quando o telefone tocou outra vez. "E trs", divertiu-se ele, indo para o elevador.
No Hall, o porteiro precipitou-se:
- Sr. Tavernier, o general Chaile...
- No estou!
Impressionado com tanta desenvoltura, o empregado viu-o enfiar-se no tambor da porta giratria.
Atravessando a Praa Isly, Franois Tavernier cruzou com um grupo de garotos maltrapilhos que com muito barulho, jogavam dados. Entre eles, reconheceu Al-Alem; o moleque piscou para ele, sem parar de jogar.
A chuva tinha parado, mas o plido sol de inverno no conseguiu atravessar as nuvens.
Na Rua Tancrde ele parou embaixo de uma marquise para acender um cigarro. Cruzando a Rua Ngrier, viu que Al-Alem e seu bando ocupavam-se agora em dar, cada um por sua vez, pontaps numa lata de conserva. A lata vazia caia no cho com um barulho metlico.
Saindo do elevador da Rua Berthezne, alguns militares se cutucavam como meninos para mostrar uns aos outros as meninas do liceu; as jovens fingiam no ver nada. "O eterno jogo da seduo...", pensou
Franois. Atrs de umas mulheres de Iiayk, acompanhadas pelos filhos, ele colocou uma moeda na catraca e entrou no elevador; admirado de que fosse preciso pagar para peg-lo.
No Governo Geral, Franois foi recebido por Maffart.
- O senhor Delegado Geral o aguarda.
Sentado atrs de sua mesa, Paul Delouvrier levantou-se. Pegou as muletas apoiadas na parede e veio ao encontro dele.
- Bom dia, Tavernier. Obrigado por ter vindo logo. Acredite que fiquei desolado com o que lhe aconteceu.
De minha parte, acabo de voltar de Ghardaia, onde estava convalescendo da minha operao, e encontro
Argel em plena crise.
- O que est acontecendo?
- Voc no sabe?
- Eu dormi durante quatro dias...
- Sorte a sua. Eu no prego o olho! Massu foi chamado a Paris, por de Gaulle, aps as declaraes que deu a um jornalista alemo. Em Paris, foi uma tremenda confuso. Esta noite, o Primeiro-Ministro, Michel
Debr, telefonou para o general Challe, que no estava informado de nada. Pouco depois, Challe fez saber ao assessor de imprensa do Primeiro-Ministro que ele se apressaria em publicar um desmentido.
- Mas, o que Massu disse de to perturbador?
- Voc o conhece: ele se empolgou criticando a poltica do General. No entanto, alega que  vtima de um compl e que suas afirmaes foram adulteradas...  possvel, mas isso no poderia ter pior repercusso: a situao  explosiva e Massu  o nico a poder cont-la. Neste momento, os lderes argelianos esto reunidos com seus parlamentares para deliberar sobre os atentados da FLN que inundam de sangue a regio. Seus eleitores querem marchar para as prises de Argel, a fim de fazer, eles mesmos, justia, e os colonos levantam as milcias rurais. Estamos  beira da revoluo. Assim que essas pessoas souberem da partida de Massu, deveremos esperar pelo pior. Challe fala de pr em ao o plano Balancelie, que prev trazer para Argel a 1O diviso de pra-quedistas e de encarregla de manter a ordem com os esquadres de polcia mvel e da CRS. Ora, essa  a antiga diviso de Massu e isso no deixaria de ser perigoso: h o risco de confraternizao entre os pra-quedistas e a populao europia; eles esto em contato desde

1957 e criaram laos...
- Compreendo sua preocupao, mas em que eu posso ser til?
- Desde que voc chegou, ouviu alguma coisa que possa nos ajudar?
- Nada que vocs j no saibam, eu suponho...
- Devo ir a Paris em companhia de Chalie, para a conferencia do dia 22. Venha conosco: juntos, ns trs talvez possamos convencer de Gaulle a deixar Massu ficar aqui.
- O senhor talvez esteja se adiantando: Massu ainda no partiu.
- Prefiro prever o pior. Voc viria?
- Duvido que minha presena seja til.
- Pense no assunto. Por agora, tenho uma reunio sobre manuteno da ordem com os generais Challe,
Costes e Massu, assim como com os coronis Gardes e Fonde. Vamos estabelecer as medidas que sero aplicadas na falta das autoridades convocadas a Paris. Quanto a voc, faa de modo a poder ser localizado rapidamente.
Apoiado na bengala, Delouvrier acompanhou Tavernier at a sada do gabinete onde os dois homens trocaram um aperto de mo.

Captulo XIV

La achou que ia ficar louca: nenhuma notcia de Franois h uma semana. Estava cada vez mais difcil esconder sua preocupao das crianas. Com a inteno de no agravar uma aflio que partilhavam, os dois mais velhos evitavam fazer perguntas. No era o caso de Claire, que perguntava muitas vezes quando o pai voltaria, recusava-se a dormir na sua cama e vinha se enfiar na da sua me para "esperar papai".
Pouco depois da viagem para a Alemanha, ela foi intimada pela DST; eles achavam que o carro que ela tinha usado havia atravessado a fronteira muitas vezes por conta da FLN. Fingindo estar aborrecida com as perguntas que lhe fazia o inspetor que a havia recebido, ela respondia que sua vida particular no era da conta deles... Sem insistir, o oficial a deixara ir embora, mas La sabia que ele no era bobo e que esse interrogatrio visava intimid-la.
Desde a vspera de Ano Novo, ela no tivera mais nenhum contato com a organizao de ajuda  FLN e estava contente por isso. Nunca se sentira to desamparada, no sabendo mais qual era o seu lugar, duvidando do acerto de suas decises. Ela sempre vivera com noes simples "simplistas", como dizia Franois: isto est certo, isto no est. Na verdade, seu conceito de bem e de mal no traduzia seno um desejo de justia que a empurrava freqentemente para engajarnentos contrrios ao bom senso. Por muito tempo, na sua vida, havia seguido em frente sem pensar nas conseqncias, guiada apenas pelo instinto e pelo impulso de seu corao generoso, esquecendo muitas vezes que era me e que tambm devia dedicar-se aos filhos.
Jamais se sentira invadida por tamanha solido. A morte de Franoise fazia dela a nica sobrevivente, com Charles, daquela terra de Montillac pela qual ela tanto lutara. No havia mais ningum, agora, para recordar com ela os tempos felizes da infncia, a lembrana de todas aquelas pessoas amadas que tinham partido. Nenhuma amiga a quem confiar as dores e os sofrimentos. Ela precisava, de qualquer jeito, juntarse a Franois somente ele poderia ajud-la a ver claramente, s ele podia consol-la. Ela prometia a si mesma que iria seguir os conselhos dele, tornar-se razovel, no mais se meter em poltica. L, na Arglia, ela poderia sem dvida ser mais til  causa argeliana do que na metrpo le. Com um grito de raiva, La jogou na parede a escova que tinha na mo.
"Mas por que  que eu penso na Arglia? Meu lugar  aqui, junto de meus filhos... O que acontece comigo, sempre querendo estar em outro lugar? Eu fujo, fujo sem pensar... Depois da guerra, no estou bem em lugar nenhum. Cada vez que vou a Montillac, espero encontrar l a vida de antes: meus pais, minhas irms, meus amigos... Que felicidade quando, atravessando o Garonne em Langon, vejo os altos ciprestes plantados por papai, as barreiras brancas no alto da costa, a alameda que leva  casa... Por que essa alegria atenuou-se com o tempo? Fico feliz de ir l, mas tenho pressa de ir embora. Essa casa era meu porto seguro, agora me sinto uma estranha l; no h nada pior do que isso! Sempre senti que pertencia quela terra. A idia de ser enterrada l, um dia, me apaziguava, certa que eu estava de reviver l, no riso dos que fazem a colheita, na bruma das manhs de outono, no vinho espesso e amargo... Basta fechar os olhos para me ver inteira l. Montillac est mais presente no meu esprito do que a realidade, e isso me faz mal..."
Uma batida forte na porta assustou-a.
- Entre!
Charles entrou no quarto, com as roupas em desalinho, o rosto transtornado. Esquecendo instantaneamente seus pensamentos sombrios, La foi na direo dele e abraou-o.
- O que aconteceu?
Com os maxilares cerrados, o olhar duro, o jovem, depois de uma breve hesitao, respondeu:
- Assassinaram Ali!
Ela ouviu novamente a voz ardente do jovem que ela havia abrigado:
"A guerra da Arglia  sobretudo a infelicidade do povo argeliano!"
- Assassinado? Mas por quem?
- Um comando da FLN.
- O qu? No compreendo...
- No achei que era necessrio contar que Ali era militante do Movimento Nacional Argeliano, de Messali
Hadj. Bem, o MNA e a FLN disputam entre si o controle da rebelio. Se eu tivesse avisado voc, talvez Ali ainda estivesse vivo...
- Voc est me dizendo que uma luta de morte acontece entre os argelianos que, por acaso, lutam todos pela independncia de seu pas?
- Sim... Eu tinha me esquecido que podiam existir rivalidades to implacveis entre os homens que lutam por uma mesma causa... Sob o pretexto de traio ou simplesmente de disputa de influncia, a FLN manda abater membros do MNA e vice-versa. Lembra-se do massacre de Mlouza, em maio de 1957, no qual mais de trezentos argelianos foram mortos em condies assustadoras? Bem, contrariamente  tese oficial, sabe-se agora que no foi o fato de essas populaes apoiarem a Frana que provocou aquele ataque sangrento, mas na verdade o conflito entre a FLN e o MNA. Quando me engajei do lado dos que lutam pela independncia da Arglia, no dei importncia para o que considerava leves divergncias entre eles.
Acreditava que os jornais exageravam esses ajustes de contas entre muulmanos. Estava errado... Quando voc levou os documentos trazidos por Ali  Goutte-d'Or, um membro da FLN, que com certeza havia visto voc com os portadores de malas, reconheceu-a. Devem ter seguido voc e feito um relatrio... Sem saber, tnhamos sob o mesmo teto um membro da FLN e um outro do MNA! Ali era um dos responsveis na
Frana pela propaganda de Messali Hadj. No ficarei nem um pouco admirado se recebermos de novo a visita do
DST...
- Onde ele foi morto?
- Perto do Bulevar Richard-Lenoir. Jogaram-no no Canal SaintMartin depois de degol-lo... Vou ter que sair de Paris por uns tempos. Fico preocupado de deixar voc neste momento. Franois deu notcias?
- No, ainda nada.
- Voc leu os jornais?
- No, o que h?
- O general Massu foi chamado a Paris. Falam em substitu-lo pelo general Crpin...
- Isso  ruim?
- No sei. De Gaulle quase no tem escolha, depois das declaraes de Massu para o Sdodeittsel,e
Zeitiing... Essa entrevista, no mnimo, encoraja os ativistas e revela a confuso em que se encontra o exrcito.
La ficou pensativa por uns instantes.
- O que voc acha que eu devo fazer? Por causa das crianas, no sei se devo me juntar a Franois na
Arglia...
- Voc  que sabe. Os filhos nunca a impediram de se lanar de corpo e alma numa aventura...
- Isso  uma crtica?
- De certa maneira, sim. Voc sabe muito bem! Quantas vezes fiquei aflito com suas ausncias! Todas as noites, ficava atento ao menor barulho na esperana de ouvi-la voltar para casa. Foi a mesma coisa com
Adrien, e depois com Camille. Quantas vezes precisei consolar os dois...
- Voc no est sendo muito gentil ao me dizer isso. Ouvindo voc, parece que eu no os amo...
Charles tomou-a nos braos.
- Desculpe, fui injusto. Mas  verdade que por causa dos seus envolvimentos, ns morramos de medo de receber a notcia de que algo de grave tinha lhe acontecido. A notcia de seu acidente nos fez avaliar a angstia em que vivemos com medo de perd-la, La. - Acrescentou ele, baixinho, junto aos cabelos dela. Voc  a pessoa que eu mais amo no mundo e, se eu fosse mulher, iria querer ser como voc. Amo tudo em voc, at seus defeitos.
Ela se afastou dele, comovida com a ternura e o medo que ele sentia de perd-la. Para disfarar, tentou brincar:
- Eu achei que era Marie-France a mulher que voc ama.
O rosto de Charles ficou vermelho e uma onda de alegria tomou conta de La: este homem, que ela vira crescer e que j sofrera tanto, estava amando novamente.
- Eu a amo,  verdade, mas ela  to jovem...
- Vocs tm quase a mesma idade!
- Mesmo assim, ela  mais jovem...
Ela riu, ouvindo essa afirmao infantil. Desmanchou com as mos os cabelos de Charles, que tambm riu.
- Pare, voc vai me despentear!
Adrien e Camille entraram no quarto, empurrando um ao outro.
- Por que vocs esto rindo? Tiveram notcias de papai? - Perguntaram em coro.
- Vamos ter logo, queridos - Respondeu La apertando-os contra si.
Camille afastou-se.
- Mame, voc prometeu que ns iramos fazer compras. Hoje j  quinta-feira, e eu preciso de sapatos!
- Isso no pode esperar?
- No! Eu no tenho mais calcinhas, Adrien no tem mais meias e os vestidos de Claire esto muito pequenos. Philomne e eu j tnhamos dito isso bem antes do acidente. Depois, foi a tia Franoise... Bem, agora no podemos esperar mais!
Charles olhou para ela de um modo irnico. Como ela pudera se desinteressar a tal ponto das necessidades mais elementares da famlia?
Em que planeta ela vivia? Nos ltimos tempos ela se contentava em dar o dinheiro das despesas para a sra. Martin, que cuidava da cozinha, ou  Philomne, sem se preocupar com o resto. Agora, tanta negligncia a deixava envergonhada.
- Muito bem... - Cedeu ela. - Avisem Philomne que ns vamos todos  Galeria Lafayette e ao Printemps;
vamos almoar por l. Vo se vestir, samos em dez minutos. E voc Charles, suas calas no esto muito velhas?... Alis, preciso lhe dizer...
- Continue...
- Tenho uma passagem de avio para amanh.
Ele a encarou, incrdulo.
- Voc... voc est brincando?
- No. A propsito, j avisei a sra. Martin; ela concordou em ficar aqui durante a minha ausncia.
- Ento, sua hesitao h pouco era fingimento?
Ela balanou a cabea.
- No fique bravo... Sei que agi como uma idiota, mas no sei mais o que fazen Tenho medo de que, na ausncia de Franois, venham me prender, e depois... tenho medo por ele... Agora, com o assassinato de
Ali...
Arrasado Charles deixou-se cair numa cadeira.
- Voc  inacreditvel!... Quando vai contar para as crianas? Coitados!
- Pare! O problema  meu.
- No sei o que dizer.
- Ento no diga nada!
Da porta, vieram os chamados de Camille.
- Mame! Estamos prontos!
No final do dia, quando voltaram com os braos carregados de pacotes, estavam todos exaustos, menos
Claire. A pequena queria experimentar novamente todas as roupas novas. Apesar do cansao, a vietnamita cedeu a seus caprichos. O jantar, preparado pela sra. Martin, transcorreu em silncio; o lugar de Charles estava vazio.
Depois do jantar, La foi beijar cada um dos filhos no quarto. Claire j dormia, com o leno da me enrolado na mo, encostado na boca. Adormecida sob a franja negra, como se parecia com Lien, a irm de Kien!
- Desculpe-me, meu beb. - Cochichou, depositando um beijo na testa dela.
Quando receberam a notcia, Adrien e Camille fizeram um esforo para se conter e mostraram  me uma expresso serena. La, tocada por tanta coragem e tanto amor, mal conseguiu segurar as lgrimas que lhe enchiam os olhos.
Cedo, na manh de 22 de janeiro um txi levou La a Orly. Abordo de um Caravelle da Air France, fora as comissrias de bordo, s se viam outras duas mulheres, enfermeiras que voltavam a seus postos. No aparelho, entraram tambm deputados argelianos com a expresso preocupada e alguns jornalistas que iam registrar a exploso da primeira bomba atmica francesa, prevista para acontecer do lado de Reggane, no Saara, nos primeiros dias de fevereiro. La adormeceu rapidamente, pensando se Franois iria busc-la no aeroporto. Quando abriu os olhos, o avio comeava a descer. Pela janelinha, Argel brilhava ao sol.
No aeroporto Maison-Blanche, La esperava na rea das bagagens, inquieta por no ver Franois. Identificou suas malas na esteira rolante, fez sinal a um velho carregador para peg-las e dirigiu-se para a sada.
- Um txi, iiwdaine? - Perguntou o carregador.
- No, ainda no. Vou esperar mais um pouco...
Assim que terminou a frase, um carro parou bruscamente diante dela, guinchando os freios. Aporta da frente se abriu e um homem barbudo saiu.
- Franois!... - Murmurou ela, vendo-o vir em sua direo.
Ele olhou demoradamente para ela, examinando-lhe o rosto. Como em todas as vezes, ela se sentia transparente sob o olhar dele. "Ele ainda me ama?", perguntou-se com uma angstia que lhe secava a garganta. Foi ento que ele sorriu. Nesse sorriso e nos olhos brincalhes ela leu a resposta.
Encolheu-se nos braos dele: afinal, ela estava no seu lugar! Mais uma vez, este homem e esta mulher se encontravam, emocionados pela absoluta certeza de serem feitos um para o outro, de no poderem viver mais um sem o outro.
Com gestos ternos, ela passou os dedos pelo rosto ferido. Franois resistiu  emoo que o dominou. Saindo do txi, nesse momento, Joseph
Benguigui contemplou-os benevolente.
Feliz por estar com Franois, La o ouvia, dando apenas umas olhadas distradas para a paisagem.
- Por pouco voc no me encontrava aqui.
- Como assim?
- Havia, hoje de manh, uma reunio importante no lyse, sobre a Arglia. O Delegado Geral queria a todo custo que eu fosse, mas preferi no comparecer. Segundo informaes que recebi, minha presena no teria servido para nada. De Gaulle retirou o comando de Massu. Challe e Delouvrier intercederam por ele, evocando o clima tenso que reina em Argel, mas o General no quis saber de nada.
- Ento,  o fim! - Deduziu Benguigui. - Por que voc no me contou antes?
- Para que voc no ficasse falando por a. Agora no tem mais importncia que voc fique sabendo. Quando chegarmos  cidade, o coronel Argoud e o general Challe tero avisado Ortiz... Minha cara, como de hbito, voc chegou no meio da maior zona. Mas, no faz mal! Estou muito feliz por voc estar aqui...
No hall do Aletti reinava uma atmosfera tensa. Fotgrafos, reprteres do mundo inteiro se amontoavam, trocando informaes. Alguns se preocupavam em saber onde iriam dormir; no havia mais um s quarto desocupado nos hotis de Argel. Franois e La passaram rapidamente pela confuso, atrs de um empregado que carregava as malas.
- Que clima! - Espantou-se La. -  sempre assim?
- Mais ou menos... Os americanos esto aqui por causa da exploso da bomba A; russos e ingleses tambm. Quanto aos outros... Parece que o telefone rabe funcionou;
a imprensa ficou sabendo que alguma coisa estava para acontecer.
Assim que ficaram sozinhos no quarto, Franois jogou La na cama sem se dar ao trabalho de se despir, desabotoou as calas, afastou a calcinha de seda e penetrou na carne mida de sua mulher. Sem tirar os olhos dela, fazia movimentos gentis. Com o profundo carinho, as plpebras de La se fecharam como se ela quisesse saborear melhor o momento.
- Olhe para mim. - Murmurou ele.
Os olhos com reflexos lils abriram-se e mergulharam nos do amante. Seu olhar falava da alegria de estar abraada a ele e de senti-lo mexer dentro dela.
- Eu precisava tanto de voc! - Confessou ele, gemendo.
Violentas batidas no quarto acordaram-nos. Franois levantou-se com um pulo e agarrou a pistola que tinha deixado no bolso do palet.
- V para o banheiro. - Intimou a La. Quando ela tinha fechado a porta, ele perguntou:
- Quem ?
- O senhor no atende ao telefone, deve estar fora do gancho... Esto chamando o senhor com toda a urgncia no Palcio de Vero.
- Quem?
- O senhor Delegado Geral, ele mesmo ligou do aeroporto MaisonBlanche.
- Muito bem, obrigado... Chame um txi.
- No vai ser preciso, um carro vem peg-lo.
Pensativo, Franois recolheu suas roupas espalhadas e entrou no banheiro.
- O que est acontecendo? - Inquietou-se La.
- No sei. Parece que Delouvrier adiantou seu retorno; ele s devia voltar no domingo  noite... Fui convocado ao Palcio de Vero.
- Agora?
- Sim... Eu tinha feito reserva no Sept Merveilles,  um dos melhores restaurantes de Argel. Ligue para este nmero,  o telefone de Benguigui, o motorista de txi.
Diga-lhe para vir apanh-la l pelas oito e meia da noite e lev-la. Acho que no vou me atrasar, mas se eu no tiver chegado, que ele espere com voc.
- Mas por qu? Eu posso muito bem esperar sozinha.
- Uma mulher bonita como voc, no seria muito prudente... Voc entendeu bem?
- Sim, me d um beijo...
O carro com Franois Tavernier entrou no parque do Palcio de Vero ao mesmo tempo em que a DS do Delegado Geral. O general Challe e Paul Delouvrier saram pouco depois. Pela cara deles era fcil adivinhar que a reunio com o general de Gaulle no tinha corrido bem. Os trs homens apertaram-se as mos. A sra. Delouvrier veio ao encontro do marido.
- Louise, voc pode pedir que nos sirvam bebidas no meu gabinete? - Disse ele enquanto a beijava.
- Sim - Respondeu ela, antes de voltar para dentro.
Paul Delouvrier apoiava todo o seu peso na bengala para aliviar a perna que o fazia sofrer. Ele apoiou a maleta de couro na mesa. Tavernier e Challe seguiram-no.
- Entrem, senhores. - Disse aos colaboradores, a quem a sra. Delouvrier tinha avisado do retorno dele. - Sentem-se... Como j sabem, o general Massu foi destitudo do cargo, foi substitudo pelo general Crpin. Nem o Primeiro Ministro, nem o Ministro do Exrcito, nem o general Challe, nem eu mesmo conseguimos convencer o Chefe de Estado da gravidade da situao. Ele no quis ouvir nada. Um incidente fortuito e lamentvel, cuja explorao diante da opinio pblica criou um problema para o governo, ocasionou a partida do general Massu da Arglia. Sei o que esse grande soldado representava para vocs. Sei o que ele era para mim. Sei o que devemos a ele. Devo render-lhe homenagem por sua atuao na Arglia por trs anos, assim como pela disciplina exemplar com a qual inclinou-se diante da deciso tomada. Seguindo o exemplo dele, vocs calaro suas lamentaes. Vocs compreendem, tenho certeza, que para afirmar o poder da Frana,  preciso principalmente assegurar a autoridade do Estado. Essa autoridade, hoje, no se discute mais. O poder no recua. De acordo com o comandante em chefe, cuja demisso o general recusou, decidimos aumentar os reforos que j foram alocados em Argel e nos arredores, chamando dois regimentos da 10- DP engajados em Kabylie e o 3 regimento de praquedistas.
- No  com alegria no corao que aceito retirar essas unidades do combate, s por causa de uma pequena agitao civil e local! - Interrompeu Challe com mau humor.
- Meu general, o descontentamento est no auge, as reunies se multiplicam em todos os bairros e os atentados que aconteceram nos ltimos tempos por todo o pas levaram a populao europeia ao limite do nervosismo. Para ela, a demisso de Massu  sinal de que Paris est pronta para abandonar a Arglia. Os boatos de uma greve geral circulam e no se pode impedir a manifestao prevista. A nica questo que se coloca de agora em diante  o nmero de mortes que se deve esperar...
- Maffart, voc tem idia do que est dizendo? - Exclamou Delouvrier.
- Infelizmente, sim, senhor Delegado...
A entrada de Louise Delouvrier, seguida pelos empregados que carregavam bandejas, distraiu o ambiente. Alguns procuraram nas bebidas servidas um conforto ilusrio. Quando a sra. Delouvrier saiu, a discusso recomeou.
- Senhor delegado, neste momento acontece na Casa dos Estudantes uma reunio da Frente Francesa. Muita gente est l: perto de duas mil pessoas, segundo nossas estimativas.
Por falta de lugar, alguns no puderam entrar na sala e esto nas caladas. Susini mandou instalar alto-falantes e o dr. Jean-Claude Prez foi aclamado pela multido quando exclamou: "Afinal, a ocasio que espervamos nos foi oferecida. Atingiram Massu. Eles no se do conta das enormes conseqncias que esse fato vai ter!" O ambiente j tenso atingiu seu paroxismo quando JeanJacques Susini apoderou-se do microfone para gritar: "Ns vamos buscar Massu em Paris. O processo irreversvel est agora em andamento. Entre a Repblica e a Arglia ns escolhemos a Arglia Francesa!". Os oradores se sucedem aos gritos de "A revoluo ir de Argel a Paris!"
e "Chegou a hora de derrubar o sistema!"... Nas ruas dos arredores, as buzinas tocam marcando o ritmo de "Ar-g-lia fran-ce-sa, Ar-g-lia france-sa". Outras reunies acontecem na cidade, a do Comit dos Ex-combatentes, a dos Movimentos Nacionais. No h seno clamores hostis ao Governo, manifestaes da vontade de ir at o fim e acabar com isso.
Maffart fizera esse relatrio com uma calma que o suor no seu rosto desmentia. Um silncio consternado acolheu o fim da sua exposio.
- E o exrcito?... - Retomou Challe, hesitante.
- O general Faure voltou de Kabylie. Ele imaginava que durante a sua ausncia e a do Delegado Geral, cabia a ele assegurar a ordem. Quando soube que o general Dudognon fora nomeado para substituir o senhor, ele deixou o quartel RignofEle est nos alojamentos-Plissier.
- Voc sabe se o general Massu entrou em contato com seu estado maior? ;
- No, meu general.
- E Lagaillarde, qual  a dele?
- Ele vai de uma reunio a outra, aspirando os ares...
- Senhores, a hora  grave. - Declarou ento Paul Delouvrier. - Tavernier, voc tem algo a acrescentar?
- Eu circulei por Argel pela manh e no comeo da tarde. A populao europia est uma pilha de nervos. Quanto aos muulmanos, eles tentam passar despercebidos.
No porto, alguns no foram trabalhar e poucas mulheres so vistas nas ruas... Se o senhor me autorizar, posso ir a Plissier e pedir para ver o coronel Argoud.
- Faa como achar melhor... Tente ver tambm o coronel Gardes e arranque o que puder dele. Comigo  intil, ele no me dir nada.
Quando Tavernier partiu, o comandante em chefe e o Delegado Geral deram a seus colaboradores instrues sobre a conduta a seguir durante o sbado, dia 23.
Apesar da companhia e da conversa pitoresca de Joseph Benguigui, La comeava a achar que Franois estava demorando muito; um garom veio trazer um terceiro anisete.
Mesmo diante do avanado da hora, o restaurante Sept Merveilles no esvaziava. Assistia-se a um desfile de homens de expresso tensa. Alguns se instalavam numa mesa e continuavam a discutir fazendo muitos gestos. Outros desapareciam por trs das tapearias que separavam a sala de jantar de um outro cmodo. As vozes se alteravam.
- Aparentemente, a coisa est quente ali! - Observou Benguigui, levando uma azeitona  boca.
-  uma reunio poltica? - Perguntou La.
-  o que parece... Sim, com certeza... Voc v aquele sujeito de terno marrom, aquele de barba,  o deputado Pierre Lagaillarde. Seu tio-bisav, o deputado Baudin, foi morto em Paris, nas barricadas de 1848. Ele caiu, atingido no corao, gritando: "Eis como se morre por vinte e cinco francos!" No sei se o sobrinho-neto teria a mesma coragem... Ol, Pierrot!
- Ol, Joseph! - Respondeu o deputado. - Boa noite, senhora.
A fumaa dos cigarros subia ao longo dos troncos de buganvlias em volta dos quais a sala fora construda. Com o jardim que o rodeava, o restaurante lembrava uma giiinguette das margens do Maine; s faltava um acordeo... O dono, conhecido como "pai Csar", aproximou-se da mesa.
- Joseph, j so dez horas, a cozinha vai fechar.
- Voc tem razo. Vamos pedir, isso far com que ele chegue. Voc pode preparar uns espetos? Olhe, o que eu disse: ele chegou!
Franois veio na direo deles.
- No deveriam ter me esperado.
- O senhor come espetinhos, como seus amigos? - Perguntou o cozinheiro.
- Sim, com uma garrafa de sua reserva pessoal. - Respondeu Franois.
- Conte as novidades.
A mo de La pousou na de seu marido.
- Desculpe, querida, pelo atraso. Espero que Joseph tenha se comportado como um cavalheiro...
O barulho das conversas encobriu de uma s vez a resposta de La e o comentrio do motorista de txi. Um garom trouxe o vinho e uma poro de aperitivos sobre a qual a jovem mulher se atirou.
- Ela tem bom apetite, a sua mulher. - Constatou Benguigui, com a boca cheia.
- Estava com uma fome daquelas!
O barulho vindo da sala dos fundos era tal que eles desistiram de conversar. Tambm no entenderam o que disse o pai Csar quando trouxe o prato de espetinhos, mas a sua expresso estava carregada. Passando por entre as mesas, ele se dirigiu para as tapearias e desapareceu por trs delas. Pouco depois, todos se olhavam, surpresos pela calma repentina. O pai Csar reapareceu e foi para trs do balco.
Aps engolir a ltimo pedao de carne, Franois acendeu um cigarro.
- Eu compreendo por que havia tanto barulho. - Disse ele levantando-se.
Ele alcanou um grupo que saa da sala dos fundos.
- Quem  o sujeito que est com Lagaillarde? - Perguntou La a
Benguigui.
- Joseph Ortiz, o dono de um caf chamado Foriun.  o chefe da Frente Nacional Francesa. Ele est com uma cara de poucos amigos...
- Franois parece conhec-lo bem.
Ortiz apertava a mo do pai Csar quando percebeu a presena de
Franois.
- O que voc est fuando aqui? Como se eu j no tivesse problemas demais com aquele ali. - Acrescentou, mostrando Lagaillarde.
- Estava jantando com minha mulher e um amigo.
- Com sua mulher?  um momento excelente para ela aparecer em Argel!
- O que voc quer dizer?
- No seja idiota, voc sabe muito bem o que quero dizer.
- Sr. Jo, o que voc vai fazer amanh? Desencadear a rebelio?
- As circunstncias no so favorveis, sr. Tavernier;  o que eu disse ao "homem da pasta".
- O homem da pasta?
- Lagaillarde! Boa noite, Tavernier, vou me deitar. Cumprimente a sua senhora por mim.
Joseph Ortiz deixou o restaurante, seguido por seu grupo, e logo depois por Pierre Lagaillarde. A sala se esvaziou lentamente: a hora do toque de recolher se aproximava.
Preocupado, Franois voltou para o seu lugar e pediu um caf.
- Vamos lev-la ao hotel. - Disse ele a La.
- Voc no vai entrar comigo?
- Preciso ir ver algum.
- No pode esperar at amanh?
- Amanh ser muito tarde. Talvez agora j seja... Com um sinal, pediu a conta.
Um pouco triste e desanimada, La fechou a porta do quarto e esticou-se, completamente vestida, na cama, decidida a esperar pela volta de Franois.
Aps pedir autorizao, o oficial de guarda deixou o txi entrar no ptio da caserna Plissier.
- Espere por mim. - Disse Franois, saindo do automvel. Desalinhado, o coronel Argoud examinava um mapa de Argel, preso na parede de sua sala.
- Acabo de receber um telefonema do general Massu. Ele est furioso e afirma que o general Challe e ele foram vtimas de um compl. Est muito preocupado com as coisas que esto sendo armadas. Em nome da razo de Estado, ele me pediu para pregar a calma, mas eu temo que seja tarde demais; as unidades territoriais s esperam por um sinal de Ortiz. Com a poltica atual, vamos perder a Arglia. Sejam militares ou civis, os franceses daqui esto todos de acordo quanto a isso. A maior parte dos militares no confia mais em de Gaulle...
- Mas, da a se unirem aos ativistas...
- Alguns so favorveis...
- Voc, por exemplo?
- No disse isso... Mas, deixar cair Ortiz e a FNF  correr o risco de sacrificar o potencial que representa o instinto de conservao dos argelianos,  correr o risco de perder a Arglia. O exrcito est dividido. Esses homens so, no momento, nossa ltima...
O toque do telefone interrompeu-o. Ele foi para trs da mesa e atendeu.
- Al!
Enquanto ele falava, Franois examinou detalhadamente esse homenzinho, de roupas amassadas, de quem iria talvez depender a posio que o exrcito tomaria na rebelio.
Argoud desligou.
- Preciso ir encontrar o general Challe... Alis, o que voc veio me perguntar?
Nada, coronel. S estou aqui como observador...
A testa de Argoud se enrugou.
- Um observador deve ser neutro. No  o seu caso.
- O que voc quer dizer?
- Gardes me ps a par.
- Na verdade, acho muito difcil permanecer neutro, coronel, diante de certas coisas. O coronel Gardes, alm disso, pareceu partilhar meus sentimentos.
- Ele, pode ser, mas algumas pessoas acharam que voc se meteu em coisas que no eram da sua conta.
- Voc se refere  surra que eu levei? O coronel Argoud no respondeu.
Uma vez no ptio, os dois homens se separaram.
De p, ao lado do txi, Joseph Benguigui queimava um cigarro enquanto conversava com um sentinela. Vendo o coronel, o soldado ficou em posio de sentido.
- Descanse, meu filho, obrigado pela companhia. -Disse Benguigui com uma piscadela cmplice.
- Por nada, senhor; obrigado pelo Bastos.
O motorista se instalou atrs do volante e Franois sentou-se ao lado dele.
- No demorou muito a sua conversa. Melhor assim, porque no tenho autorizao para circular aps o toque de recolher... Voc ficou sabendo de alguma coisa?
- Parece que Massu aconselhou Argoud a manter a calma. O coronel foi agora encontrar-se com Challe... Voc me disse h pouco, a caminho daqui, que de Bab el-Oued a Belcourt os homens das UTs guardaram as armas em casa. Voc acredita que h algo planejado?
- Sim e no.
- Isso no  resposta...
- As unidades territoriais so compostas por bons pais de famlia que so mobilizados, um dia a cada vez, para montar guarda ou para misses paramilitares. As unidades foram criadas por sugesto do general Faure, ao qual Ortiz devota uma admirao sem limites. Desde o comeo do ano, um pequeno nmero deles manteve as armas consigo.
Na minha opinio, eles no so perigosos. O perigo vem das UTs de choque, criadas por iniciativa do coronel Thomazo e que efetuam um perodo de quatro dias por ms.
Elas conservam as armas, munies e apetrechos militares em casa, e esto sempre em prontido para responder ao menor chamado em menos de uma hora. So cerca de mil e duzentos homens. So todos voluntrios preparados para combater ao lado do exrcito. O capito Ronda  o chefe deles. Foi ele quem os fez aderir em grande nmero  FNF de Ortiz. Eles usam roupas de combate e boinas negras. Por seu lado, o dr. Prez recruta os dures para o OPAS, o exrcito clandestino do FNF.  fcil reconhec-los pela camisa caqui e pela braadeira tricolor cortada por uma cruz celta. H tambm um certo tenente Mamy...
- Bernard Mamy?
- Sim, acho que sim... Voc o conhece?  um cara esquisito; contam-se muitas histrias sobre ele. Ele controla os bairros de Montplaisant e Beau-Fraisier, as favelas daquele canto, onde ele colocou ordem. Os homens o respeitam e o temem. Ele anda sempre com uma Smith & Wesson na cintura. Pode ser visto sempre no Bulevar Laterrire, na interfederao das UTs, onde tambm se encontram com freqncia os coronis Gardes e Argoud, o que faz Ortiz acreditar que o exrcito est com ele.
- Voc acredita nisso?
- No. Parece que ele havia prometido a Massu avis-lo com quarenta e oito horas de antecedncia caso fosse decidido iniciar-se a ao. Massu concordara com isso.
De qualquer modo, o pacto Massu-Ortiz fez alarde e reforou a FNF, que viu seus adeptos multiplicarem-se. Com Massu fora de Argel, o principal interlocutor de Ortiz no exrcito passou a ser o chefe do 5- Gabinete, o coronel Gardes.
- E Argoud?
- Argoud tambm,  claro. Os dois coronis s pensam em salvar a Arglia Francesa e para isso pretendem se servir de Ortiz, enquanto este se serve deles para assegurar sua autoridade. Segundo o que se diz por a, Gardes fala de um Diretrio Slam-Zeller-Jouhaud que se colocaria no comando de um golpe para derrubar de Gaulle.
- Ouvi falar disso... O que voc acha?
- So apenas boatos. Mas, verdadeiros ou falsos, eles provocam agitao. Na FNF, eles esto certos da iminncia de uma revoluo.
- Voc parece estar por dentro...
-  natural, fao parte das UTs de meu bairro e ouo o que dizem no meu txi ou nos cafs.
- Voc guardou suas armas consigo?
- Sim, prefiro t-las a mo para o caso de...
No disseram mais nada at chegar ao Aletti, diante do qual se separaram.
Preocupado e ligeiramente deprimido, Franois Tavernier empurrou a porta giratria do hotel. Dois ou trs jornalistas arrastavam-se ainda pelo hall. Do Cintra vinha o barulho de vozes. Franois pensou que um usque lhe faria bem. Deixou-se cair numa poltrona, acendeu um cigarro e esticou as pernas. Deitando a cabea no encosto, fechou os olhos.
- Posso me sentar com voc?
Irritado, ele virou a cabea e abriu um olho.
- Ah,  voc!
- Voc parece muito cansado. - Observou Gilda, sentando-se perto dele.
- Quer beber alguma coisa?
- Sim, um suco de laranja.
Ele fez sinal ao baruinn que veio pegar o pedido.
- Voc deveria voltar para casa. - Aconselhou Franois, reprimindo um bocejo.
- Mais tarde, estou esperando algum... Mohamed, o engraxate, estava procurando por voc h pouco.
- Ele no se chama Mohamed, mas Bchir.
- Ah, eu no sabia, todo mundo aqui o chama de Mohamed.
- Ele disse o que queria?
- No, mas parecia que tinha chorado.
- Eu o verei amanh. Agora,  muito tarde. Boa noite, vou dormir, voc deveria fazer a mesma coisa...
No quarto, La, toda vestida, dormia a sono solto. Ele a cobriu com a colcha e ficou por um bom tempo contemplando-a com um olhar cheio de ternura e preocupao.
Depois, ele se deitou com todo o cuidado para no acord-la.

Captulo XV

O sol despertou La. Durante alguns segundos, com os olhos abertos, ela se perguntou onde estava. Um movimento ao lado dela, fez com que se lembrasse de tudo: Franois dormia ao seu lado. Uma onda de alegria e de gratido invadiu-a; eles estavam juntos de novo. Virando para ele, ela observava o rosto do homem to amado. Dormindo, os traos do rosto dele ficavam mais doces e lembravam, apesar da barba, o menino das fotografias de sua infncia. Emocionada, percebeu na cabeleira escura alguns fios de prata. H quanto tempo teriam surgido? Ela se admirava da felicidade que sentia s de olhar para ele, feliz com o desejo que crescia nela.
Delicadamente, ela se levantou, despiu-se e veio se deitar ao lado dele. Afastou o lenol que o cobria, excitada pelo corpo atltico que a idade ainda no tinha marcado. Com a ponta dos dedos ela acariciou as cicatrizes de antigos ferimentos, as novas equimoses e, depois, o falo adormecido. Ele estremeceu ao contato. A mo se fechou. Com a carcia, o membro endureceu. Os lbios de La se aproximaram, sua boca apertou a doce rigidez. Franois gemeu. La montou sobre ele, esfregou seu sexo mido sobre a carne tensa que ela fez escorregar para dentro de si. Ela manteve ali a sua presa, ficou imvel por uns instantes, saboreando o prazer de senti-lo bem no fundo de seu corpo. Ela adorava cavalg-lo assim, antes que ele acordasse. Com pequenos golpes, seus msculos apertavam o pnis endurecido. Um gemido escapou tambm de seus lbios, duas mos pegaram sua cintura e obrigaram-na a se alongar, agarrando seus seios enquanto os lbios procuravam os seus...
Quando eles se separaram, ofegantes, felizes, o suor ensopava seus corpos. Ficaram um bom tempo sem se mexer, com os olhos fechados, ouvindo apenas a batida de seus coraes. Nesse tremendo bem-estar, uma ltima onda de prazer os fez estremecer. Na mesma hora, viraram a cabea um para o outro e se olharam, emocionados, reconhecidos e, depois, caram numa risada feliz.
Eles acabaram de tomar um copioso caf da manh quando o telefone tocou; era Paul Delouvrier.
- Voc se encontrou com o coronel Argoud, ontem  noite, mas voc viu o coronel Gardes?
- No, quais so as novidades?
- A manifestao est mantida, e ningum sabe por quem... De todos os lados chegam ordens contraditrias. Desde as seis da manh, as UTs armadas percorrem as ruas e obrigam os comerciantes a fechar as lojas: "Greve geral", eles dizem. Segundo os relatrios da polcia, Ortiz no tem nada com isso e seriam as prprias UTs que teriam organizado esta greve, servindo-se da Frente Nacional Francesa como escudo. Algumas pessoas acham que elas estariam obedecendo s ordens do comandante Sapin-Lignires e outras, s do coronel Gardes... Quanto a este ltimo, voc acha que seria possvel?
- E o senhor?
- H uns quinze dias ele foi deslocado em razo de suas atividades aventureiras, para dizer o mnimo. O servio de ao psicolgica deve ser reorganizado e o coronel
Gardes vai substituir Bigeard em Sada. Mas, at agora, ele no chegou ao local. Sempre de acordo com os relatos policiais, ele se encontraria no momento numa vila de El-Biar, em companhia do general Faure, do chefe do estado maior de Massu, coronel Argoud, do capito Filippi e de nosso amigo Ortiz.  preciso que voc o encontre e pea que ele v o mais rpido possvel ao Governo Geral.
- O senhor acha que ele me ouvir?
- No tenho idia...
- Por que o senhor no manda prender toda essa gente boa?
- O general Challe e eu mesmo pensamos nisso. Mas seria desencadear imediatamente a rebelio, talvez at a insurreio do exrcito... Duvido que o apelo pela paz que lancei esta manh pela rdio de Argel tenha sido ouvido pela populao europia... Muito menos o que o general Challe dirigiu aos militares. Tambm no estou certo de que o anncio oficial da execuo, amanh, de quatro terroristas da FLN seja capaz de debelar a revolta...
- Tambm duvido... Isso no o choca, essa retomada de execues, neste momento?
-  o que queriam os ps-pretos e o que o Chefe de Estado aceitou. Os argelianos falavam de invadir a priso e executarem eles mesmos os prisioneiros...
- Ceder  presso popular no  nunca uma boa coisa.
- De qualquer modo, encontre Gardes e descubra quais so as intenes dele.
Sem responder, Franois desligou.
- Voc est com uma cara! - Observou La, aproximando-se.
- Eles me enojam!
- O que est acontecendo?
- Vo jogar quatro cabeas defellaghas como pasto para o populacho, na esperana de cont-los.  nojento!
- Acalme-se, ns estvamos to bem...
Franois olhou-a: no era capaz de entend-la, ela o surpreendia sempre. Estavam  beira de uma revoluo e ela no encontrava nada melhor para dizer do que: "Estvamos to bem!" Ele deu um pequeno sorriso.
- O que h? Ande, eu conheo voc, quando voc ri assim  porque acha que eu disse uma besteira.
- Sim. - Confessou ele, desta vez com uma risada franca e sonora. La encolheu-se nos braos dele.
"No entanto,  verdade que ns estvamos bem", pensou ele, apertando-a nos braos.
- Eu preciso sair. Voc fica me esperando aqui, quietinha.
- Eu gostaria de ir dar uma volta...
- De jeito nenhum! Voc no sai daqui at eu voltar. Se eu no chegar para o almoo, v at o restaurante do hotel, ou melhor, pea para trazerem o almoo no quarto.
- Que saco! Olhe que dia lindo!
- Ou voc obedece ou tranco a porta! Ela voltou a se deitar, fechando a cara.
Quando Franois Tavernier atravessou o hall, Bchir fez sinal que queria falar com ele. Franois sentou-se numa das cadeiras em frente ao engraxate que, automaticamente, levantou a barra das calas e pegou uma escova.
- Malika deve sair hoje do hospital.
- Eu achei que o dr. Duforget queria que ela ficasse um pouco mais.
- Ele queria, mas ontem, quando fui visit-la, ele me disse que achava que ela no estava mais em segurana no hospital.
- Ele disse por qu?
- Por causa da manifestao: ele teme que o exrcito ocupe os prdios pblicos...
"Pronto, comeou", pensou Franois, esgotado.
- O doutor sugeriu que voc podia ir peg-la de txi... - Continuou Bchir, enquanto fazia o seu trabalho.
- Para lev-la aonde? Para a sua casa? O garoto balanou a cabea tristemente.
- No, voc sabe, meu pai no quer... Falei com Al-Al em, ele tem um esconderijo, dentro da Casbah, que os homens de Massu nunca encontraram.
- Mas ela ficaria muito mal instalada.
-  verdade, mas no tenho outra alternativa...
- Deixe-me pensar... Quando devemos ir busc-la?
- Agora.
- Agora?... Essa no!... Bom, espere.
De uma das cabines telefnicas do hall, Franois Tavernier ligou para JosephBenguigui; foi a mulher dele que atendeu: Benguigui tinha sado de manh, bem cedo, deixando o txi em casa. Como Franois insistiu, a esposa de Benguigui disse para ele tentar na Novelty, uma cervejaria da
Praa Isly.
Quando desligou, Franois disse a Bchir que ia atrs do motorista e mandou-o juntar-se  irm no Hospital Maillot.
No Bulevar Bugeaud, os carros circulavam buzinando as seis notas de "Ar-g-lia fran-ce-sa". Os cafs normalmente cheios nessa hora, estavam fechados e, na frente das lojas, as portas metlicas estavam abaixadas. As UTs, empunhando suas armas, convergiam para o Foram, cumprimentando os transeuntes. Devolvendo o cumprimento, os pedestres gritavam "Viva Massu!" ou "Abaixo de Gaulle!"... Os muulmanos tinham sumido. Por outro lado, as bancas de jornais eram pilhadas e rasgavam o Eclio d'Alger, em cuja primeira pgina se lia, em letras capitais, embaixo de uma foto de Massu: "O general Massu, retirado de seu comando, no voltar a Argel". Perto dessa manchete, o jornal anunciava ainda que quinhentos mineiros se encontravam presos numa galeria da frica do Sul e que as autoridades no tinham nenhuma esperana de salv-los; todo mundo em Argel estava pouco ligando para isso nesse final de manh de um dia ensolarado...
No estava calor, mas o cu era de um azul magnfico: no ar flutuava como que uma expectativa.
Diante do Novelty, os membros de uma pequena tropa composta de civis e de UT, fardados e com armas, bebiam anisetes enquanto conversavam, tranqilos. As vozes se calaram quando perceberam aquele frangciou que vinha na direo deles, muito seguro de si.
- Bom dia, senhores. Estou procurando JosephBenguigui, me disseram que ele deveria estar aqui...
- O que voc quer com ele? - Perguntou um homem que parecia Raimu.
- Deixe, Mareei.  um amigo. - Tranqilizou-o Benguigui, saindo da cervejaria.
- Eh, Joseph, voc tem uns amigos estranhos!
As conversas recomearam enquanto o motorista de txi levava Franois pelo brao.
- O que voc veio fazer aqui?
- Estava procurando voc. E voc, o que est fazendo com essa gente?
- "Essa gente" tambm so meus amigos... Tenho a curiosa impresso de que alguma coisa no muito catlica est sendo tramada:  uma baguna, recebemos ordens contraditrias...
No estou sempre de acordo com as pessoas do meu bairro, mas se a greve e a manifestao pudessem fazer de Gaulle rever sua autodeterminao...
- No conte com isso. Preciso buscar Malika no hospital; o dr. Duforget acha que ela no est mais segura l.
- No estou com o meu txi.
- Eu sei, mas voc no poderia pedir emprestado o carro de um de seus companheiros enquanto eu no consigo alugar um?
- Eu posso, mas no  o momento... E, depois, uma vez fora do hospital o que voc vai fazer com ela?... No olhe para mim desse jeito: no posso abrig-la na minha casa! Imagine a cara da minha mulher se eu levasse outra mulher para casa... Por que voc no pede  sua para recebla?
- Eu pensei nisso, mas como faz-la entrar no hotel?
- No sei. Por enquanto, v me esperar na Rua Tanger, vou encontrlo l em dez minutos.
Na Rua da Lyre, geralmente to movimentada, os raros transeuntes apressaram o passo e a maior parte das lojas estava de portas fechadas. Fazendo um barulho horrvel de ferragens, a caminhonete dirigida por Benguigui soltava uma fumaa negra. Em todo caso ela os levou at Bab el-Oued onde os garotos brincavam de pega-pega na rua enquanto, das sacadas> as mes chamavam por eles.
- As pessoas parecem calmas. - Notou Franois.
- O tempo est bom, algumas vo at fazer piquenique na praia ou nos parques...
Pouco antes de chegar ao hospital Maillot, foram obrigados a parar, na altura da rua Riego, onde os pra-quedistas controlavam os veculos. Aps a verificao, a caminhonete pde prosseguir. Na Rua Champagne, um grande nmero de caminhes militares estavam estacionados ao longo do muro do hospital.
No departamento de dr. Duforget, Franois encontrou Bchir; um enfermeiro muulmano lhe fazia companhia.
- O doutor j vem. - Preveniu ele, deixando o cmodo. Ficando sozinhos, o francs e o jovem argeliano calaram-se, perdidos em pensamentos. Franois acendeu um cigarro. Uns dez minutos depois, o mdico entrou.
- Obrigado por ter vindo. - Disse ele seriamente.
- O que h?
O dr. Duforget puxou Franois de lado e falou em voz baixa.
- Ontem, um legionrio alemo  paisana tentou entrar no quarto de Malika. Foi surpreendido por um enfermeiro, um grandalho, que deu logo o alarme. Na sua fuga precipitada, o legionrio arrebentou-se caindo da escada. Ficamos sabendo quem ele era,  noite, pelo comandante que veio busc-lo.
- Que explicaes eles deram?
- Nenhuma: segredo militar!
- Do que eles tm medo?
- Sem dvida de que ela testemunhe sobre o que sofreu.
- Ela faria isso?
- Ainda no, mas estou encorajando-a a fazer. Ainda tenho na memria os sofrimentos que infligiram a Djamila Bouhired. Um dia, esses porcos ainda vo ser levados  justia e pagaro por seus crimes!
- Voc tem razo, mas  um pouco prematuro... Tem idia de algum lugar para onde eu possa lev-la?
- No, e, alm disso,  melhor que eu no saiba. Estou sendo vigiado ao mesmo tempo pelo exrcito e pelos ativistas. Se os amiguinhos do legionrio me interrogarem, no tenho certeza se conseguirei ficar calado:  por isso que tenho sempre comigo uma cpsula de cianureto... Voc me acha fraco, no ?
- No diga bobagens; ningum pode saber como reagir  tortura. No  uma questo de coragem; j vi homens se entregarem no primeiro interrogatrio e outros morrerem, aps muitas semanas de martrio, sem ter falado.
A porta se abriu e Malika entrou, amparada por um enfermeiro muulmano de impressionante estatura.
- Este  o enfermeiro que surpreendeu o alemo. Como voc pode ver,  um touro... Ele vai acompanh-los. Seu nome  Yacef e eu desconfio que ele pertence  FLN.
- Disse rapidamente o mdico.
Bchir aproximou-se da irm cujo pobre rosto, ainda inchado, clareou-se com um sorriso. Ele pegou a mo dela e levou-a aos lbios, tremendo dos ps  cabea. Tinham vestido a garota com uma espcie de pijama escuro e com um manto cinza escuro por cima.
- Uma caminhonete nos aguarda no ptio. Ser que conseguimos tir-la daqui sem que ningum perceba? - Perguntou Franois.
- J fiz o que era preciso. - Respondeu Yacef.
- Muito bem. - Disse o mdico. - Sigam-no. Olhe, aqui esto a penicilina, as seringas e os remdios necessrios. Ela tem que tomar duas injees por dia. Se ela piorar, mas s se vocs considerarem o estado dela preocupante, liguem para mim, eu irei ou mandarei um colega. Boa sorte!
Diante da porta da sala havia uma cadeira de rodas na qual o enfermeiro fez Malika se sentar. Ele puxou o capuz do manto para cima, cobrindo-lhe o rosto, e empurrou a cadeira. Franois e Bchir foram atrs. Pelos corredores, eles cruzaram com alguns doentes e com os funcionrios do hospital; ningum prestou ateno neles.
No ptio, Benguigui esperava no volante da caminhonete. Yacef pegou Malika e sentou-se com ela no banco de trs. A um sinal de Franois, Bchir sentou-se ao lado dele, no banco da frente. Lentamente, Benguigui saiu. Assim que saram do hospital ele perguntou:
- Aonde vamos?
- Para o Aletti.
- Voc est maluco! Est cheio de policiais e de alcagetas.
- Ns vamos entrar pelo caminho de Bchir.
- Eu estou com a chave. - Acrescentou o garoto. - Para entrar, no  difcil;  no seu andar que  preciso tomar cuidado.
- Vamos deixar vocs trs na entrada de servio. Depois, eu e Joseph entramos pela porta principal.
- O que eu fao com a caminhonete?
-  preciso abandon-la.
- O qu? E o que eu vou dizer ao proprietrio?
- Diga que os guardas a requisitaram.
- Ah, bom! Como eu sou babaca de no ter pensado nisso! - Exclamou Benguigui, com um tom de ironia.
- No se preocupe, se no encontrarmos mais a caminhonete, eu indenizo o seu amigo.
Era hora do almoo e o trnsito estava lento. Havia veculos militares estacionados diante da Prefeitura e da Chefatura de Polcia. Benguigui parou diante da sada de emergncia da Rua Waisse. Franois desceu e olhou em volta.
- V. - Ordenou a Bchir. - Eu o encontro perto do aparelho de aquecimento central em vinte minutos.
O rapaz saltou e foi abrir a porta. A um gesto de Tavernier, Yacef desceu por sua vez, carregando Malika, e enfiou-se para dentro do hotel. Bchir fechou a porta.
- No podemos deixar a caminhonete aqui, seria suspeito. Vou estacion-la na rua Arago... esperando que um guarda no nos faa circular. - Declarou Benguigui. V para o hotel, eu encontro voc l.
- Certo, eu espero no Cintra.
Menos de um quarto de horas depois, o motorista sentou-se ao lado de Franois e, com o fuzil no ombro, coisa que no parecia surpreender ningum, pediu um anisete.
Assim que esvaziou o copo, Franois arrastou-o para o elevador.
-  preciso avisar La. - Disse ele, quando saram do elevador.
A porta do quarto estava completamente aberta e duas camareiras acabavam a limpeza.
- La!
- A senhora saiu. - Disse uma das empregadas. :
- Ah... est bem. J terminaram?... Ento, dem licena, por favor. Assim que elas saram, ele fechou a porta.
- Aonde ela pode ter ido? - Perguntou ele em voz alta.
- Ela no deve estar muito longe. - Assegurou Benguigui. -  bonzinho este lugar. - Acrescentou ele, examinando o quarto.
- Fique aqui, eu no tenho a chave: vou procur-la. Fique de olho e assobie se houver gente no corredor.
- Ok, chefe!
No subsolo, perto do aquecedor central, estava um calor insuportvel. Bchir, Malika e Yacef estavam encolhidos num canto escuro.
- Malika desmaiou. - Cochichou Bchir a Franois que acabara de juntar-se a eles.
-  o calor. - Murmurou Yacef. - No se preocupe.
- O elevador de carga est ali, ele pra no seu andar, na escada de servio. - Mostrou Bchir.
O enfermeiro estava pegando Malika no colo quando um rudo de vozes os paralisou. Dois europeus dirigiram-se a umas caixas de madeira situadas a poucos passos deles.
Com um p-de-cabra, um dos recm chegados tirou a tampa de uma das caixas.
- Eles cumpriram a palavra: o que tem aqui d para explodir a cidade toda. No podemos ficar aqui. L em cima, eles vo perceber nossa ausncia. - Disse ele para o companheiro.
Fecharam a caixa e deixaram no subsolo.
- Vamos,  agora. - Decidiu Franois, saindo do esconderijo. Entraram no elevador de carga que subiu lentamente. Bchir tremia de impacincia.
Quando o elevador parou, Franois saiu em primeiro lugar, entreabriu a porta que dava para o corredor dos quartos: ningum, e Benguigui no estava assobiando. Ele empurrou a porta e fez sinal para que os outros o seguissem.
No quarto, esticada na cama e sem o manto, Malika voltou a si aos poucos. Os trs homens se viraram quando o enfermeiro aplicou-lhe a injeo.
- Agora, ela precisa descansar. Vou embora, mas voltarei esta noite, se tudo estiver bem, para lhe aplicar a outra injeo. Se ela acordar, dlhe algo para beber e para comer, se ela tiver fome; ela no come nada h quatro dias... No se esqueam: por enquanto,  preciso que algum fique sempre com ela.
- Eu cuidarei dela. - Decidiu Bchir.
- Muito bem, garoto.
Yacef plantou-se na frente de Franois e do p-preto, dominando-os com a sua altura.
- Pena que os roinnis no sejam todos como vocs. - Disse, antes de sair do quarto.
Bchir sentou-se na cama, ao lado da irm. Dos olhos fechados de Malika escapavam pesadas lgrimas. O irmo soluou e murmurou entre os dentes:
- Vou mat-los!
O telefone tocou, assustando-os. Franois atendeu: era La.
- Estou no Hall. - Anunciou ela.
- Espere, j deso.
Ele desligou e dirigiu-se a Bchir:
- Vou colocar o aviso de "No perturbe". No abra para ningum. Quando voltar, vou bater duas vezes, depois trs... Voc est com fome?
"No", respondeu balanando a cabea.
- De qualquer modo, vou trazer alguma coisa mais tarde... No se esquea: no abra para ningum e passe o trinco. Voc tem certeza de que pode ficar sozinho?
- Sim, obrigado... Obrigado aos dois!
Sentada numa das poltronas do hall, La, vestida com um tailietir de um verde primaveril e calada com escarpins vermelhos, conversava com trs jornalistas.
- Ah, este  meu marido. - Disse ela, levantando-se. -  a ele que vocs devem fazer as perguntas... Bom dia, Benguigui.
- Bom dia.
- Fui dar uma volta, esta cidade  magnfica...
- Ela , senhora. - Confirmou Joseph Benguigui. - Franois, voc ainda precisa de mim?
- No, Joseph, obrigado. Ligue para mim hoje  noite, se quiser. Querida, voc j almoou?
- No, estava esperando voc. Aonde vamos?
- Sr. Tavernier, por favor...
- Vamos ficar aqui, o restaurante do hotel  razovel.
- Sr. Tavernier, pode nos dizer alguma coisa sobre a situao?
- Que "situao"? Estou de frias...
- Mas... Sr. Tavernier, o general de Gaulle...
- No insistam, no tenho nada a dizer.
- O que voc acha do caso Massu?
- Por favor, senhores, minha mulher e eu estamos morrendo de fome e, como todos sabem, saco vazio no pra em p...
Ignorando o elevador, eles subiram a p para o primeiro andar onde ficava o restaurante. Devido  hora, s havia uma mesa ocupada, onde os reprteres estrangeiros afogavam o tdio no lcool. O maitre levou-os para perto das janelas de onde se via todo o porto e entregou-lhes o menu.
Como de costume, La comeu com bom apetite embora a comida fosse inspida, bebendo o vinho de
Mda. Depois de algumas garfadas, Franois empurrou o prato e acendeu um cigarro. Atravs da fumaa, ele olhava para ela, admirando-se de sentir mais uma vez, apesar dos anos, uma ternura, um desejo inalterado e esse medo persistente de perd-la.
- Por que voc est me olhando assim?
Ele sorriu sem responder. Por sua vez, ela acendeu um cigarro e fixou os olhos nele. Ficaram os dois um bom tempo a se contemplar, indiferentes s vozes que se elevavam na mesa vizinha. Uma pergunta do maitre trouxe-os de volta  realidade.
- Querem caf?
- Sim, por favor.
- O que voc fez de manh? - Perguntou La.
- Fui buscar uma jovem argeliana ferida. Ela est no nosso quarto.
- O qu?!
- Ela no tinha outro lugar para ir... Foi torturada. Consegui que ela fosse libertada e, depois, tratada, mas aqueles que a torturaram esto atrs dela, com certeza para elimin-la.
Um garom colocou as xcaras diante deles. La esperou que ele se afastasse para perguntar mais.
- Quanto tempo ela vai ficar?
- No sei... O reprter que ocupa o quarto vizinho do nosso est fora por uns dias e deixou a chave comigo...
- Por qu?
- Porque eu pedi... Os dois quartos se comunicam, mas o dele d para outro corredor. Achei que, em caso de necessidade...
- Vamos ver a sua protegida.
Bchir entreabriu a porta, depois afastou-se completamente para deix-los passar. Assustado, alerta, ele viu La.
- No se preocupe,  minha mulher... La, apresento-lhe Bchir, o irmo de Malika. Como ela est?
- Est dormindo, mas geme durante o sono.
Os trs se inclinaram  sua cabeceira. Ela abriu os olhos de repente e levantou-se gritando:
- No! No! Me deixem!
Bchir tomou-a nos braos.
- Malika, sou eu...
Louca de pavor, ela se debatia. La segurou as mos quentes da garota e comeou a falar gentilmente com ela. Quando ela se acalmou, Bchir f-la deitar-se e afastou-se para esconder as lgrimas. Franois, por sua vez, abriu a porta dupla que dava para o quarto contguo; tinha cheiro de mofo. Passou o trinco na porta de entrada e voltou para o seu quarto.
- Vamos instalar Malika ao lado, ela estar mais segura ali. - Anunciou ao jovem argeliano.
- Posso ficar com ela?
-  lgico!
- Voc acha que eu poderia ir dizer  minha me que est tudo bem?
- Sim, mas cuidado com as UTs!
Bchir agarrou a mo de Franois e levou-a  testa.
- Deus lhe abenoe. - Agradeceu em rabe.
Ele deixou o quarto com o corao cheio de gratido.
Franois pegou a garota e levou-a para o outro cmodo.
- Tenha cuidado. - Recomendou La, abrindo a cama. - Agora, deixe-nos.
- Vou ao CC. Voc, no saia daqui.
Ficando sozinha com a menina, La preparou um banho e comeou a despi-la. Malika protestou, saindo aos poucos de seu torpor.
- No se incomode, eu sou mulher...
Cansada demais, a garota abandonou toda a resistncia.
- Meu Deus! - Exclamou La.
Os seios ornados de arabescos pontilhados, desenhados sem dvida com a brasa de um cigarro. Os sinais dos golpes marcavam a carne macia do ventre e das coxas.
La ajudou-a a se levantar. Com as mos, Malika escondia o sexo. Com pequenos passos, caminharam at a banheira. Sustentada por aquela mulher que ela no conhecia, Malika escorregou para dentro da gua quente, gemendo.
Mais tarde, com mais confiana, a garota contou, chorando, as sevcias sofridas na Vila Sesini e falou daquele torturador que a xingava em espanhol, queimando seu corpo com o cigarro, a msica ao fundo para abafar seus gritos. Com o rosto escondido nas mos, ela contou como foi violentada, das suas splicas, de como o carrasco se divertiu com o espetculo de sua carne deflorada, encorajando os companheiros a fazer o mesmo, um depois do outro. "Vo, caras, eu j abri o caminho: ela  boa, essa vagabunda!" Um atrs do outro, eles se atiraram sobre ela, at que ela perdeu a conscincia. Depois tudo ficou confuso. Ser que ela soltou informaes? Ela ignorava. De qualquer modo, no sabia muita coisa.
As palavras de Malika fizeram ressurgir em La terrveis lembranas. Com gestos e palavras carinhosas ela tentou acalmar a coitada que, exausta, acabou por dormir, retomada pelo cansao e pela dor.
Eram dezessete horas quando Franois chegou  caserna Plissier, onde pediu para ser recebido pelo coronel Argoud. Assim que entrou na sala, o coronel perguntou com um tom arrogante:
- O que voc ainda quer de mim?
Ele se espantou de novo com o aspecto frgil e a pequena estatura do coronel, que parecia flutuar dentro de roupas muito grandes para ele.
- Venho saber das novidades... - Respondeu Tavernier com uma ironia que atingiu imediatamente o oficial.
- Voc vem saber das novidades! ... Voc tem culhes! Voc, o homem de de Gaulle!... Ele tem feito umas boas, alis, o seu chefe: o general Massu me ligou l pelas trs horas, ligou da casa do cunhado, perturbado com a entrevista dele com o Velho. Sabe como este o recebeu?... "Eh, bem, Massu, eu quero manter voc, peo para no deixar o exrcito. Vou lhe dar um bom posto... " Voc imagina o efeito que isso teve nele, o vencedor da batalha de Argel, aquele que se dizia o fiel mosqueteiro de de Caulle? Ele constatou com amargura que o chefe de Estado no compreende nada do problema argeliano. Foram as palavras dele!
- Ele lhe deu instrues quanto  conduta a manter em caso de insurreio?
O coronel Argoud mediu seu interlocutor com o olhar.
- Eu lembro que  o general Crpin que, de agora em diante, comanda o exrcito de Argel, e que  ele que me d ordens agora.
- Eu o cumprimento por isso.
- O general Massu considera que  no local que se pode julgar que conduta adotar.
- Em suma, ele lhe deu carta branca.
Vendo que os maxilares do coronel se cerravam, Tavernier compreendeu que havia acertado na mosca. At que ponto Argoud estaria implicado com os ativistas? Como se respondesse a seus pensamentos, o coronel retomou o tom de confiana:
- Obtive de Ortiz a promessa de que se limitar, amanh, a uma demonstrao pacfica, com bandeiras levantadas e sem armas.
- Meus cumprimentos. E, em troca, o que voc prometeu?
Novamente, o antigo Chefe do Estado-Maior de Massu acusou o golpe, O toque do telefone dispensou-o de responder.
- Al!
Quando desligou, seu rosto tenso estava vermelho. Como se falasse sozinho, murmurou:
- Lagaillarde mandou levar viaturas carregadas de armas para dentro da faculdade. O que isso significa?
- Talvez ele esteja organizando sua prpria revoluo.
-  loucura! Ele no tem trinta homens com ele. - Afirmou com um tom seco.
- Voc sabe muito bem que no  o nmero que importa... A impresso que tenho  que est a maior confuso, tanto do lado do exrcito e do Governo Geral como do lado dos manifestantes... O que  feito daquele comit de oficiais revolucionrios com sede em Mustapha e que planejam uma ao contra o general de Gaulle quando ele for aos Estados Unidos? O general Faure est a par disso?
- Pergunte a ele!
- Vou perguntar... De fato, voc teria ouvido falar de um compl de tecnocratas, formado nos grupos de trabalho da OTAN e que estariam tambm esperando a viagem do Chefe de Estado, no ms de abril, para agir?
- Contra de Gaulle, o que no faltam no momento so compls, tanto em Argel como na metrpole: os franco-maons, os comunistas, os ativistas... Meu companheiro Gardes pode confirmar isso.
- Gardes... Sim, certamente.
- Desculpe-me, preciso ir ao GG. Quer que o deixe em algum lugar?
- Com prazer.
Franois reteve um sorriso quando o coronel colocou seu quepe, muito grande para ele: ele s no caa sobre os olhos graas s orelhas.
Na Rua Bab-el-Oued, pequenos grupos de jovens conversavam animadamente. Na Praa do Governo, os pra-quedistas passavam cantadas nas jovens, enquanto na Rua Bab-Azoun, alguns homens das unidades territoriais pareciam voltar para casa. Na frente do Aletti, um pequeno grupo de jornalistas precipitou-se para o jipe que parava.
- Coronel, a manifestao de amanh foi proibida?
- Coronel, o senhor tem notcias do general Massu?
- Coronel...
- Desa, Tavernier. Eu o deixo com esses selvagens.
Assim que ele ps o p no cho, o jipe arrancou  toda. Um fotgrafo mal teve tempo de sair da frente.
- Assassino! - Gritou ele, agarrando sua mquina fotogrfica.
Franois subiu os degraus empurrando os jornalistas que haviam cado sobre ele.
- Seja legal, responda!... S estamos fazendo nosso trabalho!...
No uni!, o advogado Jean-Baptiste Biaggi conversava com um deputado argeliano. Junto aos elevadores, duas prostitutas ofereciam seus servios.
Sem fazer rudo algum, Franois entrou no quarto, depois naquele onde haviam acomodado a jovem argeliana. Por um momento, ficou na porta contemplando as duas mulheres que dormiam, a cabea de
Malika repousando no ombro de La. Delicadamente ele fechou a porta.
Num papel de carta com o smbolo do hotel, ele rabiscou algumas palavras e saiu de novo.
Franois Tavernier atravessou a Rua Alfred-Lelluch, subiu a escada que leva ao Bulevar Bugeaud e dirigiu-se para o Bulevar Laferrire. No meio da Rua Charles-Pguy, cruzou com o tenente Many que lhe dirigiu um cumprimento cheio de ironia. No terrao do Otomatic, alguns jovens conversavam bebendo cerveja. Sentados nos degraus da universidade, os estudantes pareciam estar montando guarda. Perto do tnel das faculdades, os pra-quedistas andavam para l e para c fumando; outros esperavam nos caminhes, enquanto outros ainda, encostados nos pra-choques dos veculos, trocavam algumas palavras com quem passava. Alguns aplausos explodiram. A multido das noites de sbado no se apressava na Rua Michelet, onde a maioria das lojas continuava fechada: na "Champs-lyses" de Argel, pesava aquela atmosfera aborrecida dos domingos que os prdios no estilo de Haussman acusavam. O sol se punha por trs das colinas e a sombra invadia pouco a pouco as ruas, trazendo com ela uma sensao de frio.
Um grupo de rapazes desceu a rua correndo, empunhando bandeiras e gritando: "Arglia francesa!"
Franois deu meia-volta e seguiu-os de longe. Na Praa Lyautey, dezenas de outros jovens desembocavam do tnel das faculdades gritando slogans hostis ao general de Gaulle. Por cima deles, suspensa na balaustrada da universidade, flutuava a bandeira francesa.
- Abaixo de Gaulie!... Massu no poder!...
Recm-chegados juntaram-se a eles e comearam a desengatar as hastes dos trlebus da Rua CharlesPguy. Alguns, munidos de latas de tinta, traavam cruzes celtas nos muros vizinhos; deviam ser algumas centenas. Entre eles, Franois percebeu um argelino um pouco mais velho que parecia guiar os manifestantes. De repente, ele descobriu Pierre Lagaillarde, sado no se sabe de onde, indo na direo de um homem. Por um momento, os dois personagens se enfrentaram, acompanhando a discusso com gestos largos. Subitamente, a mo do deputado levantou-se e se abateu sobre o rosto de seu interlocutor.
Lagaillarde virou- lhe as costas em seguida para se juntar aos carregadores de tinta. Um pequeno grupo que tentava subir para o Foruin foi empurrado de volta pelas CRS, depois tentou atravessar o Bulevar
Laferrire: l tambm, lhe proibiram a passagem.
- Morte para de Gaulle! Moscou para de Gaulle!... - Gritavam os manifestantes.
Diante do prdio da Companhia Argeliana de Crdito, onde ficava a sede da Federao das Unidades
Territoriais, os territoriais, de fuzil nas costas, rodeavam Joseph Ortiz e o comandante Sapin-Lignires, presidente da Federao. O dono do Portou falava levantando o queixo:
- Aqui esto, senhores, as instrues que eu tenho para lhes dar como responsvel civil. Elas receberam a aprovao do general Faure, dos coronis Argoud e Gardes. Mobilizao geral das unidades territoriais, ordem de convocao individual, em traje habitual e com armas. Os pontos de reunio sero determinados pelo comandante Sapin-Lignires e pelo capito Ronda... Sr. Tavernier, o senhor est aqui como observador?
Ortiz vinha na direo dele, com um sorriso muito caloroso nos lbios; no havia como evit-lo!
- Fui pego pela manifestao dos estudantes, estava tentando voltar para o hotel... No  nada fcil, com toda essa demonstrao de foras!
- No  prudente ficar passeando por estes lugares: um de meus homens vai acompanh-lo...
- No  necessrio, eu conheo o caminho.
Os olhinhos escuros do sr. Jo no tinham nada de amigvel.
Franois desceu primeiro at a Praa do Plateau des Glires. No Bulevar Baudin, os guardas tentavam impedir os jovens de ir para a Grande Poste, onde algum j agitava uma bandeira tricolor. A noite caa.
Com grandes passadas, Franois andava agora sob as arcadas do Bulevar Carnot, preocupado: Faure,
Argoud e Gardes estariam sendo manipulados pelo chefe da Frente Nacional Francesa? Na altura da delegacia, os guardas pediram-lhe os documentos.
O Cintra estava com o movimento dos bons tempos. No bar, correspondentes de imprensa vindos do mundo todo, para dar impresso de que estavam por dentro dos acontecimentos dos quais eles no sabiam nada, trocavam informaes que eles sabiam serem falsas.
Apoiado no balco de carvalho, Paul Ribeaud, irmo de Guy, com o qual Franois Tavernier participara das manifestaes de maio de 58, reprter do Paris-Matiz, estava numa conversa animada com um advogado argeliano, secretrio do partido de Joseph Ortiz. Mestre Jacques Laquire, conhecido por pertencer ao grupo dos mais extremistas entre os radicais, disfarava seu olhar por trs dos culos escuros. Perto dele, um homem atarracado: um blazer azul marinho e uma camisa branca se abriam no pescoo largo, to curto quanto seu corpo. Franois teve muita dificuldade para chegar ao balco, atrs do qual os dois barmen no paravam.
- Um usque duplo. - Pediu ele.
Tirou um mao de cigarros do bolso.
- Voc tem fogo? - Perguntou a seu vizinho.
- Boa noite, Tavernier. No sabia que voc estava em Argel. - Disse o reprter, oferecendo a chama de seu isqueiro.
- Obrigado... Eu tambm no sabia que voc estava aqui.
- No por muito tempo: vou para o Saara.
- Ah! Por causa da bomba...
- No se pode esconder nada de voc! Mas voc?...
- Eu me informo.
- A pesca  boa? - Perguntou o advogado.
- Interessante, senhor...?
- Desculpe-me. - Disse Ribeaud. - Apresento-lhe meu amigo, mestre Jacques Laquire... Jacques, este 
Franois Tavernier, que , digamos, muito querido pelo general de Gaulle. Ele estava com meu irmo e
Delbecque junto de Salan em 1958. E aqui est Jean Brune, o diretor adjunto da Dpcl;e Quotidietine.
Os trs homens apertaram-se as mos. Franois pegou o copo que o garom havia colocado diante dele.
Laquire examinou-o.
- A sua sade! - Disse ele levantando o copo e engolindo de uma vez.
- Voc faz parte daqueles que trouxeram o general de Gaulle de volta ao poder? Parabns! V-se hoje o resultado... - Declarou, amargo, o advogado.
- Tenha pacincia, isso est apenas comeando.
- O que voc quer dizer?
- Eu no gosto do que est se preparando. Explora-se a inquietao dos franceses da Arglia para incitlos a participar das manifestaes de oposio ao governo, fazendo-os acreditar que o exrcito est com eles.
- E est! - Empolgou-se Laquire.
- No tenho tanta certeza.
- Ento, os franceses da Arglia lutaro sozinhos para conservar esta terra para a Frana!
Jean Brune, que no havia pronunciado nem uma palavra, virou-se para Franois Tavernier.
- A guerra da Arglia  uma tragdia calcada num esboo dos tempos gregos. No falta nada, nem os heris que se sucedem, nem os delrios, s vezes desmesurados, dos grandes papis, nem as matanas, nem a voz pattica do coro exprimindo splicas ou antemas; nem, sobretudo, a fatalidade que pesa sobre os homens e as multides e submete-se aos caprichos de uma fora incoerente, mas irresistvel. E, no auge do drama, quando a ao armada no incio parece prestes a se resolver num final feliz, acontece um desses golpes de teatro que, colocando tudo em questo, lana o heri novamente na gehena das sombras e constri sua infelicidade sobre a efmera vitria com a qual pensava ter selado seu destino!
Surpreso com o tom transbordante de lirismo, Franois olhou atentamente para seu interlocutor.
- Isso soa como uma previso. - Comentou ele.
Os olhos de Brune fixaram-se nos dele; havia nesse olhar uma espcie de interrogao.
- Ento, voc fazia parte daquele pequeno comando gaullista despachado para o local pelo falso eremita de
Colombey-les-Deux-Eglises...
- Completou o jornalista com um ar pensativo.
- Pode-se dizen
- Voc est satisfeito com o modo como as coisas se desenrolaram depois do 13 de maio? Voc no tem a impresso de um enorme fracasso? Os franceses da Arglia no foram consultados em nenhum momento, foram postos  margem do que constitui hoje a vida deles e representar o futuro de seus filhos. O exrcito decidiu por eles e, aos preocupados, afirmou que garantia tudo. Foi um novo juramento de Sidi-Rhalem...  curioso notar que quase todos aqueles que, na Frana, pretendem dar testemunho de amor - os cristos que acreditam ter recebido de Cristo a revelao da fraternidade e os ateus que acreditam ser os herdeiros da Revoluo - s tiveram desdm e gozaes pelas confraternizaes de maio que, por toda a Arglia, jogaram milhes de homens, uns contra os outros!
- Voc pode honestamente me afirmar que acreditou naquela pardia de confraternizao? - interrompeu-o
Franois.
Jean Brune olhou para ele com tristeza.
- Para mim, senhor, no se tratava de uma pardia. Nem para meus amigos muulmanos. E melhor pararmos por aqui, se no se importar.  um mar maior que o Mediterrneo que nos separa. A metrpole jamais se esforou para nos compreender a apressa-se a liquidar a Arglia sem nem nos consultar. Este pas, foram nossos antepassados que o fizeram e, sem eles, no haveria aqui seno um monte de pedras. Mas, de que vale lhe explicar tudo isso?... At logo, senhor...
Paul Ribeaud e Jacques Laquire despediram-se tambm e deixaram o Cintra. Sozinho, Franois lamentou no ter podido confessar que podia compreender o desespero deles, esse medo de perder a terra onde tinham nascido. Brune tinha razo: esta guerra estava se tornando uma tragdia, mas no apenas para os ps-pretos.

Captulo XVI

Com a expresso cansada, Gilda aproximou-se de Franois Tavernier.
- Quer beber alguma coisa? - Ofereceu ele.
- No, venha depressa. - Soltou ela enquanto percorria a multido com um olhar assustado.
- Mas, o que h?
- Venha, estou pedindo!
- Ponha na minha conta. - Disse ao bannaii antes de segui-la.
Usando os cotovelos, abriram caminho atravs da multido. Na frente dos elevadores, Gilda colou-se nele e cochichou no seu ouvido:
- Agora h pouco, no bar, ouvi uns homens dizerem que iam visitar o seu quarto. Eu os conheo:
pertencem a um bando que faz expedies punitivas contra os muulmanos e colocam bombas nas lojas deles...
- Obrigado.
Ignorando o elevador, Franois subiu a escada de quatro em quatro degraus. Ofegante, parou atrs da porta do corredor de seu andar e soltou a trava de segurana de sua arma. Aguou o ouvido e distinguiu vozes de mulheres, depois ouviu a porta do elevador se fechar. Somente nesse momento empurrou a porta.
De onde estava, no podia ver a entrada de seu quarto. Avanou at o canto do corredor: a uma certa distncia, um homem vigiava enquanto um outro cutucava a fechadura. Era preciso impedi-lo de abrir a porta.
- Boa noite, senhores! Esto procurando alguma coisa?
Aquele que vigiava virou-se lentamente. No mesmo instante, Franois percebeu que estava lidando com um assassino. Eles se enfrentaram com o olhar.
- Meu amigo esqueceu a chave l dentro.
- No  possvel, vocs devem ter se enganado de quarto...
De um quarto vizinho, saiu um casal.
- Tem razo. - Declarou o comparsa. - O meu  o 215... Desculpe- nos, senhor, nos enganamos de andar.
- Isso acontece... Querem que eu pea ao porteiro para mandar algum ajud-los?
- O senhor  muito amvel, no  preciso... Ns vamos l embaixo pedir outra chave.
- Como quiserem. Boa noite, senhores.
Assim que teve certeza de que haviam partido, Franois girou a chave e entrou no quarto. Acabando de acordar, La ficou de p.
- Era voc que estava mexendo na fechadura?
Ele colocou um dedo sobre os lbios dela e se dirigiu para os fundos do cmodo.
-  preciso sair daqui. - Disse ele.
- O que voc est dizendo?
- Explicarei mais tarde. Enquanto isso, prepare uma mala pequena... Como est Malika?
- Melhor: ns dormimos a tarde toda... As crianas ligaram: est tudo bem... Pediram para lhe dar um beijo.
- Eles no tm muita sorte de ter pais como ns!
Franois pegou o telefone e pediu que ligassem com o bar.
- Gilda est a?
- Sim, senhor.
- Queria falar com ela, por favor.
- Mas...
-  urgente, ande logo!
Aps alguns segundos:
- Al?
- Gilda?
- Sim.
- Aqui  Tavernier: ns acabamos de nos separar... Voc tinha razo. Obrigado. Na sua opinio, o que eles estavam procurando?
- No tenho idia... Tudo que posso dizer  que so especialistas em explosivos... J estouraram algumas lojas com explosivos plsticos.
- H muitos desse gnero?
- No, acho que no.
- Agora, preste bastante ateno ao que vou pedir: voc pode tomar um txi e me esperar na sada de emergncia do hotel, em quinze minutos?
- Sim... Acho que sim.
-  muito importante!
- Est entendido, estarei l.
La havia colocado jeans, um pulver e sapatos confortveis. Numa bolsa ela jogara seus produtos de higiene, roupas de baixo, duas ou trs roupas e os livros que trouxera de Paris.
- Vou chamar Malika!
Uma batida na porta paralisou-os. Franois fez sinal para La se afastar. Com a pistola na mo, ele perguntou:
- Quem ?
- Sou eu!
Destrancando a porta, Bchir e o enfermeiro do Hospital Maillot entraram.
Onde est Malika? - Perguntou imediatamente este ltimo.
- No quarto ao lado.
- Como ela est?
- Melhor, acho. - Respondeu La. - Ela comeu um pouco.
-  bom sinal. Vou aplicar a injeo.
Quando eles deixaram o quarto, Bchir pegou a mo de Franois e levou-a  testa.
- No  hora para isso. - Disse, tirando a mo. - Precisamos sair daqui, no estamos mais seguros.
- E Malika?
- Ela tambm no pode ficar aqui.  muito arriscado. Na casa de seus pais, no  mesmo possvel?
"No", fez Bchir com a cabea.
- Seu pai  um velho louco! A filha corre risco de vida e ele s pensa na sua pretensa honra...
- No fale assim de meu pai!
Empinado como um galinho de briga na frente de Franois, o adolescente no parecia estar brincando.
- Tudo isso  estpido!
- Como voc pode julgar essas coisas, voc, um estrangeiro?
Raiva e soluos se misturavam na voz do jovem argeliano. Franois examinou-o e fez um gesto fatalista:
- mcli Aliali...
Algo como um brilho de alegria se acendeu nos olhos do garoto.
- mcli Aliali! - Ele fez eco.
Franois lhe esfregou amigavelmente a cabea.
-  preciso que sua irm v sem falta para a Casbah: ela estar mais segura do que aqui. Al-Alem disse que poderia escond-la...
- Com certeza, mas no ser fcil escapar das patrulhas.
- Pedi a Gilda que me esperasse com um txi diante da porta de emergncia...
- Gilda?!... Voc confia numa prostituta?
- Foi ela que me avisou que dois homens tentavam entrar aqui.
- Mas ela no sabia que havia uma muulmana escondida aqui.
- Tem razo; fui idiota por no ter pensado nisso... Vou ligar para Duforget... Onde coloquei o nmero?
- 695-12 - Socorreu-o Yacef que saia do quarto onde Malika estava deitada.
- O qu?
- 695-12,  a linha direta do doutor.
Franois passou o nmero  telefonista. Uma voz de assistente respondeu.
- Al? Eu queria falar com o dr. Duforget, por favor.
- No desligue, vou passar...
- Boa noite, doutor.  Tavernier. Precisamos deixar o hotel e os txis no so seguros.
- Yacef est com vocs?
- Sim, ainda est aqui.
- Deixe-me falar com ele.
Franois passou o aparelho para o enfermeiro:
- Ele quer falar com voc...
Quando este desligou, parecia preocupado.
- Ento? - Impacientou-se Bchir.
- Ele mesmo vem.
- Isso parece no lhe agradar... - Observou Franois
- E perigoso para ele mostrar-se por aqui:  um antro de inimigos rabes.
- Ele no  rabe...
- Para essa gente, os que os ajudam so piores ainda.
Franois lembrou-se do comentrio do coronel Gardes a respeito de Duforget: "Dizem que ele presta ajuda  FLN."
- Quais so as instrues?
- Que o encontremos na entrada do Bulevar Carnot; tem menos gente daquele lado.
- E a escada de servio desemboca perto da sada. - Acrescentou Bchir. - No vai ser preciso passar pelo aquecimento central.
Bateram. Todos ficaram quietos.
-  Benguigui, abram! - Ouviram por trs da porta.
- Yacef, Bchir, vo para perto de Malika! - Ordenou Franois.
Quando estavam fechados no quarto vizinho, ele abriu. O motorista de txi entrou, seu mau humor era evidente.
- Era melhor que eu tivesse quebrado uma perna no dia em que o conheci! Felizmente encontrei Gilda: ela estava plantada na frente do hotel, afobada com a idia de no encontrar um txi. Voc devia mandar algum que chamasse menos ateno para cumprir as suas misses...
- Pare de se lamentar! Obrigado, mesmo assim, por ter subido. Uns homens tentaram entrar aqui...
- Voc os viu?
- Sim, um tipo moreno, grandalho, com ar malvado e um menor, com certeza pior ainda. Ambos usavam jaquetas de couros.
- Os irmos Mattei!
- Voc os conhece?
- Sim e no... Alguns no hesitam em contrat-los para os mais baixos servios. So informantes da polcia e, tambm, gigols: em Belcourt, duas ou trs moas trabalham para eles. Dizem que so os ases dos explosivos plsticos... O que poderiam querer no seu quarto, ou melhor, quem os ter mandado aqui?...
Voc devia voltar para o Saint-George. Aqui, qualquer um pode entrar e sair como nada... Eu tenho um primo l, na recepo:  um cara legal, poder ajudar... A menina ainda est aqui?
- Sim, ao lado; seu irmo e o enfermeiro do Hospital Maillot esto com ela. O dr. Duforget vem busc-la.
- Desse jeito, esse a no vai durar muito! Pena,  um bom homem...
- Ele ajuda mesmo a FLN?
- E o que dizem em Argel. Talvez no seja verdade, mas  o que se diz. Aqui, d na mesma.
- Voc recuperou o txi?
- No, mas a caminhonete ainda est estacionada no mesmo lugar. No seria muito prudente traz-la para perto do hotel... A garota consegue andar?
- Eu espero que sim... Ela se chama Malika.
- Bonito nome...
- Vamos descer em dois grupos: voc primeiro, com minha mulher e Bchir, depois Malika, Yacef e eu.
Franois foi abrir a porta de comunicao. A garota saiu, acompanhada por Bchir. Ela vestia um mant comprido de La. Um leno amarrado na cabea disfarava um pouco o rosto inchado, uma bolsa e sapatos elegantes faziam-na parecer uma europia.
- Sinto muito causar-lhes tanto aborrecimento. - Desculpou-se ela, sorrindo corajosamente.
- No pense nisso. Voc acha que consegue andar at o carro do dr. Duforget?
- Sim, dou um jeito.
- Benguigui, saia primeiro; ns seguiremos voc com trs minutos de intervalo. Leve minha mulher ao
Saint-George e volte aqui. Bchir, voc espera l embaixo e fica de vigia.
La abraou o marido.
- Tenha cuidado e venha logo encontrar comigo.
O primeiro grupo desceu a escada de servio sem problemas. Joseph e La saram do hotel e dirigiram-se  caminhonete, deixando Bchir esperar o dr. Duforget.
Graas a seu perfeito conhecimento das ruas de Argel, o motorista evitou os pontos de controle. Fizeram um desvio por Belcourt e pela Redoute para pegar a avenida Foureau. Na entrada dos jardins que rodeiam o Saint-George, foram parados pelo servio de segurana. Um dos empregados reconheceu Benguigui.
- Boa noite, Joseph. Mas que txi mais estranho...
- Tive que fazer uma mudana... Voc sabe se meu primo David est a?
- Sim, cruzei com ele quando vinha assumir meu posto. Vejo que voc est em boa companhia...
- Olhe o respeito!  uma amiga e ela vai descer no hotel.
Eles subiram a alameda antes de estacionar.
- Venha. - Disse Benguigui. - Eu a acompanho at o bar, voc fica esperando ali enquanto vou procurar meu primo.
Uma Aronde azul parou na esquina do Bulevar Carnot com a Rua Delcass no momento em que cinco ou seis pra-quedistas, vindo da chefatura de polcia, entravam no Hotel Aletti. No interior do estabelecimento, Bchir mal teve tempo de avisar seus companheiros que se apressavam para sair da escada de servio. Ele viu a Aronde estacionada a pouca distncia, aproximou-se e reconheceu o mdico dentro dela. Fez sinal para que ele esperasse, depois voltou para trs. Ajudada por Franois, Malika percorreu os poucos metros que a separavam do carro, mordendo os lbios para no gemer.
- Aonde vamos? - Perguntou Duforget.
- Para a Casbah - Respondeu Bchir. - No Tmulo das Duas Princesas.
- Os acessos para a Casbah no esto todos controlados?
- Perto da Rua Helipolis h uma ruazinha que no deve estar. - Corrigiu Yacef. - Um de meus primos mora numa casa que fica na esquina dessa rua. Posso levar Malika para l enquanto procuramos um esconderijo mais seguro.
O carro saiu, com os trs muulmanos sentados no banco de trs e os europeus no da frente. Na Rua
Coronel Colonna-d'Ornano, alguns homens das unidades territoriais estavam junto da Igreja SaintAugustin, enquanto outros conversavam diante da pera; eles pararam de falar para olhar a Aronde entrar no Bulevar Gambetta. No Bulevar Victoire, uns soldados de farda camuflada barravam a rampa Zouaves que vai dar na caserna de Orlans; quando passou, o dr. Duforget acenou para eles. Eles andaram mais um pouco, depois pararam na entrada da ruazinha
- O sr. Tavernier e eu vamos falar com os pra-quedistas para distrair a ateno deles. Aproveitem para descer discretamente do carro... e rezem para que eles no vejam nada!
Franois e o mdico levaram algum tempo acendendo um cigarro, depois caminharam lentamente em direo aos militares. Chegando perto, colocaram-se na frente deles de modo a impedir que eles vissem o carro.
- Boa noite, senhores. Eu sou mdico e preciso ir para o Hospital Maillot; vocs acham que devo pegar o
Bulevar Verdun?
Enquanto Yacef, Bchir e Malika saam do carro, com cuidado para no bater a porta traseira, um sargento explicou:
- Eles colocaram uma barreira diante da Barberousse. Se voc passar pela rampa Vale, vai evitar a barreira da caserna Plissier... Boa sorte, senhores!
- Obrigado, sargento...
Sem se apressar, eles voltaram para o carro. Yacef os esperava, escondido pela escurido da rua.
- Malika est segura por enquanto. Seu irmo foi procurar um amigo e eu vou ficar com ela at que ele volte. Estarei amanh no hospital, como sempre... Obrigado pela ajuda!
Depois que o carro saiu, os dois europeus ficaram algum tempo em silncio.
- Onde voc quer que eu o deixe? - Perguntou Duforget.
- Perto do Aletti, se for possvel...
- Vamos l.
O mdico pegou a Rua Marengo e chegou  Praa Bresson por um caminho que s ele conhecia.
- Vou deix-lo aqui;  melhor que no nos vejam juntos... Voc sabe onde est?
- Sim, obrigado.
- No deixe de me informar sobre a sade de Malika. Voc sabe alguma coisa sobre a manifestao de amanh?
- Est tudo muito confuso, mas vai acontecer de qualquer jeito. A questo que se coloca agora : quantos mortos?
Duforget tirou os culos com um gesto cansado e esfregou os olhos de mope.
- Boa noite, sr. Tavernier... - Concluiu simplesmente, colocando-os de volta.
- Boa noite, doutor.
A Aronde fez meia-volta e Franois chegou ao hotel pela rua da Libert.
No Cintra, havia cada vez mais gente. Encarapitada numa banqueta do bar, Gilda, com um olhar amedrontado, viu-o atravessar a sala. Franois fingiu ignor-la, pediu um usque e esperou. J estava na terceira dose quando Joseph Benguigui entrou.
- Est tudo em ordem. Meu primo arrumou um quarto para sua mulher; no  grande, mas a porta  slida e ele d para um jardinzinho para onde se pode ir sem ser notado. Aconselhei a ela que ficasse quietinha l at que voc desse notcias... Correu tudo bem com Malika?
- Sim, eu lhe agradeo... Como posso encontrar La?
- Meu primo a registrou com o nome de Delmas.
- Bem, vou ligar para ela. Espere aqui. Podemos jantar juntos?... O que voc quer beber?
- A mesma coisa que voc.
Depois de fazer o pedido, Franois foi telefonar de uma cabine do hall. Voltou pouco depois, sorrindo.
- Ento?
- Ela est feliz. J pediu uma refeio e uma garrafa de vinho... Que mulher estranha!
- Por que voc diz isso?
- No existe outra como ela, para curtir o momento presente. Ela gostou do quarto e o vinho  bom: no precisa de mais nada no momento...
- Com efeito,  o que se chama boa natureza...
- Sim, mas ao mesmo tempo tem uns medos, uma angstia contra a qual eu no consigo lutar. No entanto, no paro de me surpreender por essa fora, nela, que acaba sempre dominando sua grande fragilidade...
Bom, eu tambm estou com fome, aonde podemos ir?
-  muito tarde para o Paris... A esta hora, para comer bem, s no Sept Merveilles aonde fomos ontem...
- Tudo bem, talvez encontremos de novo Ortiz e seu bando.
- Est com saudade deles?
- No, mas adoraria saber o que esto tramando!
Eram dez horas da noite e os territoriais tinham voltado para casa; a maioria, com certeza, levara suas armas. No se viam nem patrulhas nem postos de guarda. No cu, as estrelas brilhavam, e poucos veculos circulavam pelas ruas. Tudo parecia calmo.
Como na vspera, havia muita gente no Sept Merveilles. O dono instalou-os numa mesa pequena, perto da tapearia pesada que fechava o salo e pegou, ele mesmo o pedido. Enquanto bebia uns goles do vinho capitoso de Mda, Franois olhou em volta. No meio das conversas, distinguiu os nomes de de Gaulie e de Massu. Depois da entrada, os dois homens atacaram umas costeletas mal passadas.
- Olhe,  Robert Martel! - Falou Joseph Benguigui, com a boca cheia.
Franois reconheceu o viticultor da Mitidja, um colono que dirigia a Unio Francesa norte-africana, defensor do "Ocidente cristo", que havia escolhido como emblema o mesmo dos cliouans: um corao vermelho com uma cruz por cima. Esse ultrafantico havia sido preso em 1957, como Joseph Ortiz, depois da descoberta, na vila de Sources, de um centro de tortura clandestino onde os contra-terroristas interrogavam os muulmanos suspeitos de pertencer  FLN. Mortos ou desaparecidos, muitos dos infelizes que passaram pela vila nunca mais voltaram. Nas ruas de Argel falava-se tambm que Martel tinha algo a ver com o atentado que causara setenta mortes na Casbah, em 1956...
Depois de cumprimentar muitas pessoas, Martel afastou a cortina que separava o restaurante propriamente dito da sala dos fundos. Logo em seguida, Franois reconheceu a voz de Ortiz.
- Ele tem peito, esse Martel. - Observou Benguigui. - Ele que mandou distribuir folhetos denunciando o dono do Forum como agente provocador!... Alis, voc viu este aqui? Vai ser lanado de avio, amanh de manh, sobre Argel; no  de Martel, mas d algumas informaes sobre a manifestao.
Franois pegou o papel que Joseph lhe estendia e leu:
Franceses da Arglia, o general Masstt, o ltimo general do 13 de maio, a ltima garantia da Arglia francesa e da integrao,foi ultrajado e dispensado. De Gaulle quer ter as mos livres para liquidar a Arglia, depois a frica negra e para fazer o exrcito quebrar seus juramentos.
Chegou a hora de vocs se levantarem!
Neste domingo de manh, s 11 horas, juntem-se aos cortejos que sairo do campo e dos subrbios. Todos juntos, atrs de seus territoriais e daqueles que, h muitos anos, conduzem a luta.
Para que a Arglia francesa viva, como provncia francesa!
Comit da conveno dos antigos combatentes.
Federao das UTs e dos grupos de autodefesa.
Comit da conveno dos movimentos nacionais.
- Olhe o Lagaillarde chegando. - Advertiu Beriguigui.
Vestido com um terno marrom de pssimo caimento, o jovem deputado dirigiu-se apressadamente para a sala dos fundos onde Martel acabara de entrar. Apesar das conversas em volta, as palavras deles chegaram aos ouvidos dos dois homens:
- Voc faz a sua manifestao ou no faz? De qualquer modo, voc faz o que quiser, estou pouco ligando!
Eu cuido do permetro das faculdades. E se quiserem me tirar de l, atiro em tudo o que aparecer! Boa noite.
Ouviram-se exclamaes de raiva, barulho de cadeiras derrubadas.
Franois levantou-se e atravessou, tambm, a tapearia, O dr. Prez e o mestre Laquire tentavam desarmar Ortiz que, empunhando uma 7.65

de cano brilhante, gritava:
- Voc no vai fazer isso, Pierrot! Sou eu que estou no comando, entendeu? Sou eu que comando! Se voc organiza um golpe sozinho  s para roubar meus homens: voc no tem tropas. E os seus estudantes esto comigo. Desta vez voc no vai roubar a nossa revoluo!
Prez conseguiu tirar o revlver das mos dele e Jean-Jacques Susini o acalmou. Foi ento que perceberam a presena de Franois.
- O que voc est xeretando aqui? - Rugiu Ortiz.
-  o espio do Governo Geral! - Lanou Susini.
Ele avanou, ameaando o intruso.
- Senhores! - Interveio o Mestre Laquire. - Fiquem calmos. Eventualmente, o sr. Tavernier pode nos ser til...
- como assim? - Gritou o sr. lo. -  um fuador de merda! Devemos impedi-lo de ir contar a Delouvrier sobre a nossa reunio...
- Eu os deixo entre amigos. - Ironizou Lagaillarde. - Volto  Universidade. Vocs sabem onde me encontrar.
Boa noite e at amanh!
- Estou de carro, eu o levo. - Props Jean-Claude Prez.
Os dois homens saram.
- O que fazemos com ele? - Perguntou Susini, apontando para Tavernier.
- Nada. - Respondeu este ltimo, empunhando sua arma.
Todos se imobilizaram.
- Antes de ir embora, tenho uma coisa a dizer aos senhores: o exrcito no estar com vocs. Os que afirmaram o contrrio esto mentindo.
- Voc ousa me chamar de mentiroso? - Gaguejou Ortiz, sem tirar os olhos da pistola.
Sem responder, Franois virou-lhes as costas, saiu da sala e voltou a se sentar na sua mesa, onde
Benguigui torcia as mos de tanta angstia.
- Voc no deveria provoc-los. - Acabou por dizer o motorista de txi.
- No passam de garganteiros, eles no so de nada... Voc quer sobremesa?... No?... Um caf?... Garom!
Dois cafs, por favor... Relaxe. Tome, pegue um charuto, no h nada melhor para ver as coisas com um pouco mais de otimismo...
Joseph Benguigui aceitou a oferta. Durante uns minutos, ambos fumaram, perdidos em seus pensamentos.
Quando traziam os cafs, Ortiz e seu bando deixaram a sala dos fundos. O dono do caf Foritm levou um tempo observando Tavernier tranqilamente sentado  mesa.
- Que culhes! - Resmungou ele.
Indiferente aos olhares furiosos dos outros, Franois bebericava seu caf, como quem no quer nada.
Quando, afinal, eles saram dali, Benguigui, que estivera pronto para levantar correndo, deixou-se cair no assento, o rosto coberto de suor, com o olhar abestalhado e o charuto apagado entre os lbios.
Tavernier caiu na gargalhada.
- Dois conhaques, por favor!
O dono do restaurante escolheu o momento para vir at eles, com uma garrafa e trs copos na mo.
-  por minha conta. - Anunciou ele.
Depois de puxar uma cadeira, colocou os copos na mesa, tirou a rolha da garrafa e encheu-os at a boca.
Levantou imediatamente o seu.
-  sua sade!
Ele esvaziou o copo e serviu-se novamente.
- Senhor. - Declarou ele, solene, para Franois. - Foi uma honra receb-lo no meu estabelecimento. No entanto, peo-lhe para no voltar mais. No haver mais mesa livre para o senhor... Quanto a voc, Joseph, voc me desapontou, nunca teria acreditado que voc prefereria um francs da Frana a ns!
- Mas, pai Csar...
- Voc sabe que meu filho  responsvel pela FNF do centro. No seria conveniente que ele encontrasse gaullistas no restaurante do pai, no ?
- Deixe. - Disse Franois a Joseph, que ia retrucar. - Vamos embora.
Ele chamou o garom e pagou a conta. Na sala, agora quase vazia, os ltimos clientes interromperam as conversas para v-los partir.
Saindo do restaurante, Joseph Benguigui deu uma olhada preocupada em volta. Eles chegaram logo  caminhonete; o Bulevar Tlemly estava deserto.
- No fique com essa cara! - Disse Franois.
- Queria ver se fosse com voc! - Explodiu de repente o motorista.
- Amanh, toda Argel saber que o pai Csar me botou para fora e por que o fez. Voc me colocou em maus lenis!
- Sinto muito, mas seus amigos esto indo de encontro  catstrofe e voc sabe disso.
- E agora?  o nosso futuro que est em jogo, no o seu! Voc chega aqui sem saber nada dos nossos problemas:  o desespero que joga um monte de gente nos braos de Ortiz, dos Prez, dos Martel ou dos
Susini... As pessoas acreditaram no general de Gaulle, quando em Mostaganem, ele gritou: "Viva a Arglia francesa!" E, hoje, como est escrito no panfleto, o homem que eles ajudaram a eleger Presidente da
Repblica, vai abandonar a Arglia. "Eu compreendi vocs", ele afirmou no Forum... E ns o aplaudimos e gritamos: "Viva de Gaulie!" Se ele no acreditava na Arglia francesa, por que nos enganou? Por que envolver o exrcito num negcio to sujo? Por que prosseguir com o alistamento dos muulmanos com o objetivo de combater seus prprios irmos? Ele tambm no compreendeu nada do orgulho dos muulmanos, eles que lutaram para que a Frana fosse livre, que teriam ento amado tornar-se franceses como ns, os judeus. Em vez disso, quando a guerra terminou, mandaram-nos de volta como lixo, dando-lhes como engodo algumas medalhas e uma penso magra, desprezando a sentena que concedia nacionalidade francesa a sessenta mil deles! Lembre-se, foi em 8 de maio de 1945, quando a Frana, com o resto do mundo, celebrava a queda do imprio nazista, que tudo comeou em Stif, com uma manifestao festiva que virou uma rebelio e, depois, um massacre: uma centena de mortes do lado europeu contra milhares, nem se sabe ao certo, do lado rabe... Eu tinha um companheiro muulmano, de Djemila, a alguns quilmetros de Stif; lutamos juntos na Alscia, onde eu salvei a vida dele. Alguns dias depois, ele salvou a minha: ns nos sentamos devedores um do outro. E, alm disso, conversvamos muito sobre o nosso pas... No navio que nos trouxe de volta, fizemos planos, chegamos mesmo a prometer que nos encontraramos, esquecendo que ramos um judeu e um muulmano. A guerra que havamos feito juntos, para salvar a "Me Ptria" tornou-nos irmos unidos para sempre. Separamo-nos com abraos depois de trocar endereos; ainda no sabamos o que tinha acontecido em Stif. Um ms depois do nosso retorno, recebi uma carta em que ele me contava que toda a sua famlia, que trabalhava para um colono nos arredores de
Saint-Arnaud, tinha sido massacrada: a fim de vingar uma europia que havia sido violentada, os colonos fizeram uma expedio punitiva pela regio, fuzilando os rabes que encontravam pelo caminho, no poupando nem as mulheres nem as crianas. Os pais dele e trs de seus irmos foram mortos, as irms foram violentadas antes de serem degoladas. Na carta, ele jurava vinglos e me dizia terminantemente para no tentar encontr-lo: para ele, eu estava morto. Escrevi em seguida para lhe dizer o quanto sentia, o quanto me envergonhava de tudo aquilo;
logicamente, nunca recebi resposta, mas soube que nas fileiras da ALN, onde ele entrou, ele  dos que no poupam ningum: tornou-se um dos matadores da FLN e no duvido que se cair nas mos dele, ele me matar... Estou lhe contando isso, porque voc no  daqui e porque eu tenho uma dor enorme no corao por causa de toda essa confuso... Ns no soubemos viver juntos, e isso Deus no nos perdoar jamais... Mas, desculpe-me por aborrec-lo com minhas lamentaes... Eu... eu... deixo voc no Saint-George?
- Voc vai  manifestao amanh?
- Ento talvez nos encontremos l.
Naquele domingo, 24 de janeiro de 1960, o tempo estava magnfico em Argel quando La acordou.
- Franois...
Surpresa pelo silncio, ela se levantou. Procurando-o com o olhar, descobriu um pequeno bilhete pousado no travesseiro ao lado dela:
Minha querida,
Voc dormia to bem que no tive coragem de acord-la. Vou me encontrar com Chalie e
Deloiivrier. O dia vai ser difcil. Seria prudente que voc no sasse do hotel, mas eu sei que voc s faz o que lhe d na cabea. Pense no seu velho marido e nas crianas...
Te amo,
Franois.
La pediu o caf da manh, decidida a no dar a menor bola para essa recomendao. Depois de comer, tomou um banho rpido, vestiu um pulver leve, um terninho preto, calou um par de sapatos simples e prticos. Numa bolsa  tiracolo, colocou os documentos, os cigarros, um pouco de dinheiro e amarrou um leno de seda em volta do pescoo.
Na recepo, pediu um mapa da cidade. Depois de consult-lo, desceu at a Avenida Foureau e seguiu caminhando decidida at o centro de Argel. No cu, nenhuma nuvem, mas um sol primaveril que vinha acariciar os galhos das rvores. Levantando a cabea, percebeu um pequeno avio que voava por cima da cidade soltando milhares de pedaos de papel: "Panfletos, sem dvida", pensou ela. Rapidamente, uma esquadrilha de caa veio rodear o aparelho;
agrupados, eles desapareceram ao longe.
Diante do Palcio de Vero, militares montavam guarda. Mais longe, outros esperavam, sentados nos caminhes. Na Rua Michelet, mulheres e crianas com roupas de domingo, caminhavam, felizes.
Completamente  vontade, La observava tudo que acontecia ao seu redor: se no fossem esses grupos de homens armados e esses soldados de uniformes coloridos que trocavam brincadeiras uns com os outros, podia-se pensar que era domingo de manh em qualquer cidadezinha da Frana.
Os passageiros de um Simca azul, equipado com um alto-falante, uma bandeira tricolor flutuando na janela, chamavam a populao para se reunir s onze horas no Plat Glires. Os territoriais, tambm de uniforme, obrigavam as raras lojas ainda abertas a fechar. Um jovem munido de um rdio transistor fez sinal para os que passavam para virem escutar a mensagem do Governo Geral que a France-V irradiava; La aproximouse. "... Um panfleto distribudo esta manh convida a populao a se rebelar. Para enganar os argelianos, criar tumultos que alguns acreditam subversivos, espalham os boatos mais absurdos. Tudo isso  inventado para envenenar Argel. A autoridade da Frana, aqui, no pode tolerar isso. O exrcito, que est a servio da Frana, no vai tolerar isso. Os responsveis por essa manifestao cometem um erro trgico.
Eu rogo-lhes que se contenham a fim de evitar um derramamento de sangue. A autoridade e o exrcito cumpriro o seu dever."
Um leve instante de silncio seguiu o apelo de Delouvrier, depois o dono do radinho gritou:
- Abaixo de Gaulle! Viva a Arglia francesa!
- O exrcito est conosco! - Respondeu a assistncia.
Uma mulher encarava La com insistncia; incomodada, ela se afastou para continuar seu caminho. Uma dezena de civis armados, usando braadeiras com a cruz celta, passou por ela correndo. Um jipe ocupado por militares de farda camuflada diminuiu a velocidade quando passou por eles; trocaram cumprimentos.
Policiais estavam estacionados na altura do Bulevar Victor-Hugo. Um garoto esbarrou em La, gritando:
- O REP barrou a entrada da Tlemly!
Na entrada dos tneis das faculdades, a multido aumentava de minuto a minuto.
Algum gritou:
- Lagailiarde est falando! Lagaillarde est falando!
Levada pela multido, La encontrou-se em frente  Universidade, cujo terrao avanava por cima do telhado de um caf, o Otornatic, sobre o qual se agitava um barbudo com uniforme de pra-quedista, uma metralhadora pendurada no corpo, uma granada pendurada na lateral da roupa; ela reconheceu o deputado que havia visto no Sept Merveilies.
- "... Os homens fechados dentro das faculdades esto decididos, ao preo de suas vidas, a obter do
Governo a afirmao de que a Arglia permanecer francesa. Sem segundas intenes polticas, tendo como nica ambio continuar em comunho ntima com o exrcito eles apreendem as incertezas deste dia.
Querem apenas constituir uma fora imvel e silenciosa que no sair de seu permetro. Pronta a morrer a caso seja atacada. Mas ela quer forar os poderes pblicos da metrpole  tomada de conscincia que h um ano e meio se espera em vo..."
Nesse momento um coronel da polcia intimou que ele se calasse e se apresentasse ao general Chalie.
- Viva a Arglia francesa! - Gritou, ento, a multido.
Lagaillarde saudou com a mo, deixou o telhado do Otornatic e disparou para os jardins da Universidade.
Mais alm, as pessoas se acotovelavam na esquina da Rua CharlesPguy com o Bulevar Laferrire, diante do prdio da Companhia argeliana, cuja entrada estava encimada por uma bandeira branca sobre a qual as palavras Arglia francesa estavam escritas em letras azuis e vermelhas. No balco, perto de um grande retrato do general Massu, um homem se agitava, agarrado ao microfone:
- ... O grande dia chegou. Estamos aqui para que viva a Arglia francesa e s sairemos quando o general
Massu estiver de volta!
- Massu!... Massu!...
- Alions, enfanfs de la patrie...
A Marselhesa brotou da multido, La estremeceu.
No alto da escada monumental que conduzia ao Governo Geral, os caminhes da polcia e da CRS fechavam o acesso ao Foram. Trs helicpteros pretos voavam em crculos sobre o Plat Glires, enchendo o ar com um barulho ensurdecedor.
Deixando o Hotel Saint-George, Franois Tavernier foi a p para o Quartel Rignot, onde se encontravam o general Chalie e Paul Delouvrier; os CRS ainda guardavam os prdios. No interior da vila do estado-maior das vrias armas, o comandante em chefe e o general residente se inclinavam sobre um grande mapa da cidade.
- As barreiras cedem uma aps a outra. - Suspirou Maurice Chalie fumando seu cachimbo. - "No vai acontecer nada", me disse h trs dias o general de Gaulie. Crpin no tem competncia,  de Massu que precisamos. Os ps-pretos se consideram o smbolo da Arglia francesa e a ltima muralha antes do ultimato: "partam ou morram". O sangue vai correr em Argel... Lagaillarde est entrincheirado nas faculdades. Deve haver mais de mil pessoas no Plat Glires...
- Isso no  nada perto das cem mil esperadas por Ortiz. - Observou Franois.
- Est certo, mas se ns no tivssemos bloqueado as passagens da Mitidja e dos bairros da periferia de
Hussein-Dey e Maison-Carre, seriam efetivamente cem mil a gritar "Viva Massu!" e "Abaixo de Gaulle!"...
- O pior seria a confraternizao entre o exrcito e a populao. - Corrigiu Delouvrier.
- Eu tenho confiana no exrcito. - Afirmou Challe.
- E, depois, os pra-quedistas  que so responsveis pela manuteno da ordem. - Declarou Michel-Jean
Maffart, chefe de gabinete de Delouvrier. - No h nenhuma razo para pensar que eles ficaro neutros diante da manifestao. Ortiz  considerado um falastro, incapaz de ser um organizador srio. No  como
Lagailiarde que, felizmente, controla apenas pessoas muito jovens. O risco no  maior do que nas dez manifestaes anteriores. O coronel Godard assegurou-nos que no h nada a temer, que ele tem a situao sob controle.  o Chefe da Segurana, ele sabe do que est falando. Ele e Gardes esto perfeitamente informados das operaes conduzidas pela Frente Nacional Francesa.
- E isso basta para tranqiliz-los? - Inquietou-se Franois.
Maffart levantou os ombros, depois atendeu o telefone que no parava de tocar. Quando pousou o fone, sua testa estava coberta de suor.
- H milhares de pessoas vindo da ponta Pescade, de Saint-Eugne e de Bab el-Oued!
- Gostaria de ir ver pessoalmente. -Decidiu Franois. -Voc pode me arrumar um veculo?
- Sargento! - Chamou Challe. - Voc conhece bem Argel, no ? Pegue um jipe e leve o sr. Tavernier aonde ele desejar. Pegue salvo-condutos.
- s suas ordens, meu general.
- E traga-me Ortiz e Lagaillarde! - Acrescentou o general.
- Aonde vamos? - Perguntou o jovem sargento, sentando-se ao volante do jipe.
-  caserna Plissier.
- No vai ser fcil, h barricadas por todo lado...
- Vamos tentar assim mesmo, veremos... Como  o seu nome?
- Dubois, senhor, Roger Dubois... Vamos tentar pela Tlemly?
Na altura do parque de Galland, eles foram parados pelos praquedistas do 1 REP.
- Podem ir. - Disse o tenente quando viu os salvo-condutos.
Tiveram que fazer novas paradas na curva Lafayette, depois na do Sept Merveilles. Contornaram o estdio para chegar  Avenida Marechal de Bourmont. Diante da caserna de Orlans havia dezenas de veculos militares estacionados. Os policiais rodeavam a priso e a chefatura de polcia. No se ouvia um barulho vindo da Casbah. Na parte de baixo do Bulevar Verdun, eles encontraram os primeiros manifestantes que agitavam bandeiras tricolores. Vindo da Avenida Bouzarah, eles se chocaram com os pra-quedistas que tentaram cont-los a coronhadas; alguns, feridos nas mos e no rosto, recebiam os primeiros cuidados dispensados por umas moas. Entre o liceu Bugeaud e a caserna Plissier, uma grande barreira, feita por pra-quedistas de capacete " Bigeard", impedia a travessia da Praa Jean Mermoz.
De braos dados, territoriais uniformizados, mas desarmados, avanavam para a barricada. Com todas as condecoraes  mostra, os antigos combatentes iam na frente, empunhando as bandeiras de seus regimentos. Atrs deles, milhares de argelianos, alguns com mulher e filhos, gritavam slogas hostis a de
Gaulle, exigindo o retorno de Massu. Era toda a populao europia de Argel que se reunia para dizer no  poltica da Frana: combatentes de duas guerras, UTs, civis, jovens e velhos se comprimiam na frente dos pra-quedistas que partilhavam suas convices. Olharam-se, sorriram. A uma s voz, os manifestantes recomearam:
- Arglia francesa!... Arglia francesa! O exrcito conosco!...
Os pra-quedistas no sabiam mais qual era o dever deles: para eles tambm a Arglia s podia ser francesa. Sem pensar, recuaram com as metralhadoras no peito. As jovens se grudaram no pescoo deles, os velhos combatentes os abraavam: "Somos todos irmos! Esta terra  nossa para sempre!" A
Marselhesa explodiu, os olhos se molharam: "Vamos todos para o Plat Glires!"
Aps uma simulao de resistncia, as barreiras que os pra-quedistas defendiam abriram-se uma depois da outra diante do fluxo humano. Se os CRSs e os policiais permaneciam distantes, tal no era o caso dos pra-quedistas que a multido ovacionava; entre estes ltimos, alguns chegavam a dizer: "Estamos com vocs!"
-  impressionante. - Resmungou o sargento Dubois que havia conseguido levar o jipe  frente do cortejo.
- Acelere e deixe-me na parte de baixo do Plat Glires. - Limitou- se a dizer Franois Tavernier.
- O que devo fazer agora? - Perguntou o suboficial, alguns instantes mais tarde, estacionando o veculo.
- Me d as chaves e volte para o quartel Rignot.
- Mas... o que o general Challe vai dizer?
- V,  uma ordem!
Contrariado, o sargento obedeceu. Franois escorregou para o lugar do motorista e saiu bruscamente sob o olhar de um destacamento de CRS que controlava o Bulevar Baudin, deixando a Dubois a tarefa de explicar-lhes a situao. Ele desceu a rampa Tafourah, atravessou a rua Bapaume, percorreu enfim a Rua
Beaucaire at o cais Bizerte. "Eu tenho uma pequena oficina no cais", confidenciou-lhe um dia Joseph
Benguigui, "onde fao alguns consertos de vez em quando. Aqui est a chave, talvez lhe seja til um dia...". O porto de ferro deslizou sobre os trilhos, revelando um lugar amplo, onde ele colocou o carro.
Como um fluxo irresistvel, a multido que descia de Bab el-Oued caminhava em direo ao centro de
Argel. L pelo meio-dia, ela invadiu o Bulevar Laferrire at o prdio do Correio, em cujas escadarias gesticulavam alguns jovens exibindo suas braadeiras com a cruz celta. Diante deles, na Praa CharlesPguy, Joana d'Arc, em seu cavalo, empunhava uma bandeira francesa, assim como um cartaz onde se lia em letras vermelhas: "Arglia, provncia francesa".
La voltava em direo ao monumento aos mortos, de onde examinava a massa branca que dominava os canteiros do Bulevar Laferrire. Sobre o baixo-relevo circular, soldados com capacetes, de um lado, e soldados com turbantes, de outro, vinham ao encontro de uma me e sua filhinha que lhes ofereciam flores. Mais para cima ainda, trs cavaleiros em suas montarias com a cabea abaixada, um ao lado do outro, sustentavam com os braos levantados uma esttua representando um morto. No centro, uma mulher jovem, simbolizando a Frana, tinha  sua esquerda um spalzi e  sua direita, sob a cabea da esttua, um soldado vestido com um longo capote. La pensou num grande bolo em camadas que escorriam, bonito apesar de tudo. Os degraus em volta do monumento eram rodeados por paredes de mrmore nas quais figuravam, gravados, os nomes dos milhares de mortos argelianos da Primeira e Segunda Guerra. Um oficial da polcia veio na direo dela, correndo. - A senhora no pode ficar aqui.  proibido!
O homem demonstrava tamanho nervosismo que ela obedeceu imediatamente e desceu a escadaria. No
Bulevar Pasteur, um empurra-empurra jogou-a na direo da entrada de um prdio de estilo mourisco. Dali, alguns militares contemplavam o movimento da rua, como se fosse um espetculo. Um tenente puxou-a para dentro.
- Voc devia voltar para casa, isto aqui pode acabar mal.
- Obrigada, mas prefiro ficar... Na verdade, por que vocs no reagem se acham que a coisa vai degenerar?
- Ns obedecemos ordens.
- Ah... O que  isto aqui?
- Aqui  a sede do Bled, o jornal dos soldados.
Atravs da porta de vidro, La arriscou uma olhada para fora.
- Parece mais calmo, agora. Vou embora.
- Tenha cuidado, seria uma pena se acontecesse algo a uma mulher to bonita...
Saindo, La sorriu para o soldado.
- Ei, volte quando quiser; pergunte pelo tenente Pascal... Bernard Pascal!
Na Avenida Pasteui as mulheres repreendiam os homens:
-  hora do almoo, vamos para casa!
La achou engraado, sem dvida, estavam mesmo na Frana, onde a hora das refeies  sagrada, principalmente o almoo de domingo. Casais rodeados pelos filhos deixaram a manifestao e, logo, a maioria eram s rapazes, que haviam ficado, dispostos a bater-se furiosamente com as foras da ordem.
Somente a algumas centenas de metros do lugar onde se encontrava La, Franois chegava ao QG da
Frente Nacional Francesa. Ele ergueu os olhos para o balco enfeitado com uma bandeirola tricolor com as palavras: "Arglia Francesa"; o coronel Gardes e Joseph Ortiz estavam lado a lado. Ortiz estendia os braos para a multido que, agrupada diante do prdio, o aplaudia com todas as foras. Franois mostrou seu salvo-conduto aos territoriais armados que guardavam a entrada. Subiu a escada de quatro em quatro at o andar onde Jean-Jacques Susini e o sr. Prez acolheram-no friamente.
- Estou procurando voc h dois dias. - Disse ele a Gardes.
- Bem, agora me encontrou... Que posso fazer por voc?
- Sua presena neste lugar responde s perguntas que eu me fazia...
O coronel pegou-o pelo brao e puxou-o para um canto da sala.
- No confie nas aparncias. - Confidenciou ele, sem olhar para o interlocutor. - Estou aqui a servio.
- Se voc diz... - Soltou Franois com uma desenvoltura que j ofendera mais de uma pessoa.
Cardes tirou o quepe e enxugou a testa.
- O que voc veio fazer aqui? - Perguntou ele.
- O general Chalie deseja que Ortiz v v-lo.
- Eu sei.
- E o que ele decidiu?
- Pergunte a ele... Ortiz! O sr. Tavernier quer saber se voc vai responder ao chamado do comandante em chefe.
- Voc est encarregado de me escoltar? Decididamente, estou muito requisitado... J informei aos membros do meu gabinete diretor e aos representantes do Comit da Conveno dos movimentos nacionais aqui presentes sobre esse "convite". Eles temem que seja uma armadilha... Voc pode me garantir que no  uma cilada?
- Esse tipo de coisa no faz parte dos hbitos do general Chaile.
Um capito aproximou-se do dono do caf.
- O carro que deve lev-lo j chegou.
- Obrigado, Filippi. - Respondeu o sr. Jo.
Ele foi para o balco e dirigiu-se  multido:
- Fui convocado por Chaile. Se eu no voltar em uma hora, vocs sabem o que devem fazer!
- No v! - Gritaram de volta os manifestantes.
- Esta no  a grande rebelio esperada. - Constatou Franois, tomando Cardes como testemunha. - Nada a ver com a hecatombe de 13 de maio. Tenho a impresso de que isto no vai ser como vocs esperavam.
O coronel, com os maxilares travados, no respondeu nada e saiu da sala.
Acompanhado pelo capito Filippi, Ortiz entrou no banco de trs de um 203 preto, conduzido por um militar e cujo motor no havia sido desligado. Tavernier sentou-se ao lado do motorista. Alguns militantes puseram-se na frente do carro para impedi-lo de sair.
- Jo! No v,  uma cilada... - Gritavam.
- No se preocupem, amigos. Estarei de volta em uma hora. - Assegurou ele, inclinado para fora da janela do carro.
Dois territoriais montados nos pra-lamas dianteiros do Peugeot abriam passagem fazendo gestos com os braos. O motorista ia lentamente entre duas alas de rostos hostis. Na Avenida Pasteur, j havia muito menos gente. Viraram  direita na Rua Edouard-Cat, depois pegaram a Rua Berthezne onde havia barreiras de arame farpado a cada vinte metros. Havia soldados postados na grande escadaria que levava ao
Fortim, enquanto muitos caminhes estavam estacionados do lado direito da rua. Depois de contornar o
Governo Geral, o carro entrou no ptio de honra e parou diante da entrada do prdio. Por todo lado, soldados de capacete, armados, mantinham-se perto de metralhadoras prontas para atirar. Ortiz examinou com um olhar preocupado essa demonstrao de fora. No interior do CC, os CRSs montavam guarda, de metralhadoras no ombro.
- O general Challe foi para o quartel Rignot; ele os espera l. - Anunciou um oficial ao dono do Forum.
No Bulevar Tlemly, o 203 passou por uma fileira de carros ocupados por famlias que iam fazer um piquenique nas praias ou nos bosques em volta de Argel. O trnsito estava lento. Franois percebeu a expresso desanimada de Ortiz que exclamou repentinamente:
- Que tristeza! Eles vo se divertir enquanto uma manifestao se desenrola para que a Arglia continue sendo da Frana. Eles no se do conta de que dessa manifestao dependem o destino deles e o de seu pas! Para eles, hoje,  principalmente um belo domingo de sol. Que egosmo, mas tambm, que medo! "Os outros que se virem, eu no quero saber de poltica!" Como se todos, na nossa Arglia, do mais humilde ao mais rico, no dependssemos da evoluo poltica!
Ele se encolheu contra a porta do carro, remoendo sua decepo.
Enfiando o dedo na ferida, Tavernier virou-se para ele e sussurrou, com pena:
- S se pode contar consigo mesmo...
Ortiz rugiu ao mesmo tempo em que o sangue lhe subia ao rosto:
- Cale a boca!
No quartel Rignot, alguns oficiais conversavam na frente da escadaria externa. Entre eles, o general Chaile, de cabea descoberta, mordia um sanduche. Vendo-os, veio at o chefe da FNF e lhe estendeu a mo.
- Bom apetite, general. - Disse Ortiz.
- Obrigado... J almoou?
- No tive tempo.
-  servido? - Props Chalie, partindo seu lanche ao meio.
- Com prazer, general.
- Siga-me.
Os dois homens entraram na sala dos ajudantes de campo.
- Ento, como vai a sua manifestao?
- Sob a presso do movimento popular, ela era inevitvel, general.
- Respondeu o sr. Jo, com a boca cheia.
- At onde pretende ir, Ortiz? No se esquea de que sou responsvel pela ordem e que ela ser mantida custe o que custar. Voc sabe quais so minhas ordens? Se atacarem os edifcios pblicos, se atirarem contra as foras da ordem, mandarei abrir fogo.
- Ns s queremos obrigar o governo a mudar de poltica e nos mandar Massu de volta. E, depois, queremos criar a "Arglia francesa" diante do monumento aos mortos!
- Vocs no devem se aproximar do Fortim com homens armados, brandindo emblemas fascistas. Faa-os voltar para casa.
- Mas... eles no vo obedecer!
- Sr. Ortiz, gostaria que o senhor fizesse as coisas de tal modo que a multido no fosse para o Foriii,i.
- Para isso, seria necessrio que eu pudesse garantir a eles que o exrcito ficar na Arglia. O senhor pode me garantir isso, general?
- Com certeza, senhor. O Chefe de Estado e o Primeiro-Ministro acabaram de me reafirmar isso. Diga isso a seus amigos. Diga-lhes tambm para no invadirem os prdios pblicos. Com essa condio, vocs podem prosseguir com a manifestao e continuar a exigir o retorno de Massu. De uma certa forma, esse movimento popular me faz um favor, porque confirma o que afirmei ao general de Gaulle sobre o estado de esprito dos habitantes de Argel. Se vocs se contiverem, se a manifestao no ultrapassar a Avenida
Pasteur, ela no ser dispersada pela fora. Mas seria melhor que ela terminasse logo... Tenho a sua promessa?
- Tem, general. Os manifestantes no ultrapassaro a Avenida Pasteur.
- Bem, volte para a sua gente. Tente convenc-los e ligue para mim l pelas catorze e trinta.
- Tentarei, general.
- V; eu tenho a sua promessa, voc tem a minha.
Um aperto de mo selou o "acordo".
No ptio, Franois Tavernier terminava de engolir um sanduche na companhia do capito Filippi, que o deixou imediatamente para ir ao encontro de Ortiz.
- Ento?
- A manifestao est autorizada. Somente dei minha palavra de honra que ns no marcharamos para o
Foruin... Vamos voltar para a Rua Charles-Pguy.
Um jovem soldado da aeronutica abordou Franois:
- Senhor, o comandante em chefe o chama.
No gabinete, Challe mastigava a haste de seu cachimbo.
- Quais so as suas impresses? - Lanou ele sem prembulos.
- Ao mesmo tempo boas e ms: boas, porque afinal h menos gente do que o previsto; as barreiras impedem que os colonos venham para Argel; ms, porque os pra-quedistas deixaram passar os argelianos, o que os autoriza a pensar que o exrcito est com eles. A presena do coronel Gardes ao lado de Ortiz apenas confirma isso. Muitas armas esto circulando, basta que um agitador...
- Eu sei disso tudo, mas conto com o general Fonde, com quem acabo de falar pelo telefone. Ele ordenou aos regimentos de praquedistas que vo para o centro: o coronel Bonnigal ficar com o 3 RPI da marinha diante da caserna Plissier, o coronel Broizat e seu RC vo barrar o Bulevar Baudin na altura da Maurtania, e o coronel Dufour e seu REP faro o mesmo na altura do Parque Galland. O plano de
Fonde  usar os regimentos de camuflados e o de policiais do Forum para agir como proteo contra a multido de manifestantes e empurr-los para o oeste da cidade pela Rua Isly e a rampa Bugeaud, que foram deixadas abertas.
- O plano parece bom, mas voc tem certeza quanto aos praquedistas?
- No tenho certeza de nada nem de ningum. Como voc observou, basta uma provocao para que acontea o pior. Voc deveria voltar para Paris e expor a situao ao general de Gaulie.
- Isso no mudaria nada, voc sabe muito bem.
- Est certo... No foi por falta de insistir que ele nos devolvesse Massu e de adverti-lo de que o sangue ia correr em Argel. "No vai acontecer nada", me respondeu ele... Voc veio com Ortiz, o que foi feito do sargento Dubois e do jipe?
- Ele me espera no porto. - Mentiu ele, perguntando-se por onde andaria o suboficial. - Alis, vou voltar para l.
Eles se separaram com um aperto de mo.
Quando Franois Tavernier voltou para o ptio, o 203 que o tinha trazido j fora embora. Contrariado, olhou em volta. Uma moto parou diante da escadaria; o estafeta que a dirigia entrou precipitadamente no prdio. Sem a menor hesitao, Franois montou na moto e saiu do quartel Rignot sob a indiferena geral.
Um pouco mais tarde, ele passou sem problemas pelo controle dos pra-quedistas do 1 REP. Fora os veculos militares e alguns raros pedestres, a Rua Michelet abria-se diante dele, quase deserta. Franois desceu a rampa at a Praa Lyautey. No comeo da Rua Charles-Pguy, na esquina com a Universidade, alguns jovens puseram uns carros atravessados na rua, colocando sobre eles umas pranchas que haviam arrancado da paliada que fechava o canteiro do crdito agrcola. Outros se ocupavam em arrancar o pavimento com a ajuda de barras de ferro, enquanto um grandalho fazia buracos na rua. Impossvel passar. Franois fez meia-volta e, subindo a rua Michelet, conseguiu chegar ao Plat Glires pelo Bulevar
Baudin. Os argelinos, voltando do almoo, tornavam-se cada vez mais numerosos. Do QG de Ortiz, os altofalantes difundiam msica militar. As famlias sentadas nos gramados, ao sol, trocavam informaes: "As tropas de uma zona se rebelaram e vm se juntar a ns!"... "Houve um atentado em Paris contra de
Gaulle!"... "A multido invadiu a Chefatura de Polcia em Oran!"... Os garotos corriam de um grupo ao outro, distribuindo folhetos. Um menino de uns treze anos ofereceu um a Franois:
Ns estamos contra a parede, de frente para os que querem nos liquidar.  o dia do grande combate. O exrcito assune suas responsabilidades. Ns assuninos as nossas.
Como o daquela manh, este panfleto estava assinado conjuntamente pelas unidades territoriais, pelos antigos combatentes e pelos movimentos nacionais.
Ele amarrotou o papel e enfiou-o no bolso. Uns territoriais de boina preta, habitualmente encarregados de "pacificar" os bairros difceis, subiam o Bulevar Laferrire, em filas de dois, sob a aclamao da multido. A confuso foi tamanha que Franois resolveu abandonar a moto. Na Rua Monge, ele empurrou-a para dentro de um prdio e escondeu-a embaixo da escada. Uma menininha de uns trs ou quatro anos ficou olhando para ele enquanto chupava o dedo. Ele se aproximou dela e abaixou-se para ficar no nvel dela.
- Psiu!... - Fez ele, com um dedo sobre os lbios.
Os helicpteros pretos voavam ainda por cima dos manifestantes.
Agora, j havia milhares deles, talvez mesmo dezenas de milhares. Diante do prdio onde estava localizado o QG de Ortiz, gritos hostis se elevavam de uma massa compacta:
- Fora de Gaulle. O exrcito conosco!...
O chefe da Frente Nacional Francesa apareceu no balco, uma ovao formidvel subiu da multido:
- Viva a Frente Nacional!... Viva Ortiz!... Viva Massu!... Aquele que "havia almoado com o general ChalIe"
- boato espalhado por seus amigos para reforar a idia de que o exrcito caminhava com os manifestantes
- estendeu as mos para pedir silncio. Pouco a pouco, o rugido acalmou-se.
- Argelianos, argelianas, chegou a hora de dizer no  poltica do abandono. Sabotaram o nosso 13 de maio. Ns, patriotas de Argel, defenderemos at o fim a Arglia francesa. O mundo inteiro tem os olhos voltados para ns. No basta mais gritar "Arglia francesa". O marechal Foch dizia s suas tropas, na vspera da batalha de Mame: "Vocs devem defender cada metro do territrio: aquele que recuar  um traidor." Bem, para vocs tambm, povo de Argel, a hora do herosmo talvez tenha soado!  preciso que vocs demonstrem herosmo e no recuem nem um metro. Paris atira em ns pelas costas. Paris destituiu o general Massu. Paris envia seus mercenrios contra o povo de Argel em vez de mand-los para o djehel combater os assassinos aos quais se prope a paz dos bravos. Viva o general Massu! Viva a
Arglia francesa!
- Viva o general Massu! Viva a Arglia francesa! - Repetiu a multido que, num mesmo impulso, cantou a
Marselhesa e depois o Canto dos Africanos.
Ao redor de Franois, mulheres, parecendo mamas italianas, algumas carregando uma criana, outras, idosas e vestidas de preto, parecendo camponesas da Crsega, mocinhas com vestidos claros, velhotes de capacete na cabea ou de chapu na mo, homens na fora da idade, estudantes ou empregados - todos punham na voz a fora de seu amor por este pas que lhes dera tanto. Em alguns rostos, lgrimas corriam.
La havia entrado no restaurante do Hotel Albert, na esquina da Avenida Pasteur com o Bulevar
Laferrire. Na sala lotada, os freqentadores de domingo no haviam alterado em nada seus hbitos;
cumprimentavam-se, iam de uma mesa a outra, fazendo comentrios sobre os acontecimentos do dia. As mulheres endomingadas encararam La quando ela entrou na sala, com o maitre em seus calcanhares.
- Mas... Senhora, eu insisto, no h mais nenhuma mesa desocupada...
- E esta aqui, perto da janela?
- Ela tambm est reservada, senhora.
La sentou-se.
- Este lugar est perfeito para mim. Traga-me o cardpio, por favor.
- Senhora!
- No esquea a carta de vinhos.
Escarlate, o matre afastou-se. No mesmo instante, uma mulher gorda, de cabelos brancos presos num coque no alto da cabea, entrou acompanhada por dois jovens, visivelmente irmo e irm. Vestida com um elegante conjunto cinza, ela se dirigiu para a janela, depois parou, surpresa, diante da mesa que La ocupava.
- Esta senhora quis se sentar de qualquer jeito... - Tentou explicar- se o maitre.
La levantou-se.
- Desculpe, senhora, mas no havia outro lugar.
- Voc est sozinha?
- Sim.
- Ento, no  nada grave.  uma mesa para quatro e ns somos apenas trs. Sente-se.
- Agradeo muito. - Disse La, sentando-se. - Permita-me apresentar-me: La Tavernier... cheguei de Paris.
- J suspeitava... Seja bem-vinda. Eu sou a sra. Martel-Rodriguez. Estes so meus netos, Hlne e Serge...
Voc chegou em Argel numa hora ruim. H quanto tempo est aqui?
- H dois dias.
-  muito pouco, evidentemente, para ter uma idia... Recomendo as codornas recheadas com foje gras, so excelentes.
- Obrigada, vou seguir o seu conselho.
Em pouco tempo, elas conversavam como velhas conhecidas sob o olhar estupefato dos funcionrios e dos outros clientes.
- Ns despertamos a curiosidade.., principalmente voc, minha cara. No estamos acostumados a ver uma mulher jovem e bonita sozinha num restaurante...
- A senhora morreria de fome se no estivesse acompanhada?
A sra. Martel-Rodriguez caiu numa gargalhada que surpreendia pela juventude.
- Claro que no. Estou habituada a fazer coisas sozinha h muito tempo e a no dar satisfao a ningum.
Mas, aqui, as mulheres raramente vo desacompanhadas a lugares pblicos, isso no  bem visto. O que voc quer? Ns somos do Mediterrneo... Fale-me de Paris: faz uma eternidade que no vou l... Mas, o que voc est olhando?
- Desculpe, eu me perguntava, vendo tanta gente l fora, como ir terminar este dia...
Sua interlocutora lanou-lhe um olhar agudo, depois deu uma olhada para os jardins que subiam at o monumento aos mortos. Nas escadarias que ficavam ao lado dos canteiros, as famlias faziam piquenique, alguns bebericavam uma cerveja.
- Fale-me de Paris. - Insistiu a argeliana.
Por muitas vezes, amigos e conhecidos paravam diante da mesa, obrigando La a parar de falar. A cada vez, a sra. Martel-Rodriguez a apresentava.
- Uma amiga, sra. Tavernier.
- Sua av conhece todo mundo. - Observou La ao ouvido de Hlne.
-  natural. - Respondeu a garota, orgulhosa. - Ns pertencemos a uma das famlias mais antigas da
Arglia.
- Essa no  a nica razo. - Respondeu o garoto. - Vov  muito respeitada, ela  amada por todos porque faz muita caridade.
A sra. Martel-Rodriguez pediu ao maitre que lhe servisse vinho, depois, virando-se para La, completou:
- Meu av instalou-se na Arglia logo aps a conquista. Era um pequeno vinicultor alsaciano, que trabalhava duro. Chegou com a mulher que esperava um filho. Escolheram estabelecer-se em Blinda onde, pouco depois, meu pai nasceu. Minha av era uma mulher simples e boa que ajudava o marido no trabalho, apesar de ficar grvida vrias vezes em seguida. Ela morreu quando meu pai tinha apenas oito anos, deixando cinco crianas, das quais trs eram mulheres. Meu av mandou chamar uma de suas irms, Marthe, para cuidar das crianas. Ele nunca voltou a se casar. Pouco a pouco, aumentou seus domnios e tornou-se um dos colonos mais importantes da regio. Todos temiam e respeitavam aquele homem justo, porm severo...
- Como voc, vov. - Deixou escapar Hlne.
Ignorando a interrupo, a sra. Martel-Rodriguez prosseguiu:
- Meu pai, seu irmo e suas irms foram educados no temor a Deus, na observncia dos Dez Mandamentos e no amor pela Ptria. Graas  tia, no sofreram muito com a perda da me. Mais tarde, um preceptor veio da Frana para instru-los. Alguns anos mais tarde, esse homem casou-se com a tia Marthe, com a qual teve trs filhos. As duas famlias acomodavam-se na enorme propriedade construda por meu av, no meio das vinhas e dos pomares. Os trabalhadores dos campos, os pastores e suas famlias viviam numa vila, construda para eles, que compreendia uma escola e uma capela. Nada faltava aos nossos rabes e, se uma de suas crianas mostrava disposio para os estudos, meu av custeava as despesas. Assim, um deles tornou-se mdico, um outro, professor, outros, suboficiais ou contramestres. As meninas, por sua vez, aprendiam a costurar, cozinhar e a cuidar de crianas. Meu pai viveu livre e feliz, preferindo a caa e os cavalos aos estudos, os amigos muulmanos aos europeus. Com doze anos, falava rabe melhor que francs. Seu irmo desapareceu no mar durante um naufrgio. Com a morte de meu av, ele assumiu o controle dos negcios e casou-se, com mais de quarenta anos, com a nica herdeira de uma rica famlia de colonos espanhis. Quando reuniram as terras, elas se estendiam por uma superfcie to grande quanto a de um dos departamentos da Frana. Minha me, Juanita, morreu poucos anos depois do meu nascimento, depois de vrios abortos. Foi a mulher de meu tio que me criou. Cresci feliz, como um animnalzinho em liberdade, no meio de um monte de primos. Infelizmente, quando eu tinha doze anos, meu pai, apesar de me adorar, enviou-me para um convento de Strasbourg para que me transformassem numa moa educada. O pretenso garoto que era eu sofreu muito com essa nova vida, feita de obrigaes que eu considerava insuportveis. Eu no tolerava o frio, a falta de sol, s vivia esperando as frias que me levariam de volta ao meu maravilhoso pas. Durante dois meses, ento, eu fazia uma proviso de lembranas e, a cada retorno  Frana, eu desejava morrer. No quarto ano de meu exlio, fiquei to gravemente doente que me consideraram condenada  morte, e levaram-me de volta para casa a fim de que eu desse meu ltimo suspiro junto aos meus. Meu pai chorava e me pedia perdo. Um velho marabu da regio, estimado por todos, veio me ver e aconselhou a meu pai que me instalasse embaixo dos eucaliptos e deixasse a natureza agir... O bom homem tinha razo: recuperei aos poucos a sade. Meu pai ficou to feliz que deu uma festa que durou uma semana inteira e sobre a qual os jornais falaram por muito tempo. Foi nessa festa que conheci um primo afastado, do lado da minha me, Miguel Rodriguez. Seis meses depois, com apenas dezessete anos, casei-me com ele. Durante alguns anos, nossa felicidade foi completa. Dei-lhe trs filhos e depois veio a guerra. Dois anos mais tarde, meu marido foi morto no comando de seus homens. Cinco membros da famlia sacrificaram sua vida pela Frana. Meu pai, ainda que muito idoso, dirigia toda a propriedade. Ele decidiu me introduzir progressivamente no trabalho e fazer de mim sua futura sucessora.
Quando ele morreu, com quase cem anos, ele considerava que eu tinha me tornado sua digna herdeira. Foi graas a esse trabalho e a meus filhos que pude superar o sofrimento que me causou a perda de meu marido. Alm disso, por uma carta que li depois de sua morte, meu pai me confidenciava que ele compreendera logo que s o amor que eu sentia por nossa terra poderia me salvar do desespero... Voc est pensativa?
- Escutando a senhora, eu pensava em meu pai, que tambm me transmitiu o amor por nossa terra.
Montillac ( esse o nome de nossa propriedade) continua sendo a nica referncia permanente da minha existncia. Se a perdesse, tenho a impresso de que perderia mais do que a vida...
A sra. Martel-Rodriguez olhou para ela com uma emoo que no tentou disfarar. Pousou delicadamente a mo sobre a de La e disse gentilmente:
- Agora, voc pode compreender o sentimento que temos com a idia de perder nosso pas.
La sentiu que entrava num terreno perigoso e que no podia responder francamente sem ferir sua interlocutora.
Ela retirou a mo e perguntou:
- A senhora se incomoda se eu fumar?
- De jeito nenhum, eu tambm fumo.
Unindo o gesto  palavra, a sra. Martel-Rodriguez tirou da bolsa um estojo de charutos de prata e praticamente se desculpou:
- Meu pai s fumava havanas; ele me transmitiu seu vcio... Voc deve achar que, para uma mulher, no  conveniente. Mas, na minha idade, no se deve ligar para as convenes. No lhe ofereo, imagino que no deve gostar...
- Ao contrrio, gostaria muito de fumar um. Gosto do que no  conveniente...
De novo, a risada to jovem explodiu. Elas prepararam os charutos e acenderam. Fumaram com volpia, sob os olhares reprovadores dos outros clientes. Percebendo isso ao mesmo tempo, elas trocaram um olhar cmplice.
- Voc  a primeira mulher que eu conheo que fuma charutos. Faz muito tempo?
- No muito. Foi em Cuba que comecei.
- Vov, podemos ir dar uma volta? - Perguntou Hlne.
- Desculpem-me' queridos, devo estar amolando vocs com minhas histrias. Vo, mas tenham cuidado: h cada vez mais gente... So bons garotos. - Acrescentou ela, vendo-os sair. - Voc quer mais um caf?
- Com prazer... Permite?
La olhou para o relgio: eram dezesseis e trinta.
No vi o tempo passar! Com licena, preciso telefonar.
- V, mas volte logo: gosto muito de voc...
Uma dezena de jornalistas e fotgrafos andavam para l e para c diante da recepo, esperando que completassem as ligaes que haviam pedido. Quando La pediu, a telefonista respondeu:
- Vai demorar muito, senhora.
Ela desistiu e foi at a porta: o Bulevar Laferrire havia desaparecido sob a mar humana de onde vinham, s vezes, os gritos de "Arglia francesa!"... Nas escadarias, acima do monumento aos mortos, destacavamse as silhuetas de capacete das foras da ordem. La voltou para a sala e percebeu que ningum tinha sado do lugar. Ela sentou-se.
Voc parece preocupada...
-  que h realmente muita gente, agora.
- Melhor! Quanto mais gente, mais o Governo ser obrigado a nos ouvir.
- A senhora no teme algum incidente?
- O que importa a perda de algumas vidas se a Arglia continuar francesa?
"Ela me mataria", pensou La, "se ela soubesse que eu ajudei a FLN".
Serge e Hlne reapareceram, afobados.
- Vov, esto montando uma barricada na frente da Universidade! Na sala, algumas exclamaes escaparam e alguns senhores se precipitaram para a Avenida Pasteur. Depois de uns dez minutos, eles voltaram.
- Esto fazendo outra barricada na rua Charles-Pguy e esto arrancando o pavimento das ruas!
- Eu vi metralhadoras no balco de Ortiz!
- Vo ordenar aos CRSs que carreguem!
- A greve geral ilimitada foi proclamada!
- Todos s barricadas! - Exclamou um jovem brandindo seu revlver.
- Vamos para casa. - Insistiu uma mulher, puxando o marido pela manga.
A sada deles foi seguida por outros.
- Os covardes! - Disse entre os dentes a sra. Martel-Rodriguez.
Um muulmano abriu caminho na multido; sua presena no meio dos europeus destoava. Apavorado, ele se plantou diante da mesa.
- Madame! Madame! Vamos embora!
- De jeito nenhum: eu fico! Mustapha  meu motorista. - Disse ela para La. - Est a meu servio h cinqenta anos, faz parte da famlia.
- Madame! - insistiu o motorista. -  preciso ir embora, pense nas crianas!
- Voc tem razo, leve-as com voc.
- Queremos ficar! - Gritaram os irmos.
- Na ausncia de seus pais, eu sou responsvel por vocs. Portanto, obedeam sem discusso!
- Madame...
- Basta! Mustapha, leve-os e pea a seu filho que tome conta deles. Venha me buscar l pelas dezenove horas. O carro ainda est na Rua Mogador?
- Sim, madame.
- Passe pela Tagarins para evitar as barricadas.
Sozinhas, as duas mulheres ficaram um longo momento pensativas.
- Em que voc est pensando, minha cara? - Perguntou a mais velha.
- Nessa manifestao popular da qual foram excludos os muulmanos.
- Isso  s aparncia Voc sabe, a maioria quer que a Arglia continue francesa. Se eles no esto presentes, hoje,  porque o exrcito os teria rechaado. Voc no  daqui, no pode compreender os laos profundos que nos unem, apesar das nossas diferenas. Acredite, os rabes no ganhariam nada com a independncia... Uma independncia alis, que s  reclamada por um nmero muito pequeno deles.  preciso no esquecer que essas populaes, rabes e berberes, sempre foram colonizadas: romanos, turcos, franceses se sucederam sobre essa terra por sculos. A independncia faria com que voltassem rapidamente para a sujeira e a ignorncia.
Esteja certa de que ns fizemos um bom trabalho. Mas, voc no parece convencida...
- Desculpe-me, mas sempre achei que cabia a cada povo dispor de si mesmo...
- Isso  vlido, sem dvida, para os povos civilizados, no para essa gente... Se voc ficar por um tempo na
Arglia, vou lev-la para conhecer minha propriedade, mas tambm o Oranais e a IKabylie. Voc ver que, apesar de tudo que fizemos por eles, so poucos os rabes que no vivem como animais... Vou lhe dar meu carto. Quando estou em Argel, moro na vila de Hydra; gostaria muito de receb-la. Em que hotel voc est hospedada?
- No Aletti... no, no Saint-George.
- Voc no sabe em que hotel est?
- Mudei ontem. Agora estou no Saint-George.
-  um lugar agradvel... Desculpe-me, preciso ir; preciso ir ver o que est acontecendo... No, deixe, voc  minha convidada; no  todos os dias que encontro uma mulher que fuma charutos e que acho simptica... apesar de certas divergncias de que eu desconfio!
- Obrigada!
As duas mulheres apertaram-se as mos diante da entrada do estabelecimento. Logo, a silhueta da sra.
Martel-Rodriguez sumiu na multido.

Captulo XVIII

Diante do correio, na esquina da Rua Isly, umas picaretas haviam entrado em ao e arrancavam partes do calamento. Uma cadeia humana se formara, ao longo da qual rapazes e moas iam passando os paraleleppedos de mo em mo. Logo, uma nova barricada se ergueu, depois outra na Rua Bugeaud.
Cinco barricadas, algumas reforadas com sacos de areia, tbuas, bancos pblicos ou mveis de bares, foram levantadas no permetro entre o correio e a universidade.
Reinava uma disciplina militar, dizia-se, no interior da Universidade, onde, sempre conforme o boato, teriam armazenado muitas armas, entre as quais doze metralhadoras. Os jovens lanavam insultos na direo dos policiais agrupados em cima das escadarias que rodeavam o monumento aos mortos.
O sol se punha por trs das colinas.
Franois Tavernier custou para passar pela guarda que barrava o acesso ao prdio da Companhia argeliana. No calor dos corredores, o bafo de transpirao, de cerveja, de fumaa ou da graxa das armas pegava na garganta. Os homens carregavam metralhadoras. Uma UT, inclinando- se no alto da rampa, gritou:
-  no terceiro!
A porta do gabinete de Joseph Ortiz estava aberta.
- ... e  preciso colocar os antigos combatentes, com suas bandeiras, na frente da barricada. - Dizia nesse momento o coronel Gardes, cuja barba comeava a azular o queixo.
- Logo vai escurecer. - Cortou Franois, entrando. -  o momento para dispersar a manifestao.
- Est tudo bem, j coloquei metralhadoras e caixas de granadas numa sala vazia da faculdade, tudo sob a guarda de quatro territoriais.
- Informou de uma vez Bernard Mamy que acabava de entrar no gabinete. - Lagaillarde anunciou que atiraria em qualquer coisa que se aproximasse a menos de trinta metros das faculdades... Oi, Tavernier.
Bom dia! Voc est conosco?
- Posso telefonar? - Perguntou Franois,  guisa de resposta.
- Para informar o governo! - Rugiu Ortiz, avanando, cheio de ameaas.
- Apenas ao Saint-George, para ter notcias de minha mulher...
Com um gesto irritado, o prprio sr. Jo discou o nmero: 653-00.
- Ela desapareceu? - Ironizou quando Franois, contrariado, desligou.
Este fez um gesto fatalista e saiu para o balco. Alguns vultos se deslocavam no telhado dos prdios em volta do Bulevar Laferrire. A sombra se estendia sobre o Plat Glires, enquanto as primeiras lmpadas se acendiam. Milhares de homens, mulheres e crianas ainda esperavam. Quantos seriam ao certo? "Trinta mil", avaliou Franois; bem longe dos cem mil previstos. Ele voltou para dentro no momento em que Ortiz dava ordens a Mamy:
- V ao Maurtania ver o que o coronel Broizat est fazendo;  preciso que ele venha e coloque seus homens como tampo entre a multido e a barricada.
- J vou. - Confirmou o tenente.
Franois saiu em seguida. O relgio do correio marcava dezoito e cinco. No Bulevar, ele deu uma olhada na direo do monumento aos mortos. L, uma onda de ansiedade percorreu a multido e algum gritou:
- Os CRSs esto carregando!
Abrindo caminho com os cotovelos, Franois tentou subir na direo da Avenida Pasteur. De capacete, com a lateral dos mosquetes para a frente a fim de empurrar os manifestantes, os guardas avanavam sob uma chuva de projteis e injrias. No meio do tumulto ouviu-se o toque de um clarim. Um tenente-coronel do corpo da guarda destacou-se das fileiras e gritou:
- Dispersar!
A multido respondeu lanando gritos, pedras e garrafas vazias na direo da tropa. Uma granada, vinda no se sabe de onde, rolou no calamento no espao que separava os guardas da populao. De algum lugar um tiro soou. Coronhas para cima, os militares carregaram. Do tnel das faculdades, uma rajada de metralhadoras atingiu muitos deles. Do telhado da caserna de
Douanes, dos prdios ao redor das escadarias do monumento aos mortos e do Bulevar Laferrire, de trs das barricadas partiram muitos tiros. Trs rajadas de metralhadoras, vindo do telhado da Companhia argeliana, atingiram muitos membros das foras de ordem. Tombavam civis e militares. Os guardas usaram ento gs lacrimogneo, O pnico tomou conta da multido que recuou para as ruas transversais, procurando refgio at nas entradas dos prdios.
- Esto nos bombardeando com morteiro! - Babava um homem.
Franois conseguiu atravessar o jardim correndo em ziguezague.
Um pneu cheio de explosivos desceu a avenida Pasteur e veio estourar contra a calada. Os guardas empurrados pelos manifestantes, se esgoelavam:
- Onde esto os pra-quedistas?
Um tiroteio pesado, diante do prdio do Bled impediu-os de prosseguir. Alguns, isolados, foram pegos pela multido. Umas mulheres, inclinadas em seus balces berravam:
- Morte!... Acabem com eles!
Sem pensar nos riscos, Franois acabava de arrancar das mos dos amotinados um jovem policial atingido na cabea. Arrastou-o at o Bled:
os militares abriram a porta.
- Deite-se no cho! - Ordenaram a Franois.
Franois s teve tempo de se jogar de barriga no cho; algumas balas furaram as paredes do jornal.
Aproveitando uma breve calmaria, ele se levantou e precipitou-se para o que parecia comandar a carga.
- Mande tocar o cessar fogo!
- Tenente-coronel Debrosse, eu obedeo a ordens!
- Mas  um massacre!
Uma moa desabava no muito longe dali. Uma mulher idosa inclinou-se sobre ela, em seguida, e olhava para ela assustada. Sem demora, Franois arrastou-a para o Albert para deixa-la abrigada.
- Est tudo perdido! Os franceses atiram nos franceses! - Esganiava-se ela, apavorada.
No bati do hotel reinava a maior confuso: policiais e civis feridos aguardavam socorro, territoriais armados corriam para os andares de cima e os funcionrios, assustados, no sabiam como manter uma aparncia de ordem. Na sala de refeies, uma mulher de cabelos brancos apertava contra o corpo um adolescente que tinha a camisa empapada de sangue, enquanto outra mulher, mais jovem, tentava estancar a hemorragia.  procura de um pano, ela se virou.
- Franois!
La ficou em p diante dele, os cabelos despenteados, as mos cobertas de sangue. Quantas vezes eles tinham se encontrado assim, no meio de acontecimentos fatais?
- Precisamos de um mdico! - Ela gritou.
- Eu sou mdico, senhorita - Apresentou-se um elegante senhor.
Afastando os lados da camisa, ele examinou rapidamente os ferimentos.
- At que enfim, doutor! - Suspirou a sra. Martel-Rodriguez. -  meu neto... Diga-me que no  grave!
- Ponha-o sobre uma mesa. - Ordenou o mdico.
Franois e La levantaram o jovem que gemia.
- Cuidado. - Implorou a av.
- Pode me ajudar? - perguntou o mdico a La.
- Em hiptese alguma, no saia daqui. - Recomendou-lhe Franois, depositando um beijo nos cabelos dela.
- Fique! - Suplicou ela.
- Senhorita, preste ateno no que est fazendo!
- Desculpe, doutor...
L fora, o tenente gritava no rdio:
- Esto atirando de todo lado! Os pra-quedistas no esto aqui! Mande soar o cessar fogo!
Um corneteiro, trmulo, soprou seu instrumento. O silncio se restabeleceu pouco a pouco, mas uma nova rajada de metralhadora cortou-o secamente.
O tenente Marny tentava tambm arrastar um capito da polcia desarmado pelo dio popular. Franois precipitou-se para dar-lhe uma mo. Juntos, conseguiram escolta-lo at o Bled. Quando estavam saindo, encontraram Lagaillarde, sempre com roupa de pra-quedista, boina vermelha na cabea, metralhadora cruzada no peito, atrs do qual gritava um oficial.
-  o capito Lger, chefe dos "uniformes azuis". - Revelou Mamy a Tavernier.
- Ns j nos conhecemos.
- Ento, voc est contente, Lagaillarde? - Gritava Lger. - Que sacanagem o que voc fez!
- Ah, sim, evidentemente. Replicou o deputado, enquanto olhava em volta, afobado.
- Volte para o lugar de onde veio! Voc j fez muita besteira!
Ao redor, os manifestantes, certos de que as foras de ordem haviam atirado primeiro, atingiam com pedradas e socos os policiais feridos que encontravam. De todo lado se ouvia:
- Policiais assassinos!
Franois tentava interferir.
- Capito, ajude-me a salvar estes pobres coitados!
Lger e Mamy vieram em socorro, sob os insultos das mulheres.
- Porcos! Vira-casacas!
No liali do Bled os trs homens respiraram por um instante. Tavernier e Lger trocaram um aperto de mo.
- Parece que voc tem o dom de estar sempre metido em todas as confuses!... Voc veio aqui para observar os resultados do 13 de maio? No foram muito felizes, no ? Na Indochina, a zona no era to grande, no ? - Perguntou o oficial.
- O fim de uma guerra, ou o fim de uma poca,  sempre uma zona.
- Respondeu Franois com um tom plcido. - Podemos conversar sobre isso mais tarde, se voc quiser.  preciso impedir a multido de massacrar os guardas que ainda esto l fora.
Ele se precipitou para fora. Lger e Mamy seguiram-lhe os passos.
Novamente o clarim soou. No silncio que se seguiu ouviam-se gritos e gemidos. Depois, os tiros recomearam. Trs policiais caram nos degraus do correio. Atirados pelas janelas, uns tijolos de explosivo plstico com detonadores enfiados neles explodiram.
- Parem de atirar! - Gritava a plenos pulmes um civil. - Estamos atirando uns nos outros!
Fazia vinte minutos que a matana havia comeado. Mas, onde estavam os pra-quedistas previstos pelo general Challe?
Vindo do Bled, um apelo angustiado partiu de um alto-falante:
- Cessar fogo! Cessar fogo!
Da janela de seu apartamento, situado na esquina da Avenida Pasteur com o Bulevar Laferrire, uma mulher de roupo atirava com uma pistola nas foras de ordem; uma rajada de metralhadoras dirigida a sua veneziana forou-a a se retirar.
Os policiais conseguiram chegar ao Plat Glires onde acreditavam encontrar os pra-quedistas do coronel
Broizat. Um caminho saiu da rua Tafourah: quatro territoriais de boina preta saltaram dele e correram para o canto da Rua Alfred-Lelluch para montar uma metralhadora. Uma rajada atingiu os guardas que recuaram deixando numerosos mortos.
Os boinas pretas subiram de volta no caminho que se afastou na direo de Bab el-Oued. Uns argelianos escondidos por trs das janelas atiravam com suas armas nos feridos que se arrastavam no cho. Abatidos como coelhos, na frente dos prdios os que escapavam se escondiam nos jardins1 outros tentavam se refugiar atrs dos portes de carros, agredindo aqueles que tentassem impedi-los. Um policial, cercado por civis, foi primeiro coberto de pancadas e depois, pendurado no alto de uma escadaria. Na fumaa avermelhada das granadas patinavam aqueles que jaziam por terra.
No alto do Bulevar Laferrire, o tenente-coronel Debrosse deu a ordem de retirada. Ao mesmo tempo, um jipe saindo dos tneis das faculdades parou na Avenida Pasteur diante do monumento aos mortos. Um coronel, de boina verde na cabea, desceu e avanou levantando os braos: os tiros diminuram e, depois, pararam. Os legionrios do 1 REP do coronel Dufour juntaram-se a ele, enquanto os boinas-vermelhas do coronel Broizat desembocavam a passos lentos no Plat
Glires. Os manifestantes da barricada da Rua Charles-PgUY aplaudiram. Um jovem brandindo uma bandeira maculada com o sangue de um de seus companheiros colocou-a sobre a barricada diante da qual ele havia tombado. Os pra-quedistas se espalharam sem dar um tiro, prestando socorro aos policiais que haviam se refugiado nos prdios vizinhos e que a multido queria linchar. Eles recolheram os feridos dos dois lados. Pessoas transtornadas corriam para todos os lados, outras giravam sem sair do lugar, tomadas por uma crise de nervos, mulheres gritavam de terror, crianas choravam, pais juravam vingana diante de um filho morto. O tenente Jean-Marie jarque, originrio de Frontignan, estirado no irnil do Bled, deu seu ltimo suspiro depois de pronunciar estas palavras: "Morro desesperado! H vinte e quatro meses que luto contra os feita glias na Arglia francesa. E tombo aqui, em Argel, atingido por balas francesas atiradas por pessoas que gritam 'Arglia francesa!'... Eu no compreendo!"
Ningum compreendia. Os policiais gritavam que tinham sido trados: "Mandaram-nos para uma emboscada, nossos chefes disseram que a multido no estava armada..." O exrcito acusava Ortiz de ter mandado atirar sobre as foras de ordem. O dono do caf For,iiiz criticava
Chalie por no ter respeitado o "acordo" deles. Lagailiarde afirmava:
"Meus homens no atiraram." Os provocadores disfarados de policiais, haviam atirado pelas costas nos homens que desciam as escadarias do monumento aos mortos, enquanto outros foram vistos, misturados aos manifestantes, atirando nos militares ou soltando pneus carregados de explosivos... Para os manifestantes, estava claro que os policiais haviam atirado primeiro neles. Para os militares, o primeiro tiro partira da direita da Avenida Pasteur, do lado da Universidade. Mas, uma evidncia se impunha a todos: "algum" quis que o sangue francs corresse em Argel. Quem? Ortiz e seu partido? O lyse? A FLN? O servio secreto americano?
As sirenes das ambulncias rasgavam a noite que acabava de cair. No Hospital Mustapha, cirurgies e enfermeiras, sobrecarregados de trabalho, tentavam dar conta da quantidade de vtimas...
s vinte horas contavam-se quatorze mortos e cento e vinte trs feridos entre os policiais; seis mortos e vinte e quatro feridos entre os civis.
A rdio de Argel divulgou um comunicado do general Challe: "Enquanto o exrcito e seus comandantes tudo fizeram, durante todo o dia 24, para manter a ordem, sem molestar os manifestantes, ao cair da noite, os amotinados que haviam pacientemente esperado para atingir seus maus propsitos atacaram e atiraram nas foras de ordem. Essas foras, que at agora protegeram a Arglia dos fellaghas, contam mortos e feridos. A rebelio no triunfar contra o exrcito francs. Vou mandar vir para Argel os regimentos do interior. A ordem ser mantida com a concordncia do Delegado Geral do Governo; declaro a cidade em estado de stio.
Qualquer reunio de mais de trs pessoas est proibida.  tudo."
O exrcito controlava no momento a regio situada entre o Governo Geral e as primeiras barricadas. Mas, aquilo em que o alto comando no acreditava, estava acontecendo: rebelados e pra-quedistas confraternizavam. Numerosos oficiais pensavam que havia chegado a hora de forar o Chefe de Estado a pronunciar as palavras que eles esperavam h muitos meses.
Ningum, alis, respeitava o toque de recolher decretado s vinte horas, curiosos iam at as barricadas para "ver o que estava acontecendo", garrafas trmicas com caf circulavam de mo em mo, trocavam-se cigarros e informaes na mais completa baguna. O coronel Dufour foi visto entrando no QG de Ortiz, que o recebeu impondo condies:
"Primeiramente, todos os corrompidos fora. Em segundo lugar, um governo de salva-guarda nacional. Em terceiro, no ter mais nada que ver com a Delegao Geral." Lagaillarde, por sua vez, concordava em encontrar-se com o general Gracieux, comandante do 1O DP, mas advertia: "General, eu no atiraria no senhor. Mas, se os pra-quedistas receberem essa ordem, no poderei, como fao neste momento, impedi-los de desertar e de me juntar a eles." Por seu lado, o general Gracieux prometera no empreender nenhum ataque durante a noite contra o campus da faculdade.
Os pra-quedistas haviam invadido o hall do Bled e o do Albert, onde as enfermeiras ministravam os primeiros cuidados aos feridos antes de transport-los para as ambulncias. Com o rosto cansado, La tentava reconfortar uma mulher jovem que fora atingida nas pernas e que no parava de chamar pelo filho, perdido durante uma agitao de pnico. Os carregadores de macas afinal levaram-na para a ambulncia;
La, apesar de tudo, viu-a partir com alvio.
Logo, s restavam sobre o piso do hotel alguns frascos de sangue e lenis sujos. La deixou-se cair numa das poltronas do hall e fechou os olhos. O porteiro, em mangas de camisa, encarou-a com admirao; no era sempre que se via uma mulher agir com tanta eficcia. Ele dirigiu algumas palavras ao maitre, que, tambm em mangas de camisa, autorizou. Ele desapareceu e voltou, pouco depois, trazendo uma garrafa. Um garom o seguia com copos. Os dois homens se aproximaram de La que, adivinhando a presena deles, abriu os olhos; ela sorriu, mas seu rosto estava exausto.
- A senhora devia beber alguma coisa, vai lhe fazer bem...
-  uma idia excelente. - Respondeu ela, endireitando-se. - Voc teria um cigarro?
Quando Franois conseguiu voltar ao Albert, encontrou La cercada de pra-quedistas e de funcionrios do hotel, bebendo e fumando, como se fossem os melhores amigos do mundo, e comentando triste- mente os acontecimentos do dia. Ele se juntou a eles, pensando que mais tarde teria tempo de ir ao quartel
Rignot. Todos eles elogiavam a coragem da mulher dele, sua boa vontade, sua habilidade. Os dois se olharam com aquela expresso de cumplicidade que, somente eles sabiam, significava: "Em que nos metemos de novo?" Erguendo os copos, caram na gargalhada ante o olhar surpreso e um pouco chocado da assistncia. Atrs deles, algum anunciou:
- O Delegado Geral est falando no rdio!
Todos se viraram para o aparelho que o recepcionista acabava de colocar no balco:
"... ns fizemos de tudo para evitar o que aconteceu: o derramamento de sangue. Como eu disse e repeti, como todo mundo compreendeu e ouviu, as foras armadas, com uma profunda tristeza no corao e depois de terem demonstrado uma grande pacincia durante todo o dia, tiveram que cumprir seu dever.
Eu me inclino diante de todas as vtimas: as das foras de ordem e aquelas cujo patriotismo arrastou-as para um erro trgico.
A ordem ainda no foi restabelecida: alguns se obstinam em querer "sua" insurreio, coisa que os lderes da manifestao desta manh nunca desejaram.
Vocs ouviram h pouco o general Challe. Que todos compreendam afinal a inutilidade de tal loucura. Que todos se dediquem a fazer os desesperados voltar  razo. Apelo aos que foram eleitos, s personalidades importantes, aos pais dos estudantes, e que, todos juntos, obtenhamos a paz para continuar a luta..."
Com raiva, uma mo interrompeu o discurso de Delouvrier.
- Palavras! Sempre palavras! - Soltou o matre, enquanto enxugava a testa.
Foi o nico comentrio.
O capito Lger, que trocara sua farda por uma de pra-quedista, atravessou a porta de entrada correndo.
- Tavernier! Esto chamando voc no quartel Rignot. Muito bem e obrigado por sua ajuda!  raro que os polticos participem dos acontecimentos quando existe algum risco de se machucarem.
Franois ergueu os ombros.
- Vamos, o general Chalie o espera.
- J vou. Antes, vou acompanhar minha mulher... La, apresento- lhe o capito Lger.
- Boa noite, capito; o coronel Leroy j havia me falado de voc.
xxx
Lger observou atentamente aquela linda mulher; ele tinha certeza de que nunca a tinha encontrado.
- Boa noite... A senhora esteve na Indochina?
- Por favor. - Interrompeu Franois. - Vocs conversaro sobre suas guerras numa outra ocasio. Lger, nos encontramos l!
- No posso larg-lo de jeito nenhum!
- Como quiser, mas preciso recuperar a moto que peguei "emprestada" de um ordenana... Venha.
- E onde est essa moto?
- Em algum lugar na rua, l pela Avenida Laferrire.
Rgine DefOrges
Argel, cidade branca
- E voc acha que vai encontr-la?
- Naturalmente. Espere aqui, querida.
- Eu vou com voc.
- Pode ser perigoso.
- Dane-se!
- Senhora, seu marido est certo...
- Meta-se com seus assuntos!
- O que eu queria dizer...
Enquanto falavam, atravessavam a Avenida Pasteur, congestionada agora com veculos militares e ambulflcia5. O capito Lger assobiou. Dois homens - dois rabes vestidos de uniforme azul - apareceram ao lado dele, como num passe de mgica. Automaticamente, La notou os cabelos cheios de brilhantina de um deles parecendo urna armadura.
- Voc, sempre com seus anjos da guarda. - Constatou Franois.
- Como voc observou, no ando sem eles.
Na frente do Bled, que se tornara o QG dos pra-quedistas retiravam os ltimos feridos.
No Bulevar Laferrire, tropeava-se em todo tipo de objetos: calados, garrafas vazias, cartuchos de balas, roupas, pedaos de pneus de madeira ou de ferragens... Pginas de jornais voavam para o porto cujas luzes se refletiam na gua. Para l do Plat Glires, tudo parecia calmo.
Diante da barricada da Rua Charles-Pguy, uns jovens usando um tipo de uniforme aguardavam na frente do QG de Ortiz, pedindo para se alistar nas fileiras dos revoltosos. Sob o olhar dos pra-quedistaS que no se moviam, as armas circulavai.
O capito Lger e seus homens tiveram que forar a entrada do prdio, defendido por UTs armadas, onde
Franois havia abandonado a motocicleta. Para a grande surpresa deles, ela se encontrava ainda embaixo da escada, exatamente onde ele a tinha deixado.
- Eu vou com voc. - Advertiu o capito montando na garupa.
Franois teve que instalar La na frente dele.
- Voc  um grude, meu velho! - Lanou ele enquanto partia.
A vista do capito Lger, as barragens levantavam-se uma aps a outra. Chegando rapidamente ao Hotel
Saint-George, Franois acompanhou La at o quarto. Sem urna palavras ela encolheu-se no peito dele. Ele tambm no disse nada; tanto um como o outro sabiam que era intil, e que mais uma vez o destino os tinha conduzido infalivelmente para o centro de acontecimentos sangrentos. FranoiS no acreditava na
Arglia francesa. Ele admirava de Gaulie sem ser gaullista, persuadido de que somente o General era capaz de tirar a Frana do imbroglio argeliano ao mesmo tempo em que lamentava que o Chefe de Estado se mostrasse to pouco claro a respeito de suas intenes. Quanto a La, ela se sentia um joguete das circunstncias, embora reconhecesse que muitas vezes agia por vontade prpria: ajudar a FLN como ela havia feito, por urna preocupao instintiva de justia, mostrava mais um ideal adolescente do que um engajamento maduro e refletido.
- Ns jogamos com nossas vidas como se isso fosse valoriz-las mais.
- Disse ela, como se falasse sozinha.
Franois afastou-a  distncia de um brao. Ele olhava intensamente para esta mulher que por tantas vezes tivera medo de perder. O que ela acabava de dizer era a mais pura verdade: ambos se expunham deliberadamente ao perigo, assim como esses loucos que jogam a roleta russa, sem pensar, nesses momentos, um no outro. Mais grave: eles o faziam sem se preocupar com os filhos que, desde que nasceram, viviam na angstia de v-los desaparecer. "Precisvamos nos tornar responsveis", pensou ele.
O absurdo de seu pensamento arrancou dele um riso que tambm considerou idiota. La, sem dvida, pensou a mesma coisa, pois declarou:
- Ns somos dois imbecis!
Tavernier encontrou Lger no bar do hotel e pediu um usque duplo.
- Problemas? - Perguntou o capito.
- No lhe acontece s vezes de se considerar um imbecil?
- No muito.
- Voc acredita nisso?
- Em qu?
- Deixe para l, no tem importncia...
- Acabe sua bebida, esto nos esperando.
- Que esperem! No so uns minutos a mais ou a menos qe mudaro o rumo das coisas!
- O que voc quer dizer?
- Nada, capito, nada. Bobagens... Vamos?
L fora, os "anjos da guarda" esperavam pelo chefe.
- Bem, rapazes, venham conosco at o quartel Rignot.
No quartel general, a atmosfera estava eltrica. Uma delegao de eleitos de Argel deixava o lugar, acompanhada por Phlippe Thibaud,
Argel, cidade branca
Rgine Deforges diretor de informaes do Governo Geral.
- Voc j viu... - Lanou ele na direo de Franois. - Uma manifestao em que as foras de ordem, que atiram contra a multido, sofrem nove dcimos das perdas?
Quando Tavernier entrava no gabinete onde estavam os responsveis militares por Argel, ele ouviu o general Chalie dizer ao telefone:
- ... posso dar a ordem de acabar com as barricadas  fora. Duas hipteses: ou me obedecem ou no me obedecem. Se no me obedecerem  a anarquia. No posso me arriscar.
-  espantoso!  impensvel! Se atacarmos, sero muitas mortes.  impossvel atacar! - Exclamou o general Crpin.
- Quanto a mim, no estou muito certo de que a ordem seria executada. Meu maior medo, no momento,  ver os oficiais de minha diviso juntarem-se aos que esto nas faculdades. - Disse o general Gracieux.
Franois aproximou-se do coronel Argoud, que estava mais decomposto do que nunca.
- Como esto as coisas? - Perguntou ele.
- O general Chalie, considerando que o coronel Fonde era o principal responsvel pela situao, retirou-lhe o comando do setor "ArgelSahel". Entregou a seqncia das operaes ao general Gracieux, comandante da lOa diviso de pra-quedistas. - Exps o coronel com uma voz seca.
- O que quer dizer que Argel est nas mos dos pra-quedistas. Belo golpe!
- No tenho nada com isso.
- Pode ser, mas confesse que isso vem a calhar...
Sem responder, Argoud se virou. Mas, quando o general Gracieux se dirigiu, com a mo estendida, para
Franois, o coronel Fonde se interps entre eles.
- Se os pra-quedistas tivessem obedecido, se eles tivessem mantido estritamente as barragens, no teria havido manifestao e a multido no teria vindo gritar "o exrcito est conosco!"... Seus pra-quedistas engoliram as mentiras de Ortiz e de seu bando segundo as quais foram os policiais que atiraram, e eles acreditam que so os nicos bons sujeitos da Arglia. Voc contribuiu para isso, general. Agora, ento, vire-se!
Fonde saiu, empurrando seu substituto.
- Boa noite, Tavernier. Como vo as coisas desde a Indochina? Cumprimentou-O Gracieux, como se no tivesse acontecido nada.
- Bem, general. Fico feliz em v-lo.
- Eu tambm, Tavernier, ainda que seja nessas circunstncias... Achava que voc estava vivendo tranqilo,  sombra dos coqueiros cubanos, e encontro voc aqui, mergulhado nesta encrenca! Voc deve gostar disso: nunca vi um civil embarcar como voc para qualquer lugar onde as coisas estejam fervendo para a Frana!
- So as circunstncias, meu general...
- Elas tm costas largas, as circunstncias!
Um capito fez sinal a Gracieux, que se inclinou para escut-lo. Franois aproveitou para se dirigir ao general Chalie, sentado atrs de sua mesa, com o cachimbo apagado na boca; ele parecia esgotado. Os dois homens se olharam friamente. Franois sentou-se sem que mandassem.
- Suponho que o Presidente da Repblica foi informado da situao... Quais so as instrues dele?
Os dentes do general morderam nervosamente a haste do cachimbo e seu rosto assumiu uma expresso assassina.
- O general de Gaulle deixa a nosso encargo escolher os meios, contanto que tudo esteja em ordem amanh de manh... quer dizer, hoje! "Empreguem a persuao se for possvel, a fora se for necessrio. Lembremse de que vocs representam o Estado." So as palavras dele. Ele no se d conta! Mas, em nome de Deus, para que voc serve? Voc no podia explicar a ele?
Franois cortou-o:
- General, voc e Delouvrier foram os ltimos a se encontrar com o Chefe de Estado e falar da tenso que aumentou nos ltimos tempos. Ele no os ouviu. Como voc pode acreditar que ele ouviria a mim?
- Ento, para que ele o mandou aqui?
Era tambm o que Franois se perguntava... No recebendo uma resposta, Chaile continuou com um tom mais calmo:
- O Delegado Geral tenta, neste momento, obter do general de Gaulle que ele fale e se declare determinado a impor uma soluo francesa  Arglia...
- O que vocs entendem por isso?
- Que de Gaulie e seu governo decidam-se de uma vez por todas, mostrando-se claros e precisos, que eles declarem que querem a opo francesa para a Arglia. E a revolta acabar por si mesma...
Delouvrier irrompeu, brandindo umas folhas de papel cobertas por uma letra redonda, quase feminina, rasurada em alguns pontos.
- Eu tenho o texto do apelo do Presidente da Repblica! Discuti cada termo com o Primeiro-Ministro.
L
Rgine DeforgeS
Arge', cidade branca
- Quando ser divulgado? - Perguntou em seguida o general Chaile.
- s duas horas da manh da metrpole.
_EemArge
-  preciso ver com a France-V... Enquanto esperamos vou ler para os senhores: "A rebelio que acabou de estourar em Argel  um golpe dado na Frana diante do mundo. Um golpe dado na Arglia. Um golpe dado na Frana no seio da Frana. Com o Governo, com a concordncia do Parlamento, chamado e sustentado pela nao, assumi a Chefia do Estado para levantar nosSO pas e, notadamente, para fazer triunfar na Arglia dilacerada, unindo todas as comunidades, uma soluo que seja francesa.
Digo com toda a lucidez e com toda a simplicidade que, se falhar em minha tarefa, a unidade, o prestgio, o destino da Frana, sero ao mesmo tempo comprometidos. E, principalmente no haveria mais nenhuma chance para ela de prosseguir sua grande obra na Arglia.
Conjuro aqueles que se levantam em Argel contra a ptria extraviados que devem estar por mentiras e calnias, a voltar  ordem nacional. Nada est perdido para um francs, quando ele se junta  sua me, a
Frana.
Exprimo minha confiana profunda em Paul Delouvrier, Delegado Geral; no general Chalie, comandante em chefe; nas foras que esto sob suas ordens para servir a Frana e o Estado;  populao argeliana to querida e to sofrida.
Quanto a mim, cumprirei o meu dever.
Viva a Frana!"
Delouvrier levantou a cabea. Percebia-se a emoo que ele sentia ao ler a mensagem do Chefe de Estado.
Ele pareceu surpreso com o silncio da assistncia.
- Obtive, enfim, do Presidente as palavras to esperadas e  esse o efeito que elas tm sobre vocs?! Exclamou o Delegado Geral, visivelmente desapontado.
- No h nada de novo nisso. - Disse finalmente Argoud.
- Merda, ento! - Exclamou Challe. - O que lhe falta?
- O general deveria ter dito: "a soluo mais francesa". - Insistiu Argoud.
Paul Delouvrier largou-se numa cadeira, esgotado.
- Voc tambm pensa assim? - Perguntou a Franois.
- No. Mas esse apelo  intil: ele no ser ouvido nem pelos revoltosos nem pela populao. O senhor deveria advertir o general de Gaulie.
- Ligue voc; eu no vou acord-lo novamente, de jeito nenhum.
- Ns sabemos, o senhor e eu, que isso no adiantaria nada. Vou fazer um relatrio que ele receber de manh.
- Exijo tomar conhecimento dele.
- Eu tambm! - Acrescentou o general Chalie.
- Como quiserem, senhores. Posso dispor de um lugar tranqilo para trabalhar?
Perto da meia-noite, em Paris, para onde o Chefe de Estado tinha voltado de Colombey-les-Deux-Eglises, acompanhado da sra. de Gaulie, o general encontrou o Primeiro-Ministro, Michel Debr, no Palcio do lyse. Pierre Guillaumat, Ministro do Exrcito, e o Ministro do Interior, Pierre Chatenet, foram imediatamente convocados.
Na Universidade e na Companhia Argeliana, os revoltosos se instalaram, aguardando. Junto a Lagailiarde, os sentinelas, em impecveis uniformes de pra-quedistas, montavam guarda, enquanto junto a Ortiz, bebiam e jogavam cartas, com as armas  mo. Corria o boato de que Massu estava para voltar...
A noite estava fria e o cu, estrelado. Por trs das barricadas, haviam acendido fogueiras em volta das quais os revoltosos vinham se aquecer. Os policiais, por sua vez, haviam voltado para o recinto do
Governo Geral. Quanto aos pra-quedistas, eles acampavam nas ruas em volta, dormindo um pouco nos seus sacos de dormir.
Um pouco depois das duas horas da manh, as comunicaes telefnicas entre a Frana e a Arglia foram cortadas.

Captulo XIX

O sol se levantava naquela manh de segunda-feira sobre aquilo que a imprensa chamaria de "campo entrincheirado".
As ltimas fogueiras se apagaram, pra-quedistas e rebeldes partilhavam caf e sanduches num ambiente de camaradagem. Mulheres, mes, sposas, filhas dos "combatentes" das barricadas traziam croissants quentes, garrafas trmicas com ch ou caf. O dia ia ser lindo: a greve geral havia sido decretada, as escolas fechadas, os veculos de transporte pblico tinham ficado nas garagens, a atividade no porto era inexistente. Apesar das vtimas da vspera, flutuava no ar um clima de frias. No terrao no QG de Ortiz, o cano da metralhadora continuava apontando para o prdio do Governo Geral, as bandeiras francesas tremulavam, enquanto os alto-falantes difundiam sempre msica militar.  medida que a manh avanava, as famlias vinham dar apoio aos "heris", com os braos carregados de comidas e de bebidas. Brincando, comentavam o apelo de de Gaulle. Ouviu-se mesmo um coronel de praquedistas exclamar: " preciso explorar o que os civis fizeram. No  a hora de quebrar a mquina que vai levar o Governo  composio." Em volta dele, todos aplaudiram.
No quartel Rignot, Franois Tavernier havia terminado de redigir seu relatrio e mandou que uma secretria datilografasse antes de mostrlo a Challe e Delouvrier. Quando procurava um lugar para se refrescar, chocou-se com o comandante em chefe que saa de um banheiro, enxugando o rosto. Os dois homens, que no haviam pregado o olho durante a noite, trocaram um aperto de mo sem pronunciar uma nica palavra.
Franois fechou a porta do banheiro. O espelho, em cima da pia, mostrava-lhe a imagem de um sujeito de olhos vermelhos, expresso cansada, barba cerrada. "Que cara!", pensou ele, abrindo a torneira. A gua tinha gosto de ferro, mas estava fresca e afugentou por um momento o sono. Ele estava descontente com seu relatrio, que, parecia- lhe, s dava uma idia aproximada da gravidade da situao. Como fazer o
Chefe de Estado compreender que muitos oficiais se mostravam no somente favorveis  rebelio, mas que muitos tinham mesmo encorajado e, alguns, suscitado? No eram os fascistas de Ortiz nem os loucos por guerra de Lagailiarde que ele temia, mas os coronis, fanticos pela Arglia francesa, os Gardes,
Argoud, Broizat, Meyer etc., que, segundo ele, s esperavam a oportunidade para tomar o poder. Se de
Gaulie estava resignado  independncia da Arglia, como pensava Franois, o que ser que pretendia?
Sem dvida, o homem do 18 de junho sabia o que estava fazendo, mas as sutilezas polticas escapavam ao temperamento direto de um Tavernier, e este no ignorava que seu relatrio pareceria simplista aos olhos do Presidente da Repblica. Voltando para a mesa da secretria, ele releu o texto, fez algumas correes e pediu  funcionria que mandasse cpias para o general Challe assim como a Paul Delouvrier.
Dos jardins do quartel Rignot ele podia ver o telhado do Hotel SaintGeorge. Imaginou La dormindo e teve desejo de apert-la em seus braos. Voltou ao hotel a p.
Encontrou-a sentada na cama, tomando o caf da manh. A felicidade que se estampou no rosto dela quando o viu, comoveu-o. Ele tirou a bandeja dos joelhos dela, afastou as cobertas e deitou-se do lado dela.
- Eu quero voc. - Murmurou ele no pescoo dela.
Enquanto ele tomava banho e se barbeava, La tentava ligar para Paris; ela precisava ouvir a voz das crianas.
- Toda comunicao com a metrpole est suspensa at segunda ordem. - Informou a telefonista.
Ela desligou, com um aperto no corao.
Saindo nu do banheiro, deixando um rastro de gua nos ladrilhos, Franois percebeu as sobrancelhas franzidas e o ar triste de La.
- O que aconteceu?
- No se pode falar com Paris.
- Eu sei.
- Isso vai demorar muito?
- No tenho idia... Voc devia voltar para a Frana.
- Aconteceu algo de novo durante a noite?
- No que eu saiba... mas Lagaillarde ameaa explodir tudo se for atacado, e Ortiz deve acreditar que tem a vitria nas mos. Quanto aos pra-quedistas presentes diante das barricadas, no se deve contar com eles para atacar... Eu ficaria mais tranqilo se voc no estivesse aqui.
- Eu sei, meu querido, mas prometi quela velha senhora cujo neto foi ferido ontem, que iria visit-la hoje.
- De jeito nenhum,  muito perigoso ir  cidade...
- Ela no mora no centro, mas em Hydra. Prometi que iria, e vou.
Franois sabia que a menos que a amarrasse na cama, ela iria. De repente, sentiu-se muito cansado.
- Prometo ter cuidado. No vai me acontecer nada, ela vai mandar o motorista assim que eu chamar.
- Se  assim... mas me deixe o nome dela, o endereo e o telefone.
- Claro. E voc, o que vai fazer?
- Vou voltar ao quartel Rignot.
- Por favor, no faa essa cara. Me d um beijo!
A limusine andava lentamente sobre o cascalho da alameda que conduzia  suntuosa vila mourisca da famfiia Martel-Rodriguez. Dali, dominava-se a baa de Argel. Nos jardins plantados com essncias raras havia uma calma que surpreendia a visitante. No ptio de piso quadriculado onde predorninava o azul, o barulho de uma fonte acentuava essa impresso de paz e bem-estar. Um empregado muulmano, com um bigode impressionante, inclinou-se diante dela; ele estava acompanhado da filha, vestida com roupas knbyle.
- Sada vai lev-la para junto de madame.
La seguiu-a, admirando a luxuosa simplicidade do lugar, os tapetes magnficos e as suntuosas composies florais. Saida bateu a uma pesada porta de madeira trabalhada com madreprola e marfim, depois se afastou para deix-la entrar. A sra. Martel-Rodriguez estava no fundo de um cmodo enorme, no centro do qual reinava uma cama com baldaquim de onde pendia o tule branco de um mosquiteiro. Vestida com uma tnica de l branca bordada em prata, ela veio at La, com os braos abertos e beijou-a nas duas faces.
- Obrigada, mil vezes, por ter vindo, cara amiga.
- Como est seu neto?
- Melhor, graas a Deus; a noite foi boa. O mdico que saiu daqui afirmou que ele est fora de perigo.
- Ele no est no hospital?
- No. Eu insisti para que ele fosse cuidado em casa; no gosto de hospitais. Meu pai mandou construir uma enfermaria-modelo para a nossa gente. Temos um mdico na propriedade e trs enfermeiras se revezam  cabeceira dele.
- Ele tem mais sorte que os infelizes de ontem!
- Certamente, mas ele teve sobretudo a sorte de voc estar l, sem a sua interveno, a hemorragia teria sido fatal, com certeza. Eu lhe serei eternamente grata. Vou, no entanto, acender umas velas  Madame
Africa... Pela sua cara surpresa, imagino que voc no sabe do que estou falando:  assim que, catlicos, judeus ou muulmanos, chamamos a Virgem Negra da Baslica Nossa Senhora da frica. Madame Africa cria essa unio to pregada por Mohamed Duval...
- Quem  Mohamed Duval?
- O Arcebispo de Argel, monsenhor Duval, que ns chamamos assim porque alguns o acham muito ligado aos muulmanos.
- E ele ?
- Com certeza, no mais do que deve ser um servidor de Deus cristo. Ele gosta de dizer "que um homem que sofre, seja qual for sua origem, seja qual for a sua condio,  Jesus Cristo". Acho que ele tem razo...
Voc ouviu falar do apelo do general de Gaulle?
- No.
- No consigo compreender esse homem: eu o encontrei em Argel, em 1943, numa recepo na vila dos
Oliviers. Ainda posso v-lo passando, rijo, com um passo decidido, um cigarro entre os dedos, seu nariz comprido, suas grandes orelhas e aquele bigode ridculo. Na minha famlia, ramos todos gaullistas; o que estava longe de ser o caso de toda a colnia: as pessoas, na maioria, eram adeptas de Ptain. Encontrei-o novamente, em Paris, em 1946 e, pela ltima vez, na sua primeira visita de 1958  Arglia. De todas as vezes, tive a mesma impresso: um homem solitrio, que no ouve ningum, tendo de si mesmo o mais alto conceito, e da nao francesa, uma viso idealizada, voluntariamente idealizada. Portanto, falsa.
- No ter sido isso, precisamente, que permitiu que ele cumprisse seu destino?
- O dele, sem dvida, mas e o da Frana, e o da Arglia Ele no nos v como ns somos, ele no compreende as humildes motivaes dos homens deste pas. Ele tem sonhos de grandeza quando ns s pedimos um cotidiano pacato, harmonioso. Ele ama uma Frana abstrata. No conhece a terra como a conhece um campons ou aquele que fez um jardim de um pedao do deserto.
- Voc fala de um cotidiano harmonioso, mas no  assim para a populao muulmana...
A sra. Martel-Rodriguez fez um gesto irritado que endureceu os traos de seu rosto ainda bonito, depois respondeu secamente:
- Voc fala como os franceses da Frana. O cotidiano dos muulmanos  difcil,  verdade, mas seria muito mais se ns no estivssemos aqui. Ns trouxemos tudo, construmos tudo, aqui: as estradas, as escolas, os hospitais. Ns cultivamos esta terra, ns a tornamos rica e prspera. Deixe-a nas mos dos rabes e s crescero pedras! A maior parte deles so pessoas sujas e vagabundas, O isl os embrutece: veja a condio das mulheres... Voc aceitaria ser tratada como uma besta de carga, no ter o direito de sair sozinha na rua, de estudar, ser obrigada a criar uma enormidade de filhos?... No, no ? Graas a ns, algumas meninas podem ir  escola. Porque, veja, no  inteligncia que lhes falta, mas a vontade de aprender. Na minha casa, todo mundo sabe ler e escrever e, seguindo o que faziam meu pai e meu av, ajudo aqueles ou aquelas que querem prosseguir nos estudos. Tenho atualmente em Montpellier quatro garotos e duas garotas na universidade.
- Muito bem, dou-lhe os parabns. Mas, e os outros, todos os outros, o que acontece com eles?
- At que colocassem na cabea deles essa idia de independncia, eles se tornavam aquilo que haviam sido seus pais, reconhecidos pelo que fazamos por eles.
- E, para a senhora, isso  justo e bom?
- No h justia neste mundo, minha criana. Devemos aceitar a vida que nos  dada...
- Se voc tivesse nascido no meio desfavorvel, tenho certeza de que no aceitaria seu destino e que faria de tudo para escapar dele.
- Isso  natural.
- E por que no deveria ser assim para eles?
Visivelmente incomodada, a sra. Martel-Rodriguez pegou um cigarro numa cigarreira de prata que ela ofereceu a sua interlocutora. La serviu-se e acendeu o seu com o isqueiro que a proprietria do lugar lhe estendia.
A jovem empregada entrou; atrs dela um domstico empurrava um carrinho coberto de guloseimas e de bebidas. La aceitou um caf.
- Eu insisto, experimente estes doces, voc nunca comeu nada parecido em nenhum lugar: eles so leves como uma carcia. So feitos por Farida. Farida tem a minha idade, ns crescemos juntas e  a melhor doceira de Argel... Sada, pea a Farida para vir aqui.
- Senhora, no duvido que eles sejam excelentes, mas no gosto muito de doces...
- Chame-me de Jeanne, por favor... Voc acha que no gosta de doces simplesmente porque nunca experimentou estes aqui... Ah! Farida! Entre.
Uma mulher gorda, com um vestido florido, o rosto tatuado, a cabea coberta com um leno listrado que escondia parte de seus cabelos negros e frisados, apareceu.
- Voc me chamou? - Perguntou ela  patroa. - Os doces no esto bons?
- Excelentes, como sempre. Mas, eu queria que uma amiga de Paris a conhecesse.
- Ela gosta de meus doces?
- Ainda no comi. - Confessou La, pegando um do qual voou uma nuvem de acar.
A sra. Martel-Rodriguez e Farida observavam, esperando a aprovao. La no precisou se esforar para cumprimentar a cozinheira: ela tinha a impresso de que um mel untuoso se espalhava nela.
-  bom. - Gemeu ela, com um sorriso.
A patroa e a empregada trocaram um olhar satisfeito. Seria por causa da corpulncia da empregada?
Emanava de toda a sua pessoa uma fora tranqila. Ela se movia silenciosamente, com delicadeza. Seus olhos escuros examinavam a visitante sem o menor disfarce.
-  uma bela mulher. - Considerou ela, balanando a cabea.
- E acredite. - Continuou a sra. Martel-Rodriguez dirigindo-se a La. - Ela sabe o que diz:  uma das casamenteiras mais respeitadas... Obrigada Farida. No preciso mais de voc.
Quando ela saa, La teve a impresso de ver um rpido brilho de dio no olhar da mulher; o que ela esqueceu em seguida.
- O que voc achou dela? Considero-a uma amiga; ela morreria por mim. Sem mim, estagnaria numa maloca, depois de pr no mundo uma dezena de filhos. Quando seu pai quis cas-la, o meu se ops, a fim de que ela permanecesse exclusivamente a meu servio. Ela jamais lamentou isso.
Ela tomou um gole de ch, enxugou os lbios com um guardanapo bordado.
- Vou fazer umas visitas no hospital. - Continuou ela. - Voc quer me acompanhar? Eu gostaria muito.
Depois podemos almoar em Madrague.  um lindo porto de pescadores, com restaurantezinhos agradveis.
- Se voc quer.
- Perfeito... Estarei pronta em dois minutos.
Um quarto de hora depois, as duas mulheres estavam a caminho do hospital Mustapha.
Recm-barbeado, Franois examinou os rostos cansados do comandante em chefe e do Delegado Geral.
Este mancava novamente: a dor na perna tinha voltado.
- Ns lemos seu relatrio. - Comeou Paul Delouvrier. - Ele  objetivo. Mas no aprovamos a concluso:
"Deixe a situao deteriorar , voc escreveu.
- Estou certo de que  o que o general de Gaulle vai fazer.
- Mas,  uma loucura! - Exclamou, muito vermelho, o general Chaile.
- Eu no acho...
Um tenente entrou, trazendo um despacho. Depois de saudar, dirigiu-se a Franois.
- Tenho uma mensagem do Presidente da Repblica para o sr. Tavernier.
- D! - Ordenou Challe, estendendo a mo.
O tenente obedeceu.
"O que ser que o velho quer de mim?", pensou Franois.
- O Chefe de Estado ordena que voc volte imediatamente a Paris.
- Anunciou ele, passando a mensagem.
Franois pegou-a e leu; a ordem era clara: ele devia embarcar imediatamente.
- Um aparelho pronto para decolar espera-o em Maison-Blanche.
Depois, virando-se para o tenente, acrescentou:
- Que uma viatura esteja pronta tambm para levar o sr. Tavernier ao aeroporto, e que se previna o piloto e a tripulao do avio.
- Preciso passar no Saint-George para pegar algumas coisas e avisar minha mulher... Ah, senhor Delegado, posso lhe pedir para cuidar da segurana dela na minha ausncia?
- Nem precisa pedir. Vou propor a ela que venha se instalar na minha residncia.
- Agradeo-lhe.
- Tente convencer o General a voltar atrs quanto  nao:  a nica maneira de se recuperar a ordem. Disse Challe.
Franois no respondeu; cumprimentou e saiu.
Os barcos de pesca que balanavam na enseada Madrague pareciam brinquedos. Velhos de tnica e turbante contemplavam o mai agachados na soleira da porta de suas casas. Outros jogavam domin, sentados em banquinhos, bebendo de vez em quando um gole de ch. Garotos mergulhavam dos barcos, enquanto mulheres vestidas de branco, das quais s se viam os olhos, cuidavam de crianas que rolavam na areia. Algumas perseguiam ces esqulidos que primeiro fugiam latindo e depois voltavam. Charretes puxadas por burros passavam. Uns patres de pescadores, europeus, bebericavam um anisete na companhia de cinco jovens j bem bbados. O chamado do muezim espalhou-se pelo porto:
uns homens se levantaram e dirigiram-se sem pressa para a mesquita. Jeanne Marte-Rodriguez e La acabavam de almoar.
- Voc est muito calada. - Observou a argeliana. - No gostou do lugar?
- Achei uma delcia, to calmo... Tem-se a impresso de estar a quilmetros de Argel.
- A Arglia, antes, era assim em todos os lugares: doura de viver... Eu vinha sempre aqui com meu pai, quando era criana. Ns tnhamos um barco no qual amos pescar. O barco ainda existe, mas, depois da morte de meu marido, no tive mais vontade de subir a bordo... Voc est pensativa... Est preocupada?
Confie em mim, adoraria ajud-la.
- Agradeo... Como posso dizer?... Eu me sinto to estranha a isto tudo, a este pas, a estes acontecimentos, mas, ao mesmo tempo...
- Continue.
- Jeanne, eu gostaria que voc no se equivocasse comigo... No penso como voc... Veja bem, eu estava ainda em Cuba no ano passado e vi a alegria de um povo...
- Voc compara a Arglia com Cuba?! Desculpe-me, mas no concordo...
- Tanto num caso como no outro,  a guerra dos pobres contra os ricos, dos oprimidos contra os opressores...
- Mas eles eram mais pobres ainda antes da nossa chegada! Ns tambm ramos pobres, mas trabalhamos duro para construir este pas. Ns, opressores? Desculpe-me, mas voc  de uma ingenuidade desconcertante. Foi a imprensa parisiense de esquerda que lhe deu essas idias? No passam de mentiras!
Voc  comunista?... Voc acha isso engraado?
- Sim... Cada vez que algum sonha em voz alta com um mundo melhor  logo taxado de comunista... No, eu no sou comunista.
Utopista, talvez... De qualquer modo, queira voc ou no, a Arglia ser independente.
Uma grande palidez tomou conta do rosto de sua companheira cujos olhos se encheram de lgrimas. La podia sentir o sofrimento dela: ela se lembrava de seu prprio medo ante a idia de perder Montillac. Mas ela se revoltava contra seu egosmo e sua inconscincia. Emocionada, no entanto, tomou entre as suas a mo que agora tremia. Inconsciente- mente, a sra. Martel-Rodriguez retirou-a.
- Se voc soubesse como me faz sofrer... - Disse ela com uma voz trmula. - Este  o meu pas, e eu sempre acreditei que a Arglia era a Frana. Eu sou francesa, amo o meu pas, mas, se tivesse que escolher, escolheria a Arglia... Vou, alis, confessar-lhe uma coisa que no diria nunca aos meus amigos da Arglia:
se, por infelicidade, a Frana se separasse da Arglia, eu ficaria aqui e assumiria a nacionalidade argeliana.
Mas, antes de chegar a esse ponto, eu lutaria de todos os modos para impedir que esta terra que  minha, onde meus avs e meu pai repousam, no caia nas mos da FLN!
Com essas ltimas palavras, sua voz voltou a ficar firme. Ela tirou da bolsa o estojo de p e passou um pouco, a fim de disfarar os traos do seu sofrimento.
A tarde j estava avanada, quando La voltou ao hotel. O porteiro entregou-lhe um envelope com seu nome junto com a chave: o Delegado Geral e a senhora pediam-lhe que se aprontasse para vir instalar-se na casa deles. O que isso significava?
Ela teve a resposta lendo a carta deixada, em seu quarto, por Franois. Ela esticou-se na cama, invadida pela tristeza e pelo cansao. Adormeceu.
Com o passo decidido, La atravessou o hall e aproximou-se do jovem que o porteiro tinha lhe indicado.
- Boa noite, senhor. Eu sou a sra. Tavernier. Agradea ao senhor e  senhora Delouvrier pelo convite amvel, mas prefiro ficar aqui esperando a volta de meu marido.
- Mas, senhora, eu recebi ordens...
- No se preocupe. Aqui est uma carta na qual explico as razes de minha recusa. Leve-a ao sr. Delegado.
At logo e obrigada.
Depois, ela voltou para o quarto, de onde ligou para Joseph Benguigui
Franois tivera a boa idia de deixar-lhe o nmero do telefone do motorista de txi. Foi ele que atendeu.
- Voc podia vir me buscar? - Perguntou ela imediatamente.
- Seu marido precisa de mim?
- No, ele foi para Paris, mas me deixou seu telefone... Voc vem?
-  hora do toque de recolher,  melhor no sair do hotel. Alm disso, na cidade est tudo fechado...
- Se voc no pode vir, eu me viro sozinha!
- Seja razovel: voc no vai encontrar nenhum txi e, se sair, ser imediatamente presa por uma patrulha de pra-quedistas ou da polcia. Voc parece no se dar conta de que h uma revoluo l fora! Se estiver tudo calmo, passo para peg-la amanh de manh... Al Voc est a? Al!
- Sim, al... Voc teve notcias de Malika?
- Nenhuma; os muulmanos esto enfiados em casa.
- Bem... Ento, boa noite.
De mau humor La desligou.
Ela caminhava de um lado para o outro h algum tempo, quando teve a impresso de ter ouvido um barulhinho na janela. Ficou quieta, depois afastou a cortina, quando viu um rosto entre as laranjeiras.
Afinal, reconheceu Bchir. Abriu a janela. Ele ps um dedo nos lbios.
- O que voc est fazendo aqui? - Cochichou ela.
- Estou procurando seu marido.
- Ele est a caminho de Paris... Tem algum com voc?
- Sim, um amigo; foi ele que me mostrou o caminho para chegar aqui.
- O que voc quer com Franois?
- No posso dizer nada a voc. Quando ele volta?
- Amanh, eu acho.
- Espero que no seja tarde demais...
- De que se trata? Voc no quer dizer?... Azar o seu!... Como vai a sua irm?
- No muito bem.
- Algum est cuidando dela?
- Sim, Al-Alem e eu.
- Al-Alem... Quem ?
- Eu. - Disse um garoto, aproximando o rosto das grades. - Yacef, o enfermeiro, no pde vir.
- Mas  preciso chamar um mdico!
Ao mesmo tempo em que pronunciava essas palavras, ela percebeu a estupidez do seu raciocnio.
- Ento, eu vou com vocs. - Disse ela.
Os dois adolescentes se olharam. Al-Alem inclinou a cabea em sinal de assentimento.
- Ao lado do seu quarto, h uma porta que d para o jardim. Est aberta, j verifiquei. Se tiver algum medicamento, traga. Ns esperamos.
Num piscar de olhos, La trocou-se, enfiou uma cala jeans, um pulver e um bluso de couro, depois jogou alguns produtos de toilette na bolsa. Quando ela ia sair, voltou e rabiscou algumas palavras no verso da carta de Franois.

Captulo XX

Aps a partida de La, Charles havia deixado o apartamento da Rua de l'Universit para se instalar num estdio mobiliado, na Rua Linn, alugado de um amigo ator tambm ele "carregador de valises" na poca. O jovem, sabendo que estava visado pela DST, tomara essa deciso a fim de que as crianas no fossem testemunhas de eventuais batidas policiais ou de interrogatrios.
Ainda bem que agiu assim: no dia seguinte  sua mudana, uns investigadores se apresentaram 
Rua de l'Universit. A sra. Martin e Philomne no puderam explicar nada sobre os motivos da ausncia dele.
- Ele est com o general de Gaulle! - Afirmara Claire, depois de se enfiar entre as pernas de sua assam.
- Por que voc diz isso? - Perguntou, ento, um dos investigadores.
- Porque meu papai e minha mame trabalham para ele na Arglia.
Os policiais olharam um para o outro: eles no ignoravam que Franois Tavernier era encarregado oficialmente de uma misso pelo Chefe de Estado, mas tambm sabiam que sua mulher era suspeita de ter transportado fundos para a FLN; somente a ausncia de provas concretas havia impedido que a prendessem. Quando souberam que ela fora se juntar ao marido na Arglia, eles se perguntaram sobre o objetivo dessa viagem. No momento, ainda ignoravam os motivos. Quanto a esse assunto, porm, o chefe da DST, Roger Wybot, havia recomendado-lhes que procedessem com a maior prudncia: levando em conta seu passado, no era impossvel que La Tavernier tambm estivesse em misso ultra-secreta. Alm disso, Jean
Sainteny havia dado garantias do patriotismo dela; assim como o general Salan, alis. Dois testemunhos que era preciso levar em conta. Quanto a seu filho adotivo, eles o pegariam, mais cedo ou mais tarde...
Deixaram, portanto, a Rua de l'Universit pedindo s duas mulheres que os avisassem se recebessem notcias de Charles.
Dois dias mais tarde, Charles mostrava sua nova casa  Marie-France Duhamel. A garota insistiu em fazer algumas transformaes. Num piscar de olhos, as cortinas duplas foram trocadas, a cama transformou-se num div coberto com um forro e enfeitado com almofadas, um tapete caucasiano disfarava o piso sombrio, as luzes das lmpadas foram filtradas com lenos de seda laranja, a mesa de trabalho desapareceu sob as cores quentes de um kilirn, ramos de flores apareceram nos vasos e um autntico Matisse, emprestado da coleo de seu pai, representando uma cena oriental foi preso  parede em frente  estante de livros. O triste apartamentozinho mobiliado transformou-se num agradvel estdio; somente o banheiro e a cozinha escaparam  renovao. MarieFrance quis fazer uma festa de inaugurao. Apaixonado,
Charles no ousou recusar-lhe o prazer.
Foi na poca dos esportes de inverno que eles se tornaram amantes. Desde ento, eles se encontravam quase todos os dias no quarto que o rapaz ocupava na Rua de l'Universit. A vida mundana dos pais dela, a cumplicidade com seu irmo Jean-Marie e de sua melhor amiga, Caroline, facilitavam os encontros. A turma do Pampam rapidamente adotara Charles. Ele tambm havia acabado por se ligar a esses garotos mimados - esses "bluses dourados", como os chamavam seus amigos comunistas - que aproveitavam sem culpa o dinheiro de seus pais, sem esquecer de fazer com que os amigos menos favorecidos tambm aproveitassem. Eles se mostravam generosos com desenvoltura e, por mais de uma vez, Charles pegou um carro emprestado sem que eles fizessem nenhuma pergunta. Nas primeiras vezes, sentiu algum escrpulo em transportar, nos carros de seus novos amigos, os fundos destinados  FLN ou as publicaes proibidas. Mas, seus companheiros, engajados como ele na rede de ajuda  Frente, logo persuadiram-no a no se incomodar com isso. Um dia, o proprietrio de um Dauphine novinho em folha insistiu que ele o experimentasse numa viagem a Genebra; oferta que Charles 'garrou imediatamente: precisava justamente ir buscar um estoque de Usistc,icc algricinie, o jornal clandestino da FLN, impresso na Sua. Ao mesmo tempo, ele seguia o curso da Faculdade de Direito, de maneira irregular; logo, seus professores chamaram a ateno dele por isso. Por sorte, um deles, um amigo de Roland Dumas que havia conhecido em companhia de Francis Jeanson, percebera esse rapaz to diferente dos outros estudantes e tomou-se de simpatias por ele, a ponto de lhe ministrar seus ensinamentos fora da universidade.
Do seu lado, Marie-France ignorava completamente o engajamento poltico de seu amigo. Para ela, a guerra da Arglia no era real; ela sabia apenas que os rapazes de mais de vinte anos eram convocados para manter a ordem do outro lado do Mediterrneo. Sua me preocupava-se com seu irmo, mas contava com as relaes do marido para ver o filho isento do servio militar...
Charles se espantava com o pouco interesse que Jean-Marie e seus amigos tinham pela vida poltica de seu pas e pelo que acontecia pelo mundo. Eles s se interessavam por carros, pelos ltimos discos ou filmes da moda, pela ltima moda, pelas festas e bailinhos do fim de semana e pelas frias que passariam em Deauville ou Saint-Tropez. Eles se diziam gaullistas e anticomunistas, porque seus pais eram, e no pensavam no futuro seno em termos de festas e flertes.
Assim que se conheceram, Charles tentara abordar a questo dos acontecimentos na Arglia, mas logo desistiu: tinha a impresso de que falava uma lngua estrangeira... No podia deixar de estabelecer uma comparao com os cubanos e cubanas da mesma idade que ele conhecera na Universidade de Havana e ao lado dos quais ele mais tarde lutou.
Ocasionalmente, Jean-Marie Duhamel dera-lhe um comeo de resposta a respeito dessa indiferena.
- As histrias de guerra enchem o saco! E o exemplo dos adultos no nos d vontade de nos engajarmos:
durante a Ocupao, nossos pais s pensavam em comer e, como tinham dinheiro, podiam conseguir alimentos no mercado negro. No nosso meio, ramos mais favorveis a Ptain, o vencedor de Verdun;
depois, mais tarde, quando a coisa comeou a ficar feia para os alemes, comeamos a achar de Gaulle legal. Em volta de mim, no havia nem resistentes nem colaboracionistas. Foi s depois do fim da guerra que alguns passaram a dizer que haviam sido maquis ou que tinham escondido judeus. Foi tambm nesse momento que os negcios comearam: os milionrios ficaram bilionrios e os obscuros sucateiros tornaram-se proprietrios de castelos. O dinheiro passou a correr de monte.  claro, houve a volta dos prisioneiros, dos deportados que tentaram contar o que tinham vivido; ningum queria escutar, ningum queria acreditar: o que eles contavam era horrvel demais, impensvel para aqueles que s tinham sofrido com a falta de manteiga e de carvo... Ento, os "fantasmas" se calaram, para no incomodar, por uma espcie de vergonha de terem voltado vivos do inferno no qual os outros se recusavam a acreditar. Um banqueiro judeu, amigo de meu av e que morava perto de ns, estava entre os que haviam escapado. Meus pais o receberam com grandes pompas - pegava bem, naquele momento, ter um velho deportado entre suas relaes... Posso ver aquele velho magro, muito alto e curvado, tentando explicar a meus pais e a meu av o que tinham sido as cmaras de gs e os cadveres congelados que jogavam nos fornos crematrios. Eles se olhavam, como se dissessem: "Ele est maluco."
No entanto, os jornais da poca exibiam, na primeira pgina, esses montes de corpos descarnados entre os quais era difcil distinguir os homens das mulheres! O infeliz, percebendo o efeito produzido no seu auditrio, levantara as mos manchadas, com as veias saltadas e deixara-as cair pesadamente sobre as coxas. Eu estava perto dele e pude notar que uma lgrima corria no seu rosto enrugado. Tive vontade de vomitar e sa da sala. Um ms depois, ele se suicidou. Tratei de esquecer logo aquele velho repetitivo e de aproveitar a vida graas ao dinheiro de meus pais. s vezes, pergunto-me o que eles tentam se fazer perdoar, satisfazendo todos os nossos caprichos. E, no entanto, voc v, no tenho o menor desejo de ser como eles. Eu os desprezo e me desprezo por aceitar essa vida boa. Tenho medo de ficar como meu pai e seus amigos industriais ou financistas. Vou lhe fazer uma confidncia: no pedi a renovao de minha dispensa e alistei-me nos pra-quedistas; devo partir daqui a duas semanas.  o nico modo que encontrei para escapar deles. No diga nada a Marie-France. Voc me d a sua palavra de honra?
Charles deu, com sinceridade: ele compreendia as motivaes de seu amigo. Tentou explicar que se tratava de uma guerra injusta, mas recebeu uma resposta que deixou-o pensativo:
- Por que, para voc existem guerras justas?
Essa pergunta, aparentemente banal, mergulhara Charles num delrio melanclico: ele revia Ernesto
Guevara e Camilo Cienfuegos trocando um olhar amigvel e cmplice aps os combates vitoriosos, ou rindo como garotos brincalhes com seus homens, sujos e barbudos como eles. Eles estavam certos de que a "sua" guerra era justa.
Depois, com a felicidade de amar novamente, esquecera momentaneamente os propsitos daquele que ele chamava de "meu cunhado", e suas reflexes sobre a legitimidade das guerras...
A turma do Pam-Pam veio toda  festa organizada por Charles e Marje-France. A banheira, cheia de gelo, servia de geladeira para as garrafas de champanhe e de Coca-Cola. Jean-Marie se encarregara da msica. Os discos de quarenta e cinco rotaes se empilhavam nos toca- discos que ele trouxera. Patrick Bernard tinha vindo com sua irm
Catherine e uma amiga dela, Christine, com a qual Charles j transportara fundos. Todos se apertavam no estdio. As msicas lentas sucediam aos cha-cha-chas. Marie-France danava, com a cabea apoiada no ombro de Charles. Algum pediu um rock-and-roll. Jean-Marie agarrou a irm pela cintura e os dois jovens deram uma demonstrao que foi vivamente aplaudida.
Charles sentou-se no sof, perto de Patrick.
- Voc no dana? - Perguntou ele.
- Voc chama isso de danar? - Disse seu amigo.
- No seja estraga-prazeres...
- Voc  completamente doido por dar uma festa deste tipo. Com esta barulheira, os vizinhos vo acabar chamando os guardas.
- No, fique tranqilo, ns falamos com eles.
L pelas duas da manh, entretanto, duas batidas na porta interromperam a festa: era apenas a visita de dois policiais bonaches, mandados pela delegacia da praa do Panthon por causa dos telefonemas de um coronel reformado e da viva de um notrio, ambos bastante conhecidos pela polcia das redondezas por suas costumeiras queixas... Os policiais fizeram-nos observar que eles tambm haviam sido jovens, mas os moradores do prdio tinham direito de repouso. De comum acordo, a turma resolveu continuar a festa na Rua Montagne-Sainte-Genevive, numa espelunca recentemente descoberta por Jean-Marie.
A tropa toda desceu as escadas fazendo muito barulho. Marie-France e Charles, ajudados por Patrick, esvaziaram os cinzeiros e recolheram os copos espalhados. Antes de sair, Charles abriu completamente as janelas. Foi ento que percebeu, na calada da frente, no canto de um porto de carros, um homem vestido com um impermevel de gola levantada que, abrigando-se do vento, tentava acender um cigarro. Charles recuou: acabava de reconhecer um de seus "seguidores" habituais. Eles no haviam levado muito tempo para encontrar o rastro dele! Descendo a escada, discretamente avisou Patrick. Na rua, os dois amigos deram o brao a MarieFrance, um de cada lado. Apesar dos casacos quentes, eles foram surpreendidos pelo frio. Atrs deles, o homem, de impermevel ps-se a andar. "Pobre coitado", pensou Charles, "ele deve congelar!" Na rua coles, uma ambulncia passou a toda velocidade; no havia trnsito algum.
Quanto aos parisienses, deviam estar no quentinho, embaixo das cobertas...
Havia uma fumaa to espessa flutuando no ar do estabelecimento da Rua Montagne-Sainte-Genevive que eles hesitaram por um momento antes de juntar-se aos companheiros. L no fundo, eles haviam descoberto uma mesa, uns banquinhos e algumas cadeiras com as pernas bambas, tudo grosseiramente pintado com um verde berrante. Os jovens se sentaram em volta da mesa, ainda cheia de copos sujos. Um garom em mangas de camisa, um avental azul amarrado na cintura, veio pegar os pedidos:
- Cerveja ou vinho tinto! - Anunciou ele, recolhendo os copos.
Na pista minscula, os casais danavam uma valsinha popular ao som de um acordeo. Mulheres de idade indefinida, sem dentes, cabelos opacos e crespos, apertadas nos seus vestidos de cores vivas, provocavam os homens que faziam cara de maus. Jean-Marie levantou-se e tirou uma delas para danar.
Ela aceitou com um sorriso de triunfo que exps uma dentadura frouxa. Charles, incomodado, enlaou
MarieFrance.
- Que lugar miservel  este?
- Voc no gosta?
Ele no respondeu. Um movimento dos danarmos deixou ver uma parte do balco de zinco: o policial de impermevel estava com os cotovelos l. O mais importante: finja que no est nem a! Quando a valsa terminou, eles voltaram a se sentar. Diante deles, a espuma vazava das canecas. Beberam; a cerveja era boa e gelada.
L pelas trs da madrugada, a sala comeou a se esvaziar. Patrick Bernard e seus companheiros aproveitaram para se despedir. Logo, s havia na sala alegre turma, uns bbados refestelados num canto e o policial. Os garons comearam, ento, a virar as cadeiras por cima das mesas, sinal de que iam fechar em breve. Aps uma ltima rodada, JeanMarie pediu a conta e pagou, proclamando solene:
- Vocs so meus convidados!
Voltaram para a rua Linn onde tinham deixado os carros, ainda escoltados pelo policial. Na altura da estao de metr "Jussieu", ele jogou-se dentro de um carro que partiu em seguida. Quando os amigos foram embora, Marie-France e Charles subiram para o estdio.
- Voc no tinha fechado a porta? - Perguntou ela.
- Sim, lgico. - Disse ele, empurrando a porta.
- Meu Deus! O que aconteceu? - Exclamou a jovem.
Tudo tinha sido revirado: mveis esvaziados, cortinas rasgadas, colcho e almofadas cortados, livros jogados para fora das estantes, pginas rasgadas... Eles deram alguns passos, sobre os cacos de loua quebrada, at o meio do desastre, abestalhados, levantando automaticamente uma luminria, pendurando uma roupa, colocando um livro na prateleira. Com os olhos cheios de lgrimas, Marie-France afundou-se numa poltrona cujo assento tinha sido destrudo.
- Quem pode ter feito isso? - Repetia ela sem parar.
Charles fechou as janelas sem dizer nada. Este saque era um aviso, prova de que a DST estava bem informada sobre ele. Alm disso, nos ltimos tempos, muitos membros da rede Jeanson tinham sido presos. Ele se lembrava da assemblia geral da qual havia participado, em Enghien, onde Francis Jearison dava orientaes a seguir caso fossem presos: "Se vocs perceberem que a polcia no tem muita coisa contra vocs, neguem tudo e tentem sair dessa. Caso contrrio, assumam politicamente os atos de que a justia os acusa. No acredito que haja uma caada iminente; de Gaulle no tem interesse em abrir um processo pblico contra os franceses ligados  Frente. Isso seria desastroso frente  opinio internacional."
Enquanto isso, o cerco se fechava em volta dos "carregadores de valises". Era preciso evitar, de qualquer modo, que Marie-France fosse envolvida nisso.
- Voc vai voltar para casa.
- Mas  preciso dar queixa  polcia!
- Mais tarde... Vou chamar um txi.
- Cortaram o fio do telefone.
Era verdade.
- Venha, vamos at o Bulevar Saint-Germain. L, encontraremos um txi.
Depois que o carro se afastou, Charles ficou por um bom tempo  beira da calada, perplexo, perguntandose o que fazer. Ningum os tinha seguido. Sem dvida, eles consideravam que aquilo bastava por esta noite. Cansado, enregelado, decidiu ir para a rua de l'Universit e caminhou pelo cais deserto. Um vento polar soprava; o Sena tinha uns reflexos inquietantes. Quando chegou ao apartamento, tropeou num carrinho largado no cho, bateu numa poltrona de onde caiu uma bola que ficou pulando vrias vezes na entrada: ele ia acordar todo mundo na casa! Prestou ateno, ningum se mexeu. Na ponta dos ps, entrou no seu quarto e jogou-se na cama, completamente vestido.
Foi s no dia seguinte, no final da manh, que Charles se resolveu a dar queixa. O comissrio, visivelmente por dentro dos acontecimentos da noite, assistiu pessoalmente ao seu depoimento.
- Ns temos um relatrio feito por dois de nossos homens, que foram  sua casa por conta de uma baderna.
Voc tem certeza de que no foram seus amigos barulhentos que quiseram lhe pregar uma pea? - Declarou ele ao rapaz.
Ele ficou quieto e assinou o depoimento depois de rel-lo cuidadosamente.
L fora, o frio atingiu-o novamente, O termmetro havia cado para -14v em Paris, e -2O em Savoie.
Apesar do seu casaco forrado de pele e de suas luvas de l, ele tremia de frio. Atravessou a praa do
Panthon. Diante da Igreja Saint-tienne-du-Mont, um carro fnebre esperava, enquanto os agentes funerrios batiam os ps e as mos para tentar se esquentar. Ele entrou num bistr em frente  Escola
Politcnica e pediu um chocolate quente. Ele se perguntava se seria prudente ir  Avenida Villiers, onde deveria pegar o boletim de informao e propaganda, Vrit pour, que j estava no nmero quinze.
Desde que saiu da delegacia, no percebeu ningum o seguindo. Mas isso no queria dizer nada: os caras da DST estavam ficando cada vez mais difceis de se perceber. Decidiu deixar o calor do caf para voltar 
Rua Linn.  luz do dia, a desordem do apartamento e os estragos feitos pelos policiais pareciam irreparveis; no havia sobrado nada do lindo cantinho ajeitado por Marie-France.
Atrs dele, algum soltou uma exclamao; era a zeladora que vinha trazer a correspondncia.
- Ento foi isso, o barulho que ouvi depois que vocs saram! Decididamente, os ladres no respeitam mais nada... Vou buscar uma lata de lixo para ajud-lo a juntar tudo que vai ser jogado fora. Ah! Olhe, sua correspondncia!
Ele pegou duas cartas e um jornal de estudantes, que a rede usava para se comunicar com seus membros.
Ele o folheou, leu alguns dos pequenos anncios e achou enfim o que procurava: "Trs cmodos para alugar na Avenida Villiers; visitas no local s quinze horas." Isso significava que o encontro estava mantido para a hora prevista, ou seja, s dezoito horas.
A zeladora voltou.
- Desculpe-me, sra. Bertin, mas eu preciso chamar algum para trocar a fechadura. A sra. pode comear a limpar?
- No se preocupe, vou fazer o possvel. Voc deveria mandar colocar uma porta blindada,  mais firme.
- Vou seguir o seu conselho. Obrigado.
Um chaveiro da Rua Arnes prometeu passar l naquela tarde mesmo. Charles tomou o metr, desceu na "Bastille", depois dirigiu-se para um caf, onde, s vezes, se encontravam os membros da rede, o Tambour de la Bastille. quela hora, os clientes acabavam de almoar. Ele subiu para o primeiro andar e passou de uma sala a outra,  procura de um rosto conhecido. Na ltima, reconheceu duas garotas com quem tinha ido  reunio da Enghien. A que estava de frente para ele levantou a cabea e tambm o reconheceu. Pelo olhar dela, ele adivinhou imediatamente que no devia se aproximar. Sentou-se em outra mesa, perto da janela. No longe dali, um homem sozinho fumava seu cachimbo e um outro, perto da sada, lia o FrajiceSoir. O garom veio pegar o pedido.
- Um sanduche de presunto e uma cerveja.
As duas jovens levantaram-se, colocaram seus mants e saram sem nem olhar para ele. Pouco depois, o leitor do France-Soir desceu. O garom trouxe o pedido, que Charles pagou logo. Ele comeava a comer quando o do cachimbo levantou-se e esticou o brao para pegar o chapu. Por um instante, Charles pde ver a cartucheira de couro pela abertura do palet. O lugar estava ficando perigoso. Ele terminou de comer e levantou-se sem esperar o troco. No trreo, funcionrios e clientes amontoavam-se nas janelas.
- O que est acontecendo? - Perguntava um senhor idoso e baixinho, esticando-se na ponta dos ps.
- A polcia acaba de prender duas terroristas.
- Terroristas, aqui, em Paris?
- Sim, senhor, e elas saram daqui!
- O qu? Duas mulheres!... No acredito... Que tempos!
O carro no oficial no qual elas foram levadas afastou-se, precedido por um outro carro de polcia. Os dois inspetores entraram num Simca cinza cuja placa Charles decorou imediatamente.
Ele pegou o metr na Bastille e mudou na toile, desceu em Monceau, depois percorreu o resto do caminho a p, assegurando-se de que no estava sendo seguido; no percebeu nada de suspeito. Na
Avenida Villiers, comprou jornais num quiosque e sentou-se num caf perto do lugar onde ia ser feita a entrega do Libert pour; tinha duas horas para matar antes do encontro. Pediu um caf e um pacote de
Gauloises. Trs quartos de hora depois, levantando a cabea do jornal, percebeu que o Simca cinza que ele vira na praa da Bastille estava estacionado na frente do prdio vizinho quele aonde ele devia ir. Dobrou os jornais, pagou a conta e ficou preparado para fugir. Dois outros carros no oficiais pararam em fila dupla diante do prdio.
Alguns homens desceram e se dirigiram para a entrada; deviam ser quase dezessete horas. Um carro de polcia parou, ento, na altura do caf e dois policiais saram dele.
- No me admiraria nem um pouco se eles dessem uma batida a em frente: j faz trs dias que vigiam o pedao - Declarou o dono do caf, observando a cena.
Ao mesmo tempo, os passageiros do Simca deixaram o veculo; Charles identificou sem surpresa os inspetores que haviam agido no Tambour de la Bastilie. Os policiais juntaram-se aos colegas. Pouco depois, saram do prdio, trazendo aquele que devia entregar os jornais a Charles. Os policiais fardados rodearam-nos e pegaram o suspeito, levando-o para o carro. Quando o grupo passava na frente do caf,
Charles viu que o rapaz tinha o rosto cheio de sangue.
- Eles no foram nada delicados. - Resmungou o dono do caf.
O motorista do carro ligou a sirene e partiu. Os carros no oficiais desapareceram atrs dele.
Charles pediu para telefonar: ligou para Marie-France dizendo-lhe que ia se ausentar por uns tempos e desligou sem lhe dar tempo de fazer nenhuma pergunta.
Saiu do caf.
No metr lotado, Charles refletia sobre que conduta adotar. A fim de afastar eventuais perseguidores ele mudou de direo por diversas vezes. Quando desceu, na Estao Austerlitz, pegou a Rua Buffon: nessa artria longa e estreita, ele pde verificar que no estava sendo seguido. Um vento glacial soprava na Rua
Geoffroy-Saint-Hilaire. Diante das grades do Jardim Botnico, parou para amarrar o cordo do sapato.
Quando se endireitou, percebeu, estacionado junto ao seu prdio, o Simca cinza. Dois homens estavam colocados, um de cada lado do porto de carro, enquanto outros haviam entrado pela porta principal. Com o corao aos pulos, ele ficou imvel por uns instantes. A zeladora que acabava de sair para a calada, gesticulava para os inspetores que estavam na frente da porta. Logo, o resto do grupo saiu e enfiou-se nos carros, deixando apenas um homem de guarda. Charles atravessou o cruzamento e entrou na rua
Monge: ele precisava ir para aquele bistr da Rua Mouffetard de que Vicent lhe havia falado, acrescentando que s fosse l em caso de extrema necessidade.
Quando chegou l, os comerciantes da rua estavam baixando as portas de ferro de suas lojas, e os raros transeuntes apressavam-se na direo de Gobelins. No caf de Hilaire, os ltimos fregueses terminavam de beber.
- Estamos fechando. - Disse o dono quando o viu entrar.
- Estou congelando, voc pode me servir um caf, por favor?
- Eu sirvo. - Respondeu Armande, dirigindo-se ao marido. - No vamos deixar o garoto sair desse jeito num frio destes...
- Obrigado, senhora. - Disse Charles, aproximando-se do balco.
- Sirva-lhe tambm um armagnac, isso vai esquent-lo.
Logo s estavam os trs.
- Est melhor? - Perguntou Armande, olhando para ele de um jeito terno que o marido logo percebeu.
Ele veio colocar a mo carinhosamente no ombro dela.
- Voc est pensando no nosso garoto? - Murmurou ele.
J fazia trs semanas que eles tinham recebido do filho uma carta da qual cada passagem lhes doa no corao:
Queridos pais,
No sei se vocs vo receber esta carta, mas no agento mais: o que estamos passando aqui  impossvel de se contar. Quem acreditaria em ns? Temos tido uns embates terrveis. Cinco de nossos camaradas foram mortos numa emboscada e, dois dias depois, outros quatro deles foram feitos prisioneiros. Foram encontrados com os olhos vazados, o nariz e as orelhas cortadas e o sexo arrancado, enfiado na boca. Pensamos que amos ficar loucos.  preciso ser pior que um animal para fazer isso. Todos os rapazes choravam: "Vamos acabar com esses porcos!" - gritou o capito. Quando a noite caiu, deram-nos de beber e ns sujamos nossos rostos com cinza. Fomos a uma vila onde costumamos comprar legumes e carne. Acabamos por conhecer todos os habitantes; alguns deles conhecemos at pelo nome. Fomos at l. Nessa vila s h mulheres, velhos e crianas:
os homens juntaram-se todos  ALN, nos disseram. Quando chegamos l, tudo estava escuro e silencioso, com exceo de alguns carneiros que berravam. Entramos, colados nos muros. Um cachorro latiu, depois outro. Um velho saiu para ver o que havia. O tenente saltou sobre ele e apunhalou-o. Foi o sinal. Ns nos precipitamos para dentro das casas, umas doze, talvez, e l ns atiramos em tudo que se mexia: tanto nas pessoas como nos animais. No comeo houve gritos, choros e gemidos... depois, nada mais. Quanto tempo aquilo durou? No tenho idia. Estvamos como bbados. Depois, pusemos fogo nas casas. Diante das chamas cantamos e danamos como selvagens. Voltamos para o acampamento esgotados e dormimos como no fazamos h muito tempo. Ao acordar, ns nos encaramos, assustados, sem compreender:
estvamos cobertos de sangue. Quando a memria voltou, no ousvamos olhar um para o outro. O capito e o tenente, que estavam no mesmo estado que ns, reagiram primeiro e mandaram que tirssemos a roupa. Nos chuveiros, do lado de fora das barracas, a gua que corria a nossos ps era vermelha. Um de ns derramou gasolina na farda e ps fogo. Sem combinar nada, todos fizemos a mesma coisa; os oficiais tambm. Desde essa noite horrvel em que massacramos uma centena de pessoas, no somos mais os mesmos. Alguns ficam deitados por horas, outros, commmo eu, no se lavam mais, no comem mais, no dormem mais... Se eu no temesse causar a vocs um sofrimento maior ainda, eu me ofereceria como voluntrio para as operaes "comando" e torceria para ser morto.
Perdoem o mal que fao a vocs revelando todo esse horror, mas precisava contar a algum.
Se vocs lerem estas linhas, no me julguem: a viso de nossos companheiros massacrados nos fez perder a cabea.
O filho indigno e infeliz que os ama,
Ramond.
- Mais um caf? - Perguntou a mulher.
- No, obrigado... Eu sou amigo de Vincent...
- Da Rua das Accias?
- Sim... E preciso avis-lo: a polcia prendeu dois de nossos camaradas na Bastilie e aquele que eu deveria encontrar na Avenida Villiers. Meu apartamento foi saqueado a noite passada e est sendo vigiado. No posso voltar l...
- Voc tinha documentos em casa?
- No, s alguns livros proibidos... Eu tinha levado tudo para a casa de um amigo...
- Vamos avis-lo... Voc tem onde dormir esta noite? No? Bem, fique no quarto do nosso filho;
d para entrar pelo ptio. Fica no trreo e d para a rua de trs... Armande, prepare um sanduche e leve para ele. Ah, preciso saber o seu nome.
- Charles d'Argilat, mas meu codinome  Ernesto.
Antes de sair, Hilaire apagou as luzes e desligou a chapa. L fora, o piso escorregadio brilhava.
Ainda estava escuro, na manh seguinte, quando Charles deixou o quarto de Raymond com o objetivo de encontrar Adrien no liceu Montaigne. Pouco depois das oito horas, os alunos comeavam a se reunir diante das grades do Luxembourg. Um guarda, encarregado de cuidar do trnsito, estava no lugar. Charles viu Adrien chegar pela rua Guynemer. Andou at ele.
- Continue, no pare... No vire a cabea!
- Charles?!...
- Escute, preciso ser rpido: a polcia est atrs de mim. Vou precisar sumir por uns tempos. Avise Franois e La, mas cuidado com o que vai dizer. Assim que possvel darei notcias. Eles no precisam se preocupar... Os policiais voltaram l em casa?
- No, no depois que voc foi embora.
- Posso lhe pedir um favor?
- Sim, claro.
- No pare, j disse... Bem, eu tenho dinheiro numa das gavetas da minha escrivaninha, e alguns papis.
Pegue esta chave. Ponha tudo num envelope; eu tenho uns grandes na gaveta... Voc pode levar para mim no final da tarde na igreja da rua Mouffetard?
- Aquela na pracinha?
- Sim. Eu espero a partir das dezessete horas. Vou ficar perto do confessionrio. Tome cuidado para no ser seguido.
- No esquente a cabea... Parece que estamos num autntico romance policial. Volto para casa ao meio-dia para pegar suas coisas. Tenho um colega que mora em Gobelins; vou com ele no final das aulas e encontro voc na igreja.
- O importante  que voc no fale comigo: sente-se na minha frente e passe-me o envelope. Bom, vou embora. Tenha cuidado... D um beijo nas crianas e em Philomne por mim... Obrigado!
Sem se voltar, Charles apertou o passo e passou por ele.
Dois dias depois, tendo recuperado o envelope, o rapaz deixou a Frana, munido de documentos falsos com o nome de Christophe Roussel. Mais uma vez, "o senhor Jo" tinha feito um bom trabalho.

Captulo XXI

Um carro aguardava Franois Tavernier na sada do avio; no interior dele estava Georges Pompidou. Os dois homens apertaram-se cordialmente as mos. Pouco antes de embarcar, Franois ficara sabendo que o ex-chefe de gabinete do Presidente de Gaulle havia sido encarregado por ele de estabelecer contatos secretos com os representantes do MNA e do GPRA. Pompidou pudera encontr-los graas  mediao dos doutores Popie e Morinaud, dois advogados argelianos considerados liberais, por ocasio de uma discreta estadia em Argel, em maro de 1959; sua qualidade de procurador do Banco Rothschild havia pernitido que ele circulasse nos meios de negcios sem chamar a ateno. Essa viagem havia sido para ele a oportunidade de preparar uma prxima entrevista com o doutor Ahmed Bournendjel, um importante representante da FLN.
- Como est meu antigo colega de preparatrio para o curso superior? - Perguntou Pompidou, acendendo um cigarro.
- Paul Delouvrier? A perna o faz sofrer bastante.
Pompidou lanou-lhe um olhar divertido e continuou:
- Isso acabar se arranjando. O importante  que ele no perca a calma... Li o seu relatrio: e ento?
- Tenho dificuldades de ver com clareza: alguns chefes militares esperam o desenrolar dos acontecimentos para se declararem a favor da insurreio; pelo menos  a impresso que tenho. Os coronis, por sua vez, esto muito animados e vo tentar certamente influenciar as decises do General. Por outro lado, os ativistas das barricadas s contam com o apoio de uma parte da populao europia, e no tm nenhum
Governo Provisrio da Repblica Argeliana.
apoio da populao muulmana, fora os antigos combatentes muulmanos de planto, que aparecem em todas as manifestaes... Em compensao, eles esto armados e no hesitaro, em caso de ataque, em abrir fogo contra as foras da ordem; pelo menos  o que afirma alto e forte Pierre Lagailiarde. As tais foras da ordem no podem mais ser recrutadas entre os pra-quedistas, que se declaram como unha e carne com os rebeldes. Seus chefes foram muito claros quanto a isso: "Ns no vamos atirar!" Dar-lhes essa ordem a partir de uma autoridade mais alta seria empurr-los para uma maior confraternizao e significaria, em caso de desobedincia, um vexame para o Governo.
- O que voc sugere?
- Esperar, tentando descobrir quem so os principais atores.
- Voc vai dizer isso tudo ao Presidente da Repblica. - Concluiu, preocupado, Georges Pompidou.
Fechando os olhos, ele mergulhou em seus pensamentos. Respeitando o seu silncio, Franois aproveitou para refletir sobre o seu iminente encontro com de Gaulle, depois seu esprito voou em direo a La...
Assim que chegou ao lyse, Tavernier foi recebido pelo Chefe de Estado, que o acolheu como o habitual:
- Fico feliz em v-lo, Tavernier.
O general de Gaulle havia lido atentamente o relatrio de Franois. Pediu alguns esclarecimentos e depois, levantando-se, declarou:
-  preciso pr um fim nessa espcie de quermesse escandalosa! Mas, sem ignorar a possibilidade do pior, h mais uma tentativa de me intimidar do que um ardor propriamente dito. Acredito que os rebeldes no tm no momento outro objetivo seno me obrigar a voltar atrs quanto  autodeterminao. Estou decidido a espremer o abscesso, a no fazer concesso alguma e a obter do exrcito uma completa obedincia.  preciso acabar com a revolta e castigar os que a promoveram. Voc partir esta noite para Argel em companhia do Primeiro-Ministro. Adeus, Tavernier.
A entrevista, que no durou mais do que vinte minutos, deixou
Tavernier amargo e insatisfeito. Na ante-sala ele cruzou com Ren
Brouillet a quem perguntou se estava informado sobre a visita de Michel
Debr a Argel.
- Isso foi decidido num conselho de ministros. - Confirmou o chefe de gabinete do Presidente da Repblica.
- A partida est prevista para que horas?
- Vinte e trinta, em Villacoublay.
- Isso me d uma hora para ir ver meus filhos... Voc pode pr um veculo e um motorista  minha disposio?
- Certamente, vou dar as ordens necessrias.
Um pouco mais tarde, Franois apertava os trs filhos nos braos.
- Papai est aqui! Papai est aqui!... - Gritava Claire, rodando sem parar.
- Onde est mame? - Perguntou de repente Camifle.
No foi fcil explicar que ele voltaria para Argel naquela noite mesmo. Os mais velhos contiveram-se a fim de esconder a decepo, mas Claire explodiu em soluos, dizendo que ele era "um malvado". Philomne veio peg-la e tentou consol-la. Essa cena quase fez Franois arrepender-se da visita; Camille adivinhou e veio abraar-se com ele.
- Ela  pequena, voc sabe. No fique bravo com ela, no  culpa dela... Ela chama por vocs todos os dias.
"Que situao", lamentava Franois, beijando os cabelos da filha.
- Charles no est aqui? - Perguntou ele, de repente.
O incmodo de Adrien era visvel. Franois afastou Camille delicadamente e aproximou-se do filho. Adrien abaixou a cabea, mas Camilie correu em ajuda ao irmo.
- Ele partiu, no se sabe para onde!
- Adrien, se for alguma coisa grave, voc precisa me contar.
O garoto levantou a cabea e olhou o pai nos olhos, sem responder. Por um segundo, Franois pensou ver
Bchir diante dele. Nesse olhar orgulhoso, o pai percebeu que o filho no falaria nada.
- Se tiver a oportunidade, diga a Charles que ele pode contar comigo e que eu o amo.
O rosto de Adrien crispou-se, os olhos encheram-se de lgrimas.
- Como  que ele pode contar com voc? - Explodiu ele. - Voc no est aqui nunca! Mame e voc agem como se ns no existssemos. Por causa de vocs, estamos sempre com medo. Camilie no se queixa, mas tem pesadelos todas as noites. Para que ela consiga dormir, vou para a cama dela acalm-la. A, sou eu que no durmo mais...
- Cale-se, Adrien! - Interrompeu a irm.
- Por que eu me calaria? Estou de saco cheio! Cheio de no saber o que vocs esto fazendo! Cheio de que a polcia venha aqui! Cheio de que Charles, o nico que nos compreende, seja afinal como vocs, e que se meta a brincar de guerra! Mas, logo, vou fazer como vocs, vou fazer como ele! Assim vocs vo ver, vo ter medo tambm!
Franois abraou-o. Como ele tinha crescido!...
- Por favor, no chore mais!
Adrien afastou-se bruscamente.
- Deixe-me... Volte para a sua guerra, j que  s isso que interessa a vocs.
A porta do quarto dele bateu. Desamparado, Franois afundou-se no sof, segurando a cabea com as mos.
Papai! Vai ficar tudo bem... Adrien preocupa-se demais com voc, com mame e, agora, com Charles...
Franois soluou quando abraou a filha.
- Ah, papai, no chore!
O toque da campainha sobressaltou-os. A Sra. Martin foi abrir.
- Esto chamando o Senhor.
O motorista da Presidncia vinha avisar que estava na hora de pegar o caminho para o aeroporto de
Villacoublay.
Camille compreendeu. Foi pegar o sobretudo do pai e seu cachecol.
- V, eu explico para eles. - Disse ela corajosamente abrindo a porta. D um beijo em mame por ns...
Voltem logo. - Acrescentou ela.
Quando ele saiu, ela colou o ouvido na porta para ouvir o barulho decrescente dos passos de seu pai.
Quando a escada voltou a ficar silenciosa, ela se deixou arriar no cho e, silenciosamente, se ps a chorar.
No avio que o levava de volta, Franois Tavernier exps brevemente a situao a Michel Debr. O
Primeiro-Ministro que, at pouco tempo atrs, fazia parte dos ferozes defensores da Arglia francesa, denunciando violentamente a poltica argeliana da quarta Repblica no Coiirrier de la colre, ficou impressionado. Seu rosto, normalmente plido, encheu- se de manchas verrnelhas. Percebia-se que ele se sentia dilacerado pelos acontecimentos. Cinco pessoas, alm de Tavernier, o acompanhavam nessa viagem:
o Ministro do Exrcito, Pierre Guillaumat, o secretrio geral dos assuntos argelianos, Roger Moris, seu chefe de gabnete, Pierre Racine, e tambm os generais Nicot e Martin; este ltimo voltava a seu posto em
Argel. Ningum a bordo tentava disfarar a preocupao.
-  visvel... - Observou Michel Debr. - Que um nmero muito grande de franceses da Arglia rejeitam qualquer mudana, inclusive aquela que permitiria aos argelianos mais afrancesados ter acesso realmente s responsabilidades. A recusa  menor mudana  um fato desanimador. Tudo e que se pode dizer, o dinheiro que se pode gastar em favor do progresso econmico e social, no conta. Para os chefes militares, uma espcie de impreciso do pensamento faz com que, se a soluo fosse aceita, seria de fato remetida para l dos combates, quer dizer para o dia da paz, e a luta "contra a subverso nacional" sufocaria tudo em alguns, inclusive a viso do interesse francs. O que fazer?
Ningum respondeu. Cada um deles tremia de frio no seu canto, perdidos em seus pensamentos.
O avio pousou no aeroporto de Maison-Blanche pouco depois da meia-noite. Na impossibilidade de deixar seus postos, nem o comandante em chefe nem o Delegado Geral estavam presentes para receber o
Primeiro-Ministro. Michel-Jean Maffart recebeu-os em nome deles. Desviando o caminho, para evitar o centro de Argel, Michel Debr e seus acompanhantes foram levados ao quartel Rignot onde o ambiente era tenso. A ansiedade e a falta de sono apareciam em todos os rostos.
De uma vez, o Primeiro-Ministro transmitiu as ordens dadas pelo Chefe de Estado: acabar logo com aquilo, dispersar os rebeldes pela fora se necessrio, at mesmo abrindo fogo. No se podia admitir que a insurreio dominasse a cidade e desafiasse o destino da Repblica.
- Vocs no compreendem a situao! - Arrebatou-se Paul Delouvrier, no auge do nervosismo. - Ns vamos todos ser massacrados! Vocs no tm nenhuma idia da violncia que reina em Argel. AArglia  atualmente o pas de medo. Os franceses tm medo. Os muulmanos tm medo. O exrcito tem medo de se desonrar...  um clima de loucura!
- Eu no posso transmitir as ordens do Governo sem saber, primeiro, se elas podero ser executadas e sem a opinio dos generais que tero que aplic-las. - Determinou o general Challe, mordendo a haste do cachimbo. - Meus coronis no tomam partido pela revolta, mas se recusaro a atirar na multido.
Todos observavam Michel Debr cuja palidez havia aumentado. A custa de um esforo considervel, ele articulou com uma voz tranqili zadora:
Continuem, senhores, eu estou aqui para me informar e conversar com os senhores.
Os generais Crpin, Faure, Dudognon, Gracieux, Lancrenon e Martin esperavam no escritrio ao lado; eles iam poder "informar" o chefe de Governo. Delouvrier retirou-se em companhia de Pierre Racine para escrever, disse ele, ao general de Gaulle. Franois Tavernier apressava- se a fazer o mesmo, quando Debr mandou-o ficar. Sentado, o Ministro do Exrcito, que no havia pronunciado uma nica palavra, tomava notas.
Os generais foram recebidos um a um. Quando o ltimo saiu, o rosto arredondado do Primeiro-Ministro estava plido; Guillaumat, branco, fechava sua caneta; Challe, lvido, abaixava a cabea; quanto ao secretrio de assuntos argelianos, seu rosto havia se tornado cinzento.
"Parece uma reunio de fantasmas", pensou Franois.
Ele prprio estava branco como um lenol, porque a evidncia se impunha: o exrcito no obedeceria. E, como se fosse preciso aumentar mais ainda o buraco, os coronis iam se encarregar disso: eram catorze, esperando para serem atendidos. Eram trs horas da madrugada.
Todos se exprimiam, enunciando verdades dolorosas. O coronel Argoud resumiu assim o estado de esprito dos companheiros:
- Qualquer soluo pela fora est excluda. Os insurrectos esto absolutamente determinados. Eles sabem que so apoiados pelo conjunto da populao europia. A maioria dos comandantes de unidades se recusam a obedecer. Seria um crime se as tropas francesas atirassem nos franceses apenas porque eles querem continuar sendo franceses.  essencialmente um problema de confiana. Os europeus e, mais ainda, os muulmanos no tm mais confiana na palavra da Frana e at, eu confesso, depois de 6 de setembro, na do general de Gaulle. Guardando, com efeito, tanto uns como os outros, a lembrana de vinte e cinco anos de traies em cadeia, eles interpretaram a autodeterminao como o incio de uma nova traio.
- O que se deve fazer, na sua opinio? - Grunhiu Michel Debr, esforando-se para aparentar uma calma que o tremor de suas mos desmentia.
- Fazer o general voltar atrs quanto  autodeterminao.
- E se ele se recusar?
- Ento, seria a hora de o general Challe tomar conta de tudo a seu modo.
- E se ele se recusar?
- Ento no vejo outra sada seno recorrer a uma junta de coronis, quaisquer que sejam eles.
- E se a Frana no ceder?
- Eu no compreendo por que o destino de cinqenta e cinco milhes de homens deve depender do orgulho de um nico. Os maiores homens de Estado souberam mudar de opinio. O general de Gaulle se engrandeceria se modificasse sua linha de conduta.
Um silncio glacial pontuou a declarao do coronel Argoud. Emocionado, Michel Debr concluiu com um tom que ele tentava manter firme:
- Fiquei profundamente perturbado com tudo que acabo de ouvir. Ningum partilha mais do que eu os sentimentos dos franceses da Arglia. A poltica de autodeterminao foi contestada. Mas, nas atuais circunstncias nacionais e internacionais, ela  a nica que garante as chances da Frana aqui. Eu concordo com vocs. Mas, compreendam que o general de Gaulle no pode renunciar  autodeterminao.
E preciso salvar a unidade da nao e a unidade do exrcito. A ordem pblica no pode ser perturbada, o
Estado no pode ser dominado por agitaes de rua...
Os coronis permaneceram como esttuas. Michel Debr estendeu- lhes a mo; o coronel Boissieu recusou-se a apert-la. O Primeiro-Ministro deixou a sala para reunir-se aos eleitos da Arglia. Ali, tambm, palavras ferinas o aguardavam. O deputado Marc Auriol pronunciou-se duramente desta forma:
- Esto debochando da verdade. Tm medo de dizer  nao que o governo da 5 Repblica tem sangue nas mos. Mostram-lhe os acontecimentos de Argel como obra de um punhado de extremistas, mas o senhor sabe muito bem, sr. Primeiro-Ministro, que  todo o povo de Argel que se levantou contra a poltica indeterminada do Governo, poltica que j durou muito e j fez muito mal.
Com uma voz inalterada, Michel Debr respondeu laconicamente:
- Transmitirei suas preocupaes ao general de Gaulle.
Quando os deputados partiram, ele largou-se pesadamente na cadeira: compreendia os motivos dos que se rebelaram; ele tambm no os havia partilhado outrora? Exausto, olhava para a frente, com os olhos brilhando de amargura contida. Um ajudante de campo entrou, trazendo caf. Depois de beber uma xcara,
Michel Debr levantou-se e declarou:
- Gostaria de ir ver as barricadas.
Sem acreditar no que ouviam, tentaram dissuadi-lo. Corria o boato de que Pierre Lagalliarde tinha um plano para seqestrar o PrimeiroMinistro... Franois entrou com ele no carro de Michel-Jean Maffart. Trs outros veculos levaram o Ministro do Exrcito, que continuava sem pronunciar uma palavra, Pierre Racine, o general Nicot e diversos oficiais. Um caminho da CRS os seguia.
Eram cinco horas da madrugada quando o cortejo deixou o quartel Rignot para pegar a Rua Michelet at a
Rua Richelieu. Desembocando no Bulevar Baudin, os veculos atravessaram o Plat Glires antes de subir o Bulevar Laferrire at o correio, onde os pra-quedistas montavam guarda. Os vestgios do enfrentamento da noite de domingo ainda eram visveis, as pedras do calamento tinham desaparecido e galhos de rvores cobriam o cho. De modo regular, o farol do Amiraut varria a cena, indiferente. De onde estavam os carros, Michel Debr podia observar a bancada da Rua Charles-Pguy, iluminada pelas fogueiras dos rebeldes, e os pra-quedistas, sentados ou de p, que deveriam montar guarda.  luz dos faris, ele viu um homem escalar a barricada e oferecer um caf a um pra-quedista. O militar bebeu, apertou a mo do civil e devolveu o copo.
- Vocs permitem isso? - Perguntou espantado aos oficiais que o acompanhavam.
At que o avio decolasse, o Primeiro-Ministro continuou tenso. Quando o aparelho subiu, a aurora apontava.
Voltando ao quartel Rignot, Franois Tavernier e Michel-Jean Maffart cruzaram com Paul Delouvrier que acompanhava o mdico-chefe do Hospital Maillot.
- ...  um choque nervoso que se manifesta dessa forma. Em dois ou trs dias, ele estar bem.
- Dois ou trs dias! - Exclamou Delouvrier.
Assim que o mdico partiu, ele se aproximou dos dois homens, preocupado:
- Algum est doente? - Inquietou-se Tavernier.
- Ainda bem que foi depois da partida do Primeiro-Ministro!... O general Challe encontra-se impossibilitado de andar, precisei carreg-lo nas costas (Deus, como ele  pesado!) e, com a ajuda dos guardas de planto, coloquei-o na cama. Tiramos os sapatos dele: as solas dos ps estavam em carne viva. "Alergia s meias de nylon", disse-me ele. Mas o mdico que chamei foi categrico: foi um choque nervoso que acabou com os ps dele... Voc acredita nisso? Justo agora que a revoluo ameaa a cidade?
Ele se virou e se afastou, apoiado na bengala.
- Vo descansar um pouco, senhores. - Acrescentou ele de longe. Apesar de a situao ser dramtica,
Franois teve que fazer um esforo para se manter srio: o destino da Arglia estava nas mos de dois estropiados...
- Desculpe, senhor Delegado, mais uma coisa: eu sei que no  o momento, mas gostaria de agradecer  sra. Delouvrier e ao senhor por terem recebido minha mulher... Como ela est? - Perguntou ele, alcanandoo.
- Sua mulher?... No tenho a menor idia! Ela se recusou a vir instalar-se em nossa casa, com no sei qual pretexto. Mesmo assim, mandei Poincar ir v-la para insistir que viesse: ela no estava mais no hotel.
Como voc, ela s faz o que lhe d na cabea... Vocs foram feitos um para o outro!
Cerrando os punhos, Franois acusou o golpe.
- Com a sua permisso, vou procur-la.
O Delegado Geral levantou os ombros e entrou na vila com Maffart em seus calcanhares. Franois saiu do quartel Rignot e, a p, foi para o Hotel Saint-George. O sol se erguia em Argel.
J fazia mais de uma hora que eles caminhavam e La comeava a se sentir cansada. A fim de evitar as patrulhas, os jovens argelianos contornaram as artrias principais, subiram umas escadas, desceram outras, sem encontrar viva alma.
- Ainda falta muito? - Murmurou a jovem mulher.
- No. - Respondeu Bchir em voz baixa. - Ns j passamos o pior. Assim que atravessarmos a Rua PorteNeuve, estaremos em segurana.
Eles se encontravam, agora, no corao da Casbah. S se ouviam os miados de gatos e o latido de cachorros que, sem dvida, disputavam o lixo. Depois das largas ruas iluminadas da cidade europia, as ruelas sombrias da antiga cidade turca impressionavam La: ela se via prisioneira de um enorme labirinto do qual somente Bchir e Al-Alem detinham o fio. Ela conteve um grito quando, de uma janela, algum atirou um pouco de gua suja que veio respingar na parede, muito perto dela. Por uns momentos, tragmentos de vozes ou de choro de uma criana lembravam que a vida pululava nesse labirinto de ruas.
Numa espcie de corredor, to estreito que tinham que passar um de cada vez, AlAlem, que ia na frente, parou e, tateando, explorou a parede.
-  aqui. - Cochichou ele.
Girou uma chave sem fazer barulho e, depois, uma porta de ferro se abriu sem fazer o menor guincho. AlAlem fez os companheiros passarem na frente dele. Na mais completa escurido, La apalpou uma parede mida de onde vinha um cheiro de mofo. Parecia que estavam numa cripta e ela agarrou a mo de Bchir.
- Acenda a luz. - Ordenou Al-Alem em voz baixa.
 luz tremeluzente da lanterna que Bchir segurava, Al-Alem abaixou-se, pegou um pouco de terra e salpicou, pelo lado de fora, na fechadura e na porta; assim parecia que ningum abria aquela porta h sculos. Apesar da luz fraca, La percebeu que a ferrugem rofa o metal.
Depois de fechar a porta, subiram uma escada ngreme, abaixando a cabea. Al-Alem levantou uma placa de ferro, arrastou-a para o lado e passou para o lado de fora. Estendeu a mo a La. "Preciso emagrecer", pensou ela enquanto passava com dificuldade pela abertura estreita. Bchir juntou-se a eles e ajudou o companheiro a recolocar a placa. Diante deles, descortinava-se a baa de Argel, cujas luzes cintilavam sob o cu estrelado.
- No  hora de admirar a paisagem! - Repreendeu-os o guia. - Venham!
Ele abriu o cadeado que fechava a porta de uma espcie de barraco de zinco e de pranchas cobertas com piche. Suspensa, uma lmpada a leo iluminava uma parte do local onde se distinguia uma forma esticada sobre almofadas; Bchir aproximou-se.
- Malika?...
- ...  voc? - Perguntou uma voz fraca.
- Sim... Suas mos esto queimando!
- Ela veio?
- Estou aqui. - Tranqilizou-a La, ajoelhando-se  beira da cama.
Ela colocou a mo fresca na testa da doente; uma febre alta a abatia.
- Quando foi que ela tomou a ltima injeo de penicilina?
- Antes de ontem.
- O enfermeiro no veio mais?
- No. Ns o esperamos ontem, durante todo o dia e, esta manh, Al-Alem foi dar uma volta pelos lados do
Hospital Maillot. Ningum viu Yacef e o doutor Duforget no estava l...
- Era preciso achar outro mdico!
- Eu tentei. - Afirmou Al-Alem. - Mas estava cheio de militares, e os enfermeiros corriam para todos os lados. Eles acabaram me vendo e me puseram para fora de l.
- Vocs tm penicilina?
- Sim, Yacef trouxe vrias caixas.
- Me d e v ferver gua.
Al-Alem pegou gua de um tonel, ps a panela de esmalte num aquecedor a lcool e acendeu. La esmagou dois comprimidos de aspirina em meio copo de ch frio. Com a ajuda de Bchir, que segurava a irm, ela fez Malika beber.
- Pegue a agulha e a seringa, ponha gua... Voc tem ter?
Al-Alem mostrou a garrafa de lcool para o aquecedor.
- Serve. - Disse ela, jogando um pouco nas mos. - Agora, saiam.
Pouco depois, ela juntou-se aos garotos que fumavam, agachados, as costas encostadas contra a mureta do terrao. Ela se sentou perto deles.
- O que significa "Al-Alem"?
- O Sbio.
- Ah... Voc tem um cigarro?
Com o rosto voltado para as estrelas, eles fumaram.
Durante dois dias, Malika lutou contra a morte; La cuidou e lavou o corpo martirizado, trocou suas roupas sujas, no se permitindo seno alguns minutos de repouso. Al-Alem e Bchir seguiam suas instrues sem discutir. Por momentos, ela revia o rosto emaciado de sua irm falecida, no qual se liam tantos sofrimentos suportados. Mais uma vez, ela lamentou no ter acompanhado Franoise nos seus ltimos momentos. "Eu no estive  altura dela", lastimava-se ela.
Na manh do terceiro dia, a febre caiu e, de noite, havia desaparecido.
Esgotada, La dormiu por doze horas de uma s vez. Quando acordou, no dia seguinte, perto do meio-dia, fazia quatro dias que ela tinha sado do
Hotel Saint-George. Ser que Bchir tinha conseguido aproximar-se de
Franois, como ela havia pedido? A chuva batucava no zinco do barraco.
- Tome. - Disse uma mulher, oferecendo um copo de ch a La.
- O qu?... Onde est Malika? - exclamou ela, levantando-se.
- Estou aqui. - Disse a menina, saindo de um canto escuro, enrolada numa tnica de l branca. - Esta  minha me. Beba. Depois, ns vamos a um banho turco,  ao lado.
- Ah, sim, vai nos fazer bem... Como voc se sente?
- To bem quanto possvel.
- Por que fala assim to tristemente?
- Eu preferia ter morrido! - Lanou Malika.
Uma onda de raiva invadiu La que se conteve para no jogar o copo de ch no rosto dela. A me interveio.
- Voc no tem o direito de dizer isso, minha filha. Voc deve a sua vida a Al e a esta mulher. Voc deve agradecer.
- Desculpe-me, eu sou ingrata. - Disse Malika, levando as mos de La aos lbios.
La beijou-a e sorriu.
No vapor da sauna, os corpos nus das duas mulheres moviam-se com uma lentido irreal. As tenses, as angstias desapareceram sob as mos da massagista que no demonstrava nenhuma surpresa com a presena da europia, nem com a viso das queimaduras da argeliana. A pedido da me, um lenol estendido separava-as das outras banhistas. Com os olhos semicerrados, Malika, a pele untada com um leo perfumados deixou-se pentear pela assistente da massagista. Seu rosto emagrecido havia recuperado a beleza e as marcas dos golpes tinham quase desaparecido.
Quando as trs mulheres, enroladas num Iiak, deixaram o banho turco, sentiam-se como purificadas. L fora, Bchir e Al-Alem esperavam por elas.
- Voc viu meu marido? - Perguntou La ao jovem engraxate.
- No, mas encontrei seu amigo, o motorista de txi: ele vai lhe dar notcias de voc. Tome, trouxe jornais.
- Ah, que bom, obrigada.., O que vai acontecer com Malika, agora?
- Ela vai ficar ainda por uns dois ou trs dias na casa de Al-Alem. Depois, veremos...
- Gostaria que voc me levasse para conhecer a Casbah.
-  muito perigoso, poderiam perceber que voc no  muulmana...
- Vestida deste jeito, eu me pareo com qualquer mulher daqui.
- Para os franceses, talvez, mas no para ns. Seu modo de andar no  igual, seus gestos so mais vivos...
 uma coisa que se percebe logo.
- Vou pedir  sua irm que me mostre como fazer...
-  melhor perguntar  minha me. Malika nunca usou o vu...
No meio da multido densa que andava pelas ruas, as mulheres apertavam o passo. Somente os homens pareciam passear, conversando diante das lojas, sentando-se na frente de um caf, jogando damas ou xadrez.
- Vamos beber um ch de hortel? - Sugeriu La, parando diante de um boteco de onde saa uma msica rabe.
- Venha, esto nos olhando. Uma mulher jamais entraria num caf! "Decididamente, este pas no foi feito para mim", decretou ela, seguindo os passos de seu companheiro.

Captulo XXII

O Hotel Saint-George parecia uma fortaleza sitiada, guardas armados defendiam a entrada, cercada com fileiras de arame farpado. Foi preciso que Franois Tavernier ameaasse voltar com os praquedistas para que os crberos consentissem em entreabrir as grades, no sem antes pedir autorizao  direo.
Ele subiu correndo a alameda que levava aos prdios. O mesmo circo repetiu-se na entrada do hall. Tendo-o reconhecido, o porteiro precipitou-se to rpido quanto permitia a sua dignidade.
Franois pediu a chave e cortou de uma vez as lamentaes do homem com respeito a La. No quarto, encontrou logo o bilhete dela, rabiscado no verso do dele. Com raiva, amassou o recado:
em que vespeiro ela teria se metido agora? Sem se despir, esticou-se na cama. Quando o telefone tocou, ele teve a impresso de que acabava de pegar no sono. Era do quartel Rignot, de onde o chamavam por ordem do general Challe. Consultou o relgio: oito horas. Depois de se barbear e tomar um banho, ligou para Joseph Benguigui que estava dormindo:
- Joseph, voc poderia tentar encontrar o pequeno engraxate do Aletti?  muito importante.
Ligue para mim no quartel Rignot ou deixe um recado no hotel. Obrigado.
Ele desligou sem lhe dar tempo para pedir qualquer explicao.
No quartel general, Tavernier encontrou o general Challe na cama, com os ps protegidos do contato com o lenol por um arco. Junto com Paul Delouvrier, Maffart e Poincar, ele estava ouvindo o editorial da estao de rdio, transmitindo em ondas curtas, de que dispunham agora os rebeldes: "a Voz da Arglia, provncia francesa", transmitia desde o amanhecer um boletim de informaes com o objetivo de atingir os ouvintes da metrpole.
- Ele ousou chamar isso de "apelo ao povo da Frana. Os franceses falam aos franceses!" - Rugiu o comandante em chefe, dirigindo-se ao recm-chegado.
- No se preocupe, meti general. - Acalmou Poicar. - O transmissor deles  muito fraco para atingir a
Frana.
- E no  falando aos franceses de Jules Moch, de Le Troquer, de Pflimlin, de Frey, de Neuwirth ou de
Mitterrand que eles perigam de interessar algum. - Acrescentou Michel-Jean Maffart.
- Calem-se! - gritou Delouvrier.
"... Amigos da metrpole que ouvem a voz de Argel ns vamos contar a vocs, simplesmente, o que acontece aqui. No fundo,  simples. Lembrem-se da liberao de nossas cidades e povoados em 1944. As bandeiras francesas estavam em todas as janelas, vocs aclamavam os libertadores, vocs choravam os desaparecidos tambm, mas, todos juntos, na alegria da renovao, vocs acreditavam no futuro e estavam prontos para constru-lo. Argel est assim hoje. A populao muulmana e a crist confraternizam, os rebeldes,  assim que os chamam, confraternizam com o exrcito.  a grande manifestao, que nada impedir..."
- Mentirosos! - Gritou Challe.
- No se agite desse jeito. - Acalmou-o Delouvrier. - Voc vai se machucar.
"... O 13 de maio foi trado, mas nosso 14 de julho, o de 24 de janeiro de 1960, triunfar alm dos mares e continentes. Franceses, francesas, ns somos jovens, ns queremos que a justia, a paz e a fraternidade sejam mais fortes que a poltica, o dinheiro, o poder pessoal e os slogans eleitoreiros. Chaban-Delmas,
Debr que mantm na priso homens simples, que vocs empurraram para o contra-terrorismo, Frey, Edgar
Faure e todos os delinqentes da Quarta, dem lugar s foras vivas da nao. Ns somos a verdadeira democracia e  por isso que a censura governamental bloqueia todas as informaes de Argel. Um
Governo que tem medo da verdade  um Governo vencido. Que ele caia, como caram Hitler, Mussolini e o
Estado francs de 1940!"
- Desligue isso! - Gritou o general, tentando levantar-se.
a grande Frana de nossos pais..."
Paul Delouvrier desligou o boto do aparelho; Maurice Challe caiu de volta na cama, com um grito abafado.
Naquele mesmo momento, Joseph Ortiz batizava a barreira da Rua Charles-Pguy de "barricada
Hernandez", em homenagem a Roger
Hernandez, abatido durante as trocas de tiros. Uma enorme multido se comprimia sob o balco do QG de
Ortiz, de onde o professor Mningaud lia e comentava os jornais.
- Qualquer um que questione a soberania francesa sobre a Arglia cometer um crime, e os franceses que se opuserem a isso estaro agindo em legtima defesa!
Os aplausos explodiram.
- Bravo! - Confirmou a assistncia.
- Sabem quem escreveu isso? em 1957?... Michel Debr!
- Uuuu!... Traidor!
Durante esse tempo, no Hospital Mustapha, os homens de Lagaillarde penetravam no pavilho penitencirio, desarmavam os policiais de planto e liberavam os homens condenados no chamado "caso da bazuca", atentado perpetrado em 1957 contra o general Rodier. Os prisioneiros, que haviam sido transferidos da penitenciria Berrouaghia para o Hospital Mustapha por motivos de sade, trocaram imediatamente o pijama pelo uniforme de pra-quedistas. Com exceo de Philippe Castilie, condenado a dez anos de trabalhos forados, que desapareceu assim que foi libertado, todos os ex-detentos juntaramse ao campo entrincheirado de Lagaillarde.
Em diferentes bairros de Argel aconteciam cerimnias fnebres das vtimas civis. O Governo Geral temia que as cerimnias se transformassem em pretexto para novas manifestaes. A polcia, com a ajuda do exrcito, dispersava sem incidentes os agrupamentos que encontrava. Na cidade, onde a convocao para a greve geral obtivera sucesso, as bandeiras do porto estavam a meio pau e um tecido negro flutuava no mastro dos navios. A populao, ainda sob o choque, enterrava seus mortos com calma e dignidade.
No final da tarde, aquele que era chamado de o "Fidel Castro da Arglia" concordou em se apresentar no balco da Federao das unidades territoriais ao lado de Ortiz. Esse encontro foi obra do coronel Gardes, que preconizava a aproximao dos chefes da insurreio. Para as negociaes com o exrcito e as autoridades, convencionou-se que Ortiz trataria das questes polticas e Lagaillarde, das questes militares.
 noite, soube-se que o comandante da reserva Sapin-Lignires, presidente da associao das UTs, cuja sede havia se tornado o campo entrincheirado de Joseph Ortiz, fora nomeado como chefe das vinte e duas unidades territoriais da Grande Argel pelo general Crpin, com a ordem de uni-las tarefa difcil, seno impossvel de realizar, uma vez que esses homens encontravam-se dispersados pelos quatro cantos da cidade, mobilizados na tropa de Ortiz, assegurando um policiamento por conta prpria, ameaando aqueles que se recusavam a contribuir para o "esforo de guerra" em favor dos defensores das barricadas, ou simplesmente porque tinha ficado em casa...
Por seu lado, Lucien Neuwirth, secretrio geral do grupo parlamentar UNR, tentava negociar com Lagaillarde por intermdio do diretor da televiso de Argel, tarefa executada de acordo com o Primeiro-Ministro. Mas, o chefe do "reduto" das faculdades recusava-se a "parlamentar com politiqueiros".
Durante todo o dia, os coronis tentaram recrutar homens entre os rebeldes da comunidade muulmana, que, at ento, tinham-se mantido  parte. A ambio deles era conseguir fazer um novo 13 de maio, onde houvera a confraternizao das duas comunidades. Se isso acontecesse de novo, se milhares de muulmanos descessem s ruas para pedir a integrao, isso sem dvida obrigaria o general de Gaulle a voltar atrs quanto  autodeterminao. Era esse principalmente o sonho do coronel Cardes, auxiliado pelo capito Lger e pelos "azuis", que se esforavam sem descanso junto s associaes de antigos combatentes, indo de Casbah ao QG de Ortiz, do bulevar Laferrire ao campo de Lagaillarde, a fim de acertar os detalhes de uma unio entre os homens das barricadas e os rabes.
Tanto em Paris como em Argel corriam os mais variados boatos que encontravam ouvidos prontos para escut-los. Durante a noite, um emissrio do Primeiro-Ministro desembarcou em
Argel para saber se os coronis haviam mesmo constitudo uma junta com o objetivo de tomar o poder; surpresos, os tais coronis asseguraram ao enviado do Governo sua absoluta lealdade.
Entretanto, o general Crpin mandou vir para Argel um regimento de atiradores senegaleses a fim de assegurar a guarda de seu QC da caserna Plissiei depois ameaou mandar ele mesmo seus negros para atacar o campo entrincheirado. De fato, Lagaillarde e Ortiz eram os donos de
Argel. Todos, rebeldes e militares, muulmanos e ps-pretos, esperavam agora o discurso que o general de Caulle devia dirigir  nao no dia 29 de janeiro.
Eram quatro horas da manh quando Franois voltou para o Hotel Saint-George; nem La nem Joseph
Benguigui haviam dado notcias.
Ao amanhecer, o general de Gaulle ligou para Paul Delouvrier e mandou que ele enviasse o general Crpin, o nico, disse ele, em quem ainda confiava. Nesse mesmo dia, o coronel Cardes apresentava-se  Rua
Saint-Dorninique, em Paris, no Ministrio do Exrcito, onde Pierre Guillaumat exigia uma explicao de seus laos com Ortiz.
Durante a noite, em Argel, as barricadas foram reforadas e novas armas, apesar das barreiras, conseguiram chegar s mos dos rebeldes. A imprensa argeliana expunha em grandes letras, a seguinte manchete:
"A Casbah solidria para manter a Arglia francesa": os antigos combatentes tinham sido mobilizados. Na praa do Governo, eles esperavam, armados com suas bandeiras, pela chegada dos muulmanos. Somente uns trinta se apresentaram.
No quartel Rignot, o mal-estar crescia: acabavam de saber que em presena de Ortiz e de Lagailiarde acontecera no interior do campo entrincheirado, atrs da barricada da Rua Charles-Pguy, o iamento da bandeira ao som do clarim, e que os rebeldes apresentaram armas enquanto, do outro lado da barricada, os pra-quedistas haviam ficado em posio de sentido diante da bandeira tricolor que se elevava. O
Delegado Geral temia agora a influncia dos coronis sobre o comandante em chefe. Ele convocou o coronel Argoud na esperana de descobrir suas intenes.
- Voc no precisa temer nada nas prximas horas; estamos aguardando o discurso do general de Gaulle.
Se for bom, tudo volta ao normal. Se for mau, ser para voc a hora da verdade. Voc ser o n da situao. Se assumir a chefia da insurreio, ns obedeceremos. Ns, militares, no queremos o poder.
Queremos a Arglia francesa.
- Meu coronel, basta conhecer o general de Gaulle para saber que ele no recuar e que seu discurso no ser "bom" no sentido que vocs esperam. No que concerne a mim, verei, no momento apropriado, qual ser minha atitude.
A Franois Tavernier, convocado tambm, ele confessou haver ligado para o lyse e ter revelado que no lhe parecia mais necessrio que o posto de comando se encontrasse em Argel.
- Voc quer dizer que deixa o caminho livre para os rebeldes?
- No, mas se eu ficar, vou me tornar prisioneiro deles. E se tornar pblica essa impotncia, no serei compreendido nem por Paris nem por Argel. Com meias palavras, para evitar indiscries, expliquei minha deciso ao general de Gaulle; ele me disse para fazer como achasse melhor, mas que fizesse logo. Pedi, portanto, ao general Challe que considerasse essa disposio, insistindo no fato de que ele e eu estamos "envenenados" pelas idas e vindas que se sucedem aqui. Contei-lhe meu desejo de instalar meu comando em condies mais calmas. "Voc acha? Isso me parece desero", disse-me ele. Respondi que ele tinha aquela noite para refletir e que voltaramos a conversar hoje. Por mim, est tudo decidido. Qual  a sua opinio?
- Se j est tudo decidido, voc no precisa da minha opinio.
- Mesmo assim?
- Essa deciso me parece sbia e espero que o general Challe a adote. Entretanto, voc corre o risco de que os pra-quedistas e os rebeldes interpretem isso como uma forma de abandono, abrindo-lhes todas as portas dos prdios pblicos.
- Obrigado, Tavernier, fico feliz com a sua aprovao. No se preocupe com o resto; j tomei algumas precaues. Estou preparando para amanh um discurso que, espero, ser ouvido por todos os protagonistas. Voc talvez fique espantado com o seu contedo... Mas, como voc v, estou calmo, bem de corpo - ou melhor, quase, fora a minha perna - e de esprito, e nada me impedir de cumprir meus compromissos.
Descobria-se em Paul Delouvrier uma nova postura, uma determinao e uma autoridade renovadas. O cansao dos ltimos dias parecia haver desaparecido. Franois considerou-o com simpatia e respondeulhe:
- No duvido, senhor Delegado.
- J encontrou sua mulher?
- Ainda no.
- Sinto muito, principalmente porque, em razo das circunstncias, no posso lhe ser til. Sinceramente, lamento muito... Voc tem pelo menos uma idia de onde ela se encontra?
- Na Casbah.
- Na... na Casbah! Mas o que ela est fazendo l?  extremamente perigoso!
Franois esboou um gesto fatalista.
- Voc falou sobre isso com o coronel Godard? Afinal, ele  o responsvel pela segurana...
- No. Fique fora disso tudo, eu me viro...
- Se voc tiver novidades, ponha-me a par: vou jantar no Palcio de Vero; minha mulher insistiu em ficar em Argel com nosso filho mais novo.
Naquela quinta-feira, 28 de janeiro, o mundo inteiro tinha os olhos presos em Argel. Agora, fazia cinco dias que o centro da cidade estava paralisado pelas barricadas e pela greve geral, e os vveres comeavam a faltar. "O exrcito vai juntar-se oficialmente  rebelio?", era essa a pergunta que todos se faziam.
"Se o Governo no renunciar  autodeterminao, no poderei responder pelas tropas sob meu comando", informava o relatrio cotidiano do general Gracieux, enviado naquele dia ao general
Challe.
Na metrpole, assim na Alemanha, algumas unidades se diziam prontas a se por  disposio do general Challe, o nico, segundo os militares, capaz de salvar o exrcito de uma nova "guerra espanhola". Em Oran, em Constantine, em Mostaganem, haviam estourado incidentes quando os muulmanos gritaram "Viva de Gaulle!", "Viva a FLN!"... O comandante supremo das foras aliadas na Europa, general Norstadt, havia at publicado um comunicado nestes termos: " do interesse de todos os pases da OTAN que se apresente uma soluo para a crise argeliana. A situao na Arglia constitui para um membro da OTAN um acontecimento grave que interessa a toda a Aliana."
Por outro lado, dezenas de mensagens de apoio chegavam todos os dias ao lyse e numerosas prises eram feitas nos meios de extrema direita, tanto em Paris como no interior.
No ptio do Hospital Maillot, o funeral de catorze policiais mortos no domingo  noite desenrolava-se na presena de seus colegas. Durante a emocionante cerimnia, o general
Morin, comandante da polcia, depositou uma medalha sobre cada um dos caixes expostos, recobertos pela bandeira tricolor. A cidade estava mergulhada num clima febril. As tropas estavam divididas: os navos da Casbah ameaavam atirar nos pra-quedistas, os fuzileiros navais, de tomar de assalto as barricadas, e Lagailiarde, de fazer tudo saltar pelos ares. Quanto aos pra-quedistas, verdadeiros senhores da situao, estavam divididos entre juntar-se aos rebeldes ou permanecer fiis a de Gaulle. Junto s autoridades, a ameaa de Lagailiarde era levada a srio; ele havia declarado: "Se atirarem em mim, fao toda a Argel ir pelos ares. Tenho vinte garrafes de cido fluordrico. Haver cem mil mortos."
Mais uma vez, tentaram fazer os muulmanos sair de seus bairros e confraternizar com os revoltosos das barricadas; vieram poucos mais que na vspera: uma centena, no mximo.
No quartel Rignot, Paul Delouvrier e Maurice Challe tomavam as ltimas medidas necessrias para a sua "evaso". Fora decidido que eles iriam para Reghaa, a uns trinta quilmetros de Argel, na base dos caa- bombardeiros cujo chefe, general
Martin, comandante da aviao na Arglia, era amigo do comandante em chefe. Num conselho de guerra restrito, ficou estabelecido que Challe partiria primeiro com seu Estado- maior e que Delouvrier o seguiria, depois de gravar seu discurso.
No final da manh, o coronel Argoud apresentou-se, rodeado pelos outros coronis, trazendo um manifesto que eles desejavam entregar ao comandante em chefe, com o propsito de "continuar a exprimir a opinio de todo o exrcito". Responderam-lhes que o general Challe, doente, encontrava-se incapacitado de receb-los. Decepcionados, voltaram para a caserna Plissier.
Depois do almoo, Challe, de pantufas, entrou no carro em companhia do coronel Boissieu. Escoltado por motocicletas e seguido por dois caminhes de comandos do ar, ele foi levado para a droppping zone do quartel Bimandreis, onde um helicptero o aguardava.
Aliviado por ver o general Challe se afastar, Franois Tavernier voltava-se para o Delegado Geral quando vieram avis-lo que um motorista de txi insistia em v-lo. Franois desabalou-se para a entrada do quartel
Rignot, diante da qual Joseph Benguigui esperava. Empurrando os sentinelas que demoravam a abrir as grades, ele gritou:
- E ento?... Voc a encontrou?
- Suba!
- Mas... Ah, merda!
Ele se sentou ao lado do motorista, que arrancou em seguida.
- Ento? - Repetiu Franois.
- Encontrei o engraxate do Aletti. No foi fcil para ele me achar...
- Estou pouco ligando! Onde est La?
- Com a irm do engraxate.
- Malika?
- Sim, ele veio procurar sua mulher para que ela cuidasse da menina.
- Por que ela no telefonou?
- No h muitos aparelhos telefnicos na Casbah... Ela havia pedido ao engraxate que me avisasse para que eu lhe desse o recado. Ele s conseguiu fazer isso hoje de manh...
- Como ela est?
- Bem; ela passeia pela Casbah, disfarada de molikerc... E voc acha graa?
- Eu imagino!... H, h, h!... Isso  a cara da La! H, h, h!...
Benguigui lanou-lhe um olhar furibundo.
- No  nada engraado! Vocs so completamente irresponsveis, vocs dois! Apesar da batalha de
Argel e da priso dos seus chefes, a FLN ainda est fortemente implantada na Casbah. Se souberem que uma europia passeia por l e, pior, que ela  casada com o enviado do general de Gaulle, ela se arrisca a passar um mau bocado!
- Voc tem razo, desculpe. Mas, no fico surpreso de que ela esteja l: o bilhete que ela me deixou dava a entender isso.
O carro deu uma guinada, uma roda bateu na calada.
- Meu Deus! Olhe para a frente, voc vai nos matar
- Voc sabia? Eu no compreendo nada...
- No  nada... Aonde ns vamos?
- O garoto espera voc no jardim Marengo, no lugar que voc sabe...
- Sei.
- Se me tivessem dito que eu levaria os recados de um muulmano nessas circunstncias...
- Voc ainda est em contato com seus camaradas das barricadas?
- Eles no so todos "meus camaradas", mas alguns deles, com certeza, so sinceros; eles esto seriamente persuadidos de que da atitude deles depende o futuro de seus filhos. Eu sei muito bem que esto enganados, mas como dizer isso a eles? So pessoas simples, como eu, que amam este pas que  tanto deles como dos muulmanos. O que fazer? No h soluo... Os rabes jamais se uniro a Ortiz e seu bando, a Lagaillarde e seus pseudo-pra-quedistas. E o que vai acontecer  que ns, passada a euforia, no teremos mudado. Seremos ainda o que ns somos: os pequenos brancos. s vezes, gostaria de juntarme a eles: acreditar, acreditar ainda e sempre na Arglia francesa! Mas, no acredito mais e... voc contribuiu muito para me abrir os olhos.
- Ah, muito pouco... Lembre-se das nossas conversas: voc j estava terrivelmente lcido e suas idias nunca foram as de um "pequeno branco". - Amenizou Franois, pondo-lhe a mo no ombro.
- Tudo bem, tudo bem. - Resmungou Benguigui, afastando-se do gesto amigvel. - No  hora para nos emocionarmos... Voc, que est entre os manda-chuvas, o que vai acontecer agora?
- O Delegado Geral preparou um discurso que ir ao ar a qualquer momento.
- Um discurso?... Estou de saco cheio de discursos! Isso no adianta nada... E o que diz, esse discurso?
- Ainda no sei de nada.
Na Praa Jean-Mermoz, diante do quartel Plissier, protegido por sacos de areia e cercas de arame farpado, caminhes militares estavam estacionados. Sentados nos degraus do Liceu Bugeaud, fechado por causa da greve, os alunos desocupados observavam os acontecimentos. Os militares pararam o txi e examinaram os documentos dos ocupantes. Como o salvo-conduto estava em ordem, mandaram-nos seguir em frente.
- Ele podia ter escolhido um outro lugar. - Resmungou Benguigui, pegando a Rua Sidi-Abderrahman.
O carro parou ao lado das grades. No jardim, as mes passeavam com seus filhos.
- O que fao agora?
- Espere, por favor. Preciso voltar ao quartel Rignot.
Bchir estava no lugar onde eles j se haviam encontrado antes. Franois sentiu por ele um daqueles impulsos de simpatia que ele raramente sentia. O garoto veio na direo dele, com um sorriso nos lbios.
- Fico feliz em rev-lo! - Disseram ao mesmo tempo.
Rindo da coincidncia, sentaram-se num banco.
- Voc no devia ter envolvido La nisso tudo. - Repreendeu-o, no entanto, Franois.
- Eu sei, mas no tinha escolha. Malika delirava, Yaef no voltou mais e Al-Alem e eu no sabamos aplicar injees.
- E o doutor Duforget?
- Impossvel chegar perto dele, o Hospital Maillot est nas mos dos militares e no  bom, para um rabe, andar por l. Se no fosse a sua mulher, Malika teria morrido. Sua mulher  uma pessoa incrvel!
- Eu sei.
- Minha me veio ficar conosco.
- Fico feliz por vocs... Quando La volta da Casbah?
- Amanh, eu acho. Depende de Al-Alem...
- Porqu?
- Porque ele  o nico entre ns que sabe evitar os soldados assim como os membros da Frente.
- Voc jura que La no corre nenhum risco?
- Juro! Ela  muito bonita, a sua mulher...
- Ei, olhe l! Voc no vai ficar apaixonado?
O rosto moreno de Bchir ficou rubro. Para manter a compostura, ele se levantou e mudou de assunto:
- No rdio esto anunciando que o Delegado Geral vai fazer um discurso. Voc acha que  importante?
- Oua e depois voc me diz o que achou. Agora, preciso ir. Voc pode dizer a La que eu estarei com certeza no quartel Rignot?... Ah! Diga tambm que estou com saudades e que a amo.
- At que enfim! Os pra-quedistas queriam me fazer sair... Aonde vamos? Ao quartel Rignot?
- No, primeiro  caserna Plissier.
- Eles no vo nos deixar entrar.
- Veremos...
s sentinelas, Franois mostrou seu salvo-conduto assinado pelo comandante em chefe e pelo Delegado
Geral. como no havia ordens a esse respeito, deixaram-no entrar.
- Este senhor est comigo. - Assegurou ele, designando Benguigui.
- Ele entra no ptio com o carro. - Acrescentou As portas se abriram.
- Tenho a impresso de estar me jogando na boca do lobo... Por que voc quer que eu o acompanhe at aqui? - Gaguejou seu acompanhante.
- Para que voc possa ouvir o discurso de Delouvrier e para que eu tenha testemunha...
No interior dos prdios, numa atmosfera carregada de eletricidade, choviam perguntas, ordens e contraordens no meio de idas e vindas constantes. Por todo lado as portas batiam, os telefones tocavam, os rdios chiavam. No gabinete do coronel Argoud, as caras estavam fechadas.
- Bom dia, coronel. - Imps-se de cara Tavernier. - Permita-me apresentar-lhe um amigo, o sr. Joseph
Benguigui. Achei que voc nos receberia para escutar o discurso do Delegado.
- como se voc j no conhecesse o contedo! - Repeliu vigorosamente Argoud.
- Qual  o seu jogo? - Interpelou um dos outros coronis presentes.
- Nenhum, senhores. Estou aqui como observador. E como vocs, estou impaciente para ouvir o sr.
Delouvrier...
Um tenente ligou o rdio. A voz grave do Delegado Geral encheu o cmodo. Todos ficarem quietos.
Naquele momento, por todos os lados, nos cafs, nas barricadas, no QG de Ortiz, assim como no de
Lagailiarde, nas casernas e nos postos avanados, tanto em Argel como no bled, todo mundo corria para perto de um rdio.
"O Chefe de Estado me disse, vocs se lembram, quando me nomeou para o meu cargo na Arglia: "Voc  a Frana na Arglia". Hoje, essa frase nobre traa minha linha de conduta. AFrana no abdica. Eu no abdicarei.
O general de Gaulle tambm me disse: "Um chefe  aquele que decide". Eu decidi: ordenei ao general Challe que fosse para o QG de onde ele pudesse efetivamente comandar.
Argelianos, argelianas e vocs, todos os argelianos que querem que a Arglia permanea francesa, oficiais, suboficiais do exrcito francs, vocs, soldados da Frana, no fiquem assombrados, ouam.
Vocs vo compreender. Escutem-me, vou demorar. Mas, a hora  to grave, o instante to dramtico que  preciso me ouvir at o fim. O general Challe e eu unimos nosso destino e juramos deixar nossa vida, se for preciso, nesta terra para salvar a Arglia, poupando a Frana.
Vou me dirigir primeiramente  metrpole. [... Os homens, na hora da verdade [...] querem morrer para permanecer franceses. No h exrcito insubmisso, o general Challe j disse: o exrcito  o exrcito do
Governo e da Repblica. H homens resolutos, oficiais e soldados, decididos eles tambm a morrer, uma vez que morrem todos os dias nos combates contra a rebelio. E esses dois grupos de homens esto frente a frente, levados a esse ponto por um equvoco trgico, uns porque crem que no vo mais ser franceses, os outros porque devem obedecer.
[...  preciso compreender, franceses da metrpole, que cada um que vive neste momento na Arglia tem um drama de conscincia. [... Para saber se o exrcito vai obedecer, seria preciso interrogar um por um, oficiais e soldados.
Ontem, fiz secamente uma pergunta: "De Gaulle ou derramamento de sangue?" a muitos oficiais de Argel.
Vi, o rosto desses soldados leais  Repblica, crispados pela indeciso. Vi em seus olhos o brilho da crise de conscincia e lgrimas em muitos desses pra-quedistas, valentes homens de guerra. Eis a verdade, franceses da metrpole, eis a situao. No  possvel continuar com o drama, porque cada um deles sabe que para a soluo de sua crise pessoal est em suspenso ou a desordem e o caos na Arglia, ou a secesso com a metrpole, ou a queda do regime e a desordem na Frana. Pensem nessa situao, homens da metrpole. [...] Pensem tambm que os "colonialistas" - como vocs chamam - so mortos na Arglia.
Eles foram mortos em 13 de maio, quando a igualdade poltica com os muulmanos foi aceita por eles.  claro que os comportamentos no mudaram todos, eu sei, e sabem principalmente os muulmanos. A igualdade social vai demorar a acontecer, mas enfim, os europeus aceitaram - e foi esse o brilho, o milagre fulgurante do 13 de maio, no compreendido ainda exatamente na metrpole - que sua dominao poltica local acabe. Eles aceitaram isso porque tinham a certeza, naquele dia, de permanecer franceses. A integrao  isso. O resto  para os professores de direito constitucional.
Eis as verdades que eu queria dizer  opinio pblica da metrpole.
Dirijo-me agora ao exrcito a quem o general Challe vai dar ordens imediatamente depois de mim.
Conheo agora o exrcito da Arglia que , pelos oficiais, todo o exrcito francs, pelos soldados, o exrcito da nao francesa. H cinco anos nesta terra e antes, na Indochina, ele submeteu-se ao duro aprendizado da guerra revolucionria. Para os metropolitanos - salvo para os muulmanos da metrpole -, esta guerra revolucionria  um mito. Para ns,  a vida de todos os dias. Isso, eu aprendi.
[...] Mas o drama de hoje, para vocs, homens do exrcito, o drama mais terrvel,  este aqui: unidade do exrcito ou unidade da Repblica e da Frana? A qual chefe obedecer? Aquele em que o exrcito confia para manter sua unidade ou aquele que  constitucionalmente o chefe dos exrcitos e a expresso da unidade da ptria?
[...] Mas, aqui, escutem-me bem: no se pode mais refazer o 13 de maio. Vocs no podero refazer o 13 de maio. No existe mais de Gaulle na reserva. E se o Presidente da Repblica voltasse para Colombey, a
Frana perdoaria o seu exrcito? Seriam necessrios dois sculos para curar esse divrcio, e a grandeza da
Frana, que no pode existir sem seu exrcito, acabaria.
Eis o seu dilema, homens do exrcito. E s h um mtodo para sair disso, um s e nico:  preciso obedecer ao general Challe, que bedece ao Presidente da Repblica.
Mas, e a Arglia, diriam vocs, e a Arglia? Vocs querem dizer que o Chefe de Estado quer liquidar com a
Arglia?
Como podem vocs acreditar nisso?
Vocs esto presos num crculo vicioso: vocs sabem que na guerra subversiva, para ganhar a guerra,  preciso conquistar a populao. E vocs se empenharam nisso. Mas os muulmanos lhes parecem hesitantes. Vocs os julgam pelos mtodos da Frana. Minha convico  mais simples: "Para que ns sejamos conquistados,  preciso que vocs ganhem a guerra."
[...] Mas, escutem bem, eu suplico: o general de Gaulle  o nico que permite sair desse crculo vicioso. Ele venceu diplomaticamente a FLN no exterior, e ganhou a confiana dos muulmanos do interior. Se vocs romperem com de Gaulle, vocs rompem com os muulmanos.
[... Exrcito da Arglia! Isto  uma splica, mas  tambm uma ordem: sigam o general Challe, sigam de
Gaulle! Os muulmanos esto a.
 a vocs que me dirijo agora, compatriotas muulmanos. J disse a vocs o quanto os amava, como acreditava compreend-los, vocs tambm divididos. mesmo os oportunistas, eu os compreendo: quem vai ganhar?
O medo, o medo visceral, esse cncer da Arglia! Existem muulmanos que tm medo. Existem europeus que tm medo. H o exrcito que tem medo de no ganhar a guerra. H o medo dos terroristas. H o medo de que de Gaulle abandone, em esprito, a Arglia. H o medo de que a Frana no deixe.
E, sim, muulmanos, so vocs que tm mais medo. So vocs que mais sofrem. Mas de Gaulle deu a vocs a dignidade, a igualdade, a liberdade. Ele deu tudo isso a vocs, mas vocs ainda no tomaram. O que esto esperando?
[... O que fazer para pegar essas coisas? Gritem vocs o que pensam. Nas cidades e no campo, saiam em cortejo, livremente, espontaneamente e gritem: "De Gaulle! Viva de Gaulle!"
Gritando assim, ningum poder dizer que foi forado: de Gaulle  o nico chefe inconteste entre os muulmanos. Gritar "De Gaulle!"  para vocs a verdadeira libertao: vocs tero a maioridade. Com suas vidas, a de suas mulheres, a de seus filhos, vocs sabero salvar a Arglia, e a FLN ter de curvar-se, desaparecer, sem que vocs se arrisquem a cair sob uma preponderncia poltica dos europeus que estes ltimos abandonaram em 13 de maio, como eu lembrei h pouco.
[... Ento, suplico, meus compatriotas muulmanos: gritem o nome do homem que transformou vocs em homens maiores, em homens modernos. Do homem que conservar sua conquista pela presena definitiva da Frana, aqui votado por vocs. Gritar "De Gaulle!"  a paz e a unio,  o fim do pesadelo de hoje e de amanh,  a reconciliao final com os europeus,  a grandeza de sua ptria; a pequena que  a Arglia, e a grande que  a Frana.
[...] Dirijo-me agora aos europeus da Arglia e, sobretudo, aos argelianos.
Se etenho que me reunir ao general Challe em seu novo QG para encontrar, eu tambm, minha liberdade de comando, eu lhes deixo, argelianos, o depsito mais sagrado que um homem pode ter: sua mulher e seus filhos. Cuidem de Mathieu, meu filho mais novo. Quero que ele cresa, como smbolo da indefectvel unio da Arglia e da Frana. Esse depsito sagrado me d o direito de falar a vocs de qualquer ponto, de qualquer cidade da Arglia como se eu no tivesse deixado
Argel.
E eis o que tenho a lhes dizer: Dirijo-me a vocs, em primeiro lugar, Ortiz, Lagaillarde e voc, SapinLignires, chefe das UTs, e todos aqueles que esto trancados dentro das faculdades, como em Alcazar de
Toledo, prontos a morrer. Eu grito  metrpole que sado a coragem de vocs, filhos da ptria. E, Ortiz,
Lagaillarde, Sapin-Lignires e todos os outros, vocs vo vencer! Amanh, vocs vencero se me escutarem hoje.
Dirijo-me a vocs tambm, representantes do povo, senadores, deputados, conselheiros municipais; a voc, presidente Bouarahoua, da grande Argel. A vocs, antigos combatentes Arnould, Mouchan, Martin e todos os outros; a vocs que formam o conjunto de trabalhadores e da agricultura, sr. Chaulet, sr. Lamy.
[...] A vocs, povo de Argel, de Bab-el-Oued e de Belcourt, povo de El-Biar. A vocs, ainda, povo da
Casbah e de toda a grande Argel.
[... Corri o risco terrvel de comear a guerra civil na Arglia para evitar a secesso, a partida de de Gaulle e a guerra civil na Frana. Corri o risco terrvel de quebrar a unidade do exrcito. Sim, mas corri esse risco com segurana e tinha o direito de fazer isso uma vez que deixo aqui, em Argel, minha mulher e meus filhos, minha prpria carne, eu que quero salvar vocs.
Corri esse risco porque, repito, tenho confiana. Tenho confiana de que vocs me seguiro, que as barricadas - onde as pessoas sonham em se abraar uma vez que temem se matar -, que essas barricadas vo cair. Vamos confraternizar! Vamos confraternizar gritando: "Viva de Gaulle! Viva a Frana!"
Caindo essas barricadas, elas derrubarao o medo, elas derrubarao a angstia de todas as mes da Frana e da Arglia.
Sigam-me, eu suplico. Tudo est to perto de se perder, tudo: a Arglia, a Frana e a vida de vocs, Ortiz e
Lagaillarde, suas vidas de que a Frana precisa tanto. Tudo. E tudo, entretanto, pode ser retomado, tudo ser ganho. Vamos, eu suplico pateticamente. Se os muulmanos se determinarem a gritar "Viva de Gaulle!"
(apesar de vocs, talvez at de boa vontade), ento a poltica de de Gaulle no oferecer mais riscos.
Suplico pela ltima vez: europeus, muulmanos, meus irmos, gritem todos juntos, todos unidos: "Viva de
Gaulle! Viva a Frana!".
[... Com o chamado do general Gracieux e de seus pra-quedistas, amanh, depois de amanh, se vocs quiserem, Challe e Delouvrier estaro em Argel. Ns visitaremos a Alcazar das faculdades, ns apertaremos a mo de Ortiz e de
Lagailiarde, e a sua, Sapin-Lignires, chefe das UTs. "Nada est perdido para um francs quando ele se une  sua me, a Frana", disse o general de Gaulle na noite de domingo. Ns iremos juntos ao monumento aos mortos, chorar e rezar pelos mortos de domingo, mortos ao mesmo tempo para que a Arglia seja francesa e para que a Arglia obedea a de Gaulle. E, no dia seguinte a esse dia feliz, Challe e Delouvrier iro a Paris para devolver, sem condies (no se impem condies ao Chefe de Estado), a Arglia a de Gaulle e  Frana.
Pronto. Terminei, aps esses dias exaustivos. Massu, o general Massu, que  leal, me aprovaria, no  coronel Argoud? Alis, ele vai me aprovar.
Challe e eu colocamos tudo nesse esforo: nosso crebro, nosso corao, nossa alma. E este plano est de acordo com a honra, que Deus nos guarde e que Ele nos oua, que Ele salve a
Frana e a Arglia!
Ordeno a todas as autoridades civis e militares que realizem, por todos os meios em seu poder, com todas as foras de sua alma, que realizem este plano salvador.
A vocs, agora, Crpin, Gracieux, Argoud, a vocs, oficiais SAS e SAU, a voc, Segonzac e sua juventude, a voc, Germiny, a voc, Bouarahoua, a voc, Ben Keddache, a voc, Sayah, a todos vocs, todos cidados franceses da Arglia!
Viva a Frana!"

Captulo XXIII

O discurso de Paul Delouvrier deixou os meios polticos, tanto na Arglia como na Frana, estupefatos.
"O poder no recua, ele foge", comentou Louis Cambon, secretrio do grupo parlamentar da
Unidade da Repblica, alis, secretrio da RAF5 de Georges Bidault. " um discurso num tom exagerado!", exclamou o Ministro da Informao. "Delouvrier quer opor os muulmanos e os europeus", considerou um oficial das UTs. "Ele no deveria ter partido", julgou um outro oficial, "no se abandona uma cidade em estado de stio". "Delouvrier  louco! No so os argelianos que degolam as crianas, mas osfellaglias!", explodiu um deputado argeliano. "Essa mensagem  importante. Vou responder amanh!", evitou Ortiz, entediado. Quanto a Lagaillarde, ele anunciou que tudo isso no interessava a ele...
No esprito dos argelianos, as palavras do Delegado Geral tiveram, entretanto, o efeito de um raio. Ao ouvi-lo, as mulheres choraram e aquelas que tinham o marido ou o filho engajados na rebelio suplicaram que eles voltassem para casa. Os homens das barricadas encontravam- se frente ao exrcito que se tornava, sozinho, o dono da situao. Todos se perguntavam quais seriam os motivos reais da partida.
Passados os primeiros momentos de surpresa ou de clera, os chefes da rebelio publicaram um comunicado em resposta s palavras de Delouvrier e do general Challe:
Tranqilizemos, em primeiro lugar, o Delegado Geral: no que nos diz respeito, ns nunca maltratamos as crianas nem atiramos nelas. Os torturadores no se encontram entre ns nem no exrcito. Ele pode, portanto, partir tranqilo, sua famlia vai recebei" os cuidados aos quais tm direito todas as famlias francesas.
A menos... a menos que o ser. Delouvrier seja ouvido com muita fidelidade pela FLN.
Porque, afinal, de modo geral, certas passagens de sua fala soam como um apelo  rebelio contra os europeus. Mas, nesse sentido tambm, que o ser. Delegado Geral parta em paz: com a ajuda do exrcito, ns manteremos a ordem.
Alm disso, como os muulmanos conhecem hd muito tempo os seus amigos, no tem nenhum risco de termos uma disputa fria com eles, nem qualquer tipo de disputa. Eles sabem bem que o seu destino est ligado indefectivelmente ao nosso, como sabem tambm que ns somos os verdadeiros e nicos defensores deles. Eles no ignoram tambm que a Frana  eterna; seus benefcios j os atingiam quando de Gaulle ainda era um completo desconhecido e duraro at que ningum se lembre mais do nome de de Gaulle.
A Frana  uma coisa, de Gaulle  outra, completamente diferente. E para os muulmamos, assim como para ns, a Frana, que permanece, vem antes de um homem, que passa. Portanto, no h dvidas: sabemos muito bemn como amar" e servir a Frana; ns j demonstramos. Os antigos combatentes muulmanos tammmbmn.
 por isso que eles esto ao nosso lado na luta.
Para terminar com o ser. Delouvriei", a quem no desejamos mal algum nem, sobretudo, que ele "perca a vida", como pareceu insinuar, digamos simplesmente que no apreciamos os chefes que partem nos momentos crticos, deixando os subordinados na...
dificuldade. Mas, quanto a isso tambm, no temos medo, h muitos casos em que os subordinados so mais dignos e mais lcidos que os "grandes chefes", cuja cabea, s vezes, se perde nas nuvens.
Um pouco mais tarde, o Comit dos patriotas fazia, a pedido de Ortiz e de Lagailiarde, uma correo a esse comunicado: suprimiram "quando de Gaulle era um completo desconhecido"...
Em Paris, comentava-se duramente a "fuga" do Delegado Geral e o "abandono do posto frente ao inimigo" do comandante em chefe. O Elyse, Matignon, o Ministrio das Foras Armadas e o do Interior eram palco de encontros, entrevistas e comunicados febris. Os jornalistas no conseguiam acompanhar. Os boatos mais loucos circulavam: os praquedistas se preparavam para saltar na capital, armas eram despachadas para a Presidncia da Repblica e para os principais ministrios, o toque de recolher ia ser declarado... Na Chefatura de Polcia, tomavam- se providncias para o caso de a rebelio triunfar, como j davam a entender certos jornais. Antigos chefes da
Resistncia declaravam-se prontos a voltar ao servio para salvar a democracia. Apelos eram lanados s organizaes de esquerda a fim de que se unissem aos que no aceitavam a ditadura. Os parisienses estocavam provises e os que podiam mandavam os filhos para o campo. No exterior, os "acontecimentos" da Arglia estavam na primeira pgina de todos os cotidianos. Em Washington e em Londres, em Moscou como em Bonn, em Roma como em
Bruxelas, esperava-se, de agora em diante, o discurso do general de Gaulle.
No bairro de Bab el-Oued, os territoriais voltavam para as barricadas brandindo suas bandeiras, saudados pelas buzinas com os famosos "trs longos e trs breves", que se tornaram smbolo sonoro dos partidrios da Arglia francesa. Numerosas cruzes celtas tinham sido pintadas nos muros e os "Viva Massu!", "Abaixo de Gaulle", "Arglia francesa!", "O exrcito conosco!"
estavam em todas as fachadas. As portas de ferro continuavam abaixadas diante das lojas e coitados daqueles que tentassem levant-las: eram xingados e ameaados de severas punies.
O lixo, que no era recolhido desde o domingo, amontoava-se diante das portas dos prdios. Em volta do campo entrincheirado, os pra-quedistas, que deveriam montar guarda e impedir a multido de penetrar nele, conversavam com os rebeldes trocando cigarros com eles. Durante o dia, havia tanta gente em volta do campo quanto l dentro e, s quando a noite caa, as famlias voltavam para casa.
Lagaillarde, saindo de seu reduto, era aclamado pela multido sob o olhar benevolente dos praquedistas, enquanto verdadeiras ovaes saudavam as aparies de Ortiz no seu, desde ento, clebre balco. Depois do espanto e da emoo causados pelas declaraes do Delegado Geral e depois do anncio de sua "fuga" para o hled, os revoltosos convenceram-se de ter obtido uma vitria: Argel era deles. O "Fidel Castro" do campo entrincheirado tinha marcado um ponto sobre Ortiz:
ele mandara interceptar um helicptero da companhia Gyrafrique, o qual, exibido no terrao de um anexo das faculdades, desafiava o dono do caf Forumn e os pra-quedistas; o aparelho era vigiado dia e noite, e Lagaillarde dera ordens para atirarem em qualquer um que se aproximasse.
A maior parte das cidades da Arglia tinha aderido  greve e fazia manifestaes de apoio ao movimento de Argel.
Enquanto isso, os combates continuavam no territrio argeliano: perto de duzentos e cinqenta rebeldes haviam sido neutralizados. O fim do ms se aproximava e o dinheiro comeava a faltar na casa dos operrios e empregados: a greve impedia tambm o transporte de fundos. No QG de Ortiz sucediam-se industriais, banqueiros e representantes dos trabalhadores. Dono da situao, o presidente da FNF autorizou os bancos a enviar s pequenas empresas privadas as quantias que seriam entregues aos assalariados a ttulo de adiantamentos.
A noite j havia cado, quando Tavernier e Benguigui deixaram a caserna Plissier. De comum acordo, decidiram tomar alguma coisa no bar do Hotel Aletti. Quando entraram no Cintra, ficaram surpresos de no encontrar o movimento habitual. Gilda e suas companheiras entediavam-se completamente diante dos copos vazios, Os barmen enxugavam, lentamente, uns copos que j brilhavam, e um garom varria a toa;
os raros clientes do dia eram comerciantes do bairro, sem traba. - O que est acontecendo? - Espantou-se
Joseph. - Os jornalistas deram o fora?
- Esto todos no Albert, que eles chamam de "campo entrincheirado da imprensa". Dali, eles assistem a tudo de camarote, com vista das barricadas, do Plat Glires, do movimento das tropas... Como no cinema!
- Explicou um barinaiz com irritao.
- Mas vocs esto em greve? - Insinuou Franois.
- Perfeitamente, ns estamos em greve. S estamos abertos para reconfortar os patriotas!
- Ento, os jornalistas no fazem falta.
O rosto do garom tornou-se prpura e Joseph Benguigui interveio:
- Ei, Georges, sirva-nos um anisete... Oi, Gilda... Voc bebe alguma coisa?
- O mesmo que vocs... como vai sua esposa, sr. Tavernier?
- Bem, obrigado... Voc sabe se o engraxate trabalha hoje?
- No, no o vejo desde a semana passada.
- E aqueles que tentaram entrar no meu quarto, voc tornou a v- los?
Sem responder, a jovem mulher olhou em volta, ansiosa. Um grupo de territoriais entrou ruidosamente.
- Ol, todo mundo! Ol, meninas!
- Ns ganhamos, o Delegado deu no p! O corajoso nos deixou seu filhinho!
- Georges! Voc oferece uma dose aos vencedores?
Os homens se sentaram, brincalhes, enquanto os funcionrios se apressavam a servi-los. Pouco  vontade, Benguigui virou as costas para eles. Gilda agarrou-lhe o brao.
- Est doendo!
Gilda aumentou a presso; ele se virou.
- Pelo amor de Deus!
Alertado pelo tom de voz angustiado, Franois se virou tambm: dois homens estavam parados na entrada. Ele reconheceu seus visitantes.
- Gino. - Gritou um dos territoriais - o que voc explodiu hoje?
Seus companheiros caram na gargalhada como se fosse uma boa piada.
- A idia dos pneus. - Continuou o territorial falador. - Foi genial. S podia ter vindo de seu irmo e de voc.
-  verdade, no h ningum como eles para fazer bum! - continuou um gordinho, apertado no uniforme.
- Voc fala demais, Paulo. - Repreendeu-o Gino.
- Se no se pode mais brincar...
- No na frente de estrangeiros!
O silencio caiu imediatamente e todos dirigiram seus olhares para Tavernier. Perto dele, Gilda tremia.
Involuntariamente, o porteiro salvou a situao.
- Gino! Telefone para voc.
Os dois irmos saram atrs dele.
- Os pneus cheios de explosivos, foram eles? - cochichou Franois no ouvido da jovem cuja tez havia se tornado cinza.
Ela concordou com a cabea.
-  melhor irmos embora. - Aconselhou Joseph, jogando uma nota no balco. - Cuide-se bem, pequena.
Eles atravessaram a Rua Alfred-Lelluch, subiram os degraus e chegaram  Praa Isly. Sem trocar uma palavra, andaram at o Hotel Albert onde estavam reunidos jornalistas do mundo inteiro.
- H um jipe do exrcito na minha garagem; foi voc?
- Merda!... Tinha esquecido completamente.
- E ningum se deu conta?
- No. Do jeito que as coisas esto...
- Tavernier!... Voc ainda est aqui?
- Como voc pode ver... Boa noite, Ribeaud. Apresento-lhe um amigo, Joseph Benguigui.
- Boa noite... Acabo de chegar de Paris e de saber a novidade da partida de Delouvrier. Voc estava sabendo?
- No mais que voc...
- Duvido muito!
- Acredite no que quiser... E, em Paris, qual  o clima?
- Todo mundo ou tem cagao ou tem gripe! Mais de duzentos mil parisienses esto de cama, e os que ainda esto de p fazem provises.
-  um velho hbito dos franceses. - Comentou sobriamente Franois.
- O que voc pensa da situao? O que vai acontecer? O que de Gaulle vai dizer?
- Como voc quer que eu saiba? Saberemos logo mais, aps o discurso do General ... Ah, ol, capito Lger!
O chefe dos "uniformes azuis" vinha na direo dele, seguido por seus guarda-costas; os trs estavam com roupas de pra-quedistas.
- Boa noite, Tavernier. Estava justamente procurando por voc. Posso falar-lhe em particular?
- Certamente... Desculpe-me, um momento. - Falou Franois para seus acompanhantes.
Lger pegou-lhe o brao e eles se dirigiram para o Bulevar Laferrire. Por todo o lado, no campo entrincheirado, fogueiras brilhavam. Com exceo dos que sustentavam as barricadas, os argelinos haviam todos voltado para casa.
- Voc teve notcias da sua mulher? - Interrogou abruptamente o capito.
Franois parou, olhou direto nos olhos dele e pensou por uns instantes antes de responder.
- Por que voc est me perguntando isso?
- No tente bancar o esperto comigo, Tavernier. Sua mulher est atualmente na Casbah, e voc sabe disso.
- E voc, como  que sabe?
A Casbah no tem segredos para mim. Circulo por l como um peixe na gua. Tenho amigos l dentro, e os que no me conhecem acreditam que eu sou kahyle.
- Eu tinha esquecido que voc fala correntemente rabe e knbyle e que muitas vezes  considerado muulmano...
- H algum tempo, estou de olho num garoto... um yaouleds" que parece ter uns doze anos, mas que na verdade deve ter uns dezesseis ou dezessete. Chamam-no Al-Alem... Por diversas vezes, escapou de mim
Garoto rabe, empregado com freqncia para pequenos servios de rua (engraxate, carregador de gua, vendedor de jornais).
por um triz, parece que tem o dom da ubiqidade: meus homens o vem aqui, outros l... At agora ningum conseguiu localizar seu esconderijo, e os habitantes da Casbah dizem que no o conhecem...
- Talvez seja verdade...
- Besteira!
- E, ento, o que voc quer com ele?
- Tenho certeza de que ele trabalha para a Frente,  isso, h dois anos, talvez mais. Gostaria que ele trabalhasse para mim.
Chocado com tanto cinismo, Franois no conseguiu disfarar seu espanto. Deu uma olhada na direo dos dois homens de uniforme que se mantinham a pouca distncia.
- Eu sei que voc  especialista em converses. Esses dois ali, certamente so ex-membros da FLN, no ?
- Evidentemente. Como voc disse, a minha especialidade  transformar antigos adversrios em excelentes colaboradores.
-  o termo apropriado...
- Poupe-me da sua ironia, ela data da Segunda Guerra Mundial!
- Mas, pelo que vejo, ainda  atual...
O capito Lger deu um pequeno sorriso.
- Bem, voltando  sua mulher, voc no fica preocupado, sabendo que ela est na Casbah?
- Para dizer a verdade, no.
- Voc  um cara muito estranho!
- Meu amigo est me esperando.
- Mais uma coisa! No gostaria que acontecesse algo a uma pessoa to bonita... Ento, confie em mim e escute: eu sei que ela est cuidando da jovem argeliana que Gardes e voc arrancaram das mos dos legionrios...
- Ento, eles eram mesmo da Legio?
O capito levantou os olhos para o cu.
- Eles esto atrs da garota!
Instantaneamente, a expresso de Franois se endureceu.
- Como voc sabe?
- Meus homens tm seus informantes.
Diante do Correio, os pra-quedistas cantavam uma cano de Edith Piaf, acompanhados pelo acordeo de um deles:
Tu iizefais tozirner Ia tte,
Mon rnange  nzoi c"est toi,
J"en tends les flonflons d"la fte
Q uand tu me tiens daizs tes bras...
- Gosto muito dessa msica. - Suspirou Lger, ouvindo.
"La tambm gosta", pensou Franois.
- Voc tem certeza dessa informao? - Perguntou ele, afinal.
- Sim. Os homens que torturaram a menina so bem conhecidos dos meus rapazes. Alguns j tiveram negcios com eles. A maior parte deles so antigos SS que se alistaram na Legio, depois da guerra, para escapar da priso ou da morte. So doentes; o tenente, principalmente.., mas esse no  alemo:  um argentino, alistado naturalmente com um nome falso. Ele esteve na Indochina, como os outros... O que voc tem?... No est se sentindo bem?
- Ortiz... Jame Ortiz...
O capito nem tentou disfarar o espanto:
- Sim,  isso mesmo... Voc o conhece?
- Vamos tomar um trago... num lugar calmo, se possvel.
Lger fez sinal aos guarda-costas; eles se aproximaram, e o capito cochichou qualquer coisa para eles.
- Venha. - Decidiu ele, empurrando Tavernier.
- Ei, Franois, voc vai embora? - estranhou Joseph, vindo na direo deles.
- Quem  esse a?
-  um amigo,  de confiana. Alis, gostaria que ele viesse conosco.
- Se voc se responsabiliza por ele...
Tavernier aproximou-se do ouvido do motorista de txi.
- Voc pode me acompanhar? H novidades a respeito de Malika.
-  que... eu no gosto muito desses a...
- Por favor.
Eles se despediram de Ribeaud, que voltara para o Plat Glibres, que eles atravessaram. Andaram em silncio na direo do porto, os dois muulmanos a pouca distncia deles. O cais de Boulogne estava mal iluminado. Diante de uma loja, com a porta naturalmente abaixada, o capito parou, depois bateu. Ao lado, uma porta entreabriu-se.
- Est fechado!... Ah, capito, desculpe. Entre!
- Fiquem a fora e abram o olho. - Ordenou Lger a seus homens.
No corredor, eles tropearam em caixas, incomodando um gato que fugiu miando.
- Sempre uma baderna aqui! - Reclamou Lger.
O que ia na frente respondeu com um resmungo. Ele empurrou, por fim, uma porta. O lugar era desconcertante: paredes e teto cobertos de cartazes de filmes; alguns da poca do cinema mudo; fotos amareladas de atores ou de mulheres nuas, propagandas de cigarros e de cerveja. Numa vitrola, girava um disco de canes rabes. Do teto pendiam lmpadas pintadas de vermelho e amarelo que davam ao ambiente uma estranha impresso de intimidade, suavizando a fisionomia dos fregueses, cujas caras pouco recomendveis pareciam sadas de um filme de piratas. Dispostos sobre um piso cujos motivos desapareciam por baixo do p e da sujeira, cinco ou seis mesas pesadas, algumas cadeiras, um balco de zinco e um aquecedor de ferro completavam a decorao. Todos os clientes eram visivelmente muulmanos; eles acolheram o capito Lger com palavras amigveis. Incomodado, Benguigui examinava os rostos nos quais se liam as marcas de uma vida.
-  este, o seu "lugar tranqilo"? - Resmungou Franois.
- Ns vamos para os fundos, l  mais calmo... O que querem beber:
usque, conhaque?
- Servem lcool, aqui?
- No so muulmanos muito ortodoxos...
- Usque est bom... duplo!
- Para mim tambm - acrescentou Benguigui.
- Djamel! Trs doses de usque bem servidas.
-  pra j, capito.
Lger passou por uma porta, at ento dissimulada por uma tapearia. A sala dos fundos s tinha uma mesa, sobre a qual reinava um bonito candelabro de prata com oito braos. Havia algumas cadeiras encostadas na parede.
- Sentem-se. - Convidou o capito, puxando uma cadeira para perto da mesa.
Franois e Joseph fizeram o mesmo e se sentaram. Djamel entrou com o usque e trs copos.
- Black and White est bom para vocs? - perguntou ele, abrindo a garrafa.
- Perfeito, obrigado. Agora, deixe-nos sozinhos. - Agradeceu o capito.
Ele encheu os trs copos at a boca, depois ergueu o seu.
- Sade!
Aps beber, ele atacou o assunto, sem prembulos:
- Ento, voc conhece Jaime Ortiz?
Como Franois no respondia, ele insistiu:
- Eu preciso saber.
-  um nazista. Eu o conheci na Argentina...
- Em que circunstncias?
- Eu estava perseguindo criminosos nazistas junto com os israelenses.
Os Vingadores?
- Sim. Estava com La... Um dia, em Mar Del Plata, ela foi com amigos  estncia Ortiz. Acordando assustada, no meio da noite, ouviu falarem alemo. Intrigada, desceu ao trreo e descobriu uma sala enfeitada com emblemas hitieristas. Mais tarde, ela encontrou um de nossos companheiros, ferido... Graas a uma amiga argentina, conseguimos sair de l. Infelizmente, Jaime Ortiz e seu bando ficaram sabendo da nossa misso. Voltamos para a Frana, deixando para trs alguns amigos mortos... Achvamos que estava tudo encerrado quando, alguns anos depois, na Indochina, La encontrou-se novamente na presena dele; ele havia se alistado na Legio para escapar  intimao judicial lanada contra ele. La conseguiu de novo escapar dele em circunstncias rocambolescas. Mas, sei que nada o impedir de se vingar. Se ele souber que La se encontra em Argel, a vida dela correr perigo... E voc me diz que ele est procurando
Malika!
- Encontrando Malika, eles cairo em cima de sua mulher...  isso?
Os olhos de Benguigui iam de um para o outro: ele se amaldioava por no ter atendido ao chamado de
La. Mas, como poderia ele imaginar essa confuso?
- Voc poderia enviar uns homens para proteg-la... - Insinuou ele.
- J pensei nisso... Diga-me tudo que sabe a respeito de Al-Alem. - Cortou ele friamente, dirigindo-se a
Franois.
- Tudo que eu sei  que  esse garoto mesmo que as esconde. Eu conheo o lugar, mas seria incapaz de encontr-lo novamente. Somente Bchir poderia nos mostrar...
- O engraxate do Aletti?
Voc o conhece?
- Eu sei muito bem quem ele  e saberei rapidamente onde ele mora.
- Respondeu o capito. - Esperem, j volto.
Durante sua curta ausncia, Franois e Joseph liquidaram seus copos e voltaram a se servir, sem dizer uma palavra.
Vou mandar meu ajudante em busca de informaes. Ele vai avisar os outros para que sigam nossos legionrios... Vou lev-los ao meu QG, na Rua mile-Loubat. Meus rapazes nos encontraro l... Sr.
Benguigui, o senhor deveria voltar para casa...
- Eu fico com Tavernier, ele pode precisar de mim.
- Obrigado, Joseph, mas no  preciso...
- Veremos, mais tarde. Por enquanto, eu fico com voc.
- Como quiser. - Disse Lger.
A noite estava fria. O chefe dos uniformes azuis" trocou algumas palavras com um grandalho que atendia pelo nome de Surcouf, que saiu correndo. Eles voltaram em direo ao Plat Glires.

Captulo XXIV

esadas nuvens haviam substitudo o sol dos ltimos dias.
No amanhecer daquela sexta-feira, 29 de janeiro, um oficial das UTs, Bonnisseur de la Bath, ocupava a prefeitura da cidade, defendida pelas UTs da marinha com a ajuda de doze territoriais e dois civis, e colocava a Prefeitura "sob proteo do povo"; os pra-quedistas no intervieram.
Algumas horas mais tarde, Sapin-Lignires instalou ali o seu QG. O general Gracieux veio lembrar-lhe que, depois de ter assumido o comando dos territoriais com a misso de reagruplos, no havia feito nada at o momento presente. Ele ordenava agora que os vinte e cinco mil homens colocados sob seu comando voltassem para suas unidades antes das quatro horas da tarde.
Naquela manh feia, Joseph Ortiz estava dividido entre o orgulho de ter forado as autoridades a fugir e o temor que lhe inspirava o aguardado discurso do general de Gaulle; um temor que todos compartilhavam. Corria um novo boato: o coronel Bigeard ia reunir-se ao campo entrincheirado;
com ele, no havia dvidas: o triunfo da Arglia francesa estava assegurado! Infelizmente para a insurreio, Bigeard no pde fazer isso, seu superior hierrquico, o general Mirambaud, ameaou-o com o conselho de guerra caso ele abandonasse seu posto diante do inimigo. S restava a Bigeard receber seu substituto, o coronel Gardes, que voltava de Paris e havia recebido ordens para assumir imediatamente seu posto em Saida, sob pena de sanes. Com a morte na alma, Gardes "abandonou" seus amigos das barricadas.
Em Reghaia, o novo QG de Challe e Delouvrier colocado sob a proteo dos comandos do ar e das unidades de golliniers, o general Ely,
Chefe do Estado-Maior do exrcito, acabava de chegar de Paris, portador das linhas gerais daquilo que o
Chefe de Estado determinaria na sua fala. Recebido na sada do avio por Paul Delouvrier, pelos generais
Challe, Crpin, Oli e Gambiez, Ely abriu sem perda de tempo a conferncia militar que reunia os chefes do exrcito. A eles juntaram-se os oficiais superiores presentes em Reghaia, o almirante Auboyneau, os generais Costes e Gilles. Todos proclamaram fidelidade a de Gaulle. Examinaram em seguida o problema do campo entrincheirado, O coronel Argoud, que havia sido forado a seguir o general Crpin at Reghara, obteve autorizao para negociar com os rebeldes e partiu imediatamente para Argel.
Outros rumores alarmantes circulavam na Cidade Branca: desta vez, era certo, o exrcito decidiria acabar com a insurreio; era apenas uma questo de horas. No QG de Ortiz assim como no "Alcazar" de
Lagaillarde, todos sentiam que o fim se aproximava.
No comeo da tarde, trombas d agua cairam sobre a cidade.
s dezesseis horas, os chefes da revolta concordaram em participar de uma conferncia pelo armistcio que devia se realizar na caserna Plissier sob a presidncia do general Arfouilloux. Ao redor da mesa, encontraram os coronis Argoud, Broizat e Jacquelot. Durante uma hora os participantes deliberaram e conseguiram chegar a um acordo. Eles assinaram o comunicado que Argoud e Broizart foram encarregados de levar ao quartel Rignot, ao qual Paul Delouvrier devia voltar para receb-lo.
Quando este ltimo tomou conhecimento do comunicado, ficou aterrado com seu contedo.

1. O Delegado Geral e o comandante e uz chefe reconheceu; que a ao levada pela populao sob a direo de Ortiz, Lagaillarde e Sapia-Lignires continuam euomieuzente para fortalecer a Fransa da Arglia francesa. Eles se reuniro todos no monunento aos mortos.

2. Eles se compronetem de caso irrevogvel afazer de tudo para que a Arglia continue sendo provncia francesa.

3. Eles se comprometem a fazer com que o Chefe de Estado admita que o referido nico da autodeterminao s compreende uma escolha, a Arglia francesa ou a independncia.
Ely e Challe que, por sua vez, haviam deixado a base area do general Martin para voltar a Argel, ouviram com assombro o comunicado transmitido pelos coronis.
-  um texto inaceitvel, ridculo e absolutamente contrrio s ordens que recebi! - Explodiu o general
Crpin.
- Esses senhores se crem os vencedores do 13 de maio! - Guinchou Michel-Jean Maffart.
- Seria preciso adiar o discurso de de Gaulle por vinte e quatro horas. - Sugeriu o coronel Broizat.
A proposta foi acolhida com um silncio glacial. Faltavam ainda duas horas para o discurso to esperado.
Franois Tavernier havia passado a noite no QG do capito Lger, ao p da Casbah, onde os europeus no ousavam mais se aventurar e onde, no entanto, se encontrava La... A qualquer preo, era preciso que
Jame Ortiz no estabelecesse uma relao entre ela e Malika. Para isso, era preciso pr a mo em Bchir e
Al-Alem. At o amanhecer, os "uniformes azuis" se sucederam, no trazendo nenhuma pista. Entretanto, l pelas oito horas, Surcouf voltou: uma europia tinha sido vista numa sauna em companhia de duas muulmanas. Ele precisou ameaar a massagista para obter mais informaes e ela acabou por dizer o nome das que a acompanhavam. Surcouf foi at a casa delas, mas apenas encontrou l um invlido que s falava da filha morta... Franois deixou escapar um gemido: se o gigante havia descoberto o endereo de Malika, um homem como o argentino certamente a encontraria.
- Vamos. - Disse ele a Lgen
- No, ainda no. Vou colocar alguns homens em volta da casa. Ns iremos l esta noite... Voc deveria tentar dormir: sua cara est dando medo... Aonde voc vai?
- Vou dar uma volta!
O capito compreendeu que nada o faria mudar de idia.
Sob um cu cinzento, to sombrio quanto o seu humor, Franois acendeu um cigarro que jogou fora em seguida; o gosto estava insuportvel. Um garoto mal vestido correu para o cigarro ainda aceso, apanhou-o e levou-o imediatamente aos lbios com um ar de triunfo; os garotos que o acompanhavam demonstraram despeito, empurrando-o e xingando-o. Alguma coisa na atitude do pirralho chamou, no entanto, a ateno de Franois.
- V a catedral, na capela da Virgem... Tome cuidado, os "uniformes azuis" esto seguindo voc. - Ele ouviu, sem perceber quem havia falado.
Os garotos desapareceram, subindo as escadas da Rua Hydre.
Sem apressar o passo, Franois seguiu seu caminho, atravessou a Praa Cardinal-de-La Vigerie, onde as pessoas, na maioria muulmanos, andavam rpido em direo  praa do Governo; ele deixou para trs a
Catedral Sint-Philippe e o Palcio de Inverno. Apesar da greve, um grande bazar estava aberto. Bem perto dali, ele avistou o terrao do caf Sahel, vazio, certamente em razo do mau tempo. Sentou-se numa cadeira. Logo, um garom veio lhe perguntar se ele queria tomar o caf da manh.
- Com um caf bem grande. - Esclareceu ele.
Ele contemplava a imensa esplanada dominada pela esttua eqestre do duque de Orlans, onde se alinhavam, na frente da mesquita DjemaDjedid, inmeros caminhes militares. Soprava um vento frio. Ele levantou a gola do palet, gesto intil que no o protegeu da brisa. O dono do caf, europeu, veio servi-lo pessoalmente.
- Bom dia, senhor. - Disse ele, servindo o caf. - Que tempo! No duvido nada que ainda chova antes dessa noite... O caf est bom? Sou muito exigente quanto  torrefao. Sem querer me gabar, o do Aletti no  melhor, no ?... Atualmente h muitos estrangeiros em Argel... No estou dizendo isso por sua causa, mas percebi logo que o senhor no  daqui.  que eu conheo todo mundo por aqui. Quer o jornal? S tenho o Dpche de ontem; o de hoje ainda no chegou. Mohamed! Traga o jornal para este senhor... E os croissants, o que achou? So como os de Paris, no  verdade?
- Voc conhece Paris?
- No, mas sei que os croisscmts de l so bons.
Essa observao fez Franois dar um sorriso, que o proprietrio interpretou de modo errado:
-  como eu tinha lhe dito: no h melhores! Tome, aqui est o jornal... O senhor vai me desculpar por no lhe fazer companhia por mais tempo, mas preciso ir  cozinha. Os empregados, o senhor sabe...
Sob uma grande foto que mostrava os manifestantes, a manchete da primeira pgina do Dpclie era:
"Por todo lado, na Arglia, uma multido de muulmanos juntou-se s manifestaes pacficas, organizadas em volta do monumento aos mortos, para que a Arglia permanea francesa." Franois ficou furioso com tamanha mentira. Onde os jornalistas tinham visto os muulmanos junto com os ps-pretos?
Nas pginas interiores consagradas aos acontecimentos polticos argelianos - nas quais a censura havia deixado pedaos em branco-, tudo no passava de apoio  insurreio.
- Eis o Dpclze de hoje. - Anunciou o garom.
- Obrigado.., sirva-me outro caf.
Na primeira pgina do jornal do dia, alm da partida de Challe e de Delouvrier, continuava a mesma histria:
o anncio de que dezenas de milhares de muulmanos apoiavam a causa da Arglia francesa. Enquanto percorria o jornal com os olhos, Franois tentava descobrir se estava sendo seguido, sabendo que era quase impossvel perceber isso. Pagou a conta, acendeu um cigarro, levantou-se e ps-se a andar como se estivesse passeando sob as arcadas da Rua Bab-Azoun, onde os territoriais obrigavam a fechar as lojas que no tinham autorizao para ficarem abertas. Entrou  direita, numa rua que era uma escadaria e descobriu uma sinagoga. Ser que era a que Benguigui freqentava? Benguigui s havia ido embora bem tarde da noite. Ele atravessou a Rua CharlesAboulker, subiu outros degraus e desembocou na Rua Lyre.
Virando  direita, ele deveria chegar  catedral. Impossvel saber se estava sendo seguido. Donas de casa das duas comunidades faziam fila na frente de uma padaria; alguns garotos, chutando uma lata vazia, passavam entre as pessoas, gritando. Ele apressou o passo. Nas proximidades da catedral, zuavos montavam guarda.
Estava escuro no interior da igreja. Ele passou diante do plpito, feito de um mrmore de muitas cores.
Perto do altar da Virgem, umas religiosas rezavam. Em frente a elas, vinha um murmrio de um confessionrio. Uma freira levantou-se nesse instante e foi ajoelhar-se no confessionrio. Franois pegou o lugar dela, enquanto uma mulher idosa acendia uma vela antes de coloc-la no suporte prprio para isso.
Ela resmungou uma curta orao e afastou-se depois de ter feito o sinal da cruz. Uma outra mulher, bem corpulenta, sentou-se ao lado de Franois e apoiou a cabea nas mos. Dois padres passaram.
- Venho da parte de Malika. - Ele achou ter ouvido.
Virou-se, mas s viu as religiosas. "Estou ouvindo vozes!", pensou.
- No se mexa! Eu sou a sra. Zenatti, lembra-se de mim?. . Malika trabalhava comigo no departamento do dr.
Duforget... Seu irmo Bchir me encarregou de lhe dizer para ir procurar uma tal de Gilda, no Aletti. Ela estar l por volta do meio-dia.
Discretamente, ele deu uma olhada para a mulher que estava perto dele.
- Por que voc est fazendo isso?
- Talvez porque eu no soube defender Malika quando a levaram... Agora v e que Deus o proteja!
Ele se levantou, deixou cair uma moeda na caixa de esmolas, pegou uma vela e foi para a capela onde a acendeu: La tinha o costume de acender uma vela em todas as igrejas... Uma religiosa cobriu-o com um olhar aprovador.
Alguns mendigos ocupavam os degraus da escadaria em frente  igreja, estendendo as mos e com umas caras lamentveis. Franois deu umas moedas a uma mulher encarquilhada, coberta por um haik sujo por baixo do qual saam dois tornozelos rodos por feridas purulentas. Os outros mortos de fome tambm pediram; ele os afastou sem brutalidade.
Ele voltou para a Rua Lyre. Os CRSs haviam estacionado diante do mercado coberto cujas grades ainda estavam fechadas. O relgio marcava onze e meia. Na Rua Isly, uns jovens distribuam panfletos chamando as pessoas para virem se manifestar na barricada Hernandez antes do anunciado discurso do general de
Gaulle. Diante do Hotel Aletti, uns pra-quedistas desceram de dois caminhes e interpelavam um grupo de UT que controlava a Prefeitura e a Chefatura de Polcia. Franois entrou no Cintra atrs de dois oficiais de farda camuflada. O bar havia reencontrado sua clientela dos grandes dias; o harnzan exultava.
- Voc est com melhor aspecto do que ontem! - observou Franois, sentando-se numa banqueta.
- No se pode dizer o mesmo do senhor; parece que passou a noite fora! - Respondeu Georges. - Isso no  muito prudente... O que o senhor deseja tomar?
- Um usque.
Gilda entrou em companhia de uma garota que ria s gargalhadas. As duas estavam muito maquiadas, mas
Franois percebeu, sob o excesso de maquiagem, a palidez de Gilda. Um dos oficiais pra-quedistas agarrou-a pela cintura e puxou-a para ele. Ela se soltou com delicadeza e aproximou-se do bar com o praquedista em seus calcanhares. Esse imbecil iria estragar tudo? Franois procurava uma forma de intervir, quando o companheiro do inoportuno chamou-o.
- Ei, ande logo, o coronel est aqui!
Ele saiu com uma cara de garoto decepcionado.
- Bom dia, Gilda. Quer beber alguma coisa? - Perguntou Franois.
- Tanto faz... Chegue perto de mim.
- Por que voc est rindo?
- Finja ser mais atirado: esto olhando para ns.
Contra a vontade, Franois abraou-a pela cintura; a moa deu uma gargalhada exagerada, sob os olhares cmplices dos funcionrios.
- Eu vou para os elevadores. Fique aqui uns dois ou trs minutos, depois venha juntar-se a mim; ns vamos para o seu quarto.
- Mas...
- Por favor, faa o que eu digo. - Suplicou ela, esfregando-se nele.
Ela o deixou e Franois, fazendo o jogo, deu-lhe um tapa na bunda.
- Oh! - Ela caiu na gargalhada.
Pouco depois, Franois foi pegar sua chave com o porteiro que, vendo-o, exclamou:
- Senhor Tavernier! O senhor voltou a ter problemas? Ns ficamos muito preocupados... Faz trs dias que no o vemos. E, o quarto, ns no sabamos se...
- Sinto muito que vocs tenham esquentado a cabea, mas com esses acontecimentos... voc entende?
O porteiro no entendia muito bem, mas uma gorjeta generosa deixou-o mais compreensivo.
Junto aos elevadores, uma prostituta estava pendurada no pescoo de um oficial pra-quedista um pouco sem graa. Perto dela, Gilda parecia uma menina fazendo a primeira comunho. Os dois casais subiram juntos no elevador e desceram no mesmo andar. Os homens deixaram as mulheres sarem primeiro, o oficial dirigiu a Franois um olhar conivente que o incomodou.
O quarto estava cheirando a fechado. Franois empurrou delicadamente o ferrolho e abriu as janelas; um cheiro de poeira molhada entrou. Gilda arrepiou-se e sentou-se na cama.
- O que voc tem para me dizer? - Perguntou Franois com um tom mais seco do que ele desejara.
- Bchir espera voc esta noite, s dez horas, perto do lugar onde voc o deixou com a irm dele. Ele me disse que voc entenderia. Aceitei transmitir-lhe esse recado porque gosto muito daquele garoto. E tambm pelo que aconteceu com a irm dele... Alm disso, sei que voc  amigo de Joseph, que foi sempre bom para mim. E tambm porque... voc nunca me tratou como... enfim... voc sabe do que eu estou falando... Mas no conte mais comigo:  a ultima vez,  muito perigoso. Se eles souberem que eu ajudei voc, eles me matam!
- "Eles" quem?
- Eles no querem que agente fale com os estrangeiros nem com os jornalistas... a no ser a trabalho.
- Quem, os gigols? - Insistiu ele.
- No s eles. No posso falar mais, no insista. S o fato de estar com voc vai parecer suspeito.
- Mas  "a trabalho", como voc disse. - Tranqilizou-a, pegando- lhe as mos.
Ela olhou intensamente para ele, com uma expresso dolorosa.
- Voc gostaria.., gostaria que fizssemos amor?
- Isso seria assim to desagradvel para voc?
- No, no, no  isso... Apenas achei, que ns fssemos amigos!
Gilda virou-se para esconder as lgrimas. Tocado, Franois levantou-se.
- No chore, s queria me assegurar que... Desculpe-me, no queria magoar voc.
Ela soluava agora como uma criana. Assim como a maioria dos homens, Franois se sentia desarmado ante o espetculo de uma mulher em lgrimas. No sabendo o que fazer, foi buscar um copo de gua. Gilda agradeceu, bebeu uns goles e enfiou-se no banheiro. Quando voltou, as lgrimas haviam secado. Apenas a mancha escura em volta dos olhos denunciava ainda que ela tinha chorado.
- Preciso ficar mais um pouco. - Desculpou-se ela.
- Eu entendo,  preciso fazer de conta... Tome, pegue isto aqui para que as coisas fiquem mais verossmeis... Obrigado, Gilda, obrigado pela ajuda. Voc  uma garota formidvel!
Com um pequeno sorriso a garota pegou o dinheiro, sem graa. Muito cansado para recomear a conversa,
Franois esticou-se na cama; uns minutos depois dormia profundamente. Depois de lhe tirar os sapatos,
Gilda olhou demoradamente para ele e, em seguida, saiu do quarto na ponta dos ps.

Captulo XXV

Duas batidas na porta acordaram Franois, assustando-o. Levou uns segundos para tomar conscincia e perceber que j era de noite. Verificou se a arma continuava no bolso. Novas batidas.
- Quem ? - Perguntou.
Sou eu, Benguigui.
O motorista de txi, com as roupas ensopadas entrou.
- Est caindo o mundo!... O capito Lger est a em baixo e convida voc para ir ouvir o General junto com ele.
- Ele teve notcias de La?
- Acho que no... Voc devia jogar uma gua no rosto.
Era verdade, ele estava com a cabea esquisita e tinha um gosto horrvel na boca. Colocou a cabea embaixo da torneira e depois escovou os dentes. Calou os sapatos e passou os dedos pelos cabelos.
- Est bom assim? - Perguntou ao companheiro.
- No  preciso caprichar muito...
No hall, Lger e seus homens, os trs com fardas camufladas, esperavam perto da sada onde havia um empregado com uma corrente comprida na mo.
- O que voc ficou fazendo a tarde toda no hotel? - Perguntou o capito.
- Dormi.
- No parece... Achei que voc gostaria de ir ao Ortiz para ouvir o nosso Presidente.
- Voc encontrou os garotos da Casbah?
- Ainda no... Venha, estamos atrasados.
Assim que saram, o empregado trancou a porta com a corrente e colocou um cadeado.
-  assim desde o comeo dos "acontecimentos". - Comentou Benguigui.
A chuva caa forte. Eles correram at o Bulevar Laferrire, cujo acesso aos civis estava interditado pelos pra-quedistas. Lger e seus companheiros passaram sem dificuldade. Nos jardins do bulevar, uma multido, abrigada por guarda-chuvas ou impermeveis esticados por cima das cabeas, amontoava-se sob o balco da Companhia argeliana. No relgio do correio, os ponteiros marcavam oito horas. Em Argel, em toda a Arglia e na metrpole, rdios e televises estavam ligados  espera do pronunciamento do
Chefe de Estado. No imvel ocupado por Ortiz e os seus, os chefes da rebelio haviam requisitado um lugar privado no primeiro andar, o Clube dos negociantes. Colocaram um aparelho de televiso sobre o bar, para que todos pudessem ver.
Quando Lger e os companheiros entraram, o general de Gaulle, de uniforme, j comeara a falar, batendo com o punho na mesa:
- ".. Ora, as duas categorias de pessoas no querem essa livre escolha.
Primeiro, a organizao rebelde, que s pretende suspender o fogo se eu tratar com ela, privilegiadamente, do destino poltico da Arglia, o que significaria institu-la como a nica representante vlida e considerla, antecipadamente, como governante do Pas. Isso, eu no farei.
Por outro lado, alguns franceses de origem exigem que eu renuncie  autodeterminao, que eu diga que tudo est feito e que o destino dos argelianos est a partir de agora decidido. Isso eu tambm no farei. A autodeterminao  a nica forma de os muulmanos se livrarem do demnio da secesso. Quanto as modalidades de tal ou tal soluo francesa, entendo que sejam elaboradas  vontade, desde que a paz retorne. A partir de ento, reservo-me o direito de me engajar no momento apropriado quela que eu considerar melhor. Podem acreditar que eu o farei.
O que aconteceu  que alguns, para tentar impor suas pretenses  nao, ao Estado e a mim mesmo, comearam essa rebelio, atiraram contra as foras da ordem e mataram bons soldados e pegaram em armas contra a autoridade da Frana. Ajudados no incio pela incerteza complacente de diversos elementos militares e aproveitando-se dos temores e paixes febris excitados pelos lderes, eles obtiveram at agora o apoio de uma parte da populao europia, provocando a greve forada, a paralisao dos transportes, o fechamento das lojas. Por esse motivo, uma ruptura da unidade nacional arrisca-se a ocorrer, sob a indignao da nao francesa e bem no meio da luta contra os rebeldes. No existe um s homem de bom senso que no veja as conseqncias que certamente se produziro se essa temvel secesso acontecer.
Diante do golpe contra a Frana, dirijo-me primeiramente  comunidade de origem francesa na
Arglia. Ela j me conhece bem h anos. Ela me viu muitas vezes no meio dela e, principalmente, durante a guerra, quando seus filhos, em grande nmero, serviam nas fileiras do exrcito de libertao, ou ento quando, aps o golpe de maio de 1958, assumi a chefia da
Frana para refazer a unidade dos franceses dos dois lados do Mediterrneo. No importa o que os agitadores tentem faz-la crer, h entre mim e ela laos excepcionais que me so muito caros e muito vivos. Sei perfeitamente que servios ela presta  Frana pelo seu trabalho secular na
Arglia, que experincias terrveis enfrenta, por que vtimas comoventes ela chora. Mas, preciso falar a ela claramente e d modo direto.
Franceses da Arglia, como podem escutar os mentirosos e conspiradores que dizem que, concedendo a livre escolha aos argelianos, a Frana e de Gaulle querem abandonar vocs, retirar-se da Arglia e deix-la  rebelio?  abandonar vocs,  querer perder a Arglia enviar e manter a um exrcito de quinhentos mil homens munidos de um enorme armamento, consentir no sacrifcio de um bom nmero de seus filhos, destinar, neste ano mesmo, um oramento civil e militar de muitos milhes, empreender uma imensa obra de valorizao, tirar do Saara, com muito esforo e a alto custo, o petrleo e o gs para lev-los at o mar? Como podem vocs duvidar que, se um dia os muulmanos decidirem livremente e formalmente que a Arglia de amanh deve estar estreitamente unida  Frana, nada causaria mais alegria  ptria e a d
Gaulle que v-los escolher a soluo mais francesa? Como podem vocs negar que qualquer ao de desenvolvimento das populaes muulmanas, empreendida h dezoito meses, e que, aps a pacificao, dever expandir-se ainda mais, tende a criar precisamente mltiplos e novos laos entre a Frana e os argelianos? Alm disso tudo, como vocs no vem que levantando-se contra o Estado e contra a nao vocs se prejudicam e, ao mesmo tempo, aumentam o risco de a Frana perder a Arglia, justamente no momento em que se visualiza o declnio da rebelio?
Eu rogo que vocs voltem  ordem.
Em seguida, dirijo-me ao exrcito que, graas a magnficos esforos, est conquistando a vitria na Arglia, embora alguns de seus elementos sintam-se tentados a acreditar que esta guerra  deles, no da Frana, que eles tm direito a uma poltica que no seria a da Frana.
Digo a nossos soldados: sua misso no comporta nem equvoco nem interpretao. Vocs devem liquidar com a fora rebelde que quer expulsar a Frana da Arglia e impor nesse pas sua ditadura de misria e improdutividade. Pela ao das armas, vocs contriburam para a transformao moral e material das populaes muulmanas, para levlas  Frana pelo corao e pela razo. Quando chegar o momento de proceder  consulta, vocs tero que garantir a liberdade completa e sincera.
Sim!  a sua misso, aquela que a Frana lhes d, e   Frana que vocs servem. O exrcito francs, o que se tornar ele, seno um amontoado anrquico e insignificante de feudos militares, se acontecer de seus elementos imporem condies  sua lealdade? Ora, eu sou, como vocs sabem, o responsvel supremo. Sou eu que carrego o destino do Pas. Devo, portanto, ser obedecido por todos os soldados franceses. Acredito que serei, porque eu os conheo, eu os estimo, eu os amo, eu tenho confiana no general que coloquei, soldados da Arglia, no comando de vocs e, por ltimo, porque, pela Frana, eu preciso de vocs.
Agora, escutem bem! Diante da insurreio de Argel e no meio da agitao, chegada ao extremo, o Delegado Geral, sr. Paul Delouvrier, que  a Frana na Arglia, e o comandante em chefe, no quiseram, sob sua prpria responsabilidade, desencadear uma batalha. Mas, nenhum soldado deve, sob pena de falta grave, associar-se em momento algum, mesmo passivamente,  insurreio. A ordem pblica dever, afinal, ser restabelecida. Os meios empregados para que a fora permanea do lado da lei podero ser de vrios tipos. Mas, seu dever  obter isso. J dei e volto a dar a ordem.
Enfim, dirijo-me  Frana. Bem, querido e velho pas, eis-nos juntos, de novo, enfrentando uma dura prova. Em virtude do mandato que o povo me concedeu e da legitimidade nacional que eu encarno h vinte anos, peo a todos e todas que me apiem, no importa o que acontea.
E, enquanto os culpados, que sonham em ser usurpadores, usam como pretexto a deciso que tomei com relao  Arglia, que se saiba em todo lado, que se saiba bem que no voltarei atrs.
Ceder nesse ponto e nessas condies seria queimar na Arglia os triunfos que ainda temos, mas tambm seria rebaixar o Estado diante do ultraje que lhe  feito e a ameaa que  dirigida a ele. Em conseqncia, a Frana no seria mais do que um joguete, deslocado no oceano das aventuras.
Mais uma vez, apelo aos franceses, onde estiverem, sejam quem forem, para que se unam 
Frana.
Viva a Repblica!
Viva a Frana!"
Apesar das pancadas de chuva, a multido, estica, escutara at o fim as palavras do Presidente da
Repblica, transmitidas  rua por alto- falantes. Quando ele se calou, houve um momento de silncio, depois, brotando dessa multido enregelada e patinando na lama, um imenso clamor subiu:
- Viva a Arglia francesa!
Logo, substitudo por gritos de dio:
- Morte a de Gaulle!
No Clube dos negociantes, os rostos estavam assombrados. Todos sentiam que o fim era iminente.
Lagailiarde, que havia zombado diversas vezes enquanto escutava o general de Gaulle, levantou-se e, com o corpo curvado, teve um acesso de tosse. Depois de trocar algumas palavras com o chefe do FNF, ele voltou para a faculdade, rodeado por seu pessoal fiel.
O povo, l fora, voltava-se agora para os pra-quedistas que tambm tinham ouvido o discurso presidencial. Iriam eles, afinal, juntar-se ao povo aps a confirmao da autodeterminao que acabava de ser feita, ou obedeceriam quele que dizia am-los e t-los em alta estima? Nada aconteceu, soldados e oficiais abaixavam as cabeas. Sob a chuva, a assistncia via suas esperanas sumirem.
Depois da partida de Lagaillarde, comearam a beber muito para tentar apaziguar a clera e a angstia.
Havia muitos que, curiosos a respeito de sua opinio, enchiam de perguntas o capito Lger; seus homens mantinham-se sempre ao lado dele. Aps conversar brevemente com Ortiz, Franois virou-se para
Benguigui e disse-lhe em voz baixa:
- Vou desaparecer. D um jeito para que Lger no perceba minha partida antes de uns dez minutos...
- Aonde voc vai?
- Encontrar La. Dez minutos, est bem Conto com voc!
Sem lhe dar tempo para responder, Franois saiu de fininho. Sentados nos degraus da escada, uns territoriais, abatidos, perguntavam-se se no deveriam voltar para casa. Uma corrente de gua enlameada lavava o Bulevar Laferrire. Franois entrou na Rua Charles-Pguy e deu de cara, na Rua Berlioz, com um grupo de pra-quedistas que quiseram examinar seus documentos. Em vista do salvo-conduto assinado pelo comandante em chefe, eles o deixaram seguir seu caminho. Ele desceu os degraus da rua e desembocou no Bulevar Baudin onde havia caminhes militares estacionados. Chovia tanto que os soldados se haviam refugiado embaixo de lonas. Alguns carros passavam buzinando as seis notas de Arglia francesa, depois umas ambulncias, com as sirenes gritando; minado pela chuva, um prdio desmoronou, soterrando muitas pessoas nos escombros. Ao longe, ouviam-se as sirenes dos carros de bombeiros. Franois correu at o cais e encontrou a garagem do motorista de txi, cuja chave ele ainda tinha, O jipe pegou imediatamente. Franois desceu do carro para fechar o porto, quando viu um homem vir correndo na direo dele. "Merda!", xingou, girando a chave.
- Ei, espere por mim!
Joseph Benguigui agarrou-se  lateral do jipe.
- Sou eu. - Disse ele, ofegante.
- O que voc est fuando aqui? - Gritou Franois.
- Voc vai precisar de mim. - Afirmou ele, sentando-se ao lado do motorista.
- Eu tinha pedido para voc segur-los!
- No se preocupe, eles esto ocupados por algum tempo... Aonde vamos?
- Para o alto da Casbah.
- Bem que eu imaginei... Sem mim, voc iria se perder. Bem, vire  direita... Continue no cais.
As docas estavam desertas. De vez em quando, ele avistava um vigia que tentava se abrigar encostado num muro ou sob a cobertura de um armazm... No Bulevar Amiral-Pierre, eles diminuram a velocidade quando passaram na frente da caserna Plissier.
- A direita. - Disse Benguigui. - Siga a beira do mar!
- Estamos nos afastando da Casbah... - Preocupou-se Franois.
- Vamos subir por outro caminho... Cuidado com o cruzamento
Borly! V em frente, pegue o Bulevar Guillemin... No alto,  direita... A primeira  esquerda, depois  esquerda...  direita... Vamos contornar a caserna de Qrlans... Que coisa! Cuidado! Voc vai nos matar!
Tensos, eles seguiram ainda alguns segundos em silncio, passaram ao lado de um estdio, depois passaram a entrada da caserna onde os sentinelas, encharcados, os ignoraram.
- Pare perto da rampa dos zuavos.
- Como voc quer que eu saiba onde  a porra da rampa?
- Ali!... Voc est diante do museu Franchet-d"Esperey. Desligue o motor e desa desengrenado... Pare diante da igreja e apague os faris.
Vamos fazer o resto do caminho a p... E, principalmente, no faa barulho: no estamos longe de
Barberousse.
- No enxergo nada!
- Melhor... Siga-me!
Eles pegaram uma rua estreita que descia entre dois muros de vegetao.
- Ns estamos no Bulevar Victoire, no alto da Casbah. Voc sabe onde ?
- Sim... Ateno, algum est vindo!
Eles se esconderam na sombra.
- Meu Deus!  o 203 que pegou voc! - Assustou-se Joseph.
Quatro tipos desceram do Peugeot amassado e desapareceram numa ruela da Casbah.
- Eles esto procurando La, corto meu pescoo se no esto. - Cochichou Franois, lanando-se na direo deles.
Seu companheiro o reteve.
- Eles no iro muito longe...
Mal ele dizia isso, os quatro homens j estavam saindo da rua, arrastando um muulmano atrs deles.
Jogaram o indivduo dentro do carro que partiu em seguida; ningum se mexeu, nem os policiais de guarda diante da caserna vizinha, nem os zuavos que ocupavam uma barraca, grudada nas muralhas antigas, que abrigava as SAU da Casbah superior. Ouvia-se apenas o barulho da chuva nos telhados de zinco.
Soaram onze horas no relgio da Igreja Saint-Croix. Eles beiravam a muralha em runas. Na Rua Vandales, a luz de um cigarro brilhou; eles ficaram imveis.
- Olhe, h algum ali. - Cochichou Franois.
-  na entrada da Rua Mameluks. - Disse Joseph. - Cuidado!
Eles se colaram ao muro. Um caminho da polcia passou. Eles ficaram um bom tempo sem se mexer. O vulto reapareceu.
-  Bchin - Percebeu Franois, saindo da penumbra.
Benguigui foi atrs dele, amaldioando todos os postes do Bulevar Victoire que, nesta noite, lhe pareciam mais numerosos que em qualquer rua de Argel...
Bchir tambm os havia reconhecido.
- Eles pegaram meu pai! - Informou ele de cara. -  preciso tir-lo de l, ele est doente, e eles vo tortur-lo para faz-lo dizer onde est Malika!
- Ele sabe onde ela est? - Inquietou-se Franois.
- No, acho que no. Quando minha me os ouviu chegar, ela saiu de casa por trs e veio me avisar.
- Onde ela est?
- Como eu precisava vir encontrar voc, ela foi avisar Al-Alem.
- Preciso ver La; leve-me at ela.
- Mas eu no sei onde ela est. Os "uniformes azuis" tambm estavam procurando por ela, ento Al-Alem levou-a, junto com Malika, para outro esconderijo...  hora da patrulha, no  bom ficar aqui.
Eles desceram os degraus escorregadios da rua. No momento em que chegaram  mesquita Djamar-Safir a chuva parou. Eles se agacharam encostados nos muros venerveis. Uma patrulha de zuavos subiu a rua
Klber, depois afastou-se em direo  rua Porte Neuve.
- Agora, podemos ficar tranqilos. -Afirmou o jovem rabe. - AlAlem vai nos encontrar no cemitrio BenAli...
- No tmulo das Duas Princesas? - Perguntou Joseph.
- Sim, no  muito longe.
- Eu sei, mas o lugar est vigiado.
- No agora. - Respondeu Bchir.
Eles andaram pela Rua Klber, pobremente iluminada, beirando os muros e enfiando-se nas reentrncias das portas ao menor barulho. Num cruzamento, ouviu-se o barulho de uma fonte. Benguigui espirrou.
- Psiu! - Fizeram juntos Franois e Bchir.
- Estou ficando resfriado.
- Fique quieto! Chegamos  Rua N"Fissa.
Bchir guiou-os at uma porta baixa que se abriu com um chiado imperceptvel. Bchir fechou-a depois que eles passaram. Uns gatos, incomodados com a intruso, partiram precipitadamente. Na maior escurido, avanaram estendendo as mos diante de si, tateando o cho com a ponta dos ps. Uma luz piscou trs vezes. Trs vezes, Bchir acendeu seu isqueiro. Houve um barulho de galhos afastados e algum veio at eles. Joseph Benguigui batia os dentes. De frio? De medo?
-  voc, Bchir? - Cochichou Al-Alem.
- Sim, meu irmo.
- Onde est La? - Perguntou Franois, nervoso.
- No fale to alto, os mortos poderiam ouvir suas palavras...
- Vamos dar o fora daqui, no gosto deste lugar... - Gaguejou Joseph.
- Quem  voc? - Assustou-se Al-Alem.
- O chofer de txi, aquele que j nos ajudou.
- E agora? Eu no confio...
- Basta! - Cortou Franois - Eu confio e  com pessoas como ele que se deve construir a Arglia de amanh.
Voc  bem inteligente para compreender o que digo... No momento, o que importa  La e Malika... E voc, tambm, Al-Alem, o capito Lger quer pr as mps em voc e convoc-lo para trabalhar para ele.
- Co maldito!  por causa dele e de seus renegados que os chefes da Frente foram presos e assassinados... Mas, no sou como eles! Chega de falar desses chacais; vou lev-los at sua mulher e
Malika.
Juntos, eles pegaram a Rua Klber, desabalando as escadarias da Rua Affreville, depois a Rua Porte
Neuve. Andavam depressa, escorregando nas pedras molhadas. Na Rua Mde, Bchir puxou Al-Alem pela manga, fazendo-o parar.
- Voc no as levou para a Rua Mer-Rouge?
- Eu no tinha escolha: era l ou os legionrios! - Respondeu ele, soltando-se.
- Algum problema? - Preocupou-se Franois.
- Est tudo bem... Mas elas esto num bordel. - Revelou Bchir, voltando a andar.
- No  mau, como esconderijo! - Comentou o p-preto.
Uma portinhola se abriu primeiro na porta onde Al-Alem batera, e depois a porta se abriu.
- Voc vai fazer com que eu seja degolada! - Gritou a matrona que abriu, vendo os dois europeus.
- Cale-se! Foram eles que salvaram Malika... Este, o maior,  o marido da francesa.
- Uma belssima mulher. - Atestou a outra, em tom de conhecedora - Mas, eu no posso mais escond-las.
- Mas voc tinha prometido...
- Sim, mas isso foi antes de receber a visita de Surcouf. Esse filho da puta me disse que seu patro procurava a europia e que ele contava com a minha ajuda...
- E voc vai ajud-lo?
- No tenho escolha... No se preocupe, sei lidar com os homens: vou dar-lhe um a pista falsa... No entanto, preciso ter cuidado, ele  esperto, o Surcouf! Voc se lembra de Ouria, a garota que trabalhava para eles e que eu recolhi, pensando que era favorvel  Frente? Aquela vagabunda me enganou direitinho! Bem, agora, desconfio de todas as minhas pensionistas... Bom, no faam barulho, vou lev-los at suas protegidas.
Batidas violentas abalaram a porta da entrada. A cor da cafetina mudou.
- Abram ou eu vou explodir tudo! - Gritou algum em francs.
- O que ? - Perguntou, com uma voz de sono, uma das moas, vestida apenas com um penhoar rosa e transparente.
- V para o seu quarto! - Ordenou a proprietria.
Com a voz falsamente adormecida, ela tentou temporizar:
- Estamos fechados, senhores...
Um tiro na porta arrancou-lhe um grito.
- Onde esto La e Malika? - Perguntou Franois.
- Eles no podem encontr-las... Al-Alem, voc conhece a passagem de Ali-la-Pointe? V por l.
- Eu no vou embora sem La! - Decretou Franois.
Al-Alem interveio:
- Ela tem razo, no lugar em que elas esto, eles no as encontraro. Vamos! Espere, escute... Os zuavos!
-  a patrulha. - Afirmou Benguigui.
Por um momento, zuavos e pra-quedistas conversaram do outro lado da porta; finalmente, os praquedistas desistiram e se afastaram no escuro. Logo, o silncio caiu. Joseph Benguigui deixou-se cair numa cadeira que gemeu com o peso dele.
- Ah!... Escapamos por pouco! - Balbuciou ele.
-  muito perigoso querer tirar as mulheres daqui agora, tentaremos amanh. - Decidiu Al-Alem.
- De jeito nenhum! - Explodiu Franois. - Eu quero ver La!
Por um instante, eles se enfrentaram com o olhar. O jovem kabyle fez um gesto conformado e ordenou  mulher:
- Leve-nos.
Sem replicar, ela se muniu de um lampio de querosene. Eles subiram umas escadas estreitas, atravessaram quartos, ptios, desceram outros degraus.
-  l em cima. - Disse ela, enfim, mostrando um teto revestido de ladrilhos. - A escada est ao lado.
Bchir foi busc-la. Al-Alem subiu, afastou um alapo dissimulado pelas juntas dos quadrados e desapareceu pela abertura. A espera pareceu longa a todos. Mas, ao fim de um momento, umas pernas femininas apareceram.

Captulo XXVI

Franois acabou se rendendo aos argumentos de Al-Alem e resignou- se a sair de Cashah, deixando La no seu novo esconderijo. Pegou o jipe, deixou Joseph, que tremia de frio, em sua casa e, depois, levou o jipe para a garagem no cais. Subiu de quatro em quatro a escadaria que levava ao Bulevar Baudin. Havia caminhes militares estacionados ali.
- O que voc est fazendo aqui?! - Interpelou-o um oficial de impermevel e boina vermelha, da janela de um 203 preto.
- Coronel Godard... Voc caiu do cu! Estou morrendo de frio, voc pode me deixar no Aletti?
- Voc tem peito! Vamos, eu levo, mas em compensao voc me oferece um trago...
- Negcio fechado!
No hotel, no foi nada fcil conseguir que abrissem as portas, trancadas com cadeados. Um barmen acordou sobressaltado com as batidas na porta do Cintra, concordou em lhes servir um usque em troca de uma generosa gorjeta.
- Coronel, como vo as suas negociaes com os insurretos?
- Vo indo... - Respondeu Godard, laconicamente.
Somente uma lmpada, na ponta do longo balco de madeira, permanecia acesa, criando uma atmosfera de intimidade que teve sob os dois homens um efeito apaziguador; eles ficaram ali, como dois amigos, falando de coisas sem importncia e saboreando um ltimo gole.
- Obrigado pela companhia, coronel. Mas, preciso me deitar. Boa noite!
- Boa noite, Tavernier.
Entrando no quarto, Franois tirou as roupas molhadas e tomou um banho. Depois de beber um segundo usque, ele dormiu pouco antes do amanhecer, com a sensao de estar colado ao corpo da mulher.
Quando acordou, o sol brilhava em Argel.
Paul Ribeaud e Franois Tavernier encontraram-se no hall. Trocaram algumas palavras, saram juntos do hotel e dirigiram-se ao bulevar Laferrire. Com um forte sotaque alemo, uns pra-quedistas de boina verde proibiram-lhes a passagem. Ribeaud no insistiu e desceu em direo ao Bulevar Baudin. Do Grill-room onde fora estabelecido o QG do coronel Dufour, comandante do 1 REP, o capito Lger deu a ordem para deixar Tavernier passar. Os boinas-verdes afastaram-se e ele encontrou-se com Lger. Os dois homens apertaram-se as mos.
- Voc me enganou direitinho, ontem  noite. Isso no  muito fcil. Voc foi  Casbah, no ? Pelo menos, encontrou sua mulher?
- Me deixe em paz, Lger. Cuide dos seus assuntos!
- Como quiser... Quer um caf?
- A greve terminou?
- O fim est prximo.
- Parece que voc lamenta.
O capito no respondeu. Eles subiram o bulevar at a Avenida Pasteur e entraram no Albert onde ainda havia muitos jornalistas. Eles tomaram o caf de p.
- Chegaram novas tropas esta noite e vo substituir a 10 diviso. Alm disso, o general Cracieux encarregou o coronel Godard de obter a rendio incondicional do campo entrincheirado. Por fim, as coisas no esto bem entre Lagaillarde e Ortiz: o primeiro fala de se explodir e levar Argel com ele; quanto ao segundo, no pra de repetir que foi trado pelo exrcito. Eles tambm trocam insultos: para Ortiz, o chefe do reduto das faculdades  um louco, um terror... Para Lagaillarde, o dono do caf Fortim  um covarde, um frouxo...
- Voc acredita que Lagaillarde v concretizar suas ameaas?
- Eu o conheo bem, ele  bem capaz... Por outro lado, Gracieux ameaou com o conselho de guerra todos os oficiais das UTs que no reagruparem os homens subordinados a eles e que devem agora abandonar as barricadas. Os pra-quedistas receberam ordens de evacuar a multido do campo entrincheirado e de recha-la para a Rua Charras que se tornar a nica via de sada.
Alguns caminhes militares barravam as ruas que davam para o Bulevar Laferrire, no momento, deserto.
Corria um boato em Argel que os "alemes" fechavam a praa. De Belcourt a Bab el-Oued, os argelianos convergiam para o plat Glires para manifestar sua solidariedade com os das barricadas. A multido, cada vez mais compacta, tentava passar pelas barreiras mantidas pelos "estrangeiros". Duas mil pessoas conseguiram atravess-las e foram se amontoar na frente da barricada Hernandez, onde entoavam novamente o Canto dos Africanos.
Quando Lagaillarde apareceu no balco, precedendo Ortiz, foi aclamado por um bom tempo. Fez sinal de que queria falar; o silncio se imps imediatamente.
- Ontem, s catorze e trinta, recebi de Paris um ultimato para capitular incondicionalmente. Rejeitei esse ultimato que era um insulto aos nossos mortos e a todos aqueles que, por mais de seis anos, lutam para que a Arglia continue sendo terra francesa. Os patriotas do campo entrincheirado mandam uma saudao fraterna ao exrcito. Assim que a voz da Frana eterna for afinal ouvida, assumo o compromisso de honra de colocar essas companhias operacionais do campo entrincheirado  disposio do alto comando para lutar contra a rebelio da FLN at a vitria final. Viva a Frana!
A assistncia aclamou-o novamente. Mulheres choravam. Ortiz deixou o balco sem tomar a palavra. Do terrao da universidade, o helicptero branco decolou, soltando atrs de si panfletos convocando os argelinos a no abandonar o campo entrincheirado. Rapidamente cercado por dois Sikorsky com metralhadoras e um Alouette, ele teve que pousar no seu ponto de partida. Na rdio de Argel, o general
Crpin convidou a populao a voltar ao trabalho.
- Voc tem filhos? - Perguntou Lger  queima-roupa.
- Sim, trs.
- Eu tenho dois, um menino e uma menina. Prometi almoar com eles. Quer ir comigo?
- Eles esto em Argel?
- Muito perto, em Sidi-Ferruch, onde aluguei uma linda vila que d para o mar. Venha, minha mulher vai gostar de conhec-lo; eu j lhe falei sobre voc...
- No imaginava que voc fosse casado, muito menos, pai de famlia...
- E voc acha que voc tem cara de homem casado? - Exclamou o capito, rindo.
No final da tarde, quando voltaram para Argel, passaram por Chragas e El-Biar a fim de evitar as barragens estabelecidas ao longo da costa. Essas poucas horas passadas na atmosfera familiar da vila haviam relaxado os dois homens.
Mas, a vista de Paul-Alain Lger na companhia da mulher e dos filhos tinha demonstrado mais uma vez a
Tavernier a incoerncia do comportamento humano: este homem frio, lutador intrpido, no hesitava em arriscar todos os dias a sua vida pelo gosto do risco e da aventura, apesar de todo o amor que tinha pelos seus. "Ns somos loucos", pensou Franois.
Quando atravessaram El-Bian, Lger perguntou:
- Onde quer que o deixe?
- No quartel Rignot, por favor.
- Vem a calhar, tambm tenho que ir l, Tavernier...
- Sim?
- Por que voc no confia em mim? Posso ajud-lo a encontrar a sua mulher. Quanto mais o tempo passa, mais perigoso  para ela ficar na Casbah... Por que voc no responde?
- Agradeo-lhe muito pelo oferecimento, mas no ser necessrio.
- Como quiser...
Do quartel Rignot, Franois ligou para Ren Brouillet no lyse. Ele anunciou ao chefe de gabinete do presidente da Repblica que interrompia sua misso por motivos pessoais.
- Mas isso  uma loucura! O que vai dizer o General?
Sem dizer mais nada, Franois desligou. Quando comunicou sua deciso a Paul Delouvrier, este lhe estendeu a mo:
- Eu compreendo... Falei com o General pelo telefone. "A hora das discusses terminou", me disse ele. " preciso saber acabar com esse assunto. No se pode ter medo de derramar o sangue quando se quer que a ordem reine e que o Estado exista."
Uma chuva fria e fina caa agora sobre Argel. Ao redor do campo entrincheirado, numerosas tropas haviam tomado posio no maior silncio. Em pequenos grupos, os territoriais do QG de Ortiz voltavam para casa, obedecendo s ordens do general Gracieux. Os mais determinados juntaram-se aos da Universidade. O coronel Godard circulava entre o QG de Ortiz e o gabinete de Lagailiarde, tentando obter a rendio dos chefes da insurreio. Por trs das barricadas, brilhavam umas fogueiras, em torno das quais aqueles que haviam permanecido no lugar esperavam o ataque final.
Quando Franois teve que deixar a Casbah sem ela, La no conseguia conter as lgrimas. Malika tentou consol-la, pedindo-lhe perdo por ser a causa de seu sofrimento.
- Cale-se e deixe-me pensar. - Disse ela bruscamente  jovem argeliana cujos olhos, por sua vez, se encheram de lgrimas.
Por um momento, La se arrependeu. Desde a partida de Franois e de seus companheiros, algo lhe dizia que devia sair daquele lugar o mais rpido possvel. Ela no havia gostado dos olhares que a proprietria lanava para ela.
- Voc sabe se tem telefone, aqui?
Malika olhou-a, sem compreender.
- Um telefone, sabe o que ?
- Por que voc est falando desse jeito comigo?
- Desculpe... acho que no estamos mais seguras neste lugar.
- Eu tambm tenho essa impresso. - Cochichou a garota.
Elas se olharam com a impresso de terem cado numa armadilha.
- Eu vi um telefone no cmodo de baixo. - Respondeu Malika, a meia voz.
- Vamos! Pegue as velas.
- Deixe-me ir na frente, vou achar o caminho melhor que voc.
Elas, deslizaram para fora do quarto. As pequenas chamas iluminavam pobremente o corredor e as escadas. No terrao, uma das velas se apagou. La tinha a impresso de que j fazia uma hora que haviam sado do esconderijo. Flutuava no ar o cheiro misturado de guas servidas, de perfume muito adocicado e de urina. Malika tropeou num banquinho; o banilho que ele fez quando caiu pareceu a elas ecoar por todo o prdio. Elas ficaram paradas e prestaram ateno. Nada se mexia.
-  aqui. - Cochichou Malika.
- Estou vendo... Voc sabe em que ponto de Casbah ns estamos?
- Sim, no alto do bairro, perto do Bulevar Gambetta e do Bulevar Victoire.
- Voc sabe de um lugar onde um carro pudesse nos encontrar facilmente?
Malika refletiu.
- No sei... tem escadarias para todo lado... A no ser... sim, no bulevar Gambetta, em baixo, perto do mercado da Lyre.
- E longe daqui?
- No sei calcular... Uns dez minutos a p, talvez...
La tirou do bolso um carto de visitas.
- Ilumine para mim. - Disse ela.
Depois de consultar o carto, ela tirou o aparelho do gancho. Ao terceiro toque, uma voz atendeu.
- Queria o 330-51, por favor.
- Para quem voc est ligando?
- Psiu! Fique quieta... Al? Eu queria falar com a sra. MartelRodriguez... Por favor  muito importante... Eu sei que  tarde... Diga- lhe que  La Tavernier...
- Mais baixo, vo nos ouvir!
A espera pareceu durar horas.
- Al!... Al, Jeanne?  La Taverneir. Preciso da sua ajuda. Voc pode vir me buscar na Casbah?... Sim, na Casbah... Estou com uma amiga, ns estamos correndo perigo,  preciso andar logo... Al2 Sim, atrs do mercado da Lyre... Voc estar l todos os dias a partir de hoje, entre as dez horas e o meio-dia? Ah, obrigada, obrigada!
- Cuidado, La! Estou ouvindo um barulho. Desligue!
Malika soprou as velas. Uma silhueta feminina atravessou o cmodo, com um lampio na mo e, logo em seguida, passou de volta; uma porta se fechou. Com o corao batendo forte, as duas mulheres, agachadas atrs de uma cadeira de encosto alto, ficaram imveis por um momento ainda. La acendeu a vela. Na ponta dos ps, elas voltaram para o esconderijo.
De manh, duas moas lhes trouxeram ch e doces. A mais velha, que falava francs, interrogou La:
- Por que voc cuidou de nossa irm?
- Porque no havia mais ningum para fazer isso...
- Ela  muulmana.
- E da?  um ser humano, como voc e eu.
A testa da mulher se franziu e, voltando-se para Malika, ela falou em rabe, fazendo gestos largos. A mais jovem tambm se meteu. Malika tentava interromp-las.
- O que elas esto dizendo? - Gritou La, para se fazer ouvir.
- Elas esto discutindo: Djamila, a mais velha, acha que voc est mentindo, que devem entregar voc para a FLN para que eles faam voc confessar suas verdadeiras intenes. Leila, por outro lado, acha que seria recompensar mal o seu devotamento.
- Diga-lhes para irem embora, elas esto me enchendo.
Foi com grande dificuldade que Malika conseguiu empurr-las para fora do quarto.
Em volta delas, a Casbah vibrava de novo com aquelas dezenas de milhares de vidas embaralhadas pelas ruas. Desde 1945, a populao no cessara de crescer, passando de dez mil a oitenta mil habitantes.
Famlias inteiras, fugindo do bled, tinham se refugiado ali, felizes por escapar das favelas que proliferavam, desde o comeo dos "acontecimentos".
La e Malika dirigiam-se para o cmodo onde estava o telefone quando distinguiram vozes de homens falando em alemo que vinham do ptio. La foi se pendurar por cima da mureta para ver quem era, mas sentiu sua companheira agarrar na sua roupa. La virou-se e mal teve tempo de ampar-la na queda.
Ajoelhou-se ao lado de Malika e sacudiu-a sem muita gentileza:
- No  hora para desmaiar!... Leila, venha me ajudar!
A menina ps um dedo nos lbios e depois cochichou algumas palavras em rabe.
- Fale francs, eu no compreendo.
- Pra-quedistas procurar Malika. - Articulou ela.
De um salto, La levantou-se, deu uma olhada por cima da mureta e percebeu trs pra-quedistas conversando com a ajudante da proprietria.
"Malika est voltando a si", constatou ela depois que recuou da mureta. Quando levantou o rosto, a jovem argeliana derramou-se em lgrimas.
- Eles esto aqui!
- No tenha medo... Levante-se! Leila vai nos ajudar a sair daqui... Oh! Djamila!
Quando a viu, Leila ps-se a tremer e colocou o brao diante do rosto como uma criana que tenta se proteger das pancadas.
- No vou bater em voc, idiota! V pegar uns liaks. Depressa!... No chore mais, minha querida, eles no vo pegar voc. Mandei avisar Al-Alem e ele vai vir com seus garotos.
Leila reapareceu trazendo as roupas brancas.
- Vocs vestem depois. Depressa! - Comandou jamila, agarrando a mo de Malika.
Pelos terraos, as quatro mulheres passaram de uma casa a outra, percorrendo corredores e escadarias.
Atrs delas, outras mulheres logo derrubavam seus cofres, esvaziando o contedo de caixas, colocando o maior nmero possvel de obstculos no caminho de eventuais perseguidores.
- Agora enfiem os haks. - Ordenou Djamila, ajustando ela prpria o seu.
Malika ajudou La a se enrolar corretamente com o tecido e ajeitou um leno bordado sob os olhos da francesa. Djamila empurrou uma porta, saiu e assegurou-se de que o caminho estava livre.
- Vo! - Encorajou-as.
La e Malika encontraram-Se em frente a uma escola, numa rua bem larga.
- Acho que o mercado da Lyre no est longe. - Calculou a argeliana.
Muita gente passava pelo Bulevar Gambetta. Um bando de garotos maltrapilhos rodeou-as. No meio deles
La reconheceu Al-Alem. Elas desceram alguns degraus. Atrs delas, uns gritos ressoaram; os garotos ficaram imveis.
- Rpido! Corram! - Esgoelou-se Al-Alem.
A pouca velocidade, um Versailles cinza, conduzido por um muulmano, chegava pela Rua Henri-Martin.
Sentada no banco de trs, a sra. Martel-Rodriguez olhava firme para os pedestres. La avistou-a e arrancou o leno que disfarava seu rosto. O Versailles parou, uma porta se abriu. La empurrou Malika para dentro do carro e entrou logo depois. O carro virou diante do Opra, atravessou a praa Bresson, pegou a Rua Garibaldi com uma certa velocidade, entrou no Bulevar Carnot. Nesse momento, os praquedistas desembocavam diante do mercado da Lyre.
Os garotos que haviam retardado a perseguio espalharam-se pelas ruas prximas.
- Obrigada. - Disse simplesmente La, encostando a cabea no ombro de Jeanne Martel-Rodriguez.
Naquela manh de domingo, os sinos das igrejas de Argel chamavam os fiis para a missa. Nuvens escuras cobriam o cu, um vento frio soprava. No campo entrincheirado, apesar da proibio publicada por monsenhor Duval, um altar de improviso havia sido montado para o ofcio dominical. A Rdio Ortiz e a
Rdio Legailiarde incitavam os europeus a vir defender os insurretos. De Belcourt a Bab el-Oued, os argelianos acorriam, mas se chocavam com as tropas, recentemente chegadas a Argel, que tinham sido dispostas ao redor do campo entrincheirado, isolado por barreiras de soldados e de veculos militares.
Apesar disso, algumas foram rompidas e a multido juntou-se aos rebeldes.
As onze horas, a missa rezada na igreja Saint-lisabeth e retransmitida pelo rdio foi difundida atravs dos alto-falantes do campo entrincheirado
Desafiando a proibio do arcebispo, um padre kabyle, o abade Georges Dhamar, vigrio da Igreja SaintMartin, veio dar a comunho. Essas mulheres e esses homens, unidos pela defesa da Arglia francesa, rezaram e entoaram cnticos. Joseph Ortiz, de terno escuro, estava recolhido junto  barricada onde se erguia o altar.
Uma forte exploso dispersou a multido que achou que era o comeo do ataque. Logo, por trs das barricadas, os insurrectos apontavam as armas para a tropa. Se um s tiro fosse disparado, seria uma matana. Gesticulando no balco para onde tinha ido, Ortiz discursava para os partidrios:
- Mantenham o sangue-frio. A FLN acaba de explodir um obus capturado. Dois soldados franceses foram assassinados. Permaneam unidos, militares e civis, nossa unio  a melhor proteo contra a FLN!
Nas escadarias da Rua Jean-Mac, um soldado, da Martinica, havia de fato provocado a exploso das granadas que transportava, matando trs de seus companheiros e ferindo sete pessoas.
No comeo da tarde, enquanto prosseguiam as negociaes entre os chefes da rebelio e os coronis
Dufour, Broizat e Godard, a populao europia de Argel vinha de todas as partes, forando as barreiras montadas pelos soldados, que desta vez agentaram. Soube-se que o general Gracieux fora afastado de suas funes e substitudo pelo general Toulouse, ajudante de Crpin.
Sob a ordem de seus oficiais, os territoriais deixaram o QG de Ortiz e comearam a entrar nos caminhes que esperavam por eles na Rua Charras. Brigas cada vez mais violentas estouravam por toda a parte, entre manifestantes e foras da ordem; recolhiam-se os feridos. Algumas centenas de jovens conseguiram, apesar de tudo, juntar-se s barricadas. As grades, diante do monumento aos mortos, cederam sob a presso da multido que o batalho de caa dos Alpes tentava rechaar. Uma chuva fina comeou a cair. O moral de todos estava muito baixo e todos repetiam as instrues de Paris: acabar logo com aquilo, se necessrio recorrendo s armas. A Rdio Argel lanou ento um apelo aos rebeldes:
"Alguns rebeldes alimentam a iluso de que uma parte do exrcito do bled est pronta a se unir a eles. Isso , saibam todos, um completo erro. Esse exrcito, o exrcito de vocs, que defende os franceses da Arglia e da metrpole, os muulmanos e os europeus, perdeu ontem trinta e um mortos e trinta e quatro feridos cujo destino teria sido diferente se as foras da ordem no estivessem, neste momento, montando guarda diante de seus irmos inconscientes."
Ao redor de Ortiz, todos debandavam. Suas tropas abandonavam os locais da Companhia argeliana, deixando atrs de si grandes estragos e todos os tipos de detritos. Informado, Lagailiarde exigiu daqueles que desejavam abandonar o "reduto das faculdades" uma atitude digna. s dezoito e dez, com a bandeira levantada e em fila de trs, quarenta e um territoriais deixaram o bastio, logo seguidos por outros sessenta. Eram dezoito e vinte e cinco no relgio do correio e fazia uma semana que os franceses haviam se matado em Argel. A noite estava escura. s dezenove horas, os arredores do campo entrincheirado se despovoavam pouco a pouco. A partir de ento, tudo aconteceu muito rpido.
O general Crpin deu ordem para cortar a eletricidade do campo entrincheirado, onde brilhavam apenas uns braseiros. Uma ltima reunio aconteceu s duas horas da manh no gabinete de Ortiz, na Companhia argeliana. Nela, o coronel Dufour informou a Lagaillarde, ao tenente Guy Forzy, a Jean-Jacques Susini e a
Joseph Ortiz das disposies acertadas. Esses homens, esgotados pelos dias sem repouso e pelas noites sem dormir iluminados por velas enfiadas em garrafas, escutavam a voz rouca do coronel.
- No fundo, vocs ganharam: de Gaulle prometeu que no haveria negociaes polticas com a FLN. Nossas pessoas no importam mais, nossos sentimentos pessoais tambm no, mas  preciso preservar a unidade do exrcito. Eis o que eu decidi: seus homens ficaro livres, sairo um por um e com as armas. Sero levados para os caminhes e desarmados em seguida pelo exrcito. Eles podero ir se juntar s famlias ou engajar-se em meu regimento. So exigncias muito razoveis. Quanto a vocs, Ortiz e Lagaillarde, vocs ficaro  disposio do Governo.
Com os olhos brilhantes de lgrimas, Lagaillarde pediu para conversar com os homens que comandava e voltou para a universidade em companhia de Forzy. Uma hora mais tarde, ele comunicava uma deciso ao coronel Dufour.
- A primeira condio exigida para nossa rendio  que ela se efetue em condies honrosas. Sairemos do campo em formaes constitudas por companhia e por arma. Vamos nos reunir diante do monumento aos mortos para uma rpida cerimnia. Em seguida, os que quiserem podero se engajar numa formao especial ligada ao 1 regimento de praquedistas estrangeiros. Exijo imunidade para todos os meus homens.
O coronel Dufour voltou  Universidade s trs horas da madrugada, trazendo a resposta do general e do comandante em chefe: a imunidade tinha sido recusada aos chefes, que deveriam se pr  disposio da justia; a cerimnia no monumento dos mortos estava proibida; a contra-gosto foram aceitos apenas a sada em formao e o engajamento facultativo no 1 REP.
Nas primeiras horas da manh, Ortiz deixou o campo entrincheirado. Incrdulos, os territoriais de boina preta que guardavam a barricada da rua Charles-Pguy, viram-no se afastar, com uma mala grande na mo.
Os soldados, encarregados de impedir o acesso ao campo, deixaram passar todos que queriam sair.
Ningum em Argel, iria rever o sr. Jo.
Esgotado, Pierre Lagaillarde havia dormido, velado por uns ltimos companheiros fiis que tinham jurado preferir morrer a se render. O mais determinado deles era seu amigo Guy Forzy. Ao acordar, sabendo da partida de Ortiz, Lagaillarde foi ao gabinete que o chefe da Frente Nacional Francesa ocupara para destruir alguns documentos. Ele saiu no famoso balco: o Bulevar Laferrire parecia um campo de batalha deserto;
nos telhados, os postos de tiro haviam sido abandonados e todas as ruas que davam no bulevar estavam agora fechadas com arame farpado e caminhes atrs dos quais havia soldados, prontos a intervir. De repente, em frente ao prdio do Bled, jorrava dos alto-falantes a msica alegre da Ponte sobre o rio
Kzvni. Sob o balco, estavam jovens militantes da FNF e um punhado de territoriais que no tinham querido evacuar a barricada Hernandez. Reconhecendo Lagaillarde eles o aclamaram.
- O que vamos fazer? - Gritou ele.
- Vamos ficar.
- Calma! Disciplina! Sou eu quem comanda! Vocs obedecem a ordens!
Apesar do esgotamento e da amargura, Pierre Lagaillarde voltou para a faculdade com um passo decidido.
A pequena tropa que o seguia, marchava, sem perceber, no ritmo assobiado pelos homens do coronel
Nicholson...
Os recm-chegados foram recebidos por Jean-Jacques Susini, o dr. Prez, o capito Ronda e o deputado
Demarquet; eles tambm haviam ido para o "Alcazar".
As nuvens haviam desaparecido e um sol primaveril iluminava o desastre.
Soldados e jovens comeavam a demolir a barricada da Rua CharlesPguy. Para l das barreiras que os militares sustentavam, a multido se comprimia. Diante do Otomatic, Lagailiarde, de metralhadora cruzada no peito, passava suas tropas em revista pela ltima vez. Sob a boina vermelha, sua fisionomia cansada e seu rosto tenso traam seu sofrimento. Frente a seus homens, ele declarou:
- Ns podemos nos olhar nos olhos porque nossa conscincia est tranqila.  no meio da noite que se deve acreditar na luz. Lembrem-se, senhores, dos versos de Milton:
Iuimeras legies urinadas ousavam contestar seu reino,
Me preferir, num combate duvidoso nas plancies do cu.
Que importa! Batalha perdida, miada estd jamais perdido!
A vontade indoimuvel que jamais morre nem se submete...
- At agora, eu os conduzi no caminho da honra. Hoje, a honra  ser digno e obedecer a mim. Chegou o momento de nos separarmos. Adeus, meus amigos.
Os olhos dos homens estavam vermelhos. O coronel Dufour avanou, saudou Lagaillarde e tomou por sua vez a palavra.
- Vocs obtiveram a condio de soldados e sero tratados como soldados. Somente sero perseguidos aqueles que atiraram nas foras da ordem, no domingo, porque esses so assassinos. Caminhes esperam vocs na sada do campo para lev-los a um centro da legio. Peo que no faam nenhuma manifestao enquanto estiverem sendo levados a Zralda, base do 1 REP. Os outros, os que preferem voltar para casa, podem faz-lo. Que deponham suas armas. Devero entreg-las aos soldados, aos legionrios.
- Companhia! Coluna de dois! Comandou Lagaillarde, assumindo a chefia de suas tropas.
Escoltados pela bandeira tricolor, os homens se puseram em marcha na direo da grande barricada, no momento, parcialmente derrubada. Os habitantes da Rua Charles-Pguy choravam aplaudindo. Os exrebeldes atravessaram a barricada diante da qual os pra-quedistas apresentavam armas. Por sua vez, os oficiais em posio de sentido saudaram aqueles que, durante uma semana, haviam se mobilizado pela defesa da Arglia francesa. Nas janelas, as pessoas agitavam bandeiras; algumas gritavam: "Obrigado,
Lagaillarde!"
Eles chegaram ao Bulevar Laferrire onde os veculos do exrcitoos esperavam. Um homem, usando uniforme de capito da reserva, exibindo no peito a Legio de Honra, medalha militar e cruz de guerra, aproximou-se de Lagaillarde e abraou-o.
- Muito bem, meu filho, muito bem, Pierrot. At logo!
O pai, que tinha permanecido ao lado do filho durante toda a semana, no campo entrincheirado, subiu por sua vez num caminho que partiu pouco depois. Um jipe veio parar perto de Lagaillarde e um oficial abriulhe a porta.
- Viva Lagaillarde! Viva a Arglia francesa! Abaixo de Gaulle! - Gritava a multido reunida nas redondezas.
Parecendo mais um grito de raiva, a Marselhesa explodiu. Perto de Franois Tavernier, Joseph Benguigui, que tambm no podia mais conter as lgrimas, ps o brao nos ombros de um velho combatente; o velho soldado soluava sem se conter. Um muulmano de certa idade, perto de Franois, puxou-o pela manga.
- Voc  o sr. Tavernier?
Franois fez que sim com a cabea.
- Tenho uma mensagem para voc. - Anunciou ele, passando-lhe uma folha de papel dobrada em quatro.
Os ltimos acordes da Marselhesa extinguiram-se; o sol brilhava. Com o rosto tomado pela barba, as roupas amarrotadas, Franois desdobrou o papel. Reconhecendo a letra, sua vista se turvou.
- Leia. - Pediu ele a Joseph, estendendo-lhe o bilhete.
Meu amor,
Estou com Malika; estamos ss e salvas. A pessoa que entregou o bilhete vai conduzi-lo ao lugar onde nos encontramos. No tenha medo, no  uma cilada. Voc se lembra da argeliana que conheci no Albert? Estamos na casa dela. Estou esperando! Venha logo! Te amo,
La.


